domingo, 12 de maio de 2013

EM BUSCA DO SENTIDO,,,,,,,,,,


A terceira fase: após a libertação 
 Voltamo-nos agora para a terceira parte da psicologia do campo de concentração -
a psicologia do prisioneiro recém-liberto.
 Dada a natureza do assunto, a descrição da experiência de libertação já não
poderá ser impessoal. Começamos por aquele ponto em nosso relato em que após
dias da mais intensa expectativa, tremulava certa manhã a bandeira branca no
portão do campo. Esta altíssima tensão anímica foi sucedida por uma distensão
interior total. Quem pensa que nossa alegria foi geral está redondamente enganado.
O que realmente aconteceu?
 A passos lentos os companheiros se arrastam em direção ao portão do campo. Mal
e mal as pernas os sustentam. Olham timidamente em volta, cada qual encara o
outro com uma pergunta nos olhos. Dão os primeiros passos temerosos para fora do
campo de concentração. Desta feita não se ouve nenhuma voz de comando,
ninguém tenta esquivar-se de um soco ou pontapé. Ah não, desta vez os guardas
oferecem cigarros. A gente não os reconhece de saída, pois entrementes se
apressaram em vestir-se à paisana. Vamos andando devagar, seguindo pela estrada
de acesso. Minhas pernas já começam a doer ameaçando falhar em sua função.
Vamos nos arrastando, queremos ver pela primeira vez os arredores do campo de
concentração, ou melhor, vê-los pela primeira vez como pessoa livre. Apreciamos a
natureza e entramos para a liberdade. "Para a liberdade", vou dizendo, e o repito
várias vezes em pensamento; mas simplesmente não se consegue apreendê-lo. Em
tantos anos de sonhos e de saudades, o termo liberdade ficara muito gasto. Seu
conceito perdera os contornos. Confrontado com a realidade, ele se confunde. A
nova realidade ainda não consegue penetrar direito no consciente. Simplesmente
não se consegue apreendê-la ainda. Chega-se a um campo. Nele se vêem flores.
Toma-se conhecimento de tudo isso, mas não se chega a "tomar sentimento". A
primeira centelha de alegria salta ao se perceber um galo de vistosa cauda multicor.
Mas fica nisto, nesta centelha de alegria, e ainda não se participa do mundo. A gente
se senta debaixo de um castanheiro sobre um pequeno banco; só Deus sabe a
expressão do rosto naquela hora. Em todo caso: o mundo continua sem causar
impressão.
 À noitinha, quando voltam a se reunir os companheiros em seu velho barracão, um
chega para o outro e lhe pergunta às escondidas: "Diga-me uma coisa: você chegou
a ficar contente hoje?" O outro responde: "Para ser franco, não!" E fica
envergonhado, porque não sabe que com todos é assim. Literalmente

desaprendemos o sentimento de alegria. Será necessário aprender de novo a
alegrar-se.
 Sob o ponto de vista psicológico, pode-se chamar de verdadeira despersonalização
aquilo que os companheiros libertos experimentaram. Tudo parece irreal e
improvável. Tudo parece apenas um sonho. Ainda não se consegue acreditá-lo.
Foram demais, muito demais as vezes em que o sonho nos iludiu nesses últimos
anos. Quantas vezes sonhamos que viria este dia em que nos poderíamos
movimentar livremente? Quantas vezes sonhamos estar chegando em casa para
abraçar a esposa, saudar os amigos, sentar com eles à mesa e começar a contar
tudo aquilo que se passou durante estes anos? Quantas vezes antecipamos em
sonhos esse dia de reencontros - e agora, realmente teria chegado este momento?
Sempre havia três silvos estridentes ferindo o ouvido, dando o comando de
"levantar", arrancando a gente do sonho, da liberdade, e como mero sonho se
revelava pela enésima vez. E agora deveríamos acreditar, de uma hora para a
outra? Agora essa liberdade seria realidade verdadeira?
 Mas é isto mesmo, um dia. O corpo não tem tantas inibições como a alma. A partir
do primeiro instante em que se lhe abre a possibilidade, ele aproveita a realidade e
deita a mão nela, literalmente: a gente come a não poder mais, horas a fio, dias a fio,
a metade da noite. Incrível o quanto se consegue comer. Um ou outro recluso liberto
é convidado por agricultores amáveis nas proximidades do campo, e então ele
come, e toma café, e solta sua língua, e começa a contar coisas, horas e horas a fio.
Descarrega-se a pressão que estava sobre ele durante tantos anos. A forma de
contar da impressão de que a pessoa em questão estaria sob uma espécie de
compulsão anímica, tanta é a ânsia de contar, a necessidade de falar. (Pude
observar este fenômeno também em pessoas que mesmo por pouco tempo
estiveram sob pressão muito grande, como por exemplo, em interrogatórios da
Gestapo.)
 Passam-se dias, muitos dias, até que se solte não somente a língua, mas também
algo dentro da gente. De repente o sentimento abre uma brecha naquela estranha
barreira repressiva que o recalcara. E então, dias após a libertação, vais andando
pelo campo livre, atravessando campinas floridas, rumo a um lugarejo nos arredores
do campo de concentração; cotovias se alçam para as alturas e ouves o seu canto
de alegria que ressoa no alto do ar livre. Em toda a volta não se enxerga vivalma. O
que te cerca é campo aberto, a terra, o céu, o regozijo das cotovias e o espaço livre;
nada mais. Interrompes tua caminhada neste espaço livre, para, olhar ao redor e
olhas para o alto - e te prostras de joelhos. Neste momento não sabes muito de ti
mesmo nem muito sobre o mundo. Dentro de ti apenas ouves as palavras, e sempre
as mesmas palavras: "Na angústia gritei para o Senhor, e ele me respondeu no
espaço livre." - Quanto tempo ficaste ali ajoelhado? Quantas vezes repetiste aquelas
palavras? A lembrança já não sabe dizer. . . Mas naquele dia, naquela hora,
começou tua nova vida - isto sabes. E é passo a passo, não de outro modo, que
entras nesta nova vida, tornas a ser homem.
A despedida 
 O caminho que vai da alta tensão psicológica dos últimos dias no campo de
concentração, o caminho de volta dessa guerra de nervos para a paz da alma, não
é, de forma alguma, livre de empecilhos. Está enganado quem acreditar que o
recém-liberto do campo de concentração dispensa qualquer assistência anímica. Em
primeiro lugar, é preciso considerar que uma pessoa que esteve sob a incrível
tensão psicológica de um campo de concentração por tempo prolongado, mesmo

após a libertação naturalmente está ameaçada por certos perigos psicológicos,
justamente por causa da "descompressão" repentina. Estes perigos não são outra
coisa (em termos de saúde mental) que o equivalente psicológico da doença de
Caisson. Assim como o trabalhador submerso corre perigo de ordem fisiológica caso
abandonar repentinamente a câmara de mergulho (onde ele se encontra sob
enorme pressão atmosférica), da mesma forma a pessoa subitamente aliviada de
enorme pressão anímica poderá ser prejudicada em sua saúde espiritual e mental.
 Principalmente no caso de pessoas com natureza mais primitiva, podia-se observar
muitas delas, durante esta fase psicológica, que em sua atitude anímica
continuavam vivendo sob a condição do poder e da violência, só que, uma vez
libertos, agora pensavam ser a sua vez de usar o poder e a liberdade de forma
arbitrária, desenfreada e irrefletida. Para essas pessoas primitivas, nada mudou a
não ser o sinal, de negativo para positivo. Se antes eram objetos do poder, da
violência, da arbitrariedade e da injustiça, essas pessoas agora viravam sujeitos
dentro das mesmas categorias. Ainda não se desprenderam daquilo por que
passaram. Manifestam isso em detalhes aparentemente sem importância. Por
exemplo, um companheiro e eu caminhamos reto, cruzando os campos em direção à
prisão da qual há pouco fomos libertados; de repente nos vemos diante de uma
lavoura recém germinando. Automaticamente quero desviar dela. Ele, entretanto, me
pega pelo braço e me impele reto em frente. Balbuciei algo de que não se deve pisar
a brotadura. Aí ele se exalta. Com olhar ameaçador grita: "O quê? E o que fizeram
conosco? Liquidaram minha mulher e meu filho na câmara de gás - isto, para não
falar do resto - e tu queres proibir que eu esmague uns talos de aveia?..."
 Somente aos poucos se consegue levar estas pessoas a reencontrar a verdade,
tão trivial, de que ninguém tem o direito de praticar injustiça, nem mesmo aquele que
sofreu injustiça. Precisamos trabalhar no sentido de levar essas pessoas ao
reencontro desta verdade, pois a inversão da mesma facilmente poderia trazer
conseqüências piores do que a perda de alguns milhares de grãos de aveia para um
agricultor desconhecido. Pois ainda vejo à minha frente aquele companheiro do
nosso campo que arregaçou a manga e com a direita em riste debaixo do meu nariz
gritou na minha cara: "Podem decepar esta mão se eu não a manchar de sangue no
dia em que chegar em casa!. . ." E quero enfatizar que o homem que disse isto, em
si, não era um sujeito ruim. Sempre foi, no campo de concentração e depois, o
melhor dos companheiros. Além da deformação que ameaça a pessoa
repentinamente liberta da pressão anímica, ainda existem duas outras experiências
fundamentais que podem colocá-la em perigo, prejudicá-la e deformá-la sob o ponto
de vista caracteriológico. São a amargura e a decepção da pessoa que, livre, volta à
sua vida antiga. A amargura é provocada por experiências diversas nos contatos
com outras pessoas no antigo ambiente de vida de quem sai do campo de
concentração. Ao voltar para casa, ela constata que muitos não reagem de outra
forma do que simplesmente encolhendo os ombros ou dando de si frases baratas.
Em vista disso, não raro, ela é tomada de amargura, surgindo dentro de si a
pergunta de para que teria sofrido tudo aquilo. Não ouvindo outra coisa a não ser as
costumeiras evasivas: "Nós não sabíamos de nada", ou "...nós também sofremos...",
ela fica se perguntando se isto é realmente tudo que os outros lhe conseguem
dizer...
 Algo diferente é a experiência fundamental da decepção. Neste caso não se trata
da revolta interior contra a superficialidade e inércia do coração da outra pessoa que
faz a gente querer sumir desse mundo para não precisar ver nem ouvir mais nada. . .
Na experiência da decepção a pessoa se sente à mercê do destino. Durante anos a

fio a pessoa acreditou ter chegado ao ponto mais baixo possível do sofrimento, mas
constata agora que de alguma forma o sofrimento não tem fundo, que
aparentemente não existe o ponto baixo absoluto, e as coisas podem piorar cada
vez mais, descer cada vez mais...
 Antes, ao tratarmos as tentativas de reerguer psicologicamente a pessoa que está
no campo de concentração, dissemos que era preciso orientá-la para um alvo no
futuro, lembrá-la sempre de novo que a vida estaria esperando por ela, que havia
alguém esperando por ela. E depois? Depois acaba havendo um ou outro que
precisa constatar que não há mais ninguém que ficasse esperando por ele. . .
 Ai daquele para quem não existe mais a razão das suas forças no campo de
concentração - o ente querido. Ai daquele que experimenta na realidade aquele
momento que sonhou mil vezes, e o momento vem diferente, completamente
diferente do que fora imaginado. A pessoa pega o bonde, vai até aquela casa que
por anos a fio imaginava enxergar diante de si e aperta a campainha - bem assim
como tanto desejara em seus mil sonhos. . . Mas quem abre a porta não é a pessoa
que deveria abri-la - ela jamais voltará a lhe abrir a porta. . .
 Todos no campo de concentração sabíamos e dizíamos um ao outro: Não há
felicidade sobre a terra capaz de compensar nosso sofrimento. Não esperávamos
felicidade - não era isso que nos sustentava e conferia um sentido ao nosso
sofrimento, ao nosso sacrifício e ao nosso morrer. E, contudo, não estávamos
preparados para - a infelicidade. Esta desilusão, que esperava grande parte dos
prisioneiros, foi, para muitos deles, uma experiência difícil de superar em termos de
psicoterapia - e era difícil mesmo para um psicoterapeuta enfrentá-lo no tratamento
do paciente. Esta observação, no entanto, não deveria desanimar o psicoterapeuta.
Ao contrário, a dificuldade deve resultar em estímulo, pois constitui desafio e tarefa.
 De uma forma ou de outra, para cada um dos libertos chegará o dia em que,
contemplando em retrospecto a experiência do campo de concentração, terá uma
estranha sensação. Ele mesmo não conseguirá mais entender como foi capaz de
suportar tudo aquilo que lhe foi exigido no campo de concentração. E se houve um
dia em sua vida em que a liberdade lhe parecia um lindo sonho, virá também o dia
em que toda a experiência sofrida no campo de concentração lhe parecerá um mero
pesadelo. Essa experiência do libertado, porém, é coroada pelo maravilhoso
sentimento de que nada mais precisa temer neste mundo depois de tudo que sofreu
- a não ser seu Deus.

I I
CONCEITOS FUNDAMENTAIS DA LOGOTERAPIA 
 Leitores da minha breve narração autobiográfica costumam pedir uma explicação
mais completa e específica da minha doutrina terapêutica. Para vir ao seu encontro,
acrescentei à edição original de "Do Campo de Extermínio ao Existencialismo" um
breve resumo sobre logoterapia. Mas isto não foi suficiente, e tenho sido assediado
por muitos que solicitam um tratamento mais detalhado da matéria. Por esse motivo,
reescrevi por completo e ampliei consideravelmente o meu relato na presente
edição.
Não foi tarefa fácil. Transmitir ao leitor, dentro de um espaço restrito, todo o
material que ocupa vinte volumes em língua alemã - é empreendimento quase
impossível. Isso me lembra aquele médico americano que certa vez apareceu em
minha clínica em Viena e perguntou: "Então, doutor, o senhor é psicanalista?", ao
que respondi: "Não bem psicanalista. Digamos um psicoterapeuta." - Continuou ele:

"Qual a escola que o senhor representa?" - Respondi: "É minha própria teoria.
Chama-se logoterapia." - "Poderia o senhor dizer-me, numa única sentença, o que
quer dizer logoterapia, ao menos qual a diferença entre psicanálise e logoterapia?" -
"Sim", repliquei "mas, em primeiro lugar, pode o senhor dizer-me com uma só
sentença o que pensa ser a essência da psicanálise?" - Eis a sua resposta: "Durante
a psicanálise o paciente precisa deitar-se num sofá e contar coisas que às vezes são
muito desagradáveis de se contar." - Ao que retruquei imediatamente com o
seguinte improviso: "Bem, na logoterapia o paciente pode ficar sentado
normalmente, mas precisa ouvir certas coisas que às vezes são muito
desagradáveis de se ouvir."
 É claro que eu disse isso na brincadeira, sem a intenção de fornecer uma fórmula
concentrada da logoterapia. Entretanto ela não deixa de ter sua razão, uma vez que,
se comparada à psicanálise, a logoterapia é menos retrospectiva e menos
introspectiva. A logoterapia se concentra mais no futuro, ou seja, nos sentidos a
serem realizados pelo paciente em seu futuro. (A logoterapia é, de fato, uma
psicoterapia centrada no sentido.) Ao mesmo tempo a logoterapia tira do foco de
atenção todas aquelas formações tipo círculo vicioso e mecanismos retroalimentadores que desempenham papel tão importante na criação de neuroses.
Assim é quebrado o autocentrismo (self center edness) típico do neurótico, ao invés
de se fomentá-lo e reforçá-lo constantemente.
 Obviamente esta formulação simplifica demais as coisas; mesmo assim a
logoterapia de fato confronta o paciente com o sentido de sua vida e o reorienta para
o mesmo. E torná-lo consciente desse sentido pode contribuir em muito para a sua
capacidade de superar a neurose.
 Quero explicar por que tomei o termo "logoterapia" para designar minha teoria. O
termo "logos" é uma palavra grega, e significa "sentido"! A logoterapia, ou, como tem
sido chamada por alguns autores, a "Terceira Escola Vienense de Psicoterapia",
concentra-se no sentido da existência humana, bem como na busca da pessoa por
este sentido. Para a logoterapia, a busca de sentido na vida da pessoa é a principal
força motivadora no ser humano. Por esta razão costumo falar de uma vontade de
sentido, a contrastar com o princípio do prazer (ou, como também poderíamos
chamá-lo, a vontade de prazer) no qual repousa a psicanálise freudiana, e
contrastando ainda com a vontade de poder, enfatizada pela psicologia adleriana
através do uso do termo "busca de superioridade".
A vontade de sentido 
 A busca do indivíduo por um sentido é a motivação primária em sua vida, e não
uma "racionalização secundária" de impulsos instintivos. Esse sentido é exclusivo e
específico, uma vez que precisa e pode ser cumprido somente por aquela
determinada pessoa. Somente então esse sentido assume uma importância que
satisfará sua própria vontade de sentido. Alguns autores sustentam que sentidos e
valores são "nada mais que mecanismos de defesa, formações reativas e
sublimações". Mas, pelo que toca a mim, eu não estaria disposto a viver em função
dos meus "mecanismos de defesa". Nem tampouco estaria pronto a morrer
simplesmente por amor às minhas "formações reativas". O que acontece, porém, é
que o ser humano é capaz de viver e até de morrer por seus ideais e valores!
 Anos atrás, realizou-se na França uma pesquisa de opinião pública. Os resultados
mostraram que 89% das pessoas consultadas admitiram que o indivíduo precisa de
"algo" em função do qual viver. E 61 % admitiram haver algo ou alguém em suas
próprias vidas, pelo qual estariam até prontas a morrer. Repeti essa pesquisa na

minha clínica em Viena, entre pacientes e funcionários, e o resultado foi
praticamente igual àquele obtido entre milhares de pessoas pesquisadas na França;
a diferença foi de apenas 2%.
 Outra pesquisa estatística, com dados de 7.948 alunos, em 48 universidades, foi
conduzida por cientistas sociais da Universidade Johns Hopkins. Seu informe
preliminar é parte de um estudo de dois anos patrocinado pelo Instituto Nacional de
Saúde Mental. Perguntados sobre o que consideravam "muito importante para eles
naquele momento, 16% dos estudantes responderam "ganhar muito dinheiro", 78%
afirmaram que o seu principal objetivo era "encontrar um propósito e sentido para
minha vida".
 Naturalmente pode haver caso em que a preocupação de um indivíduo com valores
é, na realidade, uma camuflagem de conflitos interiores ocultos; mas estes casos
são, antes, exceções à regra, e não a regra em si. Nesses casos realmente temos
que lidar com pseudo-valores, e como tais eles terão que ser desmascarados. O
desmascaramento, entretanto, deveria cessar no momento em que nos deparamos
com o que é autêntico e genuíno na pessoa, como por exemplo o desejo do ser
humano por uma vida tanto quanto possível dotada de sentido. Caso não parar ali, a
única coisa que o "psicólogo desmascarador" realmente desmascara é seu próprio
"motivo oculto" - a saber, sua necessidade inconsciente de degradar e depreciar o
que é genuíno, o que é genuinamente humano no ser humano.
Frustração existencial 
 A vontade de sentido também pode ser frustrada; neste caso a logoterapia fala de
"frustração existencial". O termo "existencial" pode ser usado de três maneiras:
referindo-se (1) à existência em si mesma, isto é, ao modo especificamente humano
de ser; (2) ao sentido da existência; (3) à busca por um sentido concreto na
existência pessoal, ou seja, à vontade de sentido.
 Frustração existencial também pode resultar em neuroses. Para esse tipo de
neuroses a terapia cunhou o termo "neuroses noogênicas", a contrastar com as
neuroses na significação habitual da palavra, isto é, as neuroses psicogênicas.
Neuroses noogênicas têm sua origem não na dimensão psicológica, mas antes na
dimensão "noológica" (do termo grego noos que significa "mente") da existência
humana. Este é outro conceito logoterapêutico que designa qualquer coisa
pertinente à dimensão especificamente humana.
Neuroses noogênicas 
 Neuroses noogênicas não surgem de conflitos entre impulsos e instintos, mas de
problemas existenciais. Entre esses problemas, a frustração da vontade de sentido
desempenha papel central.
 É óbvio que em casos noogênicos a terapia apropriada e adequada não é a
psicoterapia de um modo geral, mas antes a logoterapia; ou seja, uma terapia que
ousa penetrar na dimensão especificamente humana.
 Quero citar um exemplo. Um diplomata americano de alto escalão dirigiu-se a meu
consultório em Viena a fim de continuar o tratamento psicanalítico iniciado cinco
anos antes com um analista em Nova Iorque. Logo de início perguntei-lhe por que
ele pensava que deveria ser analisado, por que, em si, começara com a análise.
Revelou-se que o paciente estava descontente com a sua carreira e tinha extrema
dificuldade em concordar com a política exterior dos Estados Unidos. Seu analista,
no entanto, lhe havia dito repetidamente que ele devia tentar reconciliar-se com seu
pai, porque o governo dos Estados Unidos bem como os seus superiores eram

"nada mais" que imagens paternas, e, consequentemente, a insatisfação com o seu
emprego se devia ao ódio inconsciente contra o pai. Uma análise que já vinha
durando cinco anos induzira o paciente a aceitar cada vez mais as interpretações de
seu analista, até que, de tantas árvores de símbolos e imagens, ele não mais
conseguiu ver a floresta da realidade. Após algumas poucas entrevistas, ficou claro
que a sua vontade de sentido estava sendo frustrada por sua profissão e que ele na
realidade ansiava engajar-se em outra espécie de trabalho. Como não havia motivo
para ele não largar a sua profissão e abraçar outra, assim o fez, com os mais
gratificantes resultados. Em sua nova ocupação ele está satisfeito já faz mais de
cinco anos, conforme relatou há pouco tempo. Duvido que neste caso eu estivesse
lidando com um estado neurótico, e esta é a razão por que pensei que ele não
precisava de qualquer psicoterapia, nem mesmo de logoterapia, pela simples razão
de, na realidade, nem ser um paciente. Nem todo conflito é necessariamente
neurótico; certa dose de conflito é normal e sadia. De forma similar, sofrimento não é
sempre um fenômeno patológico; em vez de sintoma de neurose, sofrimento pode
ser perfeitamente um mérito achievemente humano, especialmente se o sofrimento
emana de frustração existencial. Eu negaria categoricamente que a busca por um
sentido para a existência da pessoa ou mesmo sua dúvida a respeito sempre
provenha de alguma doença ou mesmo resulte em doença. Frustração existencial
em si mesma não é patológica nem patogênica. A preocupação ou mesmo o
desespero da pessoa sobre se a sua vida vale a pena ser vivida é uma angústia
existencial, mas de forma alguma uma doença mental. É bem possível que
interpretar aquela em termos desta motive um médico a soterrar o desespero
existencial do seu paciente debaixo de um monte de tranqüilizantes. Sua função, no
entanto, é de pilotar o paciente através das suas crises existenciais de crescimento e
desenvolvimento.
 A logoterapia considera sua tarefa ajudar o paciente a encontrar sentido em sua
vida. Na medida em que a logoterapia o conscientize do logos oculto de sua
existência, trata-se de um processo analítico. Até esse ponto a logoterapia se
assemelha à psicanálise. Entretanto, quando a logoterapia procura tornar algo
novamente consciente, ela não restringe sua atividade a fatos instintivos dentro do
inconsciente do indivíduo, mas se preocupa também com realidades existenciais,
tais como o sentido em potencial de sua existência a ser cumprido, bem como a sua
vontade de sentido. Qualquer análise, porém, mesmo que se abstenha de incluir a
dimensão noológica em seu processo terapêutico, procura tornar o paciente
consciente daquilo por que ele realmente anseia na profundidade do seu ser. A
logoterapia diverge da psicanálise na medida em que considera o ser humano um
ente cuja preocupação principal consiste em cumprir um sentido, e não na mera
gratificação e satisfação de impulsos e instintos, ou na mera reconciliação dos
reclamados conflitantes de id, ego e superego, ou na mera adaptação e no
ajustamento à sociedade e ao meio ambiente.
Noodinâmica 
 A busca por sentido certamente pode causar tensão interior em vez de equilíbrio
interior. Entretanto, justamente esta tensão é um pré-requisito indispensável para a
saúde mental. Ouso dizer que nada no mundo contribui tão efetivamente para a
sobrevivência, mesmo nas piores condições, como saber que a vida da gente tem
um sentido. Há muita sabedoria nas palavras de Nietzsche: "Quem tem por que viver
suporta quase todo como." Nestas palavras eu vejo um lema válido para qualquer
psicoterapia. Nos campos de concentração nazistas poder-se-ia ter testemunhado

que aqueles que sabiam que havia uma tarefa esperando por eles, tinham as
maiores chances de sobreviver. Outros autores de livros sobre campos de
concentração chegaram à mesma conclusão assim como investigações psiquiátricas
sobre acampamentos com prisioneiros de guerra no Japão, Coréia do Norte e Vietnã
do Norte.
 Quanto a mim, quando fui levado para o campo de concentração em Auschwitz, um
manuscrito meu, pronto para publicação, foi confiscado. Não há dúvida de que meu
profundo desejo de reescrevê-lo me ajudou a sobreviver aos rigores dos campos de
concentração em que estive. Assim, por exemplo, quando fui atacado pela febre do
tifo, rabisquei muitos apontamentos em pedacinhos de papel para depois conseguir
reescrever o manuscrito, caso vivesse até o dia da libertação. Tenho certeza de que
essa reconstrução de nosso manuscrito perdido, levada a cabo na penumbra dos
barracões de um campo de concentração na Baviera, ajudou-me a superar o perigo
de um colapso cardiovascular.
 Pode-se ver, assim, que a saúde mental está baseada em certo grau de tensão,
tensão entre aquilo que já se alcançou e aquilo que ainda se deveria alcançar, ou o
hiato entre o que se é e o que se deveria vir a ser. Essa tensão é inerente ao ser
humano e por isso indispensável ao bem-estar mental. Não deveríamos, então,
hesitar em desafiar a pessoa com um sentido em potencial a ser por ela cumprido.
Somente assim despertaremos do estado latente a sua vontade de sentido.
Considero perigosa e errônea a noção de higiene mental que pressupõe que a
pessoa necessita em primeiro lugar é de equilíbrio, ou, como se diz na biologia, de
"homeostase", ou seja, de um estado livre de tensão. O que o ser humano realmente
precisa não é um estado livre de tensões, mas antes a busca e a luta por um
objetivo que valha a pena, uma tarefa escolhida livremente. O que ela necessita não
é descarga de tensão a qualquer custo, mas antes o desafio de um sentido em
potencial à espera de seu cumprimento. O que o ser humano precisa não é de
homeostase, mas daquilo que chamo de "noodinâmica", isto é, da dinâmica
existencial num campo polarizado de tensão, onde um pólo está representado por
um sentido a ser cumprido e o outro pólo, pela pessoa que deve cumprir. E ninguém
pense que isto é válido somente para situações normais; isto vale mais ainda para
indivíduos neuróticos. Quando arquitetos querem reforçar uma arcada que ameaça
desabar, eles aumentam a carga por ela sustentada, pois com isso os componentes
são ligados mais firmemente. Da mesma forma, se os terapeutas desejam
incrementar a saúde mental de seus pacientes, não deveriam ter receios de criar
uma sadia quantidade de tensão através da reorientação para o sentido da sua vida.
 Uma vez mostrado o impacto benéfico da orientação para o sentido, volto-me agora
para a perniciosa influência daquela sensação da qual se queixam tantos pacientes
hoje em dia, ou seja, da total e extrema falta de significado de suas vidas. Eles
carecem da consciência de um sentido pelo qual valesse a pena viver. Sentem-se
perseguidos pela experiência de seu vazio interior, de um vazio dentro de si
mesmos; estão presos na situação que tenho chamado de "vácuo existencial".
O vazio existencial 
 O vazio existencial é um fenômeno muito difundido no século XX. Isto é
compreensível; pode ser atribuído a uma dupla perda sofrida pelo ser humano desde
que se tornou um ser verdadeiramente humano. No início da história, o homem foi
perdendo alguns dos instintos animais básicos que regulam o comportamento do
animal e asseguram sua existência. Tal segurança, assim como o paraíso, está
cerrada ao ser humano para todo o sempre. Ele precisa fazer opções. Acresce-se

ainda que o ser humano sofreu mais outra perda em seu desenvolvimento mais
recente. As tradições, que serviam de apoio para seu comportamento, atualmente
vêm diminuindo com grande rapidez. Nenhum instinto lhe diz o que deve fazer e não
há tradição que lhe diga o que ele deveria fazer; às vezes ele não sabe sequer o que
deseja fazer. Em vez disso, ele deseja fazer o que os outros fazem (conformismo),
ou ele faz o que outras pessoas querem que ele faça (totalitarismo).
 Um levantamento estatístico recente revelou que entre os meus alunos europeus,
25% mostravam um grau mais ou menos acentuado de vazio existencial. Entre meus
alunos norte-americanos a porcentagem não era de 25, mas de 60%.
 O vácuo existencial se manifesta principalmente num estado de tédio. Agora
podemos entender por que Schopenhauer disse que, aparentemente, a humanidade
estava fadada a oscilar eternamente entre os dois extremos de angústia e tédio. É
concreto que atualmente o tédio está causando e certamente trazendo aos
psiquiatras mais problemas de que o faz a angústia. E estes problemas estão se
tornando cada vez mais agudos, uma vez que o crescente processo de automação
provavelmente conduzirá a um aumento enorme nas horas de lazer do trabalhador
médio. Lastimável é que muitos deles não saberão o que fazer com seu tempo livre.
 Pensemos, por exemplo, na "neurose dominical", aquela espécie de depressão que
acomete pessoas que se dão conta da falta de conteúdo de suas vidas quando
passa o corre-corre da semana atarefada e o vazio dentro delas se torna manifesto.
Não são poucos os casos de suicídio que podem ser atribuídos a este vazio
existencial. Fenômenos tão difundidos como depressão, agressão e vício não
podem ser entendidos se não reconhecermos o vazio existencial subjacente a eles.
O mesmo é válido também para crises de aposentados e idosos.
 Existem ainda diversas máscaras e disfarces sob os quais transparece o vazio
existencial. Às vezes a vontade de sentido frustrada é vicariamente compensada por
uma vontade de poder, incluindo a sua mais primitiva forma, que é a vontade de
dinheiro. Em outros casos, o lugar da vontade de sentido frustrada é tomado pela
vontade de prazer. É por isso que muitas vezes a frustração existencial acaba em
compensação sexual. Podemos observar nestes casos que a libido sexual assume
proporções descabidas no vácuo existencial.
 Algo análogo ocorre em casos de neurose. Existem certos tipos de mecanismos
retro-alimentadores e de configurações tipo círculo vicioso que ainda discutirei
abaixo. Pode-se observar em casos e mais casos, entretanto, que esta
sintomatologia invadiu um vácuo existencial no qual ela continua em plena
florescência. No caso desses pacientes não estamos lidando com neuroses
noogênicas. Entretanto, jamais conseguiremos que o paciente supere a sua
condição se não suplementarmos o tratamento psicoterápico com logoterapia. Isto
porque, ao se preencher o vácuo existencial, o paciente estará prevenido contra
relapsos. Por isso a logoterapia é indicada não só em casos noogênicos, como foi
ressaltado aqui, mas também em casos psicogênicos, e às vezes mesmo em
"(pseudo) neuroses somatogênicas". Sob esta luz se justifica uma afirmação feita
certa vez por Magda B. Arnold: "Toda terapia precisa, de algum modo, por mais
restrito que seja, ser também logoterapia."
 Vejamos o que se pode fazer quando um paciente pergunta qual é, afinal, o sentido
da sua vida.
Sentido da vida 
 Duvido que um médico possa responder esta questão em termos genéricos. Isto
porque o sentido da vida difere de pessoa para pessoa, de um dia para outro, de

uma hora para outra. O que importa, por conseguinte, não é o sentido da vida de um
modo geral, mas antes o sentido específico da vida de uma pessoa em um dado
momento. Formular esta questão em termos gerais seria comparável a perguntar a
um campeão de xadrez:
"Diga-me, mestre, qual o melhor lance do mundo?" Simplesmente não existe algo
como o melhor lance ou um bom lance à parte de uma situação específica num jogo
e da personalidade peculiar do adversário. O mesmo é válido para a existência
humana. Não se deveria procurar um sentido abstrato da vida. Cada qual tem sua
própria vocação ou missão específica na vida; cada um precisa executar uma tarefa
concreta, que está a exigir cumprimento. Nisto a pessoa não pode ser substituída,
nem pode sua vida ser repetida. Assim, a tarefa de cada um é tão singular como a
sua oportunidade específica de levá-la a cabo.
 Uma vez que cada situação na vida representa um desafio para a pessoa e lhe
apresenta um problema para resolver, pode-se, a rigor, inventar a questão pelo
sentido da vida. Em última análise, a pessoa não deveria perguntar qual o sentido da
sua vida, mas antes deve reconhecer que é ela que está sendo indagada. Em suma,
cada pessoa é questionada pela vida; e ela somente pode responder à vida
respondendo por sua própria vida; à vida ela somente pode responder sendo
responsável. Assim sendo, a logoterapia vê na responsabilidade (responsibleness) a
essência propriamente dita da existência humana.
A essência da existência 
Esta ênfase sobre a responsabilidade se reflete no imperativo categórico da
logoterapia, que reza: "Viva como se já estivesse vivendo pela segunda vez, e como
se na primeira vez você tivesse agido tão errado como está prestes a agir agora."
Parece-me que nada estimula tanto o senso de responsabilidade de uma pessoa
como esta máxima, a qual a convida a imaginar primeiro que o presente é passado
e, em segundo lugar, que o passado ainda pode ser alterado e corrigido.
Semelhante preceito a confronta com a finitude da vida e com o caráter irrevogável
(finality) daquilo que ela faz de sua vida e de si mesma.
 Logoterapia procura criar no paciente uma consciência plena de sua própria
responsabilidade; por isso precisa deixar que ele opte pelo que, perante “que” ou
perante “quem” ele se julga responsável. Eis por que um logoterapeuta é, dentre
todos os psicoterapeutas, o que menos se vê tentado a impor julgamentos de
valores a seus pacientes, porque jamais permitirá a ele transferir ao médico a
responsabilidade de ajudar.
 Por isso é o paciente quem decide se deve interpretar a tarefa de sua vida como
pessoa responsável perante a sociedade ou perante a sua própria consciência. Há
pessoas, no entanto, que não interpretam suas vidas simplesmente como uma tarefa
a elas designada, mas também em função do contramestre que lhes atribuiu a
tarefa.
 Logoterapia não é instrução nem pregação. Ela está tão distante do arrazoado
lógico como da exortação moral. Em linguagem figurada, o papel do logoterapeuta é
antes o de um oculista que de um pintor. O pintor procura transmitir-nos uma
imagem do mundo como ele o vê; o oftalmologista procura capacitar-nos a enxergar
o mundo como ele é na realidade. O papel do logoterapeuta consiste em ampliar e
alargar o campo visual do paciente de modo que todo o espectro de sentido e
potencial se torne consciente e visível para ele.
 Ao declarar que o ser humano é uma criatura responsável e precisa realizar o
sentido potencial de sua vida, quero salientar que o verdadeiro sentido da vida deve

ser descoberto no mundo, e não dentro da pessoa humana ou de sua psique, como
se fosse um sistema fechado. Chamei esta característica constitutiva de "a autotranscendência da existência humana". Ela denota o fato de que ser humano sempre
aponta e se dirige para algo ou alguém diferente de si mesmo - seja um sentido a
realizar ou outro ser humano a encontrar. Quanto mais a pessoa esquecer de si
mesma - dedicando-se a servir uma causa ou a amar outra pessoa - mais humana
será e mais se realizará. O que se chama de auto-realização não é de modo algum
um objetivo atingível, pela simples razão de que quanto mais a pessoa se esforçar,
tanto mais deixará de atingi-lo. Em outras palavras, auto-realização só é possível
como um efeito colateral da auto-transcendência.
 Até aqui mostramos que o sentido da vida sempre se modifica, mas jamais deixa
de existir. De acordo com a logoterapia, podemos descobrir este sentido na vida de
três diferentes formas:
1. criando um trabalho ou praticando um ato;
2. experimentando algo ou encontrando alguém;
3. pela atitude que tomamos em relação ao sofrimento inevitável.
 A primeira, o caminho da realização, é bastante óbvia. A segunda e a terceira
necessitam de uma melhor elaboração.
 A segunda maneira de encontrar um significado na vida é experimentando algo -
como a bondade, a verdade e a beleza, experimentando a natureza e a cultura ou,
ainda, experimentando outro ser humano em sua originalidade própria - amando-o.











Nenhum comentário:

Postar um comentário