sexta-feira, 24 de maio de 2013

CAPÍTULO IV Jerônimo de Araújo Silveira e família


CAPÍTULO IV
Jerônimo de Araújo Silveira e família
Não lográvamos notícias de nossas famílias e tampouco dos amigos.
Excruciantes saudades, como ácido corrosivo que nos estorcesse as potências afetivas,lançavam sobre nossos corações infelizes o decepcionante amargor de mil incertezas angustiosas. Muitas vezes, Joel e Roberto surpreendiam-nos chorando às ocultas, suspirando por nomes queridos que jamais ouvíamos pronunciar! Caridosamente, esses bons amigos nos reanimavam com palavras encorajadoras, asseverando ser tal contrariedade passageira, pois tendíamos a suavizar a situação própria, o que necessariamente resolveria os problemas mais prementes.
No entretanto, existia permissão para nos cientificarmos das visitas mentais e votos fraternos de paz e felicidade futuras, quaisquer gentilezas emanadas do Amor, e que proviessem dos entes queridos deixados na Terra ou dos simpatizantes, além dos que, mesmo das moradas espirituais, nos amassem, interessando-se por nosso
restabelecimento e progresso. Desde que tais pensamentos fossem irradiados pela mente verdadeiramente guindada a expressões superiores, eram-nos eles transmitidos por meio assaz curioso e muito eficiente, o qual, na ocasião vigente, nos levava à  perplexidade,dado o nosso desajuste espiritual, mas que posteriormente compreendemos tratar-se de acontecimento natural e até comum em localidades educativas do Astral intermediário.
Existia em cada dormitório certo aparelhamento delicadíssimo, estruturado em substâncias eletromagnéticas, que, acumulando potencialidade inavaliável de atração, seleção, reprodução e transmissão, estampava em região espelhenta, que lhe era parte
integrante, quaisquer imagens e sons que benévola e caridosamente nos fossem dirigidos. Quando um coração generoso, pertencente às nossas famílias ou mesmo para nós desconhecido, arremessasse vibrações fraternas pelas imensidões do Espaço, ao Pai 
Altíssimo invocando mercês para nossa almas enoitadas pelos dissabores, éramos imediatamente informados por luminosidade repentina, que, traduzindo o balbucio da oração, reproduzia também a imagem da personalidade operante, o que, às vezes,

ansiedade. Daí as angústias excessivamente amargosas, a e soladora saudade por nos sentirmos esquecidos, privados de quaisquer informes!
Não obstante, os mesmos preciosos instrumentos de transmissão
incessantemente revelavam que éramos lembrados por habitantes do Além. De outras zonas astrais, como de outras localidades de nossa própria Colônia, chegavam fraternos
votos de paz, conforto amistoso, encorajamento para os dias futuros. Oravam por nós em súplicas ardentes, não apenas invocando o amparo maternal de Maria para nossas
imensas fraquezas, mas ainda a intervenção misericordiosa do Mestre Divino. Da Terra, todavia, não eram raras as vezes que discípulos de Allan Kardec, procurando pautar atitudes por diretrizes cristãs, se congregavam periodicamente em
gabinetes secretos, tais como os antigos iniciados no segredo dos santuários; e, respeitosos, obedecendo a impulsos fraternos por amor ao Cristo Divino, emitiam pensamentos caridosos em nosso favor, visitando-nos freqüentemente através de correntes mentais vigorosas que a Prece santificava, tornando-as ungidas de ternura e
compaixão, as quais caíam no recesso de nossas almas cruciadas e esquecidas, quais fulgores de consoladora esperança!
Porém, não era só. Caravanas fraternas, de Espíritos em estudo e aprendizados beneficentes, assistidas por Mentores eméritos, penetravam nossa tristonha região, provindas de zonas
espirituais mais favorecidas, a fim de trazer sua piedosa solidariedade, em visitações que muito nos desvaneciam. Assim fizemos boas relações de amizade com indivíduos
moralmente muito mais elevados do que nós, os quais não desdenhavam honrar-nos com sua estima. Tais amizades, tão suaves afeições seriam duradouras, porque fundamentadas nos desinteressados, nos elevados princípios da fraternidade cristã!
Só muito mais tarde nos foi outorgada a satisfação de receber as visitas dos entes caros que nos haviam precedido no túmulo. Mesmo assim, porém, deveríamos contentar-nos com aproximações rápidas, pois o suicida está para a vida espiritual como
o sentenciado para a sociedade terrena: não tem regalias normais, vive em plano expiatório penoso, onde não é lícita a presença de outrem que não os seus educadores, enquanto que ele próprio, dado o seu precário estado vibratório, não logrará afastar-se do
pequeno círculo em que se agita... até que os efeitos da calamitosa infração sejam  totalmente expungidos. "- ...E serás atado de pés e mãos, lançado nas trevas exteriores, onde haverá
choro e ranger de dentes. Dali não sairás enquanto não pagares até o último ceitil. .." -avisou prudentemente o Celeste Instrutor, desde muito séculos...
Dois acontecimentos de profunda significação para o desenvolvimento de
nossas forças no ajustamento ao plano espiritual verificaram-se logo nos primeiros dias
que se seguiram à nossa admissão ao magno instituto do astral. Dedicaremos o presente
capítulo ao mais sensacional, reservando para o seguinte a exposição do segundo, não
menos importante, por decisivo na lição que, então, nos ofertou.
Certa manhã, apresentou-se-nos o jovem Dr. Roberto de Canalejas, a
participar-nos que éramos convidados a importante reunião para aquela tarde, devendo
todos os recém-chegados se avistarem com o diretor do Departamento a que estávamos
confiados no momento, para esclarecimentos de interesse geral.
Jerônimo, cujo mau-humor se agravava assustadoramente, formalmente declarou não desejar comparecer à mesma, pois que não se supunha obrigado a obediências servis pelo simples fato de se encontrar hospitalizado, e mais que, na ocasião, somente se interessava pela obtenção de notícias da família. Roberto, porém,
declarou delicadamente, sem mostras de quaisquer agastamentos, que era portador de um convite e não de uma ordem, e que, por isso mesmo, nenhum de nós seria forçado a anuir. sobremodo nos surpreendia, visto acontecer que pessoas a quem nem sempre
distinguíramos com afeição e desvelo se apresentavam freqüentemente ao espelho magnético, enquanto outras, que de nossos corações obtiveram as máximas solicitudes,
raramente mitigavam as asperezas da nossa íntima situação com as blandícias santificantes da Prece! Poderíamos, assim, saber de quanto pensassem a nosso respeito; das súplicas dirigidas às Divinas Potestades, de todo o bem que nos pudessem desejar
ou, a nosso favor, praticar. Infelizmente para nós, porém, tal acontecimento, que tanto amenizaria as agruras da solidão em que vivíamos; que seria como refrigerante sereno sobre as

Envergonhados frente à atitude incivil do companheiro, sentimo-nos também chocados, e foi com o melhor sorriso que encontramos nos arquivos de antigas recordações que aquiescemos, agradecendo ainda a honra que nos dispensavam. Já por esse tempo éramos submetidos a tratamento especializado, do qual adiante trataremos e com o qual igualmente não concordara o antigo irmão da Santíssima
Trindade, de Lisboa, assim que soube ser a terapêutica fundamentada nas fontes magnético-psíquicas, assuntos que absolutamente não admitia! Não obstante, insofrido e displicente, dirigiu-se ao bondoso facultativo, logo após o incidente, e disse, esquecido já da lamentável atitude anterior: "- Sr. doutor, um obséquio inestimável venho pensando em obter de V.
Excia., confiado nos sentimentos generosos que de certo exornam tão nobre caráter..." Roberto de Canalejas que, com efeito, antes de ser um espírito convertido ao Bem, dedicado operário da Fraternidade, teria sido na sociedade terrena perfeito
cavalheiro, esboçou sorriso indefinível e respondeu:
"- Estou ao seu inteiro dispor, meu amigo! Em que deverei atendê-lo?..."
"- É que... Tenho necessidade imperiosa de encaminhar certa petição à benemérita diretoria desta casa... Aflijo-me pela falta de informes de minha família, que não vejo há muito... nem eu sei há quanto tempo!... Em vão tenho esperado notícias... e já
não me restam forças para sofrer no peito as ânsias que me dilaceram... Desejo obtenção de licença, da mui digna diretoria deste Hospital, para ir até minha casa, certificar-me dos
motivos que ocasionam tão ingrato silêncio... Não sou visitado pelos meus... Não recebo cartas... Será possível a V. Excia. encaminhar um requerimento ao Sr. Diretor? Não proibirão, de certo, os regulamentos internos, a atitude que desejo tomar?..."
Como vemos pelo exposto, o pobre ex-comerciante do Porto parecia não fazer idéia muito justa da situação em que se encontrava, e, mais do que os companheiros de domicílio, perdia-se na desordem mental, entre os estados terreno e
espiritual. "- Absolutamente, meu caro! Não há proibição! O diretor deste estabelecimento terá satisfação em ouvi-lo!" - afirmou o paciente médico. "- Farei então hoje mesmo o requerimento?..."
Encaminharei verbalmente a solicitação... e Joel participá-lo-á do que ficar resolvido..." Cerca de dois quartos de hora depois, Joel voltava à enfermaria a fim de comunicar ao aflito doente que o diretor convidava-o a apresentar-se pessoalmente ao
seu gabinete. Vinha, porém, pensativo, e descobrimos um acento de pesar em seu semblante geralmente límpido e sorridente.
Nosso companheiro que, como é sabido, era, dentre os dez, o mais rebelde e indisciplinado, exigiu que Joel devolvesse o terno de roupa tomado à entrada, pois repugnava-lhe apresentar-se ao gabinete do maioral envolvido num feio sudário de
enfermaria, tal como nos encontrávamos todos.
Muito sério, Joel não tentou contrariá-lo. Devolveu-lhe, antes, a referida indumentária. Saíram. Não teriam transposto ainda a galeria imensa, para onde se projetavam as portas dos dormitórios, e eis que o jovem Dr. de Canalejas e um dos nossos assistentes
hindus entraram em nosso compartimento, enquanto, sorridente, foi dizendo o último, com acento amistoso: "- Aqui nos encontramos, meus caros amigos, a fim de convidar-vos a acompanhar vosso amigo Jerônimo de Araújo Silveira na peregrinação que deseja tentar. Estamos cientes de que nenhum de vós se sente satisfeito com os regulamentos desta casa, que de algum modo intercepta noticiário circunstanciado proveniente dos planos terrenos. No entanto, será bom sejais informados de que, se tal rigor se verifica, a vosso benefício o estabelecemos, muito embora não exista formal proibição para uma rápida escaldantes saudades que nos combaliam a mente e o coração, era raríssimo na quase totalidade do Hospital, referencia às afeições deixadas na Terra, pois que o genial
aparelho só era suscetível de registrar as invocações sinceras, aquelas que, pela natureza sublimada das vibrações emitidas no momento da Prece, se pudessem harmonizar às ondas magnéticas transmissoras capazes de romper as dificuldades naturais e chegarem às mansões excelsas, onde é a Prece acolhida entre fulgores e bênçãos. Porém, a verificar-se tão generoso fato não facultaria possibilidade de noticiário
circunstanciado em torno da individualidade que o praticasse, tal como desejaria nossa visita à Terra, como ides ver dentro em pouco. Atentai neste aparelho de visão a distância, que já conheceis, e acompanhai os passos de nosso Jerônimo desde o
presente momento. Caso venha a obter a licença que impetra, como espero que aconteça, dada a insistência em que se atém, fareis com ele a peregrinação que tanto deseja em torno da família, sem, no entanto, precisardes sair deste local... E amanhã, se ainda desejardes descer aos vossos antigos lares em visitação prematura, sereis atendidos imediatamente... a fim de que as revoltas que vos vêm ferindo a mente não continuem retardando a aquisição de pendores novos que vos possam beneficiar futuramente... Todos os demais enfermos em idênticas condições recebem igual sugestão
neste momento..."  Aproximou-se do aparelho e, com graciosa desenvoltura, ampliou-o até que pudesse retratar a imagem de um homem em tamanho natural. Perplexos, mas interessados, deixamos o leito, que raramente abandonávamos, a fim de nos postarmos diante da placa que principiava a iluminar-se. Fizeram-nos sentar comodamente, em poltronas que ornavam o recinto, enquanto
aqueles zelosos colaboradores do além tomaram lugar ao nosso lado. Era como se aguardássemos o início de uma peça teatral.
De súbito Joel surgiu diante de nós, tão visível e naturalmente, destacandose  no mesmo plano em que nos encontrávamos, que o supusemos dentro da enfermaria, ou que nós outros seguíssemos ao seu encalço... Amparava Jerônimo pelo braço... caminhando em busca da saída de serviço... e tão intensa ia-se tornando a sugestão que logo nos abstraímos, esquecidos de que, em verdade, continuávamos comodamente sentados em poltronas, em nossos aposentos... Mais real do que o atual cinematógrafo e superior ao engenho da televisão do momento, esse magnífico receptor de cenas e fatos, tão usado em nossa Colônia, e que tanta admiração nos causava, em esferas mais elevadas desdobrava-se, evoluía até
atingir o sublime no auxílio à instrução de Espíritos em marcha para a aquisição de valores teóricos que lhes permitissem, futuramente, testemunhos decisivos nos prélios terrenos, indo rebuscar e selecionar, nas longínquas planícies do espaço celeste, o
próprio passado do Globo Terráqueo e de suas Humanidades, sua História e suas Civilizações, assim como o pretérito dos indivíduos, se necessário, os quais jazem esparsos e confundidos nas ondas etéreas que se agitam, se eternizam pelo invisível a dentro, nelas permanecendo fotografados, impressos como num espelho, conquanto se conservem confusamente, de roldão com outras imagens, tal como na consciência das criaturas se imprimiram também seus próprios feitos, suas ações diárias! Assim foi que atravessamos algumas alamedas do parque branco e atingimos o Edifício Central, onde se assentava a chefia daquela formosa falange de cientistas iniciados que laboravam no Departamento Hospitalar.
A chegada, porém, Jerônimo passou para a tutela de um assistente do diretor e Joel retirou-se, tendo aquele conduzido imediatamente o visitante, fazendo-o passar a uma sala onde amplas janelas deitavam vistas para o jardim, deixando descortinar-se o
panorama melancólico do burgo onde tantas e tantas dores se entrechocavam!
Era um gabinete, espécie de escritório de consultas ou sala de visita, disposto em perfeito estilo indiano. Perfume sutil, de essência desconhecida ao nosso olfato, deliciou-nos, ao mesmo tempo que alongava nossa admiração pela natureza inapreciável do aparelho que nos servia. Leve reposteiro, de tecido flexível e docemente
lucilante, agitou-se numa porta fronteira e o diretor-geral do Departamento Hospitalar
apresentou-se. De um salto o pobre Jerônimo, que se havia sentado, procurou levantar-se e seu primeiro gesto foi de fuga, no que se viu interceptado pelo acompanhante.
A sua frente estava um varão entre quarenta e cinqüenta anos,
rigorosamente trajado à indiana, com turbante alvo onde cintilava formosa esmeralda qual estrela; túnica de mangas fartas, faixa à cintura e sandálias típicas. O oval do rosto, suavemente moreno, era de pureza clássica de linhas, e de seus olhos fúlgidos e
penetrantes como se desprendiam chispas de inteligência e penetração magnética. Ao anelar da sinistra, gema preciosa, semelhante à do turbante, distinguia-o, quiçá como mestre dos demais componentes da plêiade formosa de médicos ao serviço do Hospital Maria de Nazaré.
Tão encantados quanto o próprio Jerônimo, confessamo-nos vivamente atraídos pela nobre figura.
Sem delongas o assistente Romeu, pois era ele que havia recebido o
impetrante, disse ao que vinha: "- Caro irmão Teócrito, aqui está nosso pupilo Jerônimo de Araújo Silveira, que tanto nos vem preocupando... Deseja visitar a família no ambiente terreno, pois
acredita estar além das suas possibilidades de conformação a obediência aos princípios de nossa instituição... E afirma preferir o acúmulo de pesares à espera de ocasião oportuna para o desejado desiderato..." Irreverente, o apresentado interrompeu com nervosismo: "- É bem essa a expressão da verdade, Sr. Príncipe! - pois imaginava-se em presença de um soberano. - Prefiro envolver-me novamente no remoinho de dores do qual saí há pouco, a suportar por mais tempo as ferazes saudades que me cruciam pela
falta de notícias de minha família!... Se, pois, não existe proibição intransigente nas leis que facultariam essa possibilidade, rogo à generosidade de Vossa Alteza concessão para rever meus filhos!... Oh! as minhas queridas filhas! Confio são formosas, senhor! São três, e apenas um varão: - Arinda, Marieta, Margarida, que deixei com sete anos, e Albino, que contava já os dez!... Sofro tantas saudades, Senhor meu Deus!... Minha esposa chama-se
Zulmira, bonita mulher! e bastante educada!... Aflijo-me desesperadamente! Não consigo calma para a necessária ponderação quanto à minha esquisita situação atual!... E por isso
rogo humildemente a Vossa Alteza compadecer-se de minhas angústias!" Os olhos faiscantes do chefe da falange de médicos caíram enternecidos sobre o Espírito intranqüilo daquele que demoraria ainda a aprender a dominar-se.
Contemplou-o bondosamente, penalizado ante a desarmonia mental do suplicante, entrevendo o longo carreiro de lutas que lhe seria necessário até que conseguisse planála às gratas atitudes da renúncia ou da conformidade! Surpreso, Jerônimo que contava
encontrar a sombranceria dos burocratas terrenos, estagnados nas farfalhices apalhaçadas a que se apegam, sob quais estava habituado, percebeu naquele olhar perscrutador a humildade de uma lágrima oscilando nas pálpebras. O nobre varão tomou-o docemente pelo braço, fazendo-o sentar-se à sua frente, em cômodo coxim, enquanto Romeu, de pé, observava  respeitosamente. O hindu ofereceu ao suicida uma taça com água cristalina, por ele mesmo retirada de elegante jarro reluzente qual neblina sob a carícia do sol. O português sorveu-a, incapacitado de
recusar; depois do que, algo serenado, tomou atitude de espera à solicitação enunciada. "- Meu amigo! Meu irmão Jerônimo! – começou Teócrito. - Antes de à versão da tua súplica oferecer resposta, devo esclarecer que, absolutamente, não sou um
príncipe, como supuseste, e, por isso mesmo, não arrasto o titulo de Alteza. Sou, simplesmente, um Espírito que foi homem! que, tendo vivido, sofrido e trabalhado em várias existências sobre a Terra, aprendeu, no trajeto, algo que com a própria Terra se relaciona. Um servo de Jesus Nazareno - eis o que me honro de ser, embora muito
modesto, pobre de méritos, rodeado de senões! Um trabalhador humilde que, junto de vós, que sofreis, ensaia os primeiros passos no cultivo da Vinha do Mestre Divino; destacado temporariamente, e por Sua ordem magnânima, para os serviços de Maria de Nazaré, Sua augusta Mãe!
Entre nós ambos, Jerônimo - eu e tu -, pequena diferença existe, distância não muito avançada: - é que, tendo vivido maior número de vezes sobre a Terra, sofri mais, trabalhei um pouco mais, aprendendo, portanto, a me resignar melhor, a renunciar
sempre por amor a Deus, e a dominar as próprias emoções; observei, lutei com mais ardor, obtendo, destarte, maior soma de experiência. Não sou, como vês, soberano destes domínios, mas simples operário da Legião de Maria - Maria, única Majestade a
governar este Instituto Correcional onde te abrigas  temporariamente! Um, teu irmão mais velho - eis a verdadeira qualidade que em mim deverás enxergar!... sinceramente
desejoso de auxiliar-te na solução dos graves problemas que te enredam... Chama-me, pois, Teócrito, e terás acertado..."
Fez breve pausa, alongando os belos olhos pela amplidão nevoenta que se divisava através das janelas, e prosseguiu, enternecido:
"- Desejas rever teus filhos, Jerônimo?!... É justo, meu amigo! Os filhos são parcelas do nosso ser moral também, cujo amor nos transporta de emoções supremas,
mas que não raramente também nos reduz à desolação de percucientes desgostos!
Compreendo tuas ânsias frementes de pai amoroso, pois sei que amaste teus filhos com sinceridade e desprendimento! Sei da fereza das tuas dúvidas atuais, afastado daqueles entes queridos que lá ficaram, no Porto, órfãos da tua direção e do teu amparo! Como tu,
eu também fui pai e também amei, Jerônimo! É mais do que justo, pois, que eu, validando teus sentimentos afetivos pela termometria dos meus, louve tua aspiração antes de censurá-la, porquanto muito atesta ela em favor dos teus respeitos pela Família! Contudo,
de modo algum eu aconselharia a preterires este recinto, onde tão penosamente te reergues, pelas influenciações deletérias dos ambientes terrenos, ainda que apenas por uma hora! ainda que para procurar informes de teus filhos!..." "- Senhor! Com o devido respeito à vossa autoridade, suplico comiseração! ...
Trata-se de visita rápida... dando-vos eu minha palavra de honra em como voltarei... pois bem sei que não passo de um prisioneiro..." - recalcitrou ainda o antigo impaciente, perdendo-se novamente nas confusões mentais em que se aprazia enredar. "- Ainda assim não aprovarei a realização desse desejo no momento, conquanto o proclame justo... Sofreia um pouco mais os impulsos do teu caráter, meu Jerônimo! Aprende a dominar emoções, a reter ansiedades, tornando-as em aspirações equilibradas sob a proteção santa da Esperança! Lembra-te de que foram tais impulsos,
desequilibrados, estribados na irresignação, na impaciência e no desconchavo do senso, que te arremessaram à violência do suicídio! Verás, sim, teus filhos! Porém, a teu próprio benefício peço que concordes em adiar o projeto em mira para daqui a alguns poucos
meses... quando estiveres mais bem preparado para enfrentar as conseqüências que se precipitaram após teu desordenado gesto! Concorda, Jerônimo, em te submeteres ao tratamento conveniente ao teu estado, ao qual teus companheiros se submetem de
boamente, confiando nos servidores leais que a todos vós desejam socorrer com amor e desprendimento! Cede ao convite para a reunião de hoje à noite, porque imensos benefícios dela auferirás... ao passo que uma visita à Terra neste momento, o contacto
com a família, nas precárias condições em que te encontras, estariam em oposição aos planos suaves já elaborados para conduzir-te à tão necessária reorganização de tuas
forças..." "- Mas... Eu não adquiriria serenidade para nenhum projeto futuro enquanto não obtivesse as desejadas informações, senhor!... Oh, Deus do Céu! Margaridinha, minha caçula, que lá ficou, com sete anos, tão loira e tão linda!..." "- Já te lembraste de apelar para a grandeza paternal do Senhor Todo-
Poderoso, a fim de obteres valor para a resignação de uma espera muito prudente, que seria coroada de êxitos?... Queremos o teu bem-estar, Jerônimo, nosso desejo é encaminhar-te a situação que te forneça trégua para a reabilitação que se impõe... Voltate
para Maria de Nazaré, sob cujos cuidados foste acolhido... é preciso que tenhas boavontade para te elevares ao Bem! Pratica a prece... procura comungar com as vibrações superiores, capazes de te animarem a empreendimentos redentores... É indispensável
que o faças por livre e espontânea vontade, porque nem te poderemos obrigar a fazê-lo nem poderíamos fazê-lo por ti... Renuncia, pois, a esse projeto contraproducente e confia
em nossos bons desejos de auxílio e proteção à tua pessoa..."Mas o ex-comerciante do Porto era inacessível. O caráter rebelde e violento, que num assomo de voluntariedade sinistra preferiu a morte a ter de lutar, impondo-se à adversidade até corrigi-la e vencê-la, retorquiu impacientado, não compreendendo a
sublime caridade que recebia: "- Confiarei, senhor... irmão Teócrito... Viverei de rojo aos pés de todos vós, se necessário for!... mas depois de rever os meus entes caros e inteirar-me das razões
por que me abandonaram, ressarcindo, de algum modo, estas saudades que me despedaçam..." Cumprido seu dever de conselheiro, Teócrito compreendeu que seria inútil
insistir. Contemplou o pupilo desfeito em lágrimas e murmurou tristemente, enquanto Romeu abanava a cabeça, penalizado:
"- Afirmas grande verdade, pobre irmão! Sim! Só depois!... Só depois encontrarás o caminho da reabilitação!... Há índoles que só os duros aguilhões da Dor serão bastante poderosos para corrigir, encaminhando-as para o Dever!... Ainda não sofreste o suficiente para  te  lembrares  de  que  descendes  de  um  Pai                          Todo- Misericordioso!..." Deixou-se estar alguns instantes pensativo e continuou: "- Poderíamos evitar este incidente, impedir a visita e punir-te pela atitude tomada. Assiste-nos para tanto autoridade e permissão. Mas és ainda demasiadamente
materializado, padecendo, portanto, muitos prejuízos terrenos, para que nos possas compreender!... Aliás, nossos métodos, persuasivos e não dominadores, seriam incompatíveis com uma proibição intransigente, por mais harmonizados com a Razão... Contudo, consultarei nossos Instrutores do Templo, como é dever em dilemas como o que acabas de criar..." Concentrou-se firmemente, retirando-se para compartimento secreto, contíguo ao gabinete de consultas. Comunicou-se telepaticamente com a direção-geral do
Instituto, que pairava no cantão do Templo, e, após curto espaço de tempo, tornou, dando a nota final: "- Nossos orientadores maiores te permitem liberdade de ação. Conquanto uma entidade nas tuas condições não possa desfrutar a liberdade natural ao Espírito livre
das peias carnais, não poderás também ser por nós violentado a deveres que te repugnariam. Visitarás teus entes queridos na Terra... Irás, portanto, a Portugal, à cidade do Porto, onde residias, a Lisboa, tal como desejas... E como a ternura paternal do
Criador leva a extrair, muitas vezes, de um ato imprudente ou condenável, exemplificação salutar para o próprio delinquente ou para o seu observador, estou certo de que tua inconsequência nem será estéril para ti mesmo nem deixará de avolumar profundas
advertências para quantos de boa-vontade delas tomarem conhecimento. Atenta porém, no seguinte, meu caro Jerônimo: - É que, deixando de aceitar nossos conselhos e  insurgindo-te contra os regulamentos deste Instituto, cometerás falta cujas conseqüências
recairão sobre ti mesmo. Essa visita será realizada sob tua exclusiva responsabilidade!
Não existe permissão para ela: - é o teu livre-arbítrio que a impõe! Se os descontentamentos daí conseqüentes exorbitarem das tuas capacidades para o sofrimento, dirigirás as queixas contra ti mesmo, porquanto nossos esforços só se aplicam em dulcificar infortúnios e evitá-los quando desnecessários... Por isso mesmo deixamos
de fornecer as desejadas notícias pelos meios de que dispomos... pois a verdade é que não havia necessidade de te afastares daqui a fim de obtê-las..." Voltou-se para o assistente e prosseguiu:
"- Preparem-no para que siga... Satisfaçam-lhe os caprichos sociais
terrenos... porque bem cedo se aborrecerá da Terra... Que o deixem agir como deseja... A lição será amarga, mas ensejará mais rápida compreensão e conseqüentemente progresso..."
Fez-se pausa na seqüência da reprodução dos acontecimentos.
Surpreendera-nos grande ansiedade ao passo que censurávamos o companheiro pela displicência com que se portara. Concordáramos em atribuir à má educação de Jerônimo 



o desrespeito manifesto aos regulamentos da nobre instituição, no que fomos aparteados pelos servidores presentes: "- Certamente, a boa educação social auxilia grandemente a adaptação aos
ambientes espirituais. Ela não representa, porém, tudo. Os sentimentos depurados, o estado mental harmonizado a princípios elevados, as boas qualidades de caráter e de coração, produzindo a "boa educação" moral, é que formam o elemento primordial para
uma prometedora situação no além-túmulo... desde que um suicídio não venha anular tal possibilidade..." "- Não poderiam os diretores desta casa fornecer as notícias solicitadas, sem que o enfermo se arriscasse a uma viagem de gravosas conseqüências para o seu estado geral?. .." - inquiri, curioso. "- Sim, se tais notícias concorressem para o bem-estar do paciente. Aliás, em
regra geral, convém a entidades nas vossas condições absterem-se de quaisquer  choques ou emoções que alimentem o estado de excitação em que se encontrem... Notícias da Terra jamais confortarão algum de nós, que pertencemos à Espiritualidade!
No presente caso torna-se evidente o desejo da administração da casa de encobrir ao pobre enfermo algo que o ferirá profundamente, sem necessidade. Se se submetesse de
boa-vontade aos regulamentos protetores, a realidade que presenciará dentro em pouco viria ao tempo em que estivesse suficientemente preparado para enfrentá-la, o que evitaria choques grandemente dolorosos. Insubordinando-se, porém, coloca-se em
situação melindrosa, razão por que foi ele entregue às próprias inconsequências  as quais farão com violência, em torno dele, o trabalho educativo que seus conselheiros efetuariam suave e amorosamente..." Eis, porém, que voltávamos a observar movimentação na luminosidade do receptor de imagens. E o que então se passou exorbitou tanto de nossa expectativa que
passamos a sofrer com o desventurado Jerônimo os dramáticos sucessos com sua família desenrolados depois de sua morte.
O assistente Romeu providenciou ordens para o Departamento de Vigilância, ao qual se achavam afetos todos os serviços exteriores da Colônia. Olivier de Guzman, seu diretor zeloso, apelou para a Seção das Relações Externas, no sentido de serem fornecidos dois guias vigilantes, de competência comprovada, a fim de acompanharem o visitante à Terra, pois não seria admissível abandonar-se aos perigos de tal excursão um pupilo da Legião dos Servos de Maria, ainda inexperiente e fraco. Apresentaram-se - Ramiro de Guzman -, no qual reconhecemos o chefe das
expedições que visitavam o Vale Sinistro, sob cuja responsabilidade de lá também saíramos; e outro cujo nome ignorávamos, ambos igualmente envergando a já popular indumentária de iniciados orientais. Começávamos a compreender que, nesse Instituto modelar, os postos avançados, de mais grave responsabilidade; as tarefas melindrosas, que exigissem maior soma de energia, vontade, saber e virtudes, achavam-se a cargo dessas personagens
atraentes e belas, em quem descortinamos, desde os primeiros dias, altas qualidades morais e intelectuais. As ordens de Olivier foi preparada expedição condigna, em a qual não faltou nem mesmo a guarda de milicianos. No entretanto, transformação sensível operara-se nas atitudes do pobre Jerônimo. A auto-obsessão da visita à família, conturbando-lhe as faculdades, tornava-o
alheio a tudo que o rodeava, reintegrando-o mais do que nunca à condição que fora a sua quando homem: - burguês rico de Portugal, comerciante de vinhos, zeloso da opinião social, escravo dos preconceitos, chefe de família amoroso e extremado. Víamo-lo agora trajando boa sobrecasaca, vistosa gravata, bengala de castão dourado e sobraçando ramalhete de rosas para oferecer à esposa, pois tudo isso exigira da paciente vigilância de Joel, a quem haviam recomendado satisfazer-lhe os desejos. E nossos mentores,presentes na enfermaria, apreendendo nossa admiração, esclareciam que, só muito vagarosamente, Espíritos vulgares ou muito humanizados conseguem desfazer-se dessas pequenas frivolidades inseparáveis das rotinas terrestres. Rigorosamente guardado, a viajar em veículo discretamente fechado, Jerônimo assemelhava-se, com efeito, a um prisioneiro. Parecia não se aperceber disso,no entanto. Parecia não distinguir mesmo a presença de Ramiro e seus auxiliares, tão abstrato se encontrava, julgando-se em viagem como outras que outrora lhe foram comuns.
Corria regularmente o veículo. Não fora a presença dos guardiães
recordando a cada instante a natureza espiritual da cena, afirmaríamos tratar-se de carruagem que nada tinha de "criação semimaterial", que a necessidade dos métodos educativos do Além impõe, mas de um muito pesado e confortável meio de transporte que bem poderia pertencer à própria Terra.
Vimos que atravessavam estradas sombrias, gargantas cobertas de
plúmbeas nevadas, desfiladeiros, vales lamacentos quais brejais desoladores, cuja visão nos deixavam inquietos, pois asseveravam nossos atenciosos assistentes serem tais panoramas produtos mentais viciados dos homens terrenos e de infelizes Espíritos
desencarnados, arraigados às manifestações inferiores do pensamento. Os viajantes, porém, atingiam agrupamentos como aldeias miseráveis, habitadas por entidades pertencentes aos planos ínfimos do Invisível, bandoleiros e hordas de criminosos
desencarnados, os quais investiam sobre a carruagem, maldosos e enraivecidos, como desejando atacá-la por adivinharem no seu interior criaturas mais felizes que elas próprias. Mas a flâmula alvinitente, indiciando o emblema da respeitável Legião, fazia-os
recuar atemorizados. Muitos desses futuros arrependidos e regenerados - pois tendiam todos ao progresso e à reforma moral por derivarem, como as demais criaturas, do Amor de um Criador Todo Justiça e Bondade - descobriam-se como se homenageassem o
nome respeitável evocado pela flâmula, ainda conservando o hábito, tão comum na Terra, do chapéu à cabeça, enquanto outros se afastavam em gritos e lágrimas, proferindo  blasfêmias e imprecações, causando-nos pasmo e comiseração... E o carro prosseguia sempre, sem que seus ocupantes se dirigissem a nenhum deles, certos de que não soara ainda para seus corações endurecidos no mal o momento de serem socorridos para
voluntariamente cogitarem da própria reabilitação.
De súbito, brado uníssono, conquanto discreto, exalou-se de nossos peitos qual soluço de saudade enternecedora, vibrando docemente pela enfermaria: - Portugal! Pátria venerada! Portugal!...
- Oh! Deus do Céu!... Lisboa! O Tejo formoso e sobranceiro!... O Porto! O Porto de tão gratas recordações!...
- Obrigado, Senhor Deus!... Obrigado pela mercê de revermos o torrão natal depois de tantos anos de ausência e de tumultuosas saudades!...
E chorávamos enternecidos, gratamente emocionados! Paisagens
portuguesas, com efeito, todas muito queridas aos nossos doloridos corações, rodeavam-nos como se, tal como afirmaram de inicio os mentores presentes, fizéssemos parte da comitiva do pobre Jerônimo!
Radicando-se mais em nós a sugestão consoladora pela excelência do receptor, mais se acentuavam em nossas faculdades a impressão de que pessoalmente pisávamos o solo português, quando a verdade era que não saíramos do Hospital!...
A silhueta, a princípio longínqua, da cidade do Porto, desenhou-se
palidamente nas brumas tristonhas que envolvem a atmosfera terráquea, qual desenho a "crayon" sobre tela acinzentada. Alguns instantes mais e a estranha caravana caminhava pelas ruas da cidade, qual o fizesse no cantão da Vigilância, o que muito nos edificou.
Algumas artérias portuguesas, velhas conhecidas do nosso tumultuoso passado, desfilaram sob nossos olhos róridos de comovido pranto, como se também por elas transitássemos. Agitadíssimo, Jerônimo, pressentindo a realidade daquilo que ominosas angústias lhe segredavam ao senso, e que apenas a insânia do pavor ao inevitável teimava inutilmente acobertar, estacou à frente de uma residência de boa aparência, com jardins e sacadas, subindo precipitadamente a escadaria, enquanto os tutelares se predispunham caridosamente à espera.
Fora ali a sua residência. O antigo comerciante de vinhas entrou desembaraçadamente, e seu primeiro impulso de afeto e saudade foi para a filha caçula, por quem nutria a mais apaixonada atração:
"- Margaridinha, oh! minha filhinha querida! Aqui está o teu papai,
Margaridinha!... Mar-ga-ri-di-nha?!..." - tal qual lhe chamava outrora, todas as tardes, voltando ao lar após as lides penosas do dia... Mas ninguém acudia aos seus amorosos apelos! Apenas a indiferença, a solidão decepcionante em derredor, augurando desgraças porventura ainda mais rijas do que as suportadas por seu coração até ali, enquanto nas profundezas sentimentais de
sua alma atormentada por múltiplos dissabores atroavam desoladoramente os brados amorosos, mas inúteis, do seu carinho de pai, incorrespondidos agora pela mimosa criança já afastada daquele local, que tão querido lhe fora! "- Margaridinha!... Onde estás, filhinha?... Margaridinha!... Olha que é o teu
papaizinho que chega, minha filha!..."
Procurou por toda a casa. Parecia, no entanto, que haviam desaparecido de sob a luz do Sol todos aqueles pedaços sacrossantos de sua alma, que ali deixara, e que,
único sobrevivente, ele, de incomensurável catástrofe, não se podia acomodar à esmagadora realidade de rever desabitado, dramaticamente vazio, o lar que tanto
estremecera!
Chamou pela esposa, nomeou os filhos um a um, e finalmente bradou pelos criados: - Não via ninguém!
Sombras e vultos estranhos, no entanto, moviam-se pelos compartimentos que pertenceram à família e deixavam-no bramir e interrogar sem se dignarem responder, não se apercebendo de sua presença... pois tratava-se de indivíduos encarnados, eram
os novos habitantes da casa que lhe pertencera! O próprio mobiliário, a decoração
interior, tudo se apresentava diferente, apontando acontecimentos que o confundiam.
Decepção pungente desferiu-lhe golpe certeiro, deslocando-lhe da alma o primitivo
entusiasmo para que aflitivas induções nela mais se avigorassem. Reparando suspensas
aos muros de determinado aposento telas que lhe eram desconhecidas, seu olhar fixouse
num cromo colocado a um ângulo da estufa, cuja folhinha indicava a data do dia
decorrente. Leu-a: - 6 de novembro de 1903.
Um arrepio de terror insopitável repassou soturnamente por suas faculdades vibratórias. Fez um esforço inaudito, movimentando reminiscências; vasculhou  lembranças, sacudindo a poeira mental de mil idéias confusas que lhe toldavam a clareza
do raciocínio. A vertigem da surpresa em face da realidade irremediável, que até ali ele retardara à custa da má-vontade de sofismas ingênuos, tonteou-lhe o raciocínio: - não
cogitara inteirar-se de datas durante muito tempo! A verdade era que perdera a noção do tempo envolvido no bulcão das desgraças que o colheram após o malfadado gesto de trânsfuga da vida terrena! Tão agudo fora o estado de loucura em que se debatera desde o trágico momento em que tentara o suicídio; tão grave a enfermidade que o atingira após o choque pela introdução do projétil no cérebro, que, graças aos tormentos daí consequentes, perdera a contagem dos dias, desviara-se pelo Desconhecido a dentro sem mais averiguar se os dias eram noites, se as noites eram dias... pois, no abismo em que se vira aprisionado tanto tempo, só existiam trevas por visão! Para ele, para sua percepção obliterada pelo desespero, a contagem social do Tempo ainda era a mesma do
dia aziago, pois não se recordava de outra depois dessa: - 15 de fevereiro de 1890 -Eis, porém, que a folhinha à sua frente, indiferente, mas expressiva, servindo a uma grandiosa causa, revelava ao mártir que estivera ausente de sua casa durante
treze anos!
Atirou-se para a rua em correria, batido e apavorado frente ao choque do pretérito, de encontro à realidade do presente, a mente conflagrada por inalienável desconsolo. Indagaria dos vizinhos o paradeiro da família, que se mudara, decerto, em sua ausência. Os lanceiros, porém, à porta, cruzando as armas, formaram barreira
intransponível, interceptando-lhe a fuga impensada, e obrigando-o a refugiar-se no interior do carro. Aos protestos impressionantes do infeliz, inconformado com a prisão em que se reconhecia, acudiram curiosos e vagabundos do plano invisível, Espíritos ainda
homiziados nas camadas depressoras da Terra. Entre chacotas, apupos e gargalhadas atormentavam-no com incriminações e censuras, ao passo que esclareciam o que acontecera àqueles a quem procurava. Ramiro de Guzman e seus auxiliares não
interferiram, no sentido de evitarem a Jerônimo o dissabor de ouvi-los, uma vez que a visita decorria sob a responsabilidade deste, e que somente lhes haviam recomendado garantirem o regresso à Colônia dentro de poucas horas. "- Pretendes então esclarecer o paradeiro de tua muito amada família, ó miserável príncipe dos bons vinhos?!. .. - vociferavam os infelizes. - Pois saibas tu que daí
foram todos enxotados, há muitos anos!... Teus credores tomaram-lhes a casa e o pouco que, para teus filhos, andaste ocultando à última hora! Procura teu filho Albino na Penitenciária de Lisboa! Tua "Margaridinha" nas sarjetas do Cais da Ribeira, vendendo
peixes, fretes e amores a quem se dignar remunerá-la com mais prodigalidade, explorada pela própria mãe, tua esposa Zulmira, a quem habituaste a luxo exorbitante para as tuas posses, e cujo orgulho jamais pôde afazer-se ao trabalho digno e à pobreza!... Tuas filhas  Maneta e Arinda?... Oh! a primeira está casada, sobrecarregada de filhos enfermiços, a bracejar na miséria, a sofrer fome, espancada por um marido ébrio e boçal... A segunda...
chada de hotéis de quinta ordem, a lavar chão, a brunir panelas, a limpar botas de viajantes imundos!... Ouves e te espantas?... Tremes e te aterrorizas?... Por quê?... Que esperavas, então, que acontecesse?!... Não foi essa a herança que lhes deixaste com o
teu suicídio, canalha?!..."
E entraram a enxovalhar o desventurado com insultos e vitupérios quais vaias impiedosas, intentando atacar a viatura a fim de arrebatá-lo, no que foram impedidos pela guarda protetora.
Não obstante, exigiu o rebelde pupilo da Legião dos Servos de Maria que o levassem onde se encontrava o filho, esperança que fora da sua vida, aquele rebento querido, que ficara na florescência delicada das dez primaveras quando ele próprio, seu pai, houvera por bem abandoná-lo aos perigos da orfandade, matando-se.
Convulsionado sob a ardência de pranto insólito, compreendeu que era conduzido e que penetrava os muros sinistros de um cárcere, sem que houvesse podido distinguir se se encontrava no Porto ou realmente em Lisboa. Com efeito! Ali estava Albino, metido em cela sombria, implicado em crimes de chantagem e latrocínio, condenado a cinco anos de prisão celular e a outros tantos de
trabalhos forçados na África, como reincidente nas gravíssimas faltas! Apesar da diferença marcante de treze anos de ausência, Jerônimo reconheceu o filho, esquálido, pálido, maltratado pelos rigores do cativeiro, embrutecido pelos sofrimentos e pela
miséria, atestado patético do homem desvirtuado pelos vícios!
O antigo negociante contemplou o mísero vulto sentado sobre um banco de pedra, na semi-obscuridade da cela, o rosto entre as mãos. Dos olhos amortecidos, fitos nas lajes do chão, rolavam lágrimas de desespero, compreendendo o suicida que o jovem sofria profundamente. Extenso desfilar de pensamentos caliginosos corria pela mente do cativo, e, dada a circunstância da atração magnética existente entre ambos, pôde o hóspede do Hospital Maria de Nazaré inteirar-se das comovedoras peripécias que ao desventurado moço haviam arrastado a tão deplorável ocaso da vida social, apenas saíra 
da infância! Como se a presença da atribulada alma de Jerônimo impregnasse de advertências telepáticas seus dons sensíveis, Albino entrou a recordar, satisfazendo, sem o saber, os desejos do pai, que almejava inteirar-se dos acontecimentos; e, como envergonhado das más ações cometidas, recordava o genitor morto havia treze anos e ia dizendo ao próprio pensamento, enquanto as lágrimas lhe escaldavam as faces e Jerônimo ouvia-o como se falasse em voz alta: "- Perdoai-me, Senhor, meu bom Deus! E vinde com Vossa Misericórdia socorrer-me nesta emergência penosa de minha vida! Não foi, exatamente, desejo meu o precipitar-me neste báratro insolúvel que me ferreteou para sempre! Eu quisera ser bom,
meu Deus! mas faltaram amigos generosos que me estendessem mãos salvadoras, ocasiões favoráveis que me dilatassem perspectivas honestas! Vi-me lançado ao abandono depois da morte de meu pai, criança indefesa e inexperiente! Não tive recursos
para instruir-me, habilitando-me em alguma coisa séria e digna! Sofri fome! E a fome maltrata o corpo enquanto envenena o coração com as ansiedades da revolta! Tiritei de frio em mansardas inóspitas, e o frio, que enregela o corpo, também enregela o coração! 
Sofri a angústia negra da miséria sem esperança e sem tréguas, a solidão do órfão corroído de saudades do passado, envelhecido em pleno alvorecer da vida, graças às desilusões de múltiplos dissabores! Não me pude achegar aos bons, aos honestos e
respeitáveis, para que me compreendessem e ajudassem na conquista laboriosa de um futuro digno, porque aqueles de nossos antigos amigos a quem procurei, confiante, me repeliram com desconfiança, entendendo que eu pertencia a uma descendência marcada pela desonra, pois, além do mais, minha mãe desvirtuou-se tão logo se reconheceu desamparada e só! Tornei-me homem depois de me entrechocar com os piores aspectos e elementos da sociedade! Precisei viver! Acicatava-me o orgulho ferido, a indomável ambição de libertar-me da miséria abominável que me acossava sem tréguas desde o suicídio de meu pobre pai! Vi-me arrastado a tentações perversas, mas que, à minha ignorância e à minha fraqueza, se afiguravam soluções salvadoras!... E cedi às suas seduções, porque não tive o amparo orientador de um verdadeiro amigo a indicar o carreiro certo a preferir!... Oh, meu Deus! Que triste é ver-se a criatura órfã e abandonada, ainda na infância, neste mundo repleto de torpezas! ...Meu pobre e querido
pai, por que te mataste, por quê?...Não amavas então a teus filhos, que se desgraçaram com tua morte?... Por que te mataste, meu pai?... Oh! não tiveste sequer compaixão de nós?...Lembro-me tanto de ti!... Eu te amava! eu amo... Muitas vezes, naqueles primeiros tempos, chorei inconsolável, com saudades tuas, tão bondoso eras para com teus filhos!... Se nos amavas, por que te mataste, por quê?... Por que preferiste morrer, lançarnos
à miséria e ao abandono, a lutar por amor de nós?... Por que não resististe aos dissabores, prevendo que tua falta desgraçaria teus pobres filhos que só contigo contavam neste mundo?... Se viveras e nos houveras terminado a criação eu seria hoje, certamente, um homem útil, respeitado e honesto, enquanto que, na verdade, não passo de um precito maculado pela desonra irreparável!..."
Eram vibrações sombrias e causticantes, que repercutiam na consciência do pai-suicida como estiletes a lhe rasgarem o coração! Confessava-se culpado único dos desastres insolúveis do filho, e semelhante convicção se dilatava de intensidade, em
diástoles torturantes, à proporção que as recordações, emergindo das fráguas mentais de Albino, desfilavam quais retalhos de episódios dolorosos, aos seus olhos aterrados de
trânsfuga do Dever! Jamais um homem, na Terra, receberia tão significativo libelo acusatório, presente ao tribunal da lei, como esse que o desventurado suicida a si mesmo lançava validando a narração dos infortúnios descritos através das reminiscências do
filho, e que as sombras do presídio circundavam dos lúgubres atavios dos dramas profundos e irremediáveis!
Desorientado, precipitou-se para o jovem, no incontido desejo de ressarcir tantas e tão profundas amarguras como testemunho de sua presença, do seu perene interesse paternal, seu indissolúvel amor pronto a estirar mão amiga e protetora. Queria desculpar-se, suplicar perdão, ele, o pai faltoso, dar-lhe expressivos conselhos que o reconfortassem, reerguendo-lhe o ânimo daquela ruinosa prostração! Mas era em vão que
o tentava, porque Albino deixava correr o pranto, sem vê-lo, sem ouvi-lo, sem poder supor a presença daquele mesmo por quem chorava ainda! Então o mísero se pôs a chorar também, emitindo vibrações chocantes, reconhecendo-se impotente para socorrer o filho encarcerado. E como sua presença, expedindo desalentos, disseminando ondas nocivas de pensamentos dramáticos, poderia
agir funestamente sobre a mentalidade frágil do detento, sugerindo-lhe quiçá o próprio desânimo gerador do suicídio - Ramiro de Guzman e seu assistente aproximaram-se e desarmaram-lhe as investidas encobrindo Albino de sua visão. "- Voltemos para nossa mansão de paz, meu amigo, onde encontrarás repouso e solução suave para as tuas atrozes penúrias... - ponderava amigavelmente o
chefe da expedição. - Não recalcitres! Volta-te para o Amor dAquele que, pregado no cimo do madeiro, ofereceu aos homens, como aos Espíritos, os ditames da conformidade no infortúnio, da resignação no sofrimento!... Estás cansado... precisas serenar para
refletir, porque, no melindroso estado em que te encontras, nada alcançarás fazer a benefício de quem quer que seja!..."
Mas, ao que tudo indicava, Jerônimo ainda não padecera suficientemente a fim de se acomodar às advertências de seus guias espirituais. "- Não posso, queira desculpar-me, senhor!... - bradou voluntarioso. - Não deixarei de ver minha filha, minha Margaridinha! Quero vê-la! Preciso desmascarar a
turba de maledicentes que a vêm difamando!... A minha caçula, atirada ao Cais da Ribeira?!... A vender peixes?... Fretes?... e... Era o que faltava!... Impossível! Impossível tanta desgraça acumulada sobre um só coração!... Não! Não é verdade! Não pode ser
verdade! Confio em Zulmira! .É mãe! Velaria pela filha em minha ausência! Quero vê-la, meu Deus! meu Deus! Preciso ver minha filha! Preciso ver minha filha, ó Deus do Céu!"
Era bem certo, no entanto, que novas e mais atrozes torrentes de decepções se despejariam sobre seu ulcerado coração, superlotando-o de dores irreparáveis!
Ainda ao longe, desenhara-se à visão ansiosa do estranho peregrino a perspectiva do Cais da Ribeira, regurgitando de pessoas que iam e vinham em azafamas incansáveis. Avultavam as vendedoras e regateiras, mulheres que se alugavam a fretes, de ínfima educação e honestidade duvidosa. Jerônimo pôs-se a caminhar entre os transeuntes, seguido de perto pelos guardas e o paciente vigilante, ue se diria a sua própria sombra. Esmagadores 
pressentimentos advertiam-no da veracidade do que afirmavam os "difamadores". Mas, desejando mentir a si próprio, na suprema repugnância de aceitar a abominável realidade,
via-se compelido a investigar as fisionomias das regateiras; ia, voltava, nervosamente, aflito, aterrado à idéia de se lhe deparar entre aquelas despreocupadas e insolentes criaturas as feições saudosas da sua adorada caçula!
Deteve-se subitamente, num recuo dramático de alarme: - acabara de reconhecer Zulmira gesticulando, em discussão acalorada com uma jovem loira e delicada, que se defendia, chorando, das injustas e insofríveis acusações que lhe eram atiradas por aquela. Acercou-se apressadamente o pupilo do nobre Teócrito, como impelido por desesperadora diástole, para, em seguida, atingido por supremo golpe, estacar, submisso a sístole não menos torturante, reconhecendo na jovem chorosa a sua Margaridinha.
Era, com efeito, peixeira! Ao lado pousavam os cestos quase vazios. Trazia os vestidos típicos da classe e sacos imundos. Zulmira, ao contrário, trajava-se quase como as senhoras, o que não a impedia portar-se como as regateiras.
Girava em torno da féria do dia a discussão vergonhosa. Zulmira acusava a filha de roubar-lhe parte do produto das vendas, desviando-a para fins escusos. A moça protestava entre lágrimas, envergonhada e sofredora, afirmando que nem todos os
fregueses do dia haviam solvido seus débitos. No calor da discussão, Zulmira, excitando se mais, esbofeteia a filha, sem que as pessoas presentes parecessem admiradas ou
tentassem impedir a violência, serenando os ânimos.
Tomado de indignação, o antigo comerciante interpõe-se entre uma e outra, no intuito de sanar a cena deplorável. Admoesta a esposa, fala carinhosamente à filha, enxuga-lhe o pranto, que corria pelas faces, convida-a a recolher-se ao domicílio. Mas nenhuma das duas mulheres podiam vê-lo, não podiam ouvi-lo, não se apercebiam de
suas intenções, o que grandemente o irritava, levando-o a convencer-se da inutilidade das próprias tentativas.
Não obstante, Margaridinha suspendeu os cestos, ajeitou-os ao ombro e afastou-se. Zulmira, a quem as adversidades mal suportadas e mal compreendidas  haviam arrastado ao desmando, transformando-a em megera ignóbil, seguiu-a enraivecida, explodindo em vitupérios e insultos soezes.
O percurso foi breve. Residiam em sombria mansarda, nas imediações da Ribeira. Em chegando ao misérrimo domicílio, a mãe desumana entrou a espancar
excruciante mente a pobre moça, exigindo-lhe a todo custo a totalidade da féria, enquanto, impotente, a peixeira implorava trégua e compaixão. Finalmente, a desalmada - para quem o Espírito atribulado do esposo leal trouxera, das moradas do Astral, um ramalhete de rosas - saiu precipitadamente, arrastando ondas turvas de ódio e pensamentos caliginosos, atirando aos ares insultos e blasfêmias no calão que, agora, lhe era próprio, e
do qual Jerônimo se surpreendeu, confessando desconhecê-lo.
A jovem ficou só. A seu lado o vulto invisível do pai amoroso e sofredor entregava-se a cruciantes expansões de pranto, reconhecendo-se impossibilitado de socorrer o adorado rebento do seu coração, a sua Margaridinha, a quem entrevia ainda,
mentalmente, tão loira e tão linda, na lirial candidez dos sete anos!... Mas, tal como sucedera a seu irmão Albino, a infeliz menina ocultou o rosto lavado em lágrimas entre as mãos e, sentando-se a um recanto, rememorou dolorosamente os dias trevosos da sua tão curta e já tão acidentada vida!
Margarida abriu as comportas dos pensamentos, e ondas de recordações pungentes se desprenderam aos borbotões, fazendo ciente ao pai o extenso calvário de desventura que passara a palmilhar desde o dia nefasto em que ele se tornara réu
perante a Providência, furtando-se ao dever de viver a fim de protegê-la, tornando-a mulher honesta e útil à sociedade, à família e a Deus. Ouvia-a como se ela lhe falasse em voz alta. À proporção que se consolidavam as desgraças da mísera órfã, acentuavam-se
a decepção, a surpresa cruciante, a mágoa inconsolável, que lhe atravessavam o coração como venábulos assassinos a lhe roubarem a vida! Caiu de joelhos aos pés da sua desventurada caçula, as mãos cruzadas e súplices, enquanto jorrava o pranto convulsamente de sua alma de precito e tremores traumáticos sacudiam-lhe a
configuração astral, como se estranhas sezões pudessem subitamente atingi-lo. 
E foi nessa humilhada posição de culpa que o pupilo da legião excelsa recebeu o supremo castigo que as conseqüências do seu ominoso e selvagem gesto de suicídio poderia infligir à sua consciência! 
Eis o resumo acerbo do drama vivido por Margarida Silveira, tão comum nas sociedades hodiernas, onde diariamente pais inconscientes desertam da responsabilidade
sagrada de guias da Família, onde mães vaidosas e levianas, destituídas da auréola sublime que o dever bem cumprido confere aos seus heróis, desvirtuam-se aos solavancos brutais das paixões insanas, incontidas pela perversão dos costumes.
Tornando-se órfã de pai aos sete anos, a loira e linda Margaridinha, frágil e delicada como lírios florescentes, criara-se na miséria, entre revoltas e incompreensões, junto à mãe que, habituada à imoderação de insidioso orgulho, como ao imperativo de
vaidades funestas, nunca se resignara à decadência financeira e social que a surpreendera com o trágico desaparecimento do marido. Zulmira prostituíra-se, esperando, em vão, reaver o antigo fastígio por essa forma culposa e condenável.
Arrastara a filha inexperiente para a lama de que se contaminara. Indefesa e   desconhecedora das insídias brutais dos ambientes e hábitos viciados que a corvejavam, a moça sucumbiu muito cedo às teias do mal, a despeito de não apresentar pendores
para as miseráveis situações diariamente surgidas. A decadência chegou cedo, como cedo havia chegado a queda desonrosa. O trabalho exaustivo e o Cais da Ribeira com sua usual movimentação de feira ofereceram-lhes recursos para não se extinguirem, ela e
a mãe, às aspérrimas torturas da fome! Zulmira agenciava fretes, vendas variadas, negócios nem sempre honestos, empregando geralmente na sua execução as forças e a
juventude atraente da filha, a quem escravizara, usurpando lucros e vantagens para seu exclusivo regalo. A pobre peixeira, porém, cuja índole modesta e aproveitável não se aclimatava ao fel da execrável subserviência, sofria por não entrever possibilidade de
sonegação à miserável existência que lhe reservara o destino. E, inculta, inexperiente, tímida, não saberia agir em defesa própria, o que a fazia conservar-se submissa à enoitada situação criada por sua própria mãe! Como Albino, também pensou no pai,
advertida, no recesso do coração, da sua invisível presença, e murmurou, oprimida e arquejante:
"- Que falta tão grande tu me fazes, ó meu querido e saudoso pai!... Lembrome tanto de ti!... e minhas desventuras nunca permitiram olvidar tua memória, tão bom e desvelado foste para com teus filhos! Quantos males o destino ter-me-ia poupado, meu
pai, se te não houveras furtado ao dever de velar por teus filhos até o final!... De onde estiveres, recebe as minhas lágrimas, perdoa a peçonha que sobre teu nome involuntariamente lancei, e compadece-te das minhas ignóbeis desditas, ajudando-me a
desentrançar-me deste espinheiro cruciante que me sufoca sem que nenhuma fulguração de esperança libertadora venha encorajar-me!..." 
Era o máximo que o prisioneiro do Astral poderia suportar! Ele não possuía energias para continuar sorvendo o fel das amarguras lançadas no sacrossanto seio de  sua própria família pelo ato condenável que contra si mesmo praticara! Ouvindo os
lamentos da desgraçada filha a quem tanto estremecia, sentiu-se abominavelmente ferido  na mais delicada profundeza do seu coração paternal, onde infernais clamores de remorsos repercutiram violentamente, acordando em suas entranhas espirituais a dor
inconsolável, a dor redentora da mais sincera compaixão que poderia experimentar!
Desesperando-se, na impossibilidade de prestar à filhinha infeliz socorro imediato, de falar-lhe, ao menos, insuflando ânimo à sua alma com o consolo de sua presença, ou aconselhando-a, Jerônimo avolumou o padrão dos desatinos que lhe eram comuns e
entregou-se à alucinação, completamente influenciado pela loucura da inconformidade. Acorreram os lanceiros a imperceptível sinal de Ramiro de Guzman.
Cercaram-no, protegendo-o contra o perigo de possível evasão, afastando-o  apressadamente. Condoído em face dos infortúnios da jovem Margarida, Ramiro, que fora
homem, fora pai e tivera uma filha muito amada, porventura mais infeliz ainda, aproximouse carinhosamente e, pousando em sua fronte as mãos protetoras, transmitiu-lhe ao ser suaves eflúvios magnéticos, confortativos e encorajadores. Margaridinha procurou o leito  e adormeceu profundamente, sob a bênção paternal do servo de Maria... enquanto o suicida, debatendo-se entre o "choro e o ranger de dentes", suplicava que o deixassem socorrer, de qualquer modo, a filha ignobilmente ultrajada! Dominando-o, entretanto, com energia, a fim de que por um momento procurasse raciocinar, retorquiu o paciente guia: "- Basta de desatinos, irmão Jerônimo! Atingiste o máximo de desobediência e voluntariedade que nossa tolerância poderia aceitar! Não queres, pois,  compreender,
que coisa alguma poderás tentar em beneficio de teus filhos, enquanto não conquistares as qualidades para tanto imprescindíveis, e que a ti mesmo escasseiam?... Não entendes
que teus filhos, em lutas com provações aspérrimas, sucumbiriam fatalmente ao suicídio, como tu, se permanecesses junto deles, influenciando suas indefesas sensibilidades com as vibrações funestas que te são próprias, ainda não devidamente esclarecido quanto ao estado geral em que te debates, tal como te preferes conservar?... Partamos, Jerônimo! 

Regressemos ao Hospital... Ou desejarás, porventura, ainda sondar os passos de Marieta e de Arinda?!..."
Chocando-se como que sob a ação de forças renovadoras, o precito obteve um momento de trégua contra si mesmo, a fim de ponderar alguns instantes. Sacudiu as desesperadoras alucinações que lhe cegavam o raciocínio, e respondeu, resoluto:
"- Oh! não! Não, meu bom amigo! Basta! Não posso mais! Meus pobres
filhos! A que abismo vos arrojei, eu mesmo, que tanto vos amei!
Perdão, irmão Teócrito! Agora compreendo... Perdão, irmão Teócrito..." E, de nossa enfermaria, vimos que retornavam com as mesmas precauções... Jerônimo não voltou a fazer parte do nosso grupo.





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