sábado, 4 de maio de 2013

As primeiras reações


As primeiras reações


 Desfez-se assim, uma após outra, qualquer ilusão que alguém do grupo
eventualmente ainda estivesse nutrindo. A maioria de nós agora é tomada de algo
inesperado: humor negro! Sabemos que nada mais temos a perder a não ser uma
vida ridiculamente nua. Debaixo do chuveiro fazemos comentários engraçados, que
pretendem ser gracejos. Em atitude meio forçada, cada qual se diverte primeiro
consigo mesmo, depois também com os outros. Afinal, do chuveiro realmente sai
água!
 Além do humor negro aparece ainda outra sensação: de curiosidade. Conheço
essa reação numa outra área, como atitude básica em situações especiais na vida.
Sempre que eu estava em perigo de vida, em ocasiões anteriores - por exemplo, em
quedas, ao escalar montanhas, das quais me saíra bem - tive, durante frações de
segundos, a mesma atitude frente ao que repentinamente estava sucedendo:
curiosidade - vontade de saber se eu escaparia com vida ou não, com uma fratura
na base do crânio ou em outro lugar, etc. Também em Auschwitz dominava esse
espírito de curiosidade praticamente fria, que distancia as pessoas do seu mundo,
fazendo-as encará-lo com objetividade. Com a atitude de observar e esperar, a alma
retrai-se e procura salvar-se para outro lugar. Estávamos curiosos por saber o que
aconteceria agora e quais seriam as conseqüências. Por exemplo, as conseqüências
de se ficar completamente nu e molhado ao ar livre no frio do outono avançado. E
nos dias seguintes a curiosidade cedeu lugar à surpresa; surpresa, por exemplo, de
não se pegar um resfriado.
 Mas são muitas as surpresas triviais que ainda aguardam o prisioneiro recémchegado. Quem é ligado à medicina aprende sobretudo uma coisa: os compêndios
mentem! Em algum livro de estudo constava que a pessoa não consegue agüentar
mais que determinado número de horas sem dormir. Eu mesmo tinha a convicção de
que havia certas coisas que eu simplesmente não conseguiria fazer. Não poderia
dormir "caso não. . ." Não conseguiria viver "sem. . ." Na primeira noite em
Auschwitz, dormi em beliches de três andares, e em cada andar (medindo mais ou
menos 2x2x5m) dormiam nove pessoas, em cima de tábua pura; e para cobrir-se,
havia dois cobertores para cada andar, isto é, para nove pessoas. Naturalmente só
podíamos nos deitar de lado, apertados e forçados um contra o outro, o que, por
outro lado, face ao frio reinante no barracão sem calefação, não deixava de ter suas
vantagens. Não era permitido levar sapatos para os beliches. Em grave infração ao
código, um ou outro os usava à guisa de travesseiro, mesmo estando totalmente
enlameados. No mais, nada nos restava senão apoiar a cabeça sobre o braço,
mesmo que quase o destroncasse. Mas o sono leva consigo o estado consciente,
eliminando também o dolorido da posição.
 Outras coisas surpreendentes que se consegue fazer: passar meses ou anos no
campo de concentração sem escovar os dentes, e mesmo assim ter uma gengiva
em estado melhor que nunca, apesar da considerável deficiência de vitaminas. Ou
usar a mesma camisa durante metade de um ano, até ela ficar completamente
irreconhecível; não poder lavar-se de forma alguma, nem parcialmente, por estar
congelada a água nos canos do lavatório; não ficar com pus nas mãos feridas e
sujas de trabalhar na terra (claro, enquanto não houvesse sintomas de
congelamento). Uma pessoa de sono leve, que costumava acordar com o menor
ruído no quarto ao lado, aperta-se agora contra um companheiro que ronca a plenos

pulmões a poucos centímetros de seu ouvido e consegue cair em sono profundo
logo depois de deitar. Então nos dávamos conta da verdade daquela frase de
Dostoievski, que define o ser humano como o ser que a tudo se habitua. Podem
perguntar-nos. Nós sabemos dizer até que ponto é verdade que a pessoa a tudo se
acostuma, sem dúvida! Mas ninguém pergunte de que modo. . .
"Entrar no fio?" 
 A nossa investigação psicológica, no entanto, ainda não havia chegado até lá, nem
tampouco nós, prisioneiros, já atingíramos este ponto no curso dos eventos.
Estávamos ainda na primeira fase da reação psicológica. Face à situação sem
saída, ao perigo de morte a nos espreitar a cada dia; a cada hora e minuto, face à
proximidade da morte de outros, da maioria, era natural que quase todos pensassem
em suicídio, mesmo que apenas por um momento. Em virtude de certa convicção
pessoal, que se esclarecerá adiante, na primeira noite em Auschwitz, pouco antes
de adormecer, fiz a mim mesmo a promessa, uma mão apertando a outra, de não "ir
para o fio". Esta expressão, corrente no campo, designava o método usual de
suicídio: tocar no arame farpado, eletrificado em alta tensão. Tomar a decisão
negativa de não "ir para o fio" não era difícil. Afinal de contas, a tentativa de suicídio
não fazia muito sentido. O mero cálculo de probabilidade, a "expectativa de vida"
estatística praticamente excluía o prisioneiro comum do minguado percentual
daqueles que ainda sobreviveriam às seleções vindouras, dos mais diversos tipos.
Em Auschwitz, o internado em estado de choque não tem medo algum da morte.
Nos primeiros dias de sua estada, a câmara de gás nem de longe representa um
horror. Para ele, o gás é algo que o poupa de cometer suicídio.
 A julgar por repetidas manifestações de companheiros, o choque da recepção não
chegou a me abater muito. Isso eu admito. Mesmo assim, somente pude dar um
sorriso, e bem sincero, quando, na manhã após a primeira noite em Auschwitz,
sucedeu o que vou contar. Durante o período em que era proibido sair da barraca
sem incumbência expressa, um conhecido colega que chegara a Auschwitz
semanas antes de nós, infiltrou-se em nossa barraca. Queria tranqüilizar-nos, dar
esclarecimento e consolo. Magro a ponto de não o reconhecermos logo, mas
mostrando-se bem disposto e despreocupado, forneceu-nos algumas dicas: "Não
tenham medo! Não se preocupem com as seleções! Médicos têm mais chance com
o M." (que era médico-chefe da SS. Não era verdade, porém não quero entrar no
mérito da questão, nem quão diabólica era essa aparência que se dava o
mencionado "médico". O médico do bloco, prisioneiro como nós, homem de uns
sessenta anos, contou-nos que implorara ao doutor M. que poupasse seu filho,
destinado à câmara de gás. O doutor M., entretanto, lho negou fria e
terminantemente.) "Só aconselho e peço uma coisa: vocês têm que fazer a barba,
todos os dias, seja de que jeito for, nem que seja com um caco de vidro. Mesmo que
vocês tenham que sacrificar o último pedaço de pão para que alguém faça a sua
barba. Vocês então parecem mais jovens, o rosto fica mais rosado depois de
raspado. Não fiquem doentes de jeito nenhum, nem com a aparência de doentes! Se
vocês querem continuar com vida, só há um jeito: darem a impressão de serem
capazes de trabalhar. Basta alguém ficar mancando por qualquer ferimento banal ou
quando o sapato está apertando. Se a SS vê alguém nesse estado, convoca-o com
um aceno, e no dia seguinte é certo que ele vai para a câmara de gás. Sabem o que
nós chamamos de `muçulmano'? Uma triste figura, um decrépito de jeito adoentado
e magro que não agüenta mais trabalho pesado. Mais cedo ou mais tarde,
geralmente em seguida, todo muçulmano acaba na câmara de gás! Por isso repito

vocês têm que fazer a barba, têm que andar com compostura! Então não precisam
ter medo da câmara de gás. Assim como vocês estão parados na minha frente,
mesmo só com vinte e quatro horas de vida no campo, vocês todos não precisam ter
medo algum da câmara de gás, afora talvez um: você”, e apontou para mim. "Você
não vai ficar brabo comigo, não é? Mas eu digo isso abertamente para vocês. Só
mesmo ele, talvez", e acenou com a cabeça mais uma vez em minha direção,
"dentre vocês todos, só ele entra em cogitação na próxima seleção. Portanto, vocês
podem ficar tranqüilos!" Eu juro que naquela ocasião dei um sorriso, e estou convicto
de que qualquer outro na minha situação e naquele dia não teria reagido de outra
forma.
 Gatthold Ephraim Lessing foi quem disse uma vez: "Quem não perde a cabeça com
certas coisas é porque não tem cabeça para perder." Ora, numa situação anormal,
uma reação anormal simplesmente é a conduta normal. Também como psiquiatras
esperamos que uma pessoa, quanto mais normal for, reaja de modo mais anormal
ao fato de ter caído numa situação anormal, como seja, de ter sido internada num
manicômio. Também um prisioneiro, ao ser internado num campo de concentração,
demonstra um estado de espírito anormal, embora não deixe de ser uma reação
psicológica natural e, conforme ainda se mostrará, típica naquelas circunstâncias.
Apatia 
 O tipo de reação que acabamos de caracterizar começa a se alterar depois de
poucos dias. Após o primeiro estágio de choque, o prisioneiro passa para o segundo
estágio, a fase de relativa apatia. A pessoa aos poucos vai morrendo interiormente.
Afora as diversas reações emotivas acima descritas, o prisioneiro recém-internado
ainda experimenta, durante o primeiro período de sua estada no campo, outras
sensações extremamente torturantes, que passam a mortificá-lo. Surge, sobretudo,
indizível saudade de seus familiares. Uma saudade tão ardente que só resta uma
sensação: a de se consumir. Além disso há o nojo. O nojo de toda a fealdade que o
cerca, interior e exterior. Como a maioria dos seus companheiros, o prisioneiro está
"vestido" em farrapos tais, que a seu lado um espantalho teria ares de elegância.
Entre as barracas, no campo de concentração, há somente um lodaçal. E quanto
mais se trabalha em sua eliminação, tanto mais se entra em contato com a lama. É
justamente o recém-internado que costuma ser destacado para grupos de trabalho
nos quais terá que se ocupar com a limpeza de latrinas, eliminação de excrementos,
etc. Quando estes são transportados sobre terreno acidentado, geralmente não
escapamos de levar uns respingos do líquido abjeto; qualquer gesto que revele uma
tentativa de limpar o rosto, com certeza provocará uma bordoada do Capo, que se
irrita com a excessiva sensibilidade do trabalhador. A mortificação dos sentimentos
normais continua avançando. No começo o prisioneiro desvia o olhar ao ser
convocado, por exemplo, para assistir ao exercício coletivo de algum grupo. Por
enquanto ele não consegue suportar a cena de pessoas sendo sadicamente
torturadas, vendo companheiros subindo e baixando horas a fio na sujeira, ao ritmo
ditado a porrete. Passados alguns dias ou semanas, contudo, ele já reage de forma
diferente. De manhã cedo, ainda no escuro, está com o grupo de trabalho, pronto
para sair marchando numa das ruas do campo, frente ao portão de entrada; ouve
gritos, olha e observa como um companheiro seu é esmurrado até cair no chão, e
isto várias vezes. É levantado e sempre de novo derrubado a socos. Por quê?
Porque está ardendo em febre, mas só pôde pedir que controlassem a sua
temperatura à noite, fora do tempo hábil para dar baixa no ambulatório. Agora ele é

punido pela vã tentativa de receber baixa de manhã para não precisar marchar para
o trabalho externo. O recluso observador, em pleno segundo estágio de suas
reações psíquicas, não mais tenta ignorar a cena. Indiferente e já insensível, pode
ficar observando sem se perturbar.
 Outra: quando ele mesmo, à noite, fica se espremendo no ambulatório na
esperança de receber dois dias de "repouso", por causa de suas lesões ou de seu
edema, ou por causa de sua febre, de sorte que não necessita sair para o trabalho
durante esses dois dias, não se deixa perturbar ao ver um menino de uns doze
anos, para o qual não mais havia calçados no campo e que por isso fora obrigado a
ficar por horas a fio de pés descalços na neve, prestando serviços externos durante
o dia. Os dedos dos pés do menino estão crestados de frio, e o médico do
ambulatório arranca com a pinça os tocos necróticos e enegrecidos de suas
articulações. O nojo, o horror, o compadecimento, a revolta, tudo isso nosso
observador já não pode sentir nesse momento. Padecentes, moribundos e mortos
constituem uma cena tão corriqueira, depois de algumas semanas num campo de
concentração, que não conseguem sensibilizá-lo mais.
 Por certo tempo estive deitado num barracão em que estavam aquartelados os que
sofriam de tifo exantemático, em meio a pacientes com febre alta e em pleno delírio,
muitos deles às portas da morte. Mais um acaba de morrer. Que acontece pela
enésima vez, sim, pela enésima vez, sem despertar um mínimo de reação ou
sentimento? Fico observando como um companheiro depois do outro se aproxima
do cadáver ainda quente; um lhe surrupia o resto de batatas encardidas do almoço;
outro verifica que os sapatos de madeira do cadáver ainda estão um pouco
melhores que os seus próprios; um terceiro tira o manto do morto; outro, afinal, ainda
fica contente por surripiar um barbante - imagine. Fico olhando, apático. Finalmente
dou-me um empurrão e me animo a convencer o "enfermeiro" a levar o corpo para
fora do barracão (um galpão de chão batido). Quando ele resolve fazê-lo, pega o
cadáver pelas pernas, fá-lo rolar em direção ao estreito corredor entre as duas
fileiras de tábuas à esquerda e à direita, sobre as quais estão deitados os cinqüenta
enfermos acometidos da febre, para então arrastá-lo pelo chão acidentado até
chegar à porta do barracão. Dali sobe dois degraus para fora, em direção ao ar livre
- o que já é um problema para nós, debilitados pela fome crônica. Sem auxílio das
mãos, sem nos puxarmos para cima segurando nos postes, todos nós, que já
estamos há meses no campo, há muito não conseguimos mais levantar o próprio
peso do corpo somente com a força das pernas, para vencer esses dois degraus de
vinte centímetros. Agora o homem chega até ali com o cadáver. Com muito esforço
ele se alça primeiro, e depois o morto: primeiro as pernas, depois o tronco, e
finalmente o crânio, que dá lúgubres pancadas nos degraus. Logo em seguida é
trazido o barril com a sopa, que é distribuída e avidamente sorvida.
 O meu lugar fica em frente à porta, do outro lado da barraca, próximo da única
janelinha, um pouco acima do solo. Minhas mãos geladas se aconchegam à vasilha
quente da sopa. Enquanto sorvo seu conteúdo sofregamente, por acaso dou uma
espiada para fora da janela. Lá está o cadáver recém-tirado do barracão, a fitar a
janela de olhos esbugalhados. Há apenas duas horas eu estava conversando com
esse companheiro. Continuo tomando a sopa. Se eu não tivesse ficado espantado
com a minha própria insensibilidade, de certa forma por curiosidade profissional,
esta experiência nem se teria fixado em minha memória, de tão pouco sentimento
que o fato todo me despertou. CONTINUA,,,,,,,



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