quarta-feira, 22 de maio de 2013

CAPÍTULO III No Hospital "Maria de Nazaré"


CAPÍTULO III
No Hospital "Maria de Nazaré"
Depois de algum tempo de marcha, durante o qual tínhamos a impressão de estar vencendo grandes distâncias, vimos que foram descerradas as persianas, facultando-nos possibilidade de distinguir, no horizonte ainda afastado, severo conjunto
de muralhas fortificadas, enquanto pesada fortaleza se elevava impondo respeitabilidade e temor na solidão de que se cercava.  Era uma região triste e desolada, envolvida em neblinas como se toda a paisagem fora recoberta pelo sudário de continuadas nevadas, conquanto oferecendo possibilidades de visão. Não se distinguia, inicialmente, vegetação nem sinais de habitantes pelos arredores da fortaleza imensa. Apenas longas planícies brancas, colinas
salpicando.a vastidão, assemelhando-se a montículos acumulados pela neve. E ao fundo, plantadas no centro dessa nostalgia desoladora, muralhas ameaçadoras, a fortaleza
grandiosa, padrão das velhas fortificações medievais, tendo por detalhe primordial meia dúzia de torres cujas linhas grandemente sugestivas despertariam a atenção de quem por ali transitasse.
Funda inquietação percutiu rijamente em nossas sensibilidades, aviventando receios algo acomodados durante o trajeto.
Que nos esperaria para além de tão sombrias fronteiras?... Pois era evidente que para ali nos conduziam... Vista, a distância, a edificação apavorava, sugerindo rigores e disciplinas
austeras... Assaltou-nos tal impressão de poder, grandeza e majestade que nos sentimos ínfimos, acovardados só no avistá-la.
Aproximando-se cada vez mais, o comboio finalmente estacou fronteiro a um grande portão, que seria a entrada principal.
Para além da cornija, caprichosamente trabalhada, e urdida em letras  artísticas e graúdas, lia-se em idioma português esta inscrição já nossa conhecida, a qual, como por encanto, serenou nossa agitação logo que a descobrimos: Legião dos Servos
de Maria, seguindo-se esta indicação que, emocionante, compeliu-nos a novas apreensões: Colônia Correcional.
Sem resposta às indagações confusas do pensamento ainda lerdo e
atordoado pelas longas dilacerações que me vinham perseguindo havia muito, desobriguei-me de averiguações e deixei que os fatos seguissem livre curso, percebendo que meus companheiros faziam o mesmo.
Não faltava à fortaleza nem mesmo a defesa exterior de um fosso. Uma ponte desceu sobre ele e o comboio venceu o empecilho fazendo-nos ingressar
definitivamente nessa Colônia, não isentados, porém, de sérias preocupações quanto ao futuro que nos aguardava. De entrada, notamos pelas imediações numerosos militares,
qual se ali se aquartelasse um regimento. Entretanto, estes muito se assemelhavam aos antigos soldados egípcios e hindus, o que muito nos admirou. Sobre o pórtico da torre principal lia-se esta outra inscrição, parecendo-nos tudo muito interessante, como um
sonho que nos cumulasse de incertezas: Torre de Vigia.
Em que localidade estaríamos?... Voltaríamos a Portugal?... Viajaríamos  através de algum país desconhecido, enquanto a neve se espalhava dominando a  paisagem?...
Passamos sem estacionar por essa grande praça militar, certo de que se trataria de uma fortificação guerreira idêntica às da Terra, conquanto revestida de indefinível nobreza, inexistente nas congêneres que conhecêramos através da Europa,
pois não poderíamos, então, avaliar a verdadeira finalidade da sua existência naquelas regiões desoladas do Invisível inferior, cercadas de perigos bem mais sérios do que os  que poderíamos presumir.
Com surpresa verificamos que entrávamos em cidade movimentadíssima,
conquanto recoberta por extensos véus de neve, ou cerração pesada. Não fazia, porém, frio intenso, o que nos surpreendeu, e o Sol, mostrando-se a medo entre a cerração,
deixava ocasião não só para nos aquecermos, mas também para distinguirmos o que houvesse em derredor.
Edifícios soberbos impunham-se à apreciação, apresentando o formoso estilo português clássico, que tanto nos falava à alma. Indivíduos atarefados, neles entravam e deles saiam em afanosa movimentação, todos uniformizados com longos aventais
brancos, ostentando ao peito a cruz azul-celeste ladeada pelas iniciais: L. S. M.


Dir-se-iam edifícios, ministérios públicos ou departamentos. Casas
residenciais alinhavam-se, graciosas e evocativas na sua estilização nobre e superior, traçando ruas artísticas que se estendiam laqueadas de branco, como que asfaltadas de neve. A frente de um daqueles edifícios parou o comboio e fomos convidados a descer.
Sobre o pórtico definia-se sua finalidade em letras visíveis: Departamento de Vigilância
(Seção de Reconhecimento e Matrícula).
Tratava-se da sede do Departamento onde seríamos reconhecidos e
matriculados pela direção, como internos da Colônia. Daquele momento em diante estaríamos sob a tutela direta de uma das mais importantes agremiações pertencentes à
Legião chefiada pelo grande Espírito Maria de Nazaré, ser angélico e sublime que na Terra mereceu a missão honrosa de seguir, com solicitudes maternais, aquele que foi o redentor dos homens!
Conduzidos a um pátio extenso e nobre, que lembraria antigos claustros de Portugal, fomos em seguida transportados em pequenos grupos de dez individualidades, para determinado gabinete onde vários funcionários colaboravam nos trabalhos de
registro. Ali deixaríamos a identidade terrena, bem assim as razões que nos induziram ao suicídio, o gênero do mesmo como o local em que jazeram os despojos. Caso o recém chegado não estivesse em condições de responder, o chefe da expedição supriria
rapidamente a insuficiência, pois mantinha-se presente à cerimônia, dando contas ao diretor do Departamento da importante missão que acabava de desempenhar. Tão árduo trabalho, em torno de toda uma falange, levara quando muito dois quartos de hora,
porquanto os processos usados não eram idênticos aos conhecidos nas repartições terrenas. As respostas dos pacientes seriam antes gravadas em discos singulares, espécie de álbuns animados de cenas e movimentos, graças ao concurso de aparelhamentos magnéticos especiais. Tais álbuns reproduziriam até mesmo o som de
nossa voz, como nossa imagem e o prolongamento do noticiário sobre nós mesmos, desde que posto em contacto com admirável maquinismo apropriado ao feito, exatamente como discos e filmes na Terra reproduzem a voz humana e todas as demais variedades
de sons e imagens neles existentes e que devam ser retidos e conservados. Nossa identidade, portanto, era antes fotografada: as imagens emitidas por nossos pensamentos, no ato das respostas às perguntas formuladas, seriam captadas por processos que na ocasião escapavam à nossa compreensão.
Durante muito tempo perdemos de vista as mulheres que conosco haviam chegado ao Departamento de Vigilância. Os regulamentos da Colônia impunham a necessidade de separá-las de seus companheiros de desventura. 
Assim sendo, logo à chegada e imediatamente depois da matrícula, foram confiadas às damas funcionárias da Vigilância a fim de serem encaminhadas aos Departamentos Femininos. Desde, portanto, que nos matriculavam, éramos separados do elemento feminino.
Dentro em pouco, entregues a novos servidores, cujas operosidades se desenrolavam aquém dos muros da instituição, fomos compelidos ao ingresso em novos  meios de transporte, que tudo indicava serem para uso dos perímetros internos, porquanto nos cumpria continuar a marcha, iniciada desde o Vale.
Nossas viaturas agora eram leves e graciosas, iguais trenós ligeiros e
confortáveis, puxados pelas mesmas admiráveis parelhas de cavalos normandos, e com capacidade para dez passageiros cada um. Ao cabo de uma hora de corrida moderada, durante a qual deixávamos para trás o bairro da Vigilância, penetrando, por assim dizer, o
campo, porque avançando em região despovoada, conquanto as estradas se apresentassem caprichosamente projetadas, orladas de arbustos níveos quais flores dos Alpes, avistamos grandes marcos, como arcos de triunfo, assinalando o ingresso em novo
Departamento, nova província dessa Colônia Correcional localizada nas fronteiras invisíveis da Terra com a Espiritualidade propriamente dita.Com efeito. Lá estava a indicação necessária entestando a arcada principal, norteando o recém-chegado por auxiliá-lo no esclarecimento de possíveis dúvidas: Departamento Hospitalar.
A um e outro lado destacavam-se outras em que setas indicavam o início de novos trajetos, enquanto novas inscrições satisfaziam a curiosidade ou necessidade do viajante: A direita - Manicômio; à esquerda - Isolamento. Nossos condutores fizeram-nos ingressar pela do centro, onde também se
lia, em subtítulo: Hospital Maria de Nazaré.
Imenso parque ajardinado surpreendeu-nos para além dos marcos, enquanto amplos edifícios se elevavam em locais aprazíveis da situação. Padronizando sempre o estilo português clássico, esses edifícios apresentavam muita beleza e amplas sugestões
com suas arcadas, colunas, torres, terraços, onde flores trepadeiras se enroscavam acentuando agradável estética. Para quem, como nós, angustiados e miseráveis,
procedia das atrás regiões, semelhante localidade, não obstante insulsa, graças à inalterável brancura, aparecia como suprema esperança de redenção! E nem faltavam, aformoseando o parque, tanques com repuxos artísticos a esguicharem água límpida e
cristalina, a qual tombava em silêncio, cascateando mimosas gotas como pérolas, enquanto aves mansas, bando de pombos graciosos esvoaçavam ligeiros entre açucenas. Ao contrário das demais dependências hospitalares, como o Isolamento e o
Manicômio, o Hospital Maria de Nazaré, ou "Hospital Matriz", não se rodeava de qualquer barreira. Apenas árvores frondosas, tabuleiros de açucenas e rosas teciam-lhe graciosas
muralhas. Muitas vezes pensei, quando dos meus dias de convalescença, como seria arrebatadora a paisagem se a policromia natural rompesse o sudário níveo que tudo
aquilo envolvia entristecendo o ambiente de incorrigível monotonia! 
Fatigados, sonolentos e tristes, subimos a escadaria. Grupos de enfermeiros atenciosos, todos homens, chefiados por dois jovens trajados à indiana, assistentes do diretor do Departamento, os quais mais tarde soubemos chamarem-se - Romeu e Alceste,
receberam-nos das mãos dos funcionários da Vigilância incumbidos, até então, da nossa guarda, e, amparando-nos bondosamente, conduziram-nos ao interior.
Penetramos galerias magníficas, ao longo das quais portas largas e
envidraçadas, com caixilhos levemente azuis, deixavam ver o interior das enfermarias, o que vinha esclarecer que o enfermo jamais se reconheceria a sós. Nossos grupos separaram-se à indicação dos enfermeiros: - dez à direita... dez à esquerda... Cada
dormitório continha dez leitos alvíssimos e confortáveis, amplos salões com balcões para o parque. Forneceram-nos, caridosamente, banho, vestuário hospitalar, o que nos proporcionou lágrimas de reconhecimento e satisfação. A cada um de nós foi servido
delicioso caldo, tépido, reconfortante, em pratos tão alvos quanto os lençóis: e cada um sentiu o sabor daquilo que lhe apetecia. Fato singular: - enquanto fazíamos a refeição frugal, era o lar paterno que acudia às nossas lembranças, as reuniões em família, a
mesa da ceia, o doce vulto de nossas mães servindo-nos, a figura austera do pai à cabeceira... E lágrimas indefiníveis se misturaram ao alimento reconfortador... Num ângulo favorável aos dez leitos uma lareira aquecia o recinto, proporcionando-nos reconforto. E acima, suspensa ao alto da parede, que se diria
estruturada em porcelana, fascinante tela a cores, luminosa e como animada de vida e inteligência, despertou nossa atenção tão logo transpusemos os acolhedores umbrais.
Era um quadro da Virgem de Nazaré, algo semelhante ao célebre painel de Murilo, que eu
tão bem conhecia, mas sublimado por virtuosidades inexistentes entre os gênios da pintura na Terra!
Ao terminarmos a refeição, eis que dois varões hindus entraram em nosso compartimento, apresentando particularidades que os deixavam reconhecer como médicos. Faziam-se acompanhar de dois outros varões, os quais deveriam acompanharnos
durante toda a nossa hospitalização, pois eram responsáveis pela enfermaria que ocupávamos. Chamavam-se estes Carlos e Roberto de Canalejas, eram pai e filho, respectivamente, e, quando encarnados, haviam sido médicos espanhóis na Terra. Era no
entanto imperfeitamente que a todos eles percebíamos, dado o estado de debilidade em que nos encontrávamos. Dir-se-ia que sonhávamos, e o que vimos narrando ao leitor só podia ser por nós entrevisto como durante as oscilações do sonho...
Não obstante, os hindus aproximaram-se de cada um dos leitos, falaram docemente a cada um de nós, apuseram sobre nossas cabeças atormentadas as mãos
delicadas e tão níveas que se diriam translúcidas, acomodaram nossas almofadas, obrigando-nos ao repouso; cobriram-nos paternalmente, aconchegando cobertores aos nossos corpos enregelados, enquanto murmuravam em tonalidades tão carinhosas e sugestivas, que pesada sonolência nos venceu imediatamente:
- Necessitais de repouso... Repousai sem receio, meus amigos... Sois todos hóspedes de Maria de Nazaré, a doce Mãe de Jesus... Esta casa é dela..." E se conosco assim procederam, outros assistentes, certamente, o mesmo fizeram em torno dos demais componentes da trágica falange recolhida pelo Amor de Deus!
Ao despertar, depois de sono profundo e reparador, afigurou-se-me ter dormido longas horas, e de algum modo senti que o raciocínio se me aclarava, oferecendo maior possibilidade de entendimento e compreensão das circunstâncias.
Reconhecia-me de posse de mim mesmo, como desoprimido daquele estado mórbido de pesadelo, que tantas exasperações acarretava. Mas, ai de mim! Semelhante reconforto mental antes aprofundava do que balsamizava angústias, pois me compelia a examinar com maior dose de senso e serenidade a profundeza da falta que contra mim mesmo cometera! Ardente sentimento de desgosto, remorso, temor, desapontamento, coibia-me
apreciar devidamente a melhoria da situação. E incômoda sensação de vergonha chicoteava-me o pudor, gritando ao meu orgulho que ali me achava indevidamente, sem quaisquer direitos a me assistirem para tanto, unicamente tolerado pela magnanimidade
de indivíduos altamente caridosos, iluminados pelo vero amor de Deus!
Dúvidas amaríssimas continuavam remoinhando-me na mente. Não era possível que eu tivesse morrido. O suicídio absolutamente não me matara! Eu continuava
vivo e bem vivo!...
Que se passara, pois?... Meus companheiros de enfermaria e, por certo, todos os demais que integravam o extenso cortejo proveniente das escuridades do Vale, entregar-se-iam a idênticas elucubrações! Estampavam-se o assombro, o temor e o pesar
inconsolável naqueles semblantes desfigurados.
E, acompanhando a nova série de amarguras que nos invadia apesar da  hospitalização e do sono reconfortador, as dores físicas oriundas do ferimento que fizéramos continuavam supliciando nossa sensibilidade, como a lembrarem nosso estado irremediável de réprobos.
Eu e Jerônimo gemíamos de quando em quando, sob o imperativo do ferimento feito no ouvido pela arma de fogo que utilizáramos no momento trágico; Mário Sobral estorcia-se, o pescoço intumescido, a esbater-se em cacoetes periódicos contra a asfixia, pois enforcara-se; João d'Azevedo, retendo na mente torturada o envenenamento
do corpo que lá se consumira, sob o segredo do túmulo, chorava de mansinho, exigindo a visita médica; e Belarmino a esvair-se em sangue, o braço dolorido, entorpecido, já paralítico - oh! preludiando, desde aquele tempo, o drama físico que seria o seu, em
encarnação posterior - pois fora ao suicídio golpeando os pulsos!
Todavia o reconforto era sensível. Bastaria observássemos que já não víamos as cenas mentais de cada um, reproduzindo em figurações assombrosas o momento supremo, tal como sucedia no Vale, onde não existia outra paisagem. A enfermaria, muito confortável, dizia de como nos haviam bem instalado. Existiam mesmo traços de arte e beleza naqueles portais de caixilhos azuis, formados de substâncias polidas como a porcelana; naqueles reposteiros de rendilhados também azuis, nas

trepadeiras brancas que subiam pelos balcões, intrometendo-se a dentro do terraço,
como espionando nossas carantonhas dramáticas de réprobos colhidos em flagrante.
De chofre, a voz de um enfermo, nosso companheiro, quebrou o silêncio da
meditação em que mergulháramos o pensamento, externando as próprias impressões,
como se apenas para si falasse:
"- Cheguei à conclusão - disse, pausada e amarguradamente - de que o
melhor que todos temos a fazer é nos recomendarmos a Deus, resignando-nos de
boamente às peripécias que ainda sobrevenham... Para nada há valido o desespero,
senão para nos tornar ainda mais desgraçados! Tanta revolta e insensatez... e nada mais
obtivemos a não ser o agravo das nossas já tão atrozes desgraças!... Por aí se poderá ver
que vimos escolhendo caminhos errados para nossos destinos... Inegável, porém, que
somos todos subordinados a uma Direção Maior, que independe de nossa vontade!... Isso
é assaz significativo... Não sei bem se morri... Mas, sinceramente, creio que não!...
A senhora minha mãe era pessoa simples, humilde, de poucas letras, mas
boa devota à crença e ao respeito a Deus. Afirmava aos filhos, com estranha convicção,
quando os reunia ao pé da lareira a fim de ensinar-lhes as orações da noite, de mistura
com os princípios da lei cristã, que todas as criaturas trazem uma alma imortal, criada
pelo Ser Supremo e destinada à gloriosa redenção pelo amor de Jesus-Cristo, e que
dessa alma daríamos contas, um dia, ao Criador e Pai! Nunca mais, desde então, obtive
ciência de mais alto valor! Considero as aulas ministradas por minha mãe, durante o
serão da família, superiores às que, mais tarde, aprendi na Universidade. Infelizmente
para mim, sorri à sabedoria materna, embrenhando-me pelos desvios das paixões
mundanas... Contudo, ó minha mãe! eu aceitava a possibilidade da crença formosa que
tentaste infundir em minha alma revel! Não fui propriamente ateu!..
Hoje, passados tantos anos, e depois de tantos sofrimentos, colocado em
situações que escapam à minha análise, eu me convenço de que a senhora minha mãe
estava com a razão: - devo possuir uma alma, realmente imortal! Escapa-se de um tiro de
revólver, e pode-se até restabelecer-se! Curamo-nos da ingestão de um corrosivo, tais
sejam as circunstâncias em que o tenhamos usado. Mas não se escapa de uma forca,
como a que me destinei! E, se estou aqui e se sofri tudo quanto sofri sem conseguir
aniquilar dentro de mim as potências da vida, é porque sou imortal! E se sou imortal é que
possuo uma alma, com efeito, porque, quanto ao corpo humano, esse não é imortal, pois
se consome no túmulo! E se possuo uma alma dotada da virtude da imortalidade é que
ela proveio de Deus, que é Sempiterno! Oh, minha mãe, tu dizias a verdade! Oh, meu
Deus! Meu Deus! Tu existes! E eu a renegar-te sempre, com meus atos, minhas paixões,
meu descaso às tuas normas, minha indiferença criminosa aos teus princípios!... Agora...
eis que é soada a hora de prestar-te contas da alma que tu criaste - da minha alma! Eis
que nada tenho a dizer-te, Senhor, senão que minhas paixões infelicitaram-na, quando o
que determinaste ao criá-la era que eu a conduzisse obedientemente ao teu regaço de
Luz! Perdoa-me! Perdoa-me, Senhor Deus...."
Lágrimas abundantes misturaram-se a estertores de asfixia. Mas, apesar de
saberem a intensa amargura, já não traziam o macabro característico das convulsões
que, no Vale, as lágrimas provocam.
Fora Mário Sobral que falara.
Mário tinha grandes olhos negros, cabeleira revolta, olhar alucinado. Cursara
a Universidade de Coimbra e reconhecia-se nele o tipo bem acabado do boêmio rico de
Lisboa. Seu palavreado, de ordinário, era nervoso e fácil. Seria excelente orador, se da
Universidade houvera saído sábio e não boêmio. No cativeiro do Vale fora das entidades
mais sofredoras que tive ocasião de conhecer, e assim mesmo se destacou durante todo
o longo período de internação na Colônia.
Com esse arrazoado iniciou-se uma série de confidências entre os dez. Não
sei por que desejáramos conversar. Talvez a necessidade de mútua consolação nos
impelisse a abrir os corações, recurso, aliás, ineficiente para lenificar angústias, porque,

se é difícil a um suicida o consolar-se, não será, certamente, recordando dores e
desgraças passadas que logrará amenizar a penúria que lhe oprime a alma.
"- És forte em dialética, amigo, e felicito-te pela progressão do modo de
raciocinar: - não foi assim que tive a honra de te conhecer algures..." - chasqueei eu, a
quem incomodara muito a quebra do silêncio.
"- Também eu assim o creio e admiro a lógica das suas considerações, ó
amigo Sobral!" - interveio um português de bigodes fartos, meu vizinho de leito, cujo
ferimento no ouvido direito, a sangrar sem intermitências me causava infinito mal-estar,
pois que, quantas vezes lhe prestasse atenção, lembrava-me de que também eu trazia
ferimento idêntico e torturava-me em reminiscências atrozes.
Era, esse, Jerônimo de Araújo Silveira, o mais impaciente e pretensioso
dentre os dez, mais incoerente e revoltado. Prosseguiu ele:
"- Aliás, eu jamais descri da existência de Deus, Criador de Todas as Coisas.
Fui... isto é, sou! Eu sou, pois que não morri! - católico militante, irmão remido da
Venerável Irmandade da Santíssima Trindade, de Lisboa, com direitos a bênçãos e
indulgências especiais, quando necessário..."
"- Creio, meu vizinho, que chegou, ou já vai passando, a ocasião de
reclamares os favores que são de direito obteres... Não podes estar mais necessitado
deles..." - revidei, num crescendo de mau-humor, fazendo-me de obsessor.
Não respondeu, mas continuou:
"- Fui, porém, muito impaciente e nervoso desde a juventude! Impressionava-me
facilmente, era insofrido e inconformado, às vezes melancólico e sentimental... e
confesso que nunca levei a sério os verdadeiros deveres do cristão, expresso nas santas
advertências do nosso conselheiro e confessor, de Lisboa. Por isso mesmo, certamente,
quando se me deparou a ruína dos meus negócios comerciais, pois não sei se sabeis que
fui importador e exportador de vinhos; crivado de dívidas insolúveis; surpreendido por
estrondosa e irremediável falência; sem ascendente para evitar a miséria que a mim e à
minha família escancarava fauces irremediáveis; acusado por amigos e pessoas da
família como responsável único do dramático insucesso; abatido pela perspectiva do que
sucederia à minha mulher e aos meus filhos, a quem eu, por muito estremecer, habituara
a excessivo conforto, mesmo ao luxo, mas os quais, agora que me viam castigado e
sofredor, me responsabilizavam cruamente por tudo, em vez de pacientemente me
ajudarem a remover a cruz dos insucessos, que a todos nos abatia - fraquejei na coragem
que até então tivera e "tentei" desertar da frente de todos e até de mim mesmo, a fim de
poupar-me a censuras e humilhações. Todavia, enganei-me: - mudei apenas de
habitação, sem conseguir encontrar a morte, e perdi de vista minha família, o que me tem
acarretado insuportáveis contrariedades!"
"- Sim, é lastimável! -tornou Mário na mesma tonalidade acabrunhada, como
se não tivesse ouvido o precedente. -Caí nas trevas da Desgraça!... quando tão boas
oportunidades encontrei pela vida afora, facultando-me o domínio das paixões para o
advento de aquisições honestas!... Esqueci-me de que o respeito a Deus, à Família, ao
Dever, seria o alvo sagrado a atingir, pois recebi bons princípios de moral na casa
paterna! ... Jovem, sedutor, inteligente, culto, envaideci-me com os dotes que me
assistiam e cultivei o egoísmo, dando asas aos instintos inferiores, que reclamavam
prazeres sempre mais febricitantes... A convivência afetada da Universidade fez de mim
um pedante, um tolo cujas preocupações únicas eram as exibições vistosas, senão
escandalosas... Daí o perder-me no roldão das embocaduras das paixões deprimentes,..
E, depois, quando não mais consegui encontrar-me a fim de reconduzir-me a mim próprio,
procurei a morte supondo poder esconder-me dos remorsos atrás do olvido de um
túmulo!... Enganei-me! A morte não me aceitou! Encontrou-me decerto demasiadamente
vil para me honrar com sua proteção! Por isso devolveu-me à vida quando o coveiro teve
a honra de encobrir minha figura repulsiva da frente da luz do Sol!...

Minha mãe, porém, essa sim, não se enganou: - eu sou imortal! Jamais,
jamais morrerei! Hei de existir por toda a consumação dos evos, em presença daquele
que é o meu Criador! Sim! Porque, para sobreviver às desgraças que cruciaram o meu
sentir, desde a noite aziaga da primavera daquele ano de 1889, só um ser que seja
imortal!"
Alongou os olhos congestos, como chamando recordações passadas para o
minuto presente e murmurou, arquejante, apavorado, frente à página mais negra que lhe
desvirtuava a consciência:
"- Sim, meu Deus! Perdoa-me! Perdoa-me! Eu me arrependo e submeto-me,
visto que reconheço que errei! Perdi-me diante de ti, meu Deus, à frente da
desesperadora paixão que nutri por Eulina!... Mas, se mo permites, reabilitar-me-ei por
amor de ti...
Eulina!,.. Tu não valias sequer o pão que eu fornecia para saciares tua fome!
Contudo, eu te amava, acima de todas as conveniências, a despeito até da própria honra!
Eras pérfida, malvada!... Eu, porém, inferior devia ser, ainda mais do que tu, porque
casado, sendo minha esposa nobre e digna senhora! Era pai de três inocentes
criancinhas, às quais devia amor e proteção! Abandonei-os por ti, Eulina, desinteressei-me
de seus encantos porque me arrebatei irremediavelmente pelos teus, estranha beleza
dos torrões sul-americanos, que tu eras!... Oh, como eras linda!... Mas não me amavas...
E depois de me arrastares de queda em queda, explorando-me a bolsa e o coração,
abandonaste-me ao desespero da miséria e da ingratidão, ao me preterires pelo
capitalista brasileiro, teu compatriota, que te requestou!
Fui a tua casa: - vi-me desfeiteado... Supliquei-te, rastejei a teus pés como
louco, desesperado por perder-te, como insensato que sempre fui! Implorei migalhas da
tua compaixão, em vendo que já não seria possível teu amor!
Provoquei-te à discussão, compreendendo que te fazias insensível às minhas
desesperadas tentativas de reconciliação... e, cego pelos insultos que repetias, eu te
agredi, ferindo as faces que eu adorava; espanquei-te sem piedade, maltratei-te a
pontapés, meu Deus! ó meu Deus! Estrangulei-te, Eulina! Matei-te!... Matei-te...
Parou sufocado, em convulsões odiosas de perfeito réprobo, para continuar
após, como se dirigindo aos companheiros:
"- Quando, tomado de horror, contemplei a ação abominável que praticara,
apenas um recurso me acudiu, rápido qual impulso obsessor, a fim de escapar a
conseqüências que, naquele momento, se me afiguravam insuportáveis: - o suicídio!
Então, ali mesmo, sem perder tempo, rasguei os lençóis da desgraçada... e pendurei-me
a uma trave existente na cozinha..."
" - Forma, essa, pouco poética de um amante morrer... - zombei eu, enfadado
com a longa descrição que desde o Vale diariamente ouvia-o repetir. – Aposto em como
V. Excia., Sr. Professor, que tão elegantemente desejou morrer, recordando Petrônio, fêlo
pelo amor platônico de alguma senhora inglesa, loira e apessoada?... Portugueses
ilustres, como V. Excia. Vem demonstrando ser, gostam de amar damas inglesas..."
Dirigia-me agora a Belarmino de Queiroz e Sousa, cujo nome tresandava a
fidalguia.
Até essa data ainda me irritavam as atitudes do pobre comparsa do grande
drama que eu também vivia; e, sempre que houvesse oportunidade, ridicularizava-o,
defeito muito do meu feitio e que muitos vexames e dissabores custou-me até corrigi-lo,
durante os serviços de reforma interior que ao meu caráter impus na Pátria Espiritual.
Belarmino era alto e seco, muito elegante e fino de maneiras. Dizia-se rico e
viajado, professor de Dialética, de Filosofia e Matemática, e poliglota - cortejo respeitável
para um só homem que se arraste na Terra, não havia dúvida, mas que o não impedira de
demorar-se, e mais o monóculo, o fraque e a bengala, nas pocilgas do Vale Sinistro,
durante o interessante estágio que ali fizera, por se haver suicidado. Isso mesmo lançaralhe
eu em face muitas vezes, mal-humorado ante a vaidosa enumeração que fazia dos variados cabedais próprios. O doutor, porém - porque era doutor, honorificado por mais de
uma Universidade -, jamais revidou minhas impertinências. Polido, educado, sentimental,
chegaria também á vera bondade de coração se a par de tão bonitos dotes não
carregasse os defeitos do orgulho, do egoísmo de a si mesmo endeusar por a todos se
julgar superior.
Ouvindo-me, não respondeu com agastamento, como sempre. Antes, foi em
tom macio, mesmo pesaroso, que se expandiu, dirigindo-se a todos:
"- Eu julgava, sinceramente, que o túmulo absorveria minha personalidade,
transmudando-a na essência que se perderá nos abismos da Natureza: - seria o Nada!
Discípulo de Augusto Comte, a filosofia levou-me ao Materialismo, ao
mecanismo acidental das coisas - única explicação satisfatória que ao raciocínio pude
oferecer diante das anomalias com que deparava a cada passo pela vida em fora, para
me alarmar o coração e decepcionar a mente!
Nutri sempre grande ternura e compaixão pelos homens, aos quais
considerava irmãos de desgraça, pois para mim, a vida era a expressão máxima da
Desgraça, embora deles procurasse afastar-me quanto possível, temendo amá-los
demasiadamente, e, portanto, sofrer. Nem outra coisa compreenderia eu o que seria
senão desgraça um homem nascer, viver, trabalhar, sofrer, lutar por todos os pretextos...
para depois desfazer-se irremissivelmente, no pó do túmulo!
Não fui, jamais, dado a namoramentos, de baixa ou elevada classe. Para que
amar, constituir família, contribuindo para lançar à vida outros desgraçados a mais se a
Filosofia convencera-me, além do mais, de que o Amor era apenas uma secreção do
cérebro?... Fui um estudioso, isso sim, e estudava a fim de me aturdir, evitando o acúmulo
de elucubrações sobre a miserável situação da Humanidade. Assim sendo, não sobravam
a mim horas para cultivar amor junto a damas inglesa; ou portuguesas,... Estudava para
esquecer de que um dia também me perderia no vácuo! Fui um infeliz, como toda a
Humanidade o é! Somente no ambiente sereno do lar desfrutava alguma satisfação...
Agarrei-me ao lar quanto possível, pesaroso de, um dia, ser forçado a abandoná-lo para
me aniquilar entre os vermes que destruiriam minha individualidade! Minha mãe, que
partilhava de minhas convicções, porque também as recebera de meu genitor, bastavame
para companhia nas horas de lazer. O móvel da minha "tentativa" de suicídio, como
vê, não foi desgosto amoroso. Foi a perca da saúde! Fui sempre fisicamente débil,
franzino, um triste, sonhador infeliz e insatisfeito, apavorado do Existir! Incorrigível
desconsolo entenebreceu os dias de minha vida! Encerrado neste círculo deprimente, vi a
tuberculose apossar-se de meu organismo, mal hereditário que me não foi possível
combater! Desenganado pela Ciência, preferi, então, acabar de vez, sem maiores
sofrimentos, com a matéria miserável que começava a apodrecer sob a desintegração
fornecida por uma moléstia incurável, matéria que, por sua própria natureza, destinada
era à podridão da morte, ao eterno tombo nas voragens do Nada!
Para que, pois, esperaria eu a marcha dolorosa da tuberculose extinguir
minha individualidade em lentos suplícios, sem consolo, sem esperança compensadora
no porvir de além-morte, onde não encontraria senão o aniquilamento absoluto, a
desintegração perfeita, espantalho humano atirado ao desalento, do qual fugiriam todos, a
própria mãe inclusive - quem o adivinharia? - temendo os perigos do contágio?!...
Morrer era solução boa, muito lógica, para quem, como eu, só via à frente um
corpo aniquilado pela doença e a destruição absoluta do ser como desanimadoras
expectativas..."
"- Não possuo a competência de V. Excia., Senhor Professor, nem me será
dado raciocinar com tanta finura. Todavia, com o devido respeito à pessoa de V.
Excelência, considero execrável pecado o não aceitar o homem a existência de Deus,
Sua Paternidade para com as criaturas e a eternidade da alma, por mais criminoso e
abjeto que seja. Felizmente para mim, foram coisas em que sempre acreditei com




veemência..." - intrometeu-se Jerônimo com simplicidade, sem perceber a tese profunda
que apresentava a um ex-professor de Dialética.
"- Como e por que, então, vos revoltastes contra as circunstâncias naturais
da vida humana, isto é, aos sofrimentos que vos couberam na desoladora partilha, a
ponto de confessardes que desejastes morrer, Sr. de Araújo Silveira?!... Se eu,
desfavorecido pela Fé, carente de Esperança, desamparado pela descrença em um Ser
Supremo, à mercê do pessimismo a que minhas convicções conduziam, para quem o
túmulo apenas traduzia olvido, aniquilamento, absorção no vácuo, me desorientasse ao
embater da desventura e "tentasse" matar-me a fim de poupar-me luta desigual e inútil,
concebe-se! Mas, vós outros?!... Vós outros, crentes na Paternidade de um Deus Criador,
sede de perfeições infinitas, como dizeis, sob cuja direção sábia caminhais; vós, certos da
personalidade eterna, fadada à mesma finalidade gloriosa do seu Criador, herdeira da
própria eternidade existente naquele Ser Supremo, para a qual marcha pela ordem
natural da lei de atração e afinidade, cair em desesperações e revoltar-se contra a mesma
lei, pois sei que a crença num Poder Absoluto proíbe a infração do suicídio, é paradoxo
que não se chega a admitir. Portadores de tal ciência, corações alumiados pelos ardores
de tão radiosa convicção, energias revigoradas pela fortaleza de tão sublime esperança,
deveríeis considerar-vos deuses também, homens sublimizados para quem os infortúnios
seriam meros contratempos de momento! Oh! pudesse eu convencer-me dessa verdade e
não temeria enfrentar, novamente, nem os desgostos que arruinaram meus dias, nem a
tuberculose que me reduziu ao que vedes!" - revidou com lógica férrea o discípulo de
Comte, cuja sinceridade me despertou simpatia.
"- E agora, qual a opinião de V. Excia. sobre o momento presente? Que
explicação sugere a filosofia comtista para o que se passa?!..." - interroguei, cheio de
curiosidade, interessando-me pelo debate.
"- Nada! - respondeu simplesmente. - Não sugere coisa alguma... Continuo
na mesma... Não consegui morrer!..."
Evidente era que dúvidas desconcertantes nos atacavam a todos, a ele
também. O que não queríamos era curvar-nos à evidência. Tínhamos medo de encarar de
frente a realidade.
"- Dizei algo de vós, Sr. Botelho - atreveu-se João castigar-me. - Há muito
estimais observar-nos, mas tendes silenciado sobre vossa pessoa, que tão interessante
nos parece... Quanto a mim, não desejo permanecer incógnito! Bem sabeis os motivos
que me arrojaram ao pélago ignóbil do suicídio: - a paixão pelo jogo. - Joguei tudo! A
honra inclusive, e a própria vida!..."
"- Perdão, amigo d'Azevedo, como jogaste a vida... se aí estás a falar-nos de
ti?!" - interveio Jerônimo desconcertantemente.
O interlocutor sobressaltou-se e, sem responder, insistiu no propósito de
excitar-me:
"- Vamos, ilustre romancista, velho boêmio do Porto, desce do teu feio
pedestal de orgulho... Vem dizer algo de tua "majestosa" superioridade..."
Senti a mordacidade nas descorteses expressões de João, que se
antipatizara comigo na mesma proporção que eu a Belarmino, do qual era muito amigo, e
que deixara, um momento, de choramingar para me provocar o mau-humor.
Aborreci-me. Fui indivíduo sempre melindroso e suscetível, e a morte não
corrigira ainda a grave anormalidade.
"- Pois quê?!... Seria eu, acaso, forçado a confessar particularidades a tal
corja, só porque ela havia confessado as suas?!... Porventura devia eu qualquer
consideração a essa ralé, que fui encontrar no Vale imundo?!..." - pensei, sufocado pelo
orgulho, com efeito, de me julgar superior.
A consideração que aos companheiros de infortúnio o meu mau-senso
negava, a mim mesmo continuava dispensando gratamente, entendendo que, se para lá
eu também me vira arremessado, era que no meu caso existira injustiça calamitosa; que 

eu não merecera a repressão por ser melhor, mais digno, mais credor de favores do que
os outros que comigo lá se haviam homiziado. Fosse como fosse, preferiria não me
expandir porque o meu orgulho a tanto não me animava. Mas, personagens de nossa
infeliz categoria não se acham à altura de sopitar impulsos do pensamento calando
expansões diante de afins; tampouco sabem dominar emoções, furtando-se à vergonha
das devassas no campo íntimo, em presença de estranhos. Assim sendo, as torrentes de
vibrações deseducadas derramam-se do seu interior configuradas em palavreado ardente
e emotivo, ainda que elas próprias não o desejem, tal se as comportas magnéticas, que
as retivessem nos pegos mentais, se houvessem rompido graças às agitações de que se
fizeram presas. Aliás, o tom sincero, a formosa lhaneza do professor de Filosofia e
Dialética, convidando-me a atitude menos descortês do que a que me habituara até
então, fez-me aquiescer ao alvitre de João d'Azevedo. Mas foi, antes, dirigindo-me de
preferência àquele, por entender que só a sua elevada cultura estaria a plano de me
compreender, que fui dizendo, grave, compenetrado, concedendo-me importância ridícula
na humílima situação em que me achava:
"- Eu, Sr. Professor, sou um indivíduo que se imaginava iluminado por um
saber sem jaças, mas que, em verdade, hoje começa a compreender que ignorava, e
continua ignorando, o que a dois palmos do próprio nariz existe. Fui paupérrimo (digo "fui"
porque algo segreda em meu ser que tudo isso pertenceu ao pretérito), com o
insuportável defeito de ser orgulhoso. Um homem, finalmente, que não descria da
existência de um Ser Superior presidindo à Sua Criação, é certo, mas que, considerando o
uma Incógnita a desafiar possibilidades humanas de lhe decifrar os enigmas, não
somente deixava de associar o respeito a esse Ser à sua vida, como, principalmente, não
lhe dava quaisquer satisfações do que fazia ou pretendia para regalo dos próprios
caprichos e paixões. Será, pois, redundância afirmar que, muito sábio - tal como me
julgava -, arrastava a dissonante ignorância da descrença na possibilidade de existirem
leis onipotentes, irremissíveis, partindo da Divindade Criadora e Orientadora para dirigir a
Criação, o que me fez cometer erros gravíssimos!
Sofri, e minha existência foi fértil em situações desanimadoras! A resignação
nunca foi virtude a que se amoldasse o meu caráter violento e agitado por índole. A
abundeza dos meus sofrimentos tornou-me irritadiço, genioso. O orgulho insulou-me na
convicção de que para além de mim só existiriam valores sofríveis.
Após décadas de prélios malogrados, de aspirações banidas da imaginação
por irrealizáveis no campo da objetividade, de ideais decepcionados, de desejos tão
justos quanto insatisfeitos, de esforços rechaçados, de energias varridas por sucessivos
desapontamentos e vontades conjugadas para o bem tornarem ao ponto de origem
enfraquecidas e rotas por impiedosos insucessos - a cegueira, amigo! que atingiu meus
olhos cansados -, como desconcertante prêmio às lutas que de minhas forças exigiram
impulsos supremos!
Fiquei cego!
O espectro negro da eterna escuridão estendia sobre meus olhos apavorados
o seu manto de trevas, que nem a ciência dos homens, nem a fé alcandorada e ingênua
dos amigos que me tentavam levar à conformidade, nem os votos místicos dos corações
que me amavam às Potestades Celestes - seriam capazes de arredar!
Descri mais das mesmas Potestades:
- Cego! Cego, eu?!...
- Como viveria eu, cego?...
Entendi que, se o Ente Supremo, de quem eu não descria até então, existisse
realmente, tal não se daria, porque não quereria certamente desgraçar-me. Esquecia-me
de que existiam esparsos pelo mundo milhões de homens cegos, muitos em condições
ainda mais prementes que a minha, e que eram todos, como eu, criaturas advindas do
mesmo Deus! Descri porque entendi que, se havia outros cegos, que houvesse: - mas

que eu não o deveria ser! Era, sim, injustiça, uma finalidade dessa para mim! Cego!!... Era
o máximo!
Tão profundo quão surpreendente desespero devorava minhas vontades,
minhas energias mentais, minha coragem moral, reduzindo-me à inferioridade do covarde!
Eu, que tão heroicamente soubera levar de vencida os abrolhos que dificultaram minha
marcha para a conquista da existência, sobrepondo-me a eles, daí para diante encontrarme-
ia impossibilitado de continuar lutando! Dei-me por vencido. Cego, eu compreendia
ser a minha vida como coisa que pertencesse ao pretérito, realidade que "fora", mas que
já não "era"...
A obsessão fatal do suicídio entrou a fazer ronda em torno de minhas
faculdades. Enamorei-me dela e lhe dei guarida com todo o abandono do meu ser
desanimado e vencido. A morte atraía-me como remate honroso de uma existência que
jamais curvara a cerviz à frente fosse do que fosse! A morte estendia-me os braços
sedutores, falsamente mostrando, às minhas concepções viciadas pela descrença em
Deus, a paz do túmulo em consoladoras visões!
Firmada a resolução sobre sugestões doentias; acabrunhado e a sós com a
minha superlativa desgraça; insocorrido pelo sereno consolador da Fé, que teria
suavizado a ardência do meu intimo desespero; excitada a imaginação já de si mesma
audaz e ardente, criei um romance dolorido em torno de mim mesmo e, considerando-me
mártir, condenei-me sem apelação!
É que tive medo e vergonha de ser cego!
Matei-me no intuito de encobrir da sociedade, dos homens, dos meus
inimigos a incapacidade a que ficara reduzido!
Não! Ninguém se gloriaria vendo-me receber o amargo pão da compaixão
alheia! Ninguém contemplaria o espetáculo, humilhante para mim, de minha figura
vacilante, tateando nas trevas dos meus olhos incapacitados para a visão! Meus inimigos
não se rejubilariam, refocilando na vingança de assistirem à minha irremediável derrota!
Mil vezes não! Eu não me brutalizaria na inércia de olhar só para dentro de mim mesmo,
quando o Universo continuaria irradiando vida fecunda e progressiva ao redor de minha
sombra empobrecida pela cegueira!
Matei-me porque me reconheci demasiadamente fraco para continuar, dentro
da noite pávida da cegueira, a jornada que, já enfrentada à boa luz dos olhos, fora farta
de empeços e percalços!
Era demais! Revoltei-me até ao âmago contra o Destino que me reservara
tão desconcertante surpresa e inconsolável permaneci sob o esmagamento da dramática
ingratidão que supunha provir de Deus! Para mim, a Providência, o Destino, o mundo, a
sociedade, estavam errados todos: - só eu estava certo, exagerando a tragédia das
minhas desesperanças!
Pois quê?!... Eu, que possuía capacidade intelectual avantajada, era
paupérrimo, quase faminto, ao passo que circulavam em torno a mim ignorantes e
beócios de cofres recheados! Eu, que me sentia idealista e bom, vivia molestado por
adversidades que me teciam continuado cerco, sitiando-me em campos que desafiavam
possibilidades de vitória! Eu, cujo coração sentimental abrasava-se em ânsias generosas
e ternas, de excelência quiçá sublime, a conhecer-me ininterruptamente incompreendido,
incorrespondido, ferido por descasos tanto mais amaros quanto mais extensas fossem as
radiações do meu sentir! Eu, honesto, probo, reto, a pautar-me por diretrizes sadias por
entendê-las, mais belas ajustadas ao idealismo que acompanhava o meu caráter, a tratar
com patifes, a comerciar com roubadores, a disputar com hipócritas, a confiar em
velhacos, a considerar tratantes!...
Sim, era demais!...
E depois de tão extenso panorama de desventuras - porque, para mim,
indivíduo impaciente e nada conformado, esses fatos, tão vulgares na vida cotidiana,
avultavam como veras calamidades morais -, o doloroso arremate da cegueira reduzindo

me à insignificância do verme, à angústia do desamparo, à inércia do idiota, à solidão do
emaamorrado!
Não pude mais!
Faltou-me compreensão para tão grande anomalia! Não compreendi Deus!
Não entendi sua Lei! Não entendi a Vida! Uma torrente de confusão insolúvel alagou-me o
pensamento aterrado em face da realidade! Só compreendi uma coisa: - era que
precisava morrer, devia morrer! E quando uma criatura deixa de confiar no seu Deus e
Criador - torna-se desgraçada! É um miserável, é um demônio, é um réprobo! Quer o
abismo, procura o abismo, precipita-se no abismo! Precipitei-me!"
Não sei que malvadas sugestões a minha facúndia blasfema espalhou pelo
ambiente mórbido de nossa enfermaria. O que sei é que a triste assembléia deixou-se
resvalar para as vibrações desarmoniosas, entregando-se a pranto dolorido e crises
impressionantes, notadamente o antigo exportador de vinhos - Jerônimo - e o universitário
Sobral, que eram os mais sofredores. Eu mesmo, à proporção que prosseguia na minha
angustiante exposição, eivada de conceitos doentios, tanto retroagia mentalmente às
situações precipitosas de minha passada vida carnal, às fases doloridas e inelutáveis que
me deprimiram cruamente - que lágrimas rescaldantes voltaram a correr por minhas faces
maceradas, enquanto novamente se me obscurecia a visão e trevas substituíam os doces
pormenores dos cortinados azuis, esvoaçantes, e das róseas trepadeiras galgando as
colunatas dos balcões.
Acudiram enfermeiros solícitos a verem o que se passava, uma vez que não
era previsto o incidente. No Hospital Maria de Nazaré o enfermo, rodeado das emanações
mentais revivificantes de seus tutelares e dirigentes, visitados por ondas magnéticas
salutares e generosas, que visavam a beneficiá-lo, deveria auxiliar o tratamento
conservando-se silencioso, sem jamais se entreter em conversações de assuntos
pessoais. Conviria repousar, procurar esquecer o passado tormentoso, varrer
recordações chocantes, refazendo-se quanto possível das longas dilacerações que desde
muito o acutilavam. Fomos advertidos, portanto, como infratores de um dos mais
importantes regulamentos internos. E nem poderíamos exculpar-nos alegando ignorância,
porque, ao longo das paredes, letreiros fosforescentes a cada momento despertavam
nossas atenções com permanentes pedidos de silêncio, enquanto a própria instituição
oferecia o exemplo movimentando suas constantes azas sob o controle de criteriosa
discrição. E, embora bondosamente, declararam que uma reincidência implicaria em
atitude punitiva por parte da direção, qual a transferência para o Isolamento, pois, o fato, a
repetir-se, produziria distúrbios de conseqüências imprevisíveis, não somente para o
nosso estado geral, mas também para a disciplina hospitalar, que deveria ser
rigorosamente observada - o que nos levou a perceber serem mais austeras as regras no
Isolamento, mais temíveis as suas disciplinas. E para que medida tão ríspida fosse
evitada, estabelecida foi severa vigilância em nossa dependência. Desde aquele
momento, um guarda do regimento de lanceiros hindus, aquartelados no Departamento
de Vigilância, foi designado para o plantão em nossos apartamentos.
Cerca de um quarto de hora depois, enfermeiro loiro e risonho, jovem que
andaria pelos vinte e três anos de idade, o qual entrevíramos ao darmos entrada no
importante estabelecimento do astral, por ser um daqueles que nos receberam a par de
Romeu e de Alceste, visitou-nos fazendo-se acompanhar de mais dois obreiros da casa;
e, irradiando simpatia, foi dizendo mui afetuosamente, pondo-nos à vontade:
"- Meus amigos, chamo-me Joel Steel, sou – ou fui, como queiram -
português nato, mas de origem inglesa. Em verdade o velho Portugal foi sempre muito
querido ao meu coração... Jamais pude esquecer os dias venturosos que em seu seio
generoso passei... Fui feliz em Portugal... mas depois... os fados me arrastaram para o
País de Gales, berço natal de minha querida mãe, Doris Mary Steel da Costa, e então...
Bem, é como compatriota e amigo que vos convido ao gabinete cirúrgico a fim de serdes

submetidos aos necessários exames, pois que se iniciaram neste momento os trabalhos
de cirurgia..."
Prontificamo-nos, esperançados. Não desejávamos outra coisa desde muito
tempo! As dores que sentíamos, nossa indisposição geral, refletindo penosamente o que
ocorrera com o corpo físico-material, havia muito que nos fazia ansiar pela presença de
um facultativo.
Mário e João, cujo estado era melindroso, foram transportados em macas,
enquanto os demais seguiam amparados pelos braços fraternos dos enfermeiros
bondosos.
Pude então distinguir algo dessa casa magnânima assistida pela carinhosa
proteção da excelsa Mãe do Nazareno.
Não somente o excelente conjunto arquitetônico seria digno de admiração.
Também a montagem, o grandioso aparelhamento, conjunto de peças extraordinárias,
apropriadas às necessidades da clínica no astral, demonstrando o elevado grau que
atingira a Medicina entre nossos tutelares, muito embora se não tratasse, o local onde nos
encontrávamos, de zona adiantada da Espiritualidade.
Médicos dedicados e diligentes atendiam com fraternas solicitudes aos
míseros necessitados dos seus serviços e proteção. Estampavam-se em suas fisionomias
bondosas o compassivo interesse do ser superior pelo mais frágil, da inteligência
esclarecida pelo irmão infeliz ainda mergulhado nas trevas da ignorância. Entretanto, nem
todos trajavam uniformes à indiana. Muitos envergavam longos aventais vaporosos e
alvíssimos, quais túnicas singulares, de tecido fosforescente...
Não assisti ao que foi passado com meus companheiros de desdita. Mas,
quanto a mim, em chegando ao pavilhão reservado aos labores assistenciais, fui
transferido dos cuidados de Joel Steel para os do jovem doutor Roberto de Canalejas, o
qual me encaminhou para determinada dependência, onde minha organização físicoespiritual
- o perispírito - foi submetida a minuciosos e importantes exames. Carlos de
Canalejas, pai do precedente, ancião venerável, antigo facultativo espanhol que fizera da
Medicina um sacerdócio, página heróica de abnegação e caridade digna do beneplácito
do Médico Celeste, e mais um dos psiquistas hindus que nos socorreram à chegada -
Roaendo -, foram os meus assistentes. Roberto passou então a assistir ao importante
labor qual doutorando às lições dos mestres nos santuários da Ciência, o que vinha
esclarecer encontrar-se ele ainda em aprendizado na Medicina local.
À minha organização astral prestaram socorros físico-astrais justamente nas
regiões correspondentes às que, no envoltório físico-terreno, foram dilaceradas pelo
projétil de arma de fogo de que utilizara para o suicídio, ou seja, os aparelhos
faríngico,auditivo, visual e cerebral, pois o ferimento atingira toda essa melindrosa região
do meu infeliz envoltório carnal.
Era como se eu, quando homem encarnado (e realmente assim fora, assim é
com todas as criaturas) possuísse um segundo corpo, molde, modelo do que fora
destruído pelo ato brutal do suicídio; como se eu fora "duplo" e o segundo corpo,
possuindo a faculdade de ser indestrutível, se ressentisse, no entanto, do quanto
sucedesse ao primitivo, qual se estranhas propriedades acústicas sustentassem
repercussões vibratórias capazes de se prolongarem por indeterminado prazo, fazendo
enfermar aquele.
Sei que os tecidos semimateriais das regiões já citadas do meu perispírito,
profundamente afetadas, receberam sondagens de luz, banhos de propriedades
magnéticas, bálsamos quintessenciados, intervenções de substâncias luminosas
extraídas dos raios solares; que deles extraíram fotografias e mapas movediços, sonoros,
para análises especiais; que tais fotografias e mapas mais tarde seriam encaminhados à
"Seção de Planejamento de Corpos Físicos", do Departamento de Reencarnação, para
estudos concernentes à preparação da nova vestidura carnal que me caberia para o
retorno aos testemunhos e expiações na Terra, aos quais julgara poder furtar-me com o

tresloucado gesto que tivera. Sei que, submetido ao estranho tratamento, envolvido em
aparelhos sutis, luminosos, transcendentes, permaneci uma hora, durante a qual o velho
doutor de Canalejas e o cirurgião hindu desvelaram-se carinhosamente, reanimando-me
com palavras encorajadoras, exortando-me á confiança no futuro, á esperança no
Supremo Amor de Deus! E sei também que causei trabalhos árduos, mesmo fadigas
àqueles abnegados servos do Bem; que exigi preocupações, obrigando-os a
devotamentos profundos até que em meu físico-astral se extinguissem as correntes
magnéticas afins com o físico-terreno, as quais mantinham o clamoroso desequilíbrio que
nenhuma expressão humana será bastante veraz para descrever!
É que o "corpo astral", isto é, o perispírito – ou ainda o "físico-espiritual" - não
é uma abstração, figura incorpórea, etérea, como supuseram. Ele é, ao contrário disso,
organização viva, real, sede das sensações, na qual se imprimem e repercutem todos os
acontecimentos que impressionem a mente e afetem o sistema nervoso, do qual é o
dirigente.
Já que, nesse envoltório admirável da Alma – da Essência Divina que em
cada um de nós existe, assinalando a origem de que provimos -, persiste também uma
substância material, conquanto quintessenciada, o que a ele faculta a possibilidade de
adoecer, ressentir-se, pois que semelhante estado de matéria é assaz impressionável e
sensível, de natureza delicada, indestrutível, progressível, sublime, não podendo, por isso
mesmo, padecer, sem grandes distúrbios, a violência de um ato brutal como o suicídio,
para o seu invólucro terreno.
Entretanto, sob tantos cuidados médicos mais se avantajavam minhas
dúvidas quanto á situação própria. Muitas vezes, durante a desesperadora permanência
no Vale Sinistro, eu chegara a acreditar que morrera, oh, sim! e que mim halma condenada
expiava nos infernos os tremendos desatinos praticados em vida. Agora, porém, mais
sereno, vendo-me internado em bom hospital, submetido a intervenções cirúrgicas,
conquanto muito diversos fossem os métodos locais dos que me eram habituais, novas
camadas de incertezas inquietavam-me o espírito:
Não! Não era possível que eu tivesse morrido!
Isto seria morte?... Seria vida?...
Foi, portanto, derramando aflitivo pranto que, em dado momento, naquele
primeiro dia, sob as desveladas atenções de Carlos e Rosendo, bradei excitado, febril,
incapaz de por mais tempo me conter:
"- Mas, afinal, onde me encontro eu?... Que aconteceu?... Estarei
sonhando?... Eu morri ou não morri?... Estarei vivo?... Estarei morto?..."
Atendeu-me o cirurgião hindu, sem se deter na melindrosa atuação. Fitandome
com brandura, talvez para demonstrar que minha situação lhe causava lástima ou
compaixão, escolheu o tono mais persuasivo de expressão, e respondeu, sem deixar
margem a segunda interpretação:
"- Não, meu amigo! Não morreste! Não morrerás jamais!... porque a morte
não existe na Lei que rege o Universo! que se passou foi, simplesmente, um lamentável
desastre com o teu corpo físico-terreno, aniquilado antes da ocasião oportuna por um ato
mal orientado do teu raciocínio... A Vida, porém, não residia naquele teu corpo físico terreno
e sim neste que vês e contigo sentes no momento, o qual é o que realmente sofre,
o que realmente vive e pensa e que traz a qualidade sublime de ser imortal, enquanto o
outro, o de carne, que rejeitaste, aquele, apropriado somente para o uso durante a
permanência nos proscênios da Terra, já desapareceu sob a sombria pedra de um
túmulo, como vestimenta passageira que é este outro que aqui está... Acalma-te, porém...
Melhor compreenderás à proporção que te fores restabelecendo..."
Trouxeram-me em maca rumo da enfermaria. Meu estado requeria repouso.
Serviram-me reconfortante caldo, pois eu tinha fome. Deram-me a beber água cristalina e
balsamizante, pois eu tinha sede. Em redor, o silêncio e a quietação, envolvidos em
ondas de reconforto e beneficência, convidavam ao recolhimento. Obedecendo à caridosa

sugestão de Rosendo, procurei adormecer, enquanto o desapontamento, trazido pela
inapelável realidade, fazia ecoar suas decisivas expressões em minha mente
atormentada:
"- A Vida não residia no corpo físico-terreno, que destruíste, mas sim neste
que vês e sentes no momento, o qual traz a qualidade sublime de ser imortal!"









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