quinta-feira, 9 de maio de 2013

ABNEGAÇÃO


 ABNEGAÇÃO
(Estudo da Questão 912 de “O Livro dos Espíritos”)

        No estudo da abnegação, fitemos em Cristo o exemplo máximo.
        Emissário de Deus entre os homens, podia exigir um palácio para nascer, mas preferiu asilar-se no abrigo dos animais.
        Podia frequentar, na meninice, os mais altos grêmios filosóficos e religiosos da nação que o contava entre os seus; todavia, preferiu as rudes experiências da carpintaria de Nazaré.
        Podia aderir aos programas de dominação dos maiorais em Jerusalém, impondo-lhes as sua própria condição de missionário excepcional; entretanto, preferiu incorporar-se ao trabalho de pescadores humildes, revelando-se a eles sem violência.
        Podia escolher as damas ilustres para entreter-se, com elas, acerca do Reino de Deus, através de tertúlias afetivas no terraço de casas nobres; contudo, preferiu entender-se com as mulheres simples do povo, sem esquecer a filha de Magdala, submetida aos flagelos da humilhação.
        Podia insinuar-se no ambiente mais íntimo de Caifás ou Pilatos e agradar-lhes a parentela para ganhar influência; no entanto, preferiu aproximar-se dos enfermos esquecidos na via pública.
        Podia acumular ouro e prata, mobilizando os poderes de que dispunha, mas preferiu viver entre os desfavorecidos do mundo, sem reter uma pedra onde repousar a cabeça.
        Podia afastar Iscariotes do círculo doméstico, depois de perceber-lhe os primeiros sinais de deserção; todavia, preferiu conservá-lo entre os aprendizes, para não lhe frustrar as oportunidades de reajuste.
        Podia agitar a multidão contra os detratores de sua causa; entretanto, preferiu que os detratores a comandassem.
        Podia recorrer à Justiça de modo a defender-se contra a perseguição sem motivo; no entanto, preferiu morrer perdoando aos algozes, alinhando-se entre os condenados à morte sem culpa.
        Não te despreocupes, assim, da abnegação dentro da própria vida, a fim de que possas auxiliar as vidas que te rodeiam.
        Supérfluo que nos enfeita é carência que aflige os outros.
        O grande egoísmo da Humanidade é a soma dos pequenos egoísmos de cada um de nós..
        Sofrer por obrigação é resgate humano, mas sofrer para que outros não sofram é renúncia divina.
        Ninguém sabe se existe virtude nos prisioneiros da expiação; entretanto, a virtude mostra-se viva em todo aquele que, podendo acolher-se ao bem próprio, procura, acima de tudo, o bem para todos.
        Se podes exigir e não exiges, se podes pedir e não pedes, se podes complicar e não complicas, se podes parar de servir e prossegues servindo, estarás conquistando o justo merecimento.
        Não vale, pois, reclamar a abnegação dos outros para a melhoria do mundo, porque o próprio Cristo nos ensinou, à força de exemplos, que a melhoria do mundo começa de nós.

(De: “Religião dos Espíritos”, de Francisco Cândido Xavier

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