segunda-feira, 6 de maio de 2013




Em Busca de Sentido 
Um Psicólogo no Campo de Concentração



A apatia e a insensibilidade emocional, o desleixo interior e a indiferença - tudo isso
características do que designamos de segunda fase dentro das reações anímicas do
recluso no campo de concentração - muito cedo também tornam a vítima insensível
aos espancamentos diários e em que se cada hora. Esta ausência de sensibilidade
constitui uma couraça sumamente necessária da qual se reveste em tempo a alma
dos prisioneiros.
 No campo se é espancado pelas razões mais insignificantes, ou mesmo sem razão
alguma. Por exemplo: no local da obra está sendo distribuída a "merenda".
Colocamo-nos em fila. Aquele que se encontrava atrás de mim deve ter se colocado
talvez um palmo fora do alinhamento, o que não deve ter agradado ao guarda SS,
talvez por um capricho de simetria ótica, embora do ponto de vista disciplinar isto
fosse completamente irrelevante e supérfluo - afinal de contas, estávamos num
terreno acidentado e ainda não nivelado. Eu, porém, não podia ter a menor idéia do
que ocorria atrás de mim na fila, nem do que se passava na mente do guarda. De
repente senti dois violentos golpes na cabeça. Só então me dei conta de que o
guarda estava parado a meu lado e tinha usado o cassete.
 A dor física causada por golpes não é o mais importante por sinal, não só para nós,
prisioneiros adultos, mas também para crianças que recebem castigo físico! A dor
psicológica, a revolta pela injustiça ante a falta de qualquer razão é o que mais dói
numa hora dessas. Assim é compreensível que um golpe que nem chega a acertar
eventualmente pode doer até muito mais. Exemplo: certa vez estive trabalhando
numa estrada de ferro, em plena tempestade de neve. A tempestade seria razão
suficiente para interromper o trabalho; e para não sentir muito frio, aplico todo o
ímpeto em "entupir" com pedras os espaços debaixo dos trilhos. Paro por um
momento, a fim de tomar fôlego, e me apóio na ferramenta. Por infelicidade, no
mesmo instante o guarda se vira em minha direção e pensa naturalmente que estou
vadiando. O que me dói agora, apesar de tudo e a despeito da insensibilidade
crescente, não é a perspectiva de alguma carraspana ou bordoada, e sim o fato de
que para aquele guarda essa figura decrépita e esfarrapada, que só de longe lembra
vagamente um ser humano, não merece sequer uma repreensão. Ao invés, ele não
faz mais do que levantar uma pedra do chão e, como se estivesse brincando, atira-a
em minha direção. Desse jeito - foi o que senti - chama-se a atenção de um bicho
qualquer, assim se adverte o animal doméstico de seu "dever", o animal com que se
tem uma relação tão superficial que "nem" se chega a castigá-lo.
O escárnio faz a música 
 O que mais dói ao se ser golpeado é o escárnio. Estamos carregando dormentes
longos e pesados sobre os trilhos cobertos de gelo. Se qualquer um de nós cair, há
enorme perigo não só para o infeliz, mas também para os companheiros que junto
com ele carregam o dormente. Um colega e velho amigo meu tem, de nascença,
teve uma luxação na coxa. Ele se considera feliz por ainda conseguir trabalhar, uma
vez que para pessoas com defeito físico, como ele, cada "seleção" significa morte
certa na câmara de gás. Agora ele vai mancando ao longo dos trilhos, carregando
um dormente excepcionalmente pesado. A poucos passos do lugar onde esses são
empilhados, vejo que ele quase perde o equilíbrio, com perigo de cair e derrubar os
outros consigo. Como ainda não tenho um dormente para carregar, vou
automaticamente em seu socorro, para apoiá-lo e ajudá-lo a carregar. Eis que já
desce o cassetete sobre minhas costas. Com uma gritaria louca sou repreendido e
mandado de volta. Mas poucos minutos antes o mesmo supervisor acabara de me

dizer em tom de deboche que nós, "velhacos", não tínhamos espírito de
camaradagem.
 De outra feita, a uma temperatura de 20 graus negativos, começamos a picar a
camada superior do chão, que estava completamente congelada, em plena floresta,
para assentar tubos de canalização de água. Na época eu já estava bastante
enfraquecido fisicamente. Chega o capataz, bochechudo e de faces rosadas. Seu
rosto lembra uma perfeita cabeça de leitão. Noto que está usando luvas, que fazem
muito bem naquele frio, enquanto nós temos que trabalhar sem elas. Além disso,
traja um casaco de couro forrado de peles. Ele me fixa por algum tempo, calado.
Tenho um mau presságio, pois à minha frente se vê um monte de terra que permite
controlar perfeitamente o quanto já produzi. Então ele começa: "Seu vagabundo!
Estou de olho em você o tempo todo! Ainda vou ensiná-lo a trabalhar mesmo que
você tenha que arrancar a terra a dentes! Olha que faço você esticar as canelas aqui
mesmo! Em dois dias acabo com você! Logo se vê que em toda sua vida nunca
trabalhou! Afinal, o que você foi, antes de vir aqui, seu porcalhão? Comerciante?
Hein?" Para mim, tanto faz. Tenho que levar a sério sua ameaça de acabar comigo
em pouco tempo. Fico parado de pé e o fito com firmeza nos olhos: "Eu era médico.
Especialista." - "O que? Médico? Você aliviava o bolso das pessoas, isto sim!" - "Sr.
capataz: por casualidade meu trabalho principal era feito de graça, em ambulatório
para os pobres." Isto foi demais. Ele se atira em cima de mim, me derruba no chão e
berra feito um louco – não lembro mais o quê. Mas tive sorte. Um Capo do meu
grupo de trabalho se mostrava muito reconhecido para comigo. Passei a ser seu
protegido desde quando lhe dera atenção ao me contar seus casos amorosos e
conflitos matrimoniais durante a
marcha de várias horas rumo ao local da obra; fi-lo com visível compreensão
profissional e impressionei-o com uma diagnose caracterológica sobre a sua pessoa
e alguns conselhos psicoterapêuticos.
 Desde então ele me era muito grato. Já fazia vários dias que sua gratidão me era
de grande valia. Isto porque mantinha um lugar reservado para mim ao seu lado, na
primeira fileira de cinco da nossa coluna de trabalho, que perfazia geralmente
duzentos e oitenta indivíduos. Isto para mim foi de um valor enorme. Imagine-se a
situação: de manhã cedo, ainda no escuro, entramos em forma. Todos têm medo de
chegar muito tarde, pois terão que se postar nas últimas fileiras. Acontece que em
caso de se precisar homens para outro "comando de trabalho" desagradável e
impróprio, chega o chefe do campo momento temido, este - para buscar o número
necessário de prisioneiros precisamente das últimas fileiras. Esses então têm que
sair andando rumo a um comando de trabalho estranho e ao qual ninguém está
habituado, sendo por isso muito temido, por várias razões. Mas às vezes também
acontece que o chefe do campo, no intuito de pegar os "espertos", "pega"
justamente as primeiras fileiras de cinco homens. Qualquer súplica ou protesto é
silenciado com alguns pontapés certeiros, e as vítimas da sua escolha são tocadas
aos berros e empurrões.
 Isto, porém, jamais poderia acontecer-me enquanto durassem as confidências do
meu Capo. Eu tinha meu lugar de honra reservado e garantido a seu lado. E havia
mais um detalhe. Como era o caso com quase todos os internados no campo, nesta
época eu já sofria de graves edemas provocados pela fome. Minhas pernas estavam
tão inchadas e a pele tão tensa, que já não conseguia dobrar direito os joelhos; para
enfiar os pés inchados nos sapatos, eu precisava deixá-los abertos. E mesmo que
tivesse meias, não poderia calçá-las. Tinha sempre os pés molhados e os sapatos
recheados de neve. A conseqüência foi que logo fiquei com os pés crestados e

feridos. Literalmente, todo e qualquer passo que desse significava um pequeno
martírio. Além disso, ao marchar sobre os campos cobertos de neve, ia-se
acumulando gelo no calçado defeituoso. Repetidamente acontecia que um
companheiro caía, fazendo com que os que vinham atrás também caíssem sobre
ele. Neste caso, aquela parte da coluna tinha que parar e esta se dividia - mas não
por muito tempo. Pois imediatamente um dos guardas da escolta vinha correndo – e
choviam coronhadas sobre os companheiros para que se levantassem logo. Quanto
mais à frente a gente estivesse na coluna, menos efeitos teriam sobre a respectiva
fileira essas repetidas perturbações, e, por isso, tanto menos, se teria que ficar
parado para então alcançar os outros na corrida - a despeito dos pés doloridos. Por
isso me dava por satisfeito porque podia, como médico e psiquiatra honorários do
Sr. Capo, marchar ao lado dele, na primeiríssima fileira e, por conseguinte, em ritmo
uniforme. Isto para não falar de emolumentos adicionais: quando da distribuição da
sopa do meio-dia, enquanto ainda havia sopa, o Capo, ao chegar a minha vez,
mergulhava a concha mais fundo no barril para apanhar algumas ervilhas.
 Naquela ocasião, portanto, este Capo, um ex-oficial, teve a coragem de segredar
ao irritado capataz que ele me conhecia como "bom trabalhador". Pouco adiantou -
porém mesmo assim mais uma vez escapei com vida. No dia seguinte o Capo me
contrabandeou para outro comando de trabalho. Com este episódio, relativamente
trivial à primeira vista, eu quis apenas mostrar que mesmo aquele que já perdeu a
sensibilidade emocional ainda chega a ser tomado de revolta, não por brutalidade
externa ou qualquer dor física, mas pelo escárnio que vem com tudo isso. Naquela
ocasião o sangue me subiu violentamente à cabeça ao ouvir a desfaçatez de um
indivíduo que não tinha a menor idéia da minha vida anterior - "um indivíduo (devo
reconhecer que essa observação posterior perante os companheiros que me
rodeavam me aliviou de certa forma, embora pareça infantil) tão ordinário e de
aspecto tão brutal, que a enfermeira do hospital em que eu trabalhava não o teria
deixado entrar nem na sala de espera."
 Entretanto, também havia capatazes que tinham pena de nós e faziam o possível
para amenizar a nossa situação, ao menos no local da obra. É verdade que também
eles frequentemente nos lançavam no rosto que um trabalhador normal, em menos
tempo, renderia muito mais do que nós. Entretanto, aceitavam nossa réplica de que
um trabalhador normal não se sustenta com trezentos gramas de pão e um litro de
sopa rala por dia (teoricamente; na prática era menos ainda); de que um trabalhador
normal não está submetido à mesma pressão psicológica que nós, que nada
ficávamos sabendo dos nossos familiares igualmente levados para campos de
concentração ou logo executados em câmara de gás; que um trabalhador normal
não se encontra sob constante ameaça de morte, diariamente e a qualquer
momento, etc. etc.
 Certa vez dei-me até ao luxo de fazer a seguinte observação frente a um capataz
de boa índole: "Se o senhor aprender comigo a fazer punções cerebrais em poucas
semanas, como eu estou aprendendo a trabalhar com terra com o senhor, então
gozará de todo o meu respeito!" Ao que ele sorriu.
 A apatia como principal sintoma da segunda fase é um mecanismo necessário de
auto-proteção da psique. Reduz-se a percepção da realidade. Toda a atenção e,
portanto também os sentimentos se concentram em torno de um único objetivo: pura
e simplesmente salvar a vida - a própria e a do outro! Assim se podia ouvir
repetidamente os companheiros dizerem quando voltavam do local de trabalho ao
campo, à noitinha, numa exclamação bem típica: "Então, passou mais um dia!"

Os sonhos dos prisioneiros 
 Compreende-se perfeitamente que naquela situação psicológica sem saída e sob a
pressão da necessidade de se concentrar na preservação imediata da vida, toda a
vida anímica parece baixar a um nível primitivo. Por isso, colegas de orientação
psicanalítica entre os companheiros costumavam falar de uma "regressão" da
pessoa no campo de concentração, de um retraimento a uma forma mais primitiva
da vida anímica. Essa primitividade dos desejos e anseios se revela nos sonhos
típicos dos reclusos.
 Qual é o sonho mais freqüente da pessoa internada no campo? Ela sonha com
pão, com tortas, cigarros e com uma banheira cheia de água quente. A nãosatisfação das respectivas necessidades mais primitivas fá-lo experimentar a
satisfação das mesmas em sonhos primitivos. Outra coisa é o efeito desse sonho
sobre quem sonha, no momento em que desperta para a realidade do campo de
concentração e sente o terrível contraste entre a ilusão do sonho e a realidade do
campo.
 Jamais vou esquecer certa noite em que fui acordado pelo companheiro que
dormia ao meu lado a gemer e revolver-se, evidentemente sob o efeito de algum
pesadelo horrível. Quero observar de antemão que pessoalmente sempre tive penas
de pessoas torturadas por angustiosos pesadelos ou fantasias. Por isso eu já estava
prestes a acordar o pobre companheiro atormentado pelo pesadelo. Neste instante
assustei-me do meu propósito e retirei a minha mão que já ia despertar o
companheiro do seu sonho. Pois naquele momento me conscientizei com muita
nitidez de que nem mesmo o sonho mais terrível poderia ser tão ruim como a
realidade que nos cercava ali no campo; e eu estava prestes a chamar alguém de
volta para a experiência desperta e consciente dessa realidade. . .
Fome
 Face ao estado de extrema subnutrição em que se encontravam os prisioneiros, é
compreensível que, entre os instintos primitivos que representam a "regressão" da
vida psicológica no campo, o instinto de alimentação ocupasse o lugar principal.
Observemos os prisioneiros de um modo geral quando estão juntos no lugar de
trabalho, num momento em que não estão sendo tão rigorosamente vigiados. A
primeira coisa de que começam a falar é comida. Imediatamente alguém começará
por perguntar ao colega que trabalha a seu lado no valo qual o seu prato favorito.
Começam a trocar receitas e compor menus para o dia em que pretendem convidarse mutuamente para um reencontro, futuramente, depois de libertos e de volta em
casa. Este assunto os fascina tanto que não conseguem largá-lo antes do
convencionado sinal de aviso, geralmente dissimulado pela menção de um número,
por exemplo, alertando os que estão no valo da chegada do guarda.
 Eu pessoalmente sempre tive minhas reservas com relação a essa conversa
constante, quase obsessiva, sobre comida (no campo costumava-se chamá-la de
"onanismo estomacal"). Não se deve provocar o organismo com essas imagens de
iguarias, muito intensas e carregadas de sentimento, quando ele já conseguiu, em
termos, adaptar-se de alguma maneira às reduzidíssimas rações e quantidades de
calorias. O alívio psíquico é produzido por ilusões que certamente podem ser
perigosas na área fisiológica.
 Nos últimos tempos, a alimentação diária consistia numa sopa bastante aguada
distribuída uma vez durante o dia, e na minúscula ração de pão já mencionada.
Além disso, havia o assim chamado extra, que podiam ser vinte gramas de
margarina, ou uma rodela de lingüiça de má qualidade, ou um pedacinho de queijo,

ou mel artificial, ou uma colher de marmelada rala, etc., alternando a cada dia. Em
termos da calorias, esta alimentação era absolutamente insuficiente, ainda mais
considerando o pesado trabalho físico, a exposição a temperaturas abaixo de zero,
com agasalho extremamente precário.
 Pior ainda era a situação dos doentes que estavam sendo "poupados", que podiam
ficar deitados na barraca e não precisavam deixar o campo para o trabalho externo.
Uma vez consumidos os últimos vestígios de gordura no tecido subcutâneo,
ficávamos parecendo esqueletos vestidos de pele dos quais pendiam alguns trapos.
Dali para frente podíamos observar como o corpo passava a devorar-se a si mesmo.
O organismo consumia sua própria proteína, a musculatura ia definhando. Agora o
corpo também não apresentava mais resistência. Morria um atrás do outro na
comunidade formada por nosso barracão. Cada qual podia calcular com bastante
precisão quem seria o próximo e quando seria sua própria vez. Afinal, o grande
número de casos observados já permitia conhecer bem os sintomas, baseados nos
quais se podia prever com boa margem de segurança o tempo de vida que ainda
restava para alguém. "Este não vai muito longe", ou "esse vai ser o próximo" - era o
que segredávamos um ao outro à noite, quando matávamos os piolhos antes de nos
deitar, víamos o nosso corpo nu, e cada qual ficava pensando consigo mesmo: Na
realidade esse corpo aí, o meu corpo, já não passa de um cadáver. O que éramos
ainda? Uma partícula de uma grande massa de carne humana; uma massa cercada
de arame farpado, comprimida em algumas cabanas de chão batido; uma massa da
qual diariamente apodrecia um certo percentual por ter ficado sem vida.
 Falamos antes da natureza obsessiva de pensamentos sobre comida ou sobre
certos pratos favoritos, pensamentos que se impõem ao prisioneiro assim que ele
dispõe de um pouco de tempo ou espaço em seu consciente. Por isso é de entender
que justamente os melhores entre nós esperassem ansiosamente pelo tempo em
que pudessem alimentar-se de modo mais ou menos normal novamente, não por
amor aos pratos saborosos, mas para que finalmente acabasse aquela situação
indigna de não se conseguir mais pensar em outra coisa senão comer.
 Quem não passou por isto ainda, dificilmente poderá imaginar o desgaste interior
causado pelos conflitos íntimos que se desenrolam na pessoa do faminto. Não é fácil
imaginar o que significa estar no valo, empunhando a picareta, e ficar sempre atento,
à espera da sirene indicar nove e meia ou dez horas, ou da pausa de meia hora, ao
meio-dia, com a distribuição da "merenda perguntando repetidamente as horas ao
capataz, ou mesmo a passantes civis, caso não fossem pessoas intratáveis.
Apalpávamos carinhosamente um pequeno pedaço de pão no bolso da capa, com
os dedos desprovidos de luvas e entorpecidos de frio, quebrávamos um pedacinho
que levávamos à boca para então, num último esforço da vontade, fazê-lo voltar ao
bolso. É que nesta manhã havíamos jurado agüentar até ao meio-dia.
 Nosso tempo era tomado por intermináveis discussões sobre a conveniência ou
não de se comer aos poucos, ao longo do dia, a minguada ração de pão que, nos
últimos tempos, era distribuída apenas uma vez. Havia dois grandes partidos. Uns
eram a favor de se comer tudo de uma vez, assim que recebido. Isto teria duas
vantagens: deste modo matava-se o pior da fome ao menos uma vez por dia, se
bem que por pouco tempo, e em segundo lugar eliminava-se a possibilidade de
roubo ou perda da ração por descuido. O partido contrário, por sua vez, dispunha de
outros argumentos. No que tange a mim, acabei me convertendo a este segundo
grupo. Tinha para isso as minhas razões pessoais. Durante as vinte e quatro horas
diárias no campo de concentração, o momento mais terrível era o despertar. Os três
apitos estridentes que davam a ordem de "Levantar!" nos arrancavam sem dó nem

piedade do sono da exaustão e de ansiosos sonhos, ainda em plena madrugada.
Chegava o momento de enfrentar a luta com os sapatos molhados, nos quais mal e
mal se conseguia enfiar os pés feridos e inchados pelo edema de fome. Nos
primeiros minutos de vida acordada começavam as lamúrias e as imprecações
contra objetos como, por exemplo, os arames usados para substituir os cadarços,
mas que de vez em quando acabavam quebrando, até se ouvia companheiros de
muita fibra chorarem como crianças porque, doravante, tinham que sair descalços
rumo ao local de convocação, carregando nas mãos os sapatos demasiadamente
apertados por causa da umidade. Nesses minutos terríveis eu tinha um mísero
consolo: tirar do bolso um pedacinho de pão guardado da noite anterior e mastigá-lo
todinho entregue a esse prazer.
Sexualidade 
 A subnutrição faz com que os instintos que tomam conta do recluso na segunda
fase de sua adaptação interior à vida do campo de concentração elevem para o
primeiro plano de consciência o impulso de alimentação. Provavelmente é também o
estado de subnutrição que explica o fato de o instinto sexual, de modo geral, não se
manifestar. Afora o efeito de choque inicial, somente assim é possível compreender
aquilo que surpreende o psicólogo nesse aquartelamento maciço de homens: em
contraste com a vida em outros alojamentos em massa (quartéis e similares); não
ocorre aqui qualquer depravação sexual. E mesmo os sonhos dos prisioneiros quase
nunca apresentam conteúdo sexual, ao passo que as "tendências inibidas", em
sentindo psicanalítico, ou seja, toda a ânsia de amor do prisioneiro, bem como
outros sentimentos, de forma alguma deixam de aparecer em sonhos.
Ausência de sentimentos 
 Na grande maioria dos prisioneiros, a preponderância dos instintos primitivos e a
peremptória necessidade de se concentrar sobre a pura e simples preservação da
vida constantemente ameaçada, suscitam uma depreciação radical de tudo aquilo
que não serve a este interesse exclusivo. Assim se explica a ausência absoluta de
sentimentos por parte do prisioneiro quando avalia os acontecimentos. Quando
inexperiente, tomei consciência desta frieza de forma drástica, ao ser transferido de
Auschwitz para um campo filial em Dachau, na Baviera. O trem, que transportava
cerca de dois mil prisioneiros, passava por Viena. Cruzamos por uma estação
vienense depois da meia-noite. O percurso seguinte passava defronte ao beco em
que está a casa onde nasci e na qual vivi décadas inteiras da minha vida, até o
momento em que fui deportado. Éramos cerca de cinqüenta homens num pequeno
vagão de prisioneiros, que tinha duas pequenas aberturas com grades. Apenas
alguns de nós podiam sentar-se no chão, enquanto os demais eram forçados a ficar
de pé horas a fio. Estes geralmente se apinhavam junto às aberturas. Eu também
era um deles. Aquilo que pude entrever da minha cidade natal, por entre as cabeças
à minha frente e através das grades, pondo-me nas pontas dos pés, tinha para mim
um aspecto fantasmagórico ao extremo. Todos nos sentíamos mais mortos que
vivos. Supúnhamos que o transporte se dirigisse para Mauthausen. Por isso,
achávamos que não viveríamos mais que uma ou duas semanas, em média.
Enxergava as ruas, praças e casas da minha infância, da minha terra natal, - era um
sentimento bem nítido – como se eu já tivesse morrido, como um morto olhando do
além, um fantasma a contemplar esta cidade de aspecto fantasmagórico. O trem
parte da estação, depois de longas horas de espera. Agora vem o beco - o meu
beco! Começo a implorar como um mendigo. Os que estão à minha frente são
CONTINUA,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,





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