segunda-feira, 1 de abril de 2013

Reencontro/ livro Aruanda, pagina 18


Eu não encaro a crítica como a expressão da
opinião pública, mas como uma opinião individual que
pode estar enganada (...).
Eu esqueci, porém, que o senhor deve tratar a
questão ‘ex professo’, o que quer dizer que a estudou
sobre todos os seus aspectos; que viu tudo o que se podia
ver, leu tudo o que foi escrito sobre o assunto, analisou e
comparou as diversas opiniões; que o senhor se encontra
nas melhores condições para observar por si mesmo; que
durante anos lhe consagrou suas vigílias. Em uma
palavra, que não negligenciou nada para chegar à
constatação da verdade.
Allan Kardec em O QUE É O ESPIRITISMO
Primeira conversação: o crítico
Reencontro



Eu caminhava em direção às câmaras de socorro, local onde são atendidos os Espíritos
recém chegados
da Terra. Naquele dia minha tarefa era auxiliar no esclarecimento aos
diversos grupos de desencarnados no que tange aos primeiros passos na vida espiritual.
O movimento era intenso em nossa colônia. Havíamos recebido um contingente
muito grande de Espíritos que requeriam cuidados mais demorados. Eram companheiros
que desencarnaram juntos num mesmo acidente na Terra, e, devido às dificuldades
apresentadas por eles na adaptação à Vida Maior, muitos de nossa comunidade espiritual foram
convidados ao serviço.
Trabalhamos até tarde, auxiliando com passes magnéticos e no encaminhamento de outras
entidades ao posto de socorro espiritual.
Quando terminei minha cota de contribuição nas câmaras de socorro, dirigime
ao Parque
das Águas para meditar e organizarme
para futuras tarefas. Costumo comparecer com frequência
ao local, aproveitando a tranquilidade dos jardins para programar alguma atividade ou rabiscar
algum esboço daquilo que pretendo transmitir a encarnados e desencarnados.
* * *
Do lado de cá da vida temos também, em pleno funcionamento, nosso departamento de
divulgação. Faço cá a minha vez de repórter não só entre os chamados vivos, mas também entre os
vivos imortais.
Procure lembrar, caro leitor, que muitos espíritos não conhecem de perto o diaadia
dos
agrupamentos religiosos da Terra. Costumam se ocupar com tarefas do lado de cá da vida e, assim,
passam anos e anos sem um contato mais próximo com os encarnados. Outros simplesmente não
apreciam a proximidade com o mundo dos homens e preferem permanecer entre nós, na esfera da
imortalidade, aproveitando seu tempo para estudos e pesquisas antes de reencarnar.
Há cada situação deste lado da vida... Você certamente ficaria boquiaberto caso pudesse
visualizar, ainda que por breves momentos, as cenas e as experiências vividas pelos espíritos.
Muito daquilo que se escreve na Terra a nosso respeito não passa de fantasia, ficção criada pela
mente de pseudomédiuns — ou mesmo captada da mente de pseudomentores, sem
comprometimento algum com a verdade. Isso sem mencionar as histórias inventadas com a única
finalidade de dar lucros a editores e autores imprevidentes, que se especializaram no comércio de
“notícias do outro lado”.
Modismos da velha e saudosa Terra deixados de lado, fato é que aqui também fazemos
notícia. A maior parte das vezes, talvez para espanto de alguns, nossas matérias versam a respeito
dos encarnados. Isso mesmo. Quando chegamos de alguma caravana de estudos na Crosta, é
frequente nos reunir nos
com outros espíritos para a troca de experiências e impressões. Em

conversas assim, contamos as peripécias e estripulias de nossos diletos amigos encarnados, e,
diante de notícias tão singulares, a grande maioria de espíritos, perplexa, não acredita que possa
haver gente tão excêntrica e estranha reunida num centro espírita ou comunidade religiosa
qualquer — ainda que eles mesmos costumassem, às vezes, agir de maneira idêntica quando
encarnados.
Diante de tantos fatos merecedores de nossa curiosidade e atenção, resolvemos criar o
correio entre dois mundos: tanto quanto levamos para os encarnados as notícias e alguns
apontamentos do que ocorre do nosso lado, também trazemos para nossa comunidade de “almas do
outro mundo” as notícias da velha Terra dos caminhos, amores e pesares. Ao comentarmos acerca
de nossos médiuns para outros espíritos, ou a respeito do comportamento geral ante a realidade da
vida, assistimos a espíritos dando gostosas gargalhadas — ou você acha que espírito não ri?
Enganase.
Rimos e também choramos das histórias que ocorrem com nossos queridos irmãos da
Terra. Os espíritos, na imortalidade, continuam a se emocionar, comovesse,
alegrasse,
ao
contrário do que possam pensar alguns.
E, para evitar estardalhaço ou mal-entendido
com meu palavreado, quero esclarecer que,
ao me referir à Terra, não significa que eu esteja fora dela — não, não sou ET desencarnado nem
transformado em energia por algum processo mirabolante que uma mente medianizada possa
conceber. A propósito, há tantos médiuns por aí recebendo ET desencarnado que, quando
chegarem aqui, se decepcionarão ao descobrir que seus mentores ETs são simplesmente espíritos
turbulentos, que se sintonizavam à necessidade de aparecer na mídia espiritualista.
Aqui estamos na mesma Terra dos companheiros desencarnados. Vemos o mesmo céu, o
mesmo sol, as mesmas estrelas e o mesmo firmamento. Estamos apenas em dimensões diferentes
da vida, e alguns, tendo alcançado uma visão mais ampla da realidade, conseguem ir além da
maioria de nós, pobres espíritos errantes. Só isso. Se nos reportamos à ”velha Terra”, é apenas por
força de expressão, bem como para destacar nossa situação de desencarnados, demarcar nosso
ambiente de vivências, diferenciando o
daquele do qual antes fazíamos parte e ao qual voltaremos
algum dia, através da reencarnação. Nada mais.
Uma das coisas que mais nos divertiu aqui, em nossa comunidade, foi observar a “lógica”
de muitos companheiros espíritas diante de nossas observações registradas no livro TAMBORES
DE ANGOLA. Para eles, se o médium escreveu algo a respeito da Umbanda, é porque se tornou
umbandista.
Se o pobre rapaz psicografou um livro de determinado autor desencarnado, diz a lógica de
nossos irmãos que foi filho desse espírito em outra encarnação. Só falta defenderem, com base
nessa lógica espiritólica, que, se um médium é visto entrando ou saindo de uma farmácia, ele está
doente. Ora, levado a cabo esse raciocínio, se ele entrar ou sair de um velório, é porque está morto,
ou — quem sabe? — se o médium psicografar algum mentor que tenha vivido em Roma, ou que
tenha integrado a Igreja, veremos o dito médium desfilar trajando togas romanas ou becas
sacerdotais. É tal a lógica pura e racional de muitos de nossos irmãos espíritas.
Há, portanto, quem espere o retorno de Ângelo, a fim de que possa se retratar ante a
comunidade de espíritos espíritas e reescrever Tambores, de forma a fortalecer os preconceitos
velados ou declarados. Não escrevo para agradar a gregos nem a troianos; para respeitar a verdade
ou admitir a multiforme face da verdade, aqui estamos. Pretendo apenas construir a mesma
melodia desenhada nos Tambores, sob o mesmo ritmo de muitos tambores — seja de Angola, do
Brasil ou de Minas Gerais, onde reside o médium.
Uma vez mais, venho escrever sobre o povo de Aruanda, mostrar sua cor, seu jeito, seu
sabor ao desempenhar o trabalho no bem. Quanto a satisfazer à pretensa pureza de alguns eruditos

e doutores da verdade religiosa... abstenho me.
Sou ainda o mesmo espírito de antes, mergulhado em minhas meditações, em meus
escritos e rabiscos.
* * *
O céu acima de minhas pretensões e divagações parecia escaldado num véu turquesa,
refletindo a beleza da paisagem na qual estávamos envolvidos. No Parque das Águas, vários
espíritos iam e vinham em conversa alegre e elevada, cada qual a seu modo. A única regra em
nossa comunidade era manter a harmonia e o equilíbrio no que quer que realizássemos.
Era muito interessante ver espíritos de várias procedências desfilarem diante de mim.
Muitos traziam na aparência perispiritual as características de sua última encarnação. Os trajes
com que se faziam visíveis refletiam os costumes de diversas épocas, regiões e culturas nas quais
viveram ao longo da história planetária. No entanto, tudo isso era harmonioso e digno; não
observávamos nenhum excesso.
E, assim, num clima de nobreza e respeito ao espírito humano imortal, avistei ao longe o
vulto de alguém que julguei conhecer.
Aproximei-me
mais da entidade, que estava radiante de alegria, e eu mesmo tomei a
iniciativa, dada a descontração do momento, de abraçar a bondosa Euzália, a madona que me
recebera no Além antes das experiências que relatei ao médium em TAMBORES DE ANGOLA.
Euzália apresentavase,
como de costume, à moda das mulheres que viveram nos séculos
XVII ou XVIII. O traje de seu vestido se assemelhava ao veludo, encorpado e imponente; trazia
algumas flores enfeitando-lhe
os cabelos. O espírito bondoso abraçou me
com carinho, e senti me
transportado às nuvens, tamanha era a emoção neste encontro de corações.
— Que bom revêlo,
meu filho — disseme
Euzália, radiante. — Fui informada de que o
encontraria aqui, estão resolvi surpreendêlo.
— Nem sei como expressar minha alegria, Euzália, ou devo chamála
de Vovó Catarina?
— Não importa, Ângelo; os nomes não importam. O que faz diferença mesmo é nosso
coração, nossas vidas, que agora estão entrelaçadas pelo amor e pelo trabalho na seara do Mestre.
— Vejo que está sempre bela e bem disposta. Aliás, sua tarefa é muito bonita e nobre,
Euzália: é preciso muita renúncia para deixar o plano da vida com o qual você se sintoniza e
trabalhar nas esferas mais densas, como você faz.
— Que nada, Ângelo! Jesus fez muito mais por todos nós e, com um professor como ele,
que outra atitude seria possível? Estamos apenas treinando o desapego para que algum dia
possamos amar de verdade... Mas vejo também que você andou fazendo das suas lá “embaixo”, na
Terra. Me contaram que o velho Ângelo resolveu escrever sobre nossas experiências na Umbanda,
não é mesmo?
— Nem lhe conto, Euzália, nem lhe conto. Sinto saudades da visita que fiz aos trabalhos
da Umbanda.
— Foi pensando nisso, Ângelo, na afinidade que você desenvolveu com o povo da
Umbanda que eu resolvi visitar você. Ocorre que as pessoas lá da Terra estão muito carentes de
orientação, e tem muita gente aí dizendo e fazendo coisas que não deveria. Como você é repórter e
tem facilidade com as letras, pensei que poderia convidálo
a uma pequena excursão, ocasião que
aproveitaríamos para prestar alguns esclarecimentos aos amigos encarnados. Todavia, sintase
à
vontade para rejeitar a ideia; é apenas um convite.
— Rejeitar, eu? Nem me diga, Euzália. É só me conceder um tempinho para que encerre

algumas atividades que assumi em nossa comunidade, e pronto.
— Mas não se apresse, Ângelo, meu amigo. Não se apresse. Vou também aproveitar a
minha visita a sua morada, essa comunidade de espíritos amigos, e conhecêla
melhor. Me
disseram também que você mantém aqui uma espécie de jornal dos desencarnados, é verdade?
— Claro, Euzália: minha ideia era fundar um jornalismo dos imortais, se posso assim
dizer. Não dá ibope, como entre os encarnados, mas é útil para que eu não esqueça os velhos
hábitos de jornalista e escritor.
— Preciso me informar mais — tornou Euzália. — É tanta coisa que vocês fazem por
aqui... Quem sabe não poderia levar a ideia para a minha comunidade também?
E, após ligeira pausa, prosseguiu o espírito amigo:
— Pois bem, meu querido amigo, vou deixálo
um pouco, para que providencie os
recursos necessários à nossa partida. Afinal, você também tem seus deveres, que não poderão ser
desprezados. Vejo o
mais tarde.
— Mas como a encontrarei em meio a tanto espírito? — perguntei.
— Ora, Ângelo, não se preocupe — falou Euzália, sorrindo. — Encontraremos um ao
outro pelo coração, por aí...
Euzália estava radiante. Esse espírito me surpreendia com o conhecimento e a experiência
que detinha.
Saí do Parque das Águas em direção a outros lugares. Teria muito a fazer antes de ir ter
com Euzália. O que me aguardaria, então? Meu espírito de jornalista exocitose
ante a ideia de
uma nova empreitada. Apesar de já possuir muito material em arquivo para transmitir ao médium,
não poderia perder a oportunidade. Antes, porém, deveria terminar minhas tarefas e remanejar meu
tempo nas câmaras de socorro. Precisava organizar meu tempo Respirei a longos haustos e,
pensando nos companheiros encarnados, falei comigo mesmo:
— O pessoal da Casa dos Espíritos poderá até se sentir feliz com o novo material que
talvez consiga enviar, mas ai do médium!... Não vai ser fácil este novo livro. É que, quando as
pessoas gostam de um livro psicografado, dizem logo: “Que espírito... mas como é elevado...”.
Contudo, quando o tema é de certa forma polêmico, ou não satisfaz as expectativas do indivíduo
com relação àquilo que ele pensa ser a verdade, ferem se
seus preconceitos, e sentencia, então: “O
médium está obsedado”. Porém, uma vez que os espíritas são mais caridosos vivenciam mais o
Evangelho, por certo não dirão mal do médium, ou que esteja obsidiado.
Não! Espírita sincero é muito esclarecido e caridoso... Já ouço os comentários amorosos:
“Vamos orar pelo médium, meus irmãos. Que infelicidade, ele está mal assistido... Vamos vibrar
por ele”.





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