sábado, 27 de abril de 2013

Meus fraternos irmãos


Meus fraternos irmãos
    Desde os meus últimos passos pela amada terra, sentimos, ao longe, as 
angústias carreando seus destinos, transformando-os, em simulacro da 
benfazeja e amorosa vivência das dulcíssimas palavras de Jesus em vossas 
vidas.
    Assim, dizemos que nos Séc. XIII.,  poucas opções tínhamos, mas sempre 
tínhamos a certeza de que o caminho para a paz interior passava pelo 
auto-esquecimento tendo como meta a vitória de nós sobre nossas infantes 
perspectivas materialistas.
    Antes da perspectivas acima, éramos, como diria o francês hoje, bon 
vivants, para os quais a vida limitava-se em usurpar a vida pelo 
excesso, pela luxúria, enfim, pela irresponsabilidade, que dados os 
quadrantes morais da época, pueril.
    Não matávamos, não roubávamos, não tínhamos frio, sede ou carências 
familiares. Conquanto exagerados em nossas exteriorizações de emoções, 
se pouco mal fazíamos, éramos, o que vocês chamam hoje de preguiçosos 
físico-espirituais.
    A luta pela auto-melhoria era matéria de difícil compreensão para nós, 
pois não tínhamos dúvidas quanto ao amor acerbo de Deus e pelos nossos 
genitores, que se matavam de trabalhar.
    Mas como tudo passa, um dia, um de nós, a saber, o mais assoberbado 
materialmente, começou apresentar comportamentos diametralmente opostos 
aos nossos. Se não se afastou de nossas pilhérias grupais, passou da 
alegria material irresponsável, a momentos de turbilhonamento moral que 
iam desde a alegria de viver, até à necessidade de insulamento.
    Este comportamento preocupou muito seus genitores. Não compreendiam 
qual a razão de tanta reflexão e misantropia em um ragazzo tão vivo, 
rico sem preocupações. Vendo estas mudanças e, deste panorama diverso, o 
pai lhe obriga a enfrentar as cruzadas com soldado de Cristo. Ricamente 
ornada de brasões e honras compradas à mamon, nosso poverello sai com 
pompas de Assisi, visando libertar o túmulo de Jesus de Jerusalém.
    Para vós outros, que vivem em época mais civilizada sempre,  é útil 
lembrar que, de Jesus, nosso Jovem só ouvira falar em missas. Naqueles 
tempos, a cultura evangélica era escassa (permanecesse). De qualquer 
maneira, Francesco, inesquecível amigo, não conseguiu lutar a guerra da 
materialidade, sendo feito prisioneiro de guerra.
    Por caminhos que só a Deus cabe, cai-lhe na mão um evangelho. Para não 
perder tempo e, considerando o estado de espírito, estudou o evangelho 
em profundidade. À época, tudo que era escrito, o era em latim ou grego, 
conhecimentos que poucos tinham acesso. Este estudo foi como buril 
eficaz a remodelar e mudar para sempre sua visão de mundo e, o 
cristianismo.
    Não cabe saber como, mas ele, liberto ou evadido, voltou para o lar e, 
em obediência, tentou seguir o caminho do Pai, comerciante abastado da 
saudosa Úmbria. Continuava belo, fugaz e esperto, mas não mais o puro 
irresponsável Francesco. Passou a ter crises constantes, mediunidade 
aflorada, ouvindo vozes, vendo imagens, sempre relacionados com uma cruz 
brilhante, obsequiando-lhe que a abraçasse a cruz de Jesus. Fraco e 
deprimido, ficou meses de cama e, quando levantou, a primeira coisa que 
fez foi subir em um telhado para trocar idéias com algumas aves canoras 
que ali se encontravam. A família, preocupada, alegrou-se pela 
recuperação, mas mandou-lhe logo ao trabalho.
    Tentou com todas as forças de seu obediente espírito adequar-se aos 
ditames paternos. Mas aos olhos paternos, se tornou alguns momentos, 
inconveniente. Trabalhava à ótica de seu Pai, como estivesse sempre em 
um pil Bello sogno. Muitas vezes trabalhava, para logo depois 
recolher-se ao lar em crises lacrimosas, crises estas, que os pais, em 
sua tão material concepção, colocava o filho à conta de une vizzionario. 
Dizia ouvir um chamado a reconstruir a Igreja de Roma, mas curvava-se ao 
bom senso, omitindo tal fato.
    Certo dia, do lar até ao comércio paterno, número atípico de pessoas 
pediram-lhe óbolos, a ponto de deixá-lo desnorteado. Tão forte foi a 
impressão de Francesco que, tendo chegado ao comércio de seu Pai, sua 
razão durou minutos, quando de chofre aparece à porta une picollo 
bambino a solicitar-lhe algo para comer. De chofre nosso amigo, pegou 
todas as moedas do caixa do comércio paterno saiu a distribuir tudo, sem 
jaça ou medo.
    O pai mandou-lhe ficar em casa para curar sua loucura. Entretanto 
Francesco teve dois anjos na sua vida. Sgna Pica e sua divina Chiara. 
Únicos seres que o compreendiam. Podemos dizer que a partir daquele 
ponto Francesco transpôs-se de filho de seus Pais,  para a porta 
estreita por onde andam os irmãos de Jesus. Ao retornar à noite, após 
surrá-lo convenientemente, Francesco disse à sua mãe que já não se 
sentia somente filho limitado aos seus Pais, conquanto lhe dedicasse 
amor profundo. Sentia-se tão somente filho de Deus.
    Um dia, após um passeio pela manhã, em locais maravilhosos de Assisi  
a voz veio-lhe a mente forte como nunca, mais ou menos assim:
De que adianta saber o evangelho se nada faze em prol daqueles que de 
ti esperam a misericórdia do pão?
Olhai estas crianças que andam a vossa volta, que sabemos já lhe remoem 
o íntimo, por que não tu dás o que te sobra, em largos veios, para 
mitigar o mínimo da fome lacustre a lhe chicotear a alma?
Acolá vês os leprosos. Qual o motivo de te esconderes para ver Chiara 
atendê-los, sendo que em ti ainda vinga a lepra da materialidade a ser 
decepada de teu ser?
Andas por caminhos dolorosos, bem sei. Mas quando, como no Pregador de 
Tarso, o Cristo permanecerá em ti?
    Tal fato só encontra equânime na entrada de Paulo em Damasco.
    Francesco, sendo posto em contato com suas misérias íntimas, abrindo o 
coração a Jesus, diz: Cristo vivere mio espírito, natti sono perante 
Cristo. Io sono tu servo.
    Não podendo entrar na loja do Pai, pela janela da casa jogou todas as 
roupas, panos, vestes, tudo que era material. Seu pai solicitou 
entrevista pública com o Bispo de Assis, solicitando-lhe que colocasse 
um pouco de juízo na cabeça de seu filho. O bispo falou da Lei do amor 
filial a Francesco e este falou ao Bispo do amor paternal de Deus a 
todas as criaturas e, que entre viver vendo a desigualdade à sua porta, 
e viver e conviver com os mais necessitados, preferia a segunda opção. O 
pai lhe retruca que não poderia fazer isto, pois dele dependia desde o 
alimento e a roupa paterna para viver. Qual não foi a surpresa de todos 
quando Chico, corajosamente, despiu-se da roupa e, nu disse ao pai: Meu 
pai, agradeço a tudo que Sr e minha mãe me deram até hoje, mas digo-vos 
que em se conhecendo o evangelho e, não vivenciando o evangelho, este 
torna-se letra morta. Pai toma minha roupa como é de direito. Ficarei em 
Paz, vivendo de tudo que me vier e, sairei pelo mundo, auxiliando a 
todos como deveremos fazer.
    O exemplo de Francesco é rude até para aqueles que já detêm algum 
conhecimento espiritual.
    Alguns o consideram um louco, perdulário. Mas lembremos que ele doou o 
material para todos que pôde, ensinando a todos como angariar tesouros 
nos céus.
    Alguns dizem que sua obra foi em vão, mas eles se esquecem que graças 
a ele, algumas ordens religiosas puderam seguir os caminhos evangélicos, 
mesmo que posteriormente, incorressem em erros primários, tão combatidos 
por Francesco.
    Alguns vêem nele o visionário buscando uma cristandade improvável, mas 
poucos se lembram de que foi ele quem vulgarizou, mesmo que 
limitadamente, o evangelho sem o vício da interpretação de um só.
    Francesco foi excelente ferramental divino na terra. Viu a pobreza e 
não se isolou da mesma, ao contrário conviveu com a mesma, acolhendo 
todos que tinham fome.
    Ao que tinha fome de um pão, dava mesmo dois, pois sabia que a fome é 
mãe pútrida, lacerante de corpo, incinerante de boas intenções.
    Ao que tinha frio, dava não só a manta que recebia, mas todas aquelas 
que tivesse, pois sabia-se incapaz de mensurar o frio alheio.
    Não só andava, como caminhava por e com todos aqueles que assim 
necessitavam, pois lembrava que mesmo que necessitasse somente de um 
passo ele sempre deveria dar dois passos, se ao outro estivesse dando 
auxílio.
    Enfim, vivenciou o evangelho, antes nele mesmo, e depois para toda a 
humanidade que lhe aportava o local onde ficava.
    Era alegre, bondoso, caridoso. Concitou-nos a seguir os passos. Alguns 
mantivemos o celibato, não por dogma, mas pelo tamanho da obra a ser 
feita. Outros se casaram e permaneceram conosco, mostrando-nos que a 
união carnal, com amor, não é empecilho para a ascese ao mais alto.
    Foi perseguido, como todos nós. A rigor, à época todos éramos tidos 
como loucos, mas, todos os que nos procuravam, tentando-nos fazer 
retornar ao juízo, não conseguiam e permaneciam em nossa companhia.
    Amava tão profundamente a tudo e todos e de maneira tão espontânea, 
que, mesmos os animais tradicionalmente ferozes perto dele, tornavam-se 
mansos cordeiros.
    Este era Francesco antes e imediatamente após sua porta de damasco.
Amados Irmãos:
Nosso mote nesta oportunidade mostrar que todos nós podemos ser um 
Francesco, lembrando que o problema da fechadura das portas de nosso 
coração é que só há lugar para abri-la, do lado de dentro dele.
Nossa colaboração com a obra de Francesco ainda não se encontra pronta. 
Reencarnaremos ainda na terra para, se Deus desejar e tivermos forças, 
continuar nosso trabalho de abandono de nós mesmo para que Jesus 
permaneça em nós.
Assim vontade, estudo, análise, enxada, coragem, alteridade, amor, 
fraternidade e consciência em paz.
O nosso trabalho existe se desejarmos que Cristo exista em nós.
Francesco fez o crível e o incrível e, quanto à nós?

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