segunda-feira, 1 de abril de 2013

A diversidade das religiões


A diversidade das religiões

“Em cada religião, aparentes contradições e perplexidades assinalam diferentes estágios de evolução. O objetivo de todas as religiões é realizar Deus inerente na alma. Esta é a única religião universal.”

“Em cada religião, aparentes contradições e perplexidades assinalam diferentes estágios de evolução. Por isso não temos o direito de condenar ninguém por sua religião. Há etapas de desenvolvimento nas quais imagens e símbolos são necessários, por constituírem a linguagem que as almas nesse estágio são capazes de comprender.
(...)
Não é importante o que você lê nem os dogmas nos quais acredita, mas o que você realiza.
(...)
Credos e seita têm seu papel a representar, porém destinam-se apenas a crianças e são temporários. Não devemos esquecer que livros nunca deram origem a religiões, são religiões que dão origem a livros.
(....)
Se existe uma verdade comum a todas as religiões, eu a apresento aqui: é realizar Deus. Ideias e métodos diferentes, porém este é o ponto central.
 Podem existir milhares de raios diferentes, mas todos convergem para um único centro que é a realização de Deus, algo que transcende este mundo dos sentidos, do eterno comer, beber e conversas tola, este mundo de falsas sombras e egoísmo.
(...)
Um homem pode acreditar em todas as igrejas do mundo, trazer na cabeça todas as escrituras sagradas, batizar-se em todos so rios da Terra, contudo se não tiver a percepção de Deus eu o classifico como um ateu.
(...)
Tão logo um homem se levante e declare que ele ou sua igreja estão certos, enquanto todos os demais estão errado, ele é o mais errado de todos.
Desde que não sejam exclusivistas, entendo e adoto todas as seitas e credos. Considero-os todos excelentes, pois estão ajudando o homem a alcançar a única religião real. Devo acrescentar que é bom nascer no seio de uma igreja, porém é ruim morrer nela.
É bom nascer criança, mas é ruim permanecer criança. 
Igrejas, cerimônias, símbolos são bons para infantes. Porém quando a criança cresce deve ir além da igreja e de si mesma.
Não podemos ser crianças para sempre. Seria como tentar vestir o mesmo casaco em pessoas de qualquer tamanho e idade.
Não reprovo a existência de seitas no mundo(...) Minha objeção é quanto a tentativa de fazer com que uma única religião se ajuste a todos os casos.
Embora as religiões sejam iguais em sua essência, apresentam necessariamente uma multiplicidade de formas causadas pelas condições dissimilares que existem nos diferentes países.
(....)
Na história atual da espécie humana, o fato é que todas essas grandes religiões existem, expandem-se e multiplicam-se. Há um significado nisso com certeza. Se fosse da vontade de um Criador, sapientíssimo e misericordioso que só existisse uma religião e que as restantes acabassem, isto já teria acontecido há muito, muito tempo
(...). 
Nenhum religião propagou-se sozinha por toda á parte.
Exponho estes fatos para demonstra-lhes que a tentativa de trazer á humanidade um único método de pensar sobre coisas espirituais foi, e sempre será, um fracasso.
Todo homem que inicia uma doutrina, mesmo nos dias atuais, descobre que , caso ele se afaste mais de trinta quilômetros de seus seguidores, estes fundarão trinta seitas. Vemos isso acontecer a toda hora.
Não é possível  fazer com que todos concordem com a mesma ideia; isto é um fato e graças a Deus que assim seja. Não me oponho a nenhuma seita. 
(...)
Por que? Simplesmente porque , se eu e você tivéssemos de pensar exatamente os mesmos pensamentos, não haveria mais pensamentos para pensarmos. Sabemos que duas ou mais forças devem entrar em colisão a fim de produzir movimento. 
É o choque de idéias, a diferenciação entre elas, que desperta a reflexão.
(...)
Surge então, a pergunta: como pode toda esta multiplicidade ser verdadeira?
Se algo é verdadeiro, sua negação é falsa. Como podem opiniões contraditórias ser igualmente verdadeiras? Eis a  indagação que pretendo responder.
Primeiro porém eu lhes pergunto:serão todas as religiões do mundo realmente contraditórias?
Não me refiro ás formas exteriores que revestem grandes pensamentos, nem aos diferentes edifícios, idiomas, rituais e livros inerentes ás várias religiões, mas a essência de cada uma.
Cada religião tem uma alma por trás dela, que pode diferir da alma de outra religião. Mas são elas contraditórias?
Contradizem ou suplementam umas as outras? Eis a questão.
Creio não serem contraditórias, porém suplementares. Cada religião encarrega-se de uma parte da grande verdade universal e prega toda sua energia para exprimi-la e caracterizá-la. Trata-se pois de adição, não de exclusão eia a ideia.
Sistema após sistema surge, cada um personificando uma grande ideia, e ideias precisam ser acrescidas a idéias. Assim caminha humanidade.
.(...)
Sabemos que podem existir pontos de vistas contraditórios, mas todos indicarão a mesma coisa. Suponha que um homem viaja em direção ao Sol e vai tirando fotos á medida que avança. Ao regressar, exibe para nós várias imagens. Vemos que nenhuma dela sé igual a outra; contudo quem negará que são imagens do sol em diferentes  ângulos?

Comparativamente olhamos a verdade sob diferentes perspectivas, que variam conforme nosso nascimento, educação, ambiente e outros fatores. Encaramos a verdade extraindo dela o que as circunstância permitem, colorindo-a com nosso sentimentos, compreendendo-a com nossa inteligência, captando-a com a nossa mente. 
Só conhecemos da verdade aquele tanto que se relaciona conosco e que somos capazes de assimilar. Isso diferencia um homem de outro e provoca, também, algumas vezes, ideias contraditórias. No entanto todos nós fazemos parte da mesma verdade universal.
(...)
Um homem apresenta duas ou três doutrinas e declara sua religião satisfatória para toda a humanidade. Sai pelo mundo, o zoológico de Deus, com uma pequena gaiola na mão e proclama: Deus, o elefante e o resto do mundo devem entrar nesta gaiola. 
(...)
Há várias gradações mentais. 
Talvez você seja racionalista, cheio de bom senso e espírito prático, e não se interesse por cerimônias. Você quer fatos intelectuais rigorosos e relevantes para se convencer. (...) Muito bem. Entretanto, outra pessoa tem um temperamento mais artístico. Deseja cercar-se de arte- a beleza de linhas s e curvas, cores, flores, cerimônias, quer velas, luzes e todos os símbolos e acessórios ritualísticos para que possa ver Deus. A mente dessa pessoa aprende Deus por essas formas, enquanto a sua aprende por meio do intelecto. Há também o homem piedoso; sua alma chora por Deus, a quem ele só pensa em adorar e glorificar. E há ainda o filósofo, que se mantém à parte e de todos zomba. Ele pensa: “ Como são absurdas as idéias que eles fazem de Deus.”
Eles podem rir uns dos outros, mas cada um tem seu lugar no mundo. A diversidade de mentalidades e a variedade de temperamentos são necessárias. Se algum dia existir uma religião ideal ela deverá ser bastante nobre e ampla para suprir todas estas mentes.
(...)
Nossa palavra de ordem será então aceitação e não exclusão. Não apenas tolerância, pois esta suposta tolerância geralmente é um insulto, e não estou de acordo com ela. Acredito em aceitação. Porque deveria eu tolerar? Tolerância significa que eu acho que você está errado e estou apenas permitindo que exista.  Não é uma blasfêmia pensar que você  ou eu estamos consentindo que outros vivam?
Aceito as religiões do passado e o culto a Deus em todas elas; juntamente com cada uma, adoro a Deus na cerimônia ou rito que usarem. Entrarei na mesquita do muçulmano entrarei na capela do cristão e ajoelhar-me-ei ante o crucifixo do altar; entrarei no templo do budista onde me refugiarei em Buda e sua Lei. Entrarei na floresta e sentarei em meditação com o hindu que está tentando vera luz que ilumina o coração de cada ser.
Não só farei isso, mas conservarei meu coração aberto para tudo o que vier no futuro.
O livro de Deus está terminado ou é uma constante e contínua revelação? "

" Assim como por nossa própria natureza reconhecemos a unidade, também devemos aceitar a diversidade. Precisamos aprender que a verdade pode ser expressa de milhares de modos igualmente legítimos. A mesma coisa pode ser vista de cem diferentes perspectivas e ainda continuar a ser ela mesma.

Suponhamos que vamos todos buscar água e um lago, levando vasilhas em nossas mãos. Um leva uma xícara, outro um jarro, um terceiro um balde e assim sucessivamente.
Todos enchemos nossos recipientes. Em cada caso a água naturalmente toma a forma do frasco usado.
Quem levou uma xícara traz a água em formato de xícara; a água na jarra tomou o feitio da jarra. De qualquer modo, há apenas água e nada mais em cada recipiente.
Comparativamente, o mesmo sucede com as religiões.
Nossas mentes são vasilhas e cada um de nós está procurando alcançar a realização de Deus.

Deus é como a água, preenchendo diferentes vasilhas. Em cada uma, a visão de Deus adquire a forma da vasilha. Contudo, ele é um. É Deus em cada caso."

"Só terá êxito o plano que não anule a possibilidade de cada homem expressar sua individualidade relativa á religião e que lhe mostre, ao mesmo tempo, um ponto de união com todas as outras crenças.
Porém, até agora, todos os planos destinados a congraçar as religiões, enquanto propunham assimilar os diferentes conceitos religiosos, na prática, tentaram submetê-los a umas poucas doutrinas, produzindo, dessa forma, novas seitas e mais agressões, guerras, atritos.

Eu também tenho um pequeno plano. Não sei se funcionará ou não, mas desejo apresentá-lo a vocês para que seja debatido.
Em primeiro lugar, eu pediria à humanidade que aceitasse a seguinte máxima:
 " Não destrua".
Reformadores iconoclastas não fazem bem ao mundo.
Não quebrem, não derrubem, construam. Ajudem ,se puderem; caso contrário, cruzem os braços e contemplem o que se passa.
Não digam uma palavra contra as convicções de um homem sincero. Em segundo lugar, aceitem as pessoas como elas são e procurem ajudá-las a elevar-se.

Se é verdade que Deus é o centro de todas as religiões e que cada um de nós está se movendo em sua direção ao longo de um desses raios, temos então a certeza de que todos chegaremos a esse centro, para  qual todos os raios convergem e no qual as diferenças terminarão.

Neste mundo observamos a enorme diversidade de personalidades. Há milhares e milhares de tipos e inclinações mentais. Impossível generalizar. Entretanto, para fins práticos, é suficiente classificá-las em quatro grupos.

Primeiramente, o homem ativo, trabalhador. Disposto a agir, possui em seus músculos e nervos uma tremenda energia. Quer ação- construir hospitais,empenhar-se em obras de caridade, abrir estradas, planejar e organizar.

A seguir, o homem emotivo, que ama o sublime e o belo desmensuradamente. prefere pensar na beleza, apreciar o lado estético da natureza e adorar o amor e o Deus do amor. Ama de todo coração os grandes seres de todos os tempos, os profetas de todas as religiões.

Terceiro, o místico, cuja mente analisa o próprio self, para compreender o funcionamento da mente humana e quais forças operam em seu íntimo, a fim de conhecer, manipular e obter controle sobre elas; esta é a mente mística.

Quarto, o filósofo, o que pondera  e pesa todas as coisas, pretendendo usar a razão para transcender as possibilidades últimas da filosofia.

Para satisfazer a maioria ds homens, a religião deve ter a capacidade de prover a todos estes diferentes tipos mentais. Onde houver esta incapacidade, as seitas serão unilaterais.

Suponha que você se apresente uma seita que pregue amor e emoção; eles cantam e choram e pregam o amor. Porém, assim que você disser - " Meu amigo, tudo isso é muito bom, mas quero algo mais consistente, com um pouco mais de racionalidade e filosofia; quero entender as coisas passo a passo, de forma mais racional", " Vá se embora"- dizem eles.
Tal seita só pode ajudar pessoas de mente emotiva.

Por outro lado, há filósofos que discorrem sobre a sabedoria da Índia e do Oriente, usando termos de psicologia, aqueles longos, de cinquenta sílabas; no entanto, se um homem comum como eu vai procurá-los e pede: - " Podem-me ensinar algo que me torne uma pessoa mais espiritualizada?" , a primeira coisa que farão será sorrir e dizer:
"Oh, você é muito inferior a nós em termos de raciocínio. o que pode entender de espiritualidade?. E, esses luminares da filosofia, mostram a  você a porta da rua.

Existem ainda as seitas místicas, as que falam sobre diferentes planos de existência, estados alterados de consciência, o que os poderes da mente são capazes de fazer e tudo o mais. Se você é um homem comum e lhes pede: " Mostrem-me algo de bom que eu possa fazer. Não sou muito chegado à especulação. Podem me dar alguma coisa que seja mais adequada para mim?",  hão de sorris e dizer: " Ouçam esse idiota. Nada sabe, sua existência é inútil."
E isso acontece em todas as partes do mundo.

Uma religião que seja igualmente aceitável por todas as mentes é o que desejo propagar. Deve ser igualmente filosófica, emocional, mística e conducente á ação.
Essa será a combinação ideal, a analogia mais próxima de uma religião universal.

Considero parcial a pessoa que tenha apenas um ou dois desses traços característicos; o mundo está repleto de indivíduos sectários, conhecedores somente desse caminho único que trilham; tudo o mais pra eles é perigoso e terrível. 

Encontrar um equilíbrio harmonioso entre esses quatro caminhos é o meu ideal de religião.
Essa religião é alcançável pelo o que se denomina na Índia yoga, união.
Para o homem de ação, é  a união entre os homens e toda a humanidade; para o homem místico, entre seu Self interior e superior; para o amante, entre ele e o Deus do amor, para o filósofo é a união com toda a existência.
Iogue é o homem que procura um destes caminhos de união.
O que busca a união pela ação é o Karma Iogue; o que busca a união pelo amor é o Bhakti Iogue; o que busca a união pelo misticismo é o Raja Iogue o que busca a união pela filosofia é o Jnana Iogue."

Vivekananda


Nenhum comentário:

Postar um comentário