quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Uma nova mudança

    Uma nova mudança


“Você não sente, não vê, mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo,
Que uma nova mudança em breve vai acontecer.
O que há algum tempo era jovem, novo, hoje é antigo
E precisamos todos rejuvenescer!” (Belchior)

Os versos de Belchior que embalaram a juventude latino-americana (“sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vinda do interior”), nos anos 60, continuam atualíssimos... E, se me for permitido ousar, diria que demonstram a dualidade existente no movimento espírita de nossos dias, com incrível similaridade.

Foi em 1964 que o Brasil conheceu dias tormentosos, obscuros e intransigentes, época dolorosa e negra que se estendeu até 1979. Os filhos desses dias até hoje experimentam o temor em “não poder” entoar vozes diferentes daquelas que eram impostas por quem detinha o poder político-social. Muitos, inclusive, não reaprenderam a pensar por si mesmos, nem a fazer escolhas por si mesmos, esperando sempre que alguém lhes direcione a decisão.

Olho para o movimento espírita e me entristeço! O que devia ser um amplo espaço de construção, de entrosamento e de liberdade, transformou-se num ambiente de sacralização de condutas, impondo-se a obediência aos “mais antigos” da instituição, ou àqueles que facilmente aderiram à estrutura de poder local, regional, estadual, nacional... “Os descontentes que se mudem!”, parece ser o bordão entoado por quem assume o poder, seja na Casa Espírita, seja nos conselhos e federativas. E, em nome da aparente “tranqüilidade”, declinam que a discussão (e a dissensão) são “instrumentos das trevas”, ou que os “irmãozinhos estão obsidiados”, quando ousam divergir das orientações e apresentar alternativas diferentes, de pensamento e ação.

Dogmatizam a filosofia espírita em torno do que escreveu Kardec – mas, é claro, sem entender a profundidade daquilo que ele escreveu e ensinou – elegendo certos médiuns e Espíritos como intérpretes oficiais do pensamento espiritista. Recusam-se a contatar os espíritos desencarnados, para questioná-los acerca das questões da atualidade, com enunciados completamente antagônicos ao que prelecionou o Codificador (do tipo “o telefone só toca de lá para cá”) e advertindo que a obra de Kardec é intocável e só poderá ser “revista” em uma nova intervenção divina (por meio dos Espíritos Superiores), ao qual cognominam de “revelação”. Encastelam-se no poder, como donatários da verdade, assumindo a condição de “missionários” do trabalho espírita, ali permanecendo por décadas, como se o Espiritismo deles precisasse, e impedindo o acesso, democrático, das idéias e de seus subscritores, às tarefas e aos postos de serviço.

Porém, como Belchior, que com sua aparente ingenuidade cantava a vida, o amor, a paz e a resistência das idéias à massificação, ouso pensar que “uma nova mudança em breve vai acontecer”, pois “o que há algum tempo era jovem, novo, hoje é antigo” e nós, espíritas, conscientes do real papel das idéias no mundo, “precisamos todos rejuvenescer”.


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