sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

BILHETE A JESUS.

BILHETE A JESUS.
Irmão X
Senhor Jesus, enquanto a alegria do Natal acende luzes novas nos lares
festivos, torno à velha Palestina, revendo, com os olhos da imaginação, a paisagem de
tua vinda...
Roma estendiam fronteiras no Nilo, no Eufrates, no Reno, no Tamisa, no
Danúbio, no Mar Morto, no Lago de Genezaré, nas areias do Saara. César “sossegava e
protegia” os habitantes das zonas mais remotas, aliciando a simpatia dos príncipes
regionais. Todos os deuses indígenas cediam a Júpiter, o dono do Olímpio, de que as
águias dominadoras se faziam emissárias, tremulando no topo das galeras, cheias de
senhores e de escravos.
Lembras-te, Senhor, de que se fazia uma grande estatística, por ordem de
Augusto, o Divino? Otávio, cercado de assessores inteligentes, intensificava a
centralização no mundo romano, reorganizando a administração na esfera dos serviços
públicos. As circunscrições censitárias na Judéia enchiam-se de funcionários exigentes.
Cadastravam-se famílias, propriedades, indústrias. E José e Maria também se
locomoveram, com os demais, para atender as determinações. A sensibilidade israelita
poderia manter-se a distância do culto de César, resistindo ao incenso com que se
marcava a passagem dos triunfadores, em púrpura sanguinolenta, mas a experiência
judaica, estruturada em suor e lágrimas, não se esquivaria à obediência, perante os
regulamentos políticos. As estalagens, no entanto, estavam repletas e não
conseguiram lugar.
Em razão disso, a estrela gloriosa, que te assinalou a chegada não brilhou sobre
templos ou residências de relevo. Apenas a manjedoura singela ofereceu-te conforto e
guarida. Homens e mulheres faziam estatísticas minuciosas de haveres e interesses.
Se o governo imperial decretava o recenseamento para reajustar observações e
tributos, os governados da província alinhavam medidas, imprimindo modificações aos
quadros da vida comum, para se subtraírem, de alguma sorte, às exigências.
Permutavam-se cabras e camelos, terras e casas, reduzidos parques agrícolas e
pequenas indústrias. Havia espaço mental para a meditação nas profecias? Para
cumprir o dever religioso, não bastava comparecer ao Templo de Jerusalém, nos dias
solenes, oferecer os sacrifícios prescritos e prosternar-se ante a oferenda sagrada, ao
ressoar das trombetas? Razoável, portanto, examinar os melhores recursos e burlar as
requisições do romano dominador. A fração do povo eleito, que se aglomerava na
cidade de David, lia os textos sagrados, recitava salmos e tomava apressado conselho
aos livros da sabedoria; entretanto, não considerava pecado matar o tempo em
disputas e conversações infindáveis ou enganar o próximo com elegância possível.
Por essa razão, Senhor, quem gastaria alguns minutos para advogar proteção a
Maria e José? Eles traziam a sinceridade dos que andam contigo, falavam de visitas de
anjos, de vozes do céu, e o mundo palestinense estava absorvido no apego fanático
aos bens imediatos. Comentavam-se, apaixonadamente, as listas e informações
alusivas a rebanhos e fazendas. Às narrações do sonho de José ou da experiência de
Zacarias, prefeririam noticiário referente à produção de farinha ou ao rendimento de
pomares...
Todavia, ara entregar à Humanidade a divina mensagem de que te fizeste o
Depositário Fiel, não te feriste ao choque da indiferença. Começaste, assim mesmo na
manjedoura humilde; o apostolado de bênçãos eternas. O Evangelho iniciou a primeira
página viva da revelação nova na estrebaria singela. A Natureza foi o primeiro marco
de tua batalha, multissecular da luz contra as trevas.
E enquanto prossegues, conquistando, palmo a palmo, o espírito do mundo, os
homens continuam fazendo estatísticas inumeráveis...
Aos censos de Otávio, seguiram-se os de Tibério, aos Tibério sucederam-se
arrolamentos de outros dominadores. Depois do poderio romano fragmentado, outras
organizações autoritárias apareceram não menos tirânicas. Dilataram-se os serviços
censitários, em toda a parte.
As nações modernas não fazem outra coisa além da extensão do poder,
melhorando a estatística que lhes diz respeito.
Inventariavam-se, na antiga Judéia, ovelhas e jumentos, camelos e bois. Hoje,
porém, Jesus, o arrolamento é muito mais importante. Com o aperfeiçoamento da
guerra, o censo é vital nas decisões administrativas. Antes da carnificina,
arregimentam-se estatísticas de canhões, tanques e navios, aviões, metralhadoras e
fuzis. Enumeram-se homens por cabeça, no serviço preparatório dos massacres e, em
seguida, anotam-se feridos e mutilados. Isso, nas vanguardas de sangue, porque na
retaguarda, o inventário dos grandes e pequenos negócios é talvez mais ativo. Há
corridas de armamentos e bancos, valorização e desvalorização de bens móveis e
imóveis, câmbio claro e câmbio escuro, concorrência leal e desleal, mercado honesto e
clandestino, tudo de acordo com as estatísticas prévias que autorizam providências
administrativas e regem o mecanismo da troca.
Nós sabemos que não condenas o ato de contar. Aconselhaste-nos nesse
sentido, recomendando que ninguém deve abalançar-se a qualquer construção, antes
de contas rigorosas, a fim de que a obra não permaneça inacabada. Entretanto,
estamos entediados de tanto recenseamento para a morte, porque, em verdade, nunca
esteve a casa dos homens tão rica e tão pobre, tão faiscante de esplendores e tão
mergulhada nas trevas, tão venturosa e tão infeliz, como agora.
Desejávamos, Mestre, arrolar as edificações da fé, os serviços da esperança, os
valores da caridade; contudo, somos ainda muito poucos no setor de interesse pelos
sonhos reveladores e pelas vozes do céu. Apesar disso, sabemos que os homens,
fanatizados pela estatística das formas perecíveis, examinam os gráficos, de olhos
preocupados, mas erguem corações ao alto, amargurados e tristes, movimentam-se
entre tabelas e números, mas torturados pela sede de infinito...
Quem sabe, Senhor, poderias voltar, consolidando a tua glória, como fizeste há
quase vinte séculos? Entretanto, não nos atrevemos ao convite direto. As estalagens
do mundo estão ainda repletas de gente negociando bens transitórios e melhorando o
inventário das posses exteriores. Os governos estão empenhados em orçamentos e
tributos. Os crentes pousam olhos apressados em teu Evangelho de Redenção e
repetem fórmulas verbais, como os judeus de outro tempo, que mastigavam a Lei sem
digeri-la. Quase certo que não encontrarias lugar, entre as criaturas. E não desejamos
que regresses, de novo, para nascer num estábulo, trabalhar à beira das águas,
ministrar a revelação em casas e barcas de empréstimo e morrer flagelado na cruz.
Trabalharemos para que a tua glória brilhe entre os homens, para que a tua luz se faça
nas consciências, porque, em verdade, Senhor, que adiantaria o teu retorno se a
estatística das coisas santas não oferece a menor garantia de vitória próxima? Como
insistir pela tua volta pessoal e direta se na esfera dos homens ainda não existe lugar
onde possas nascer, trabalhar e morrer?
FONTE: LIVRO ANTOLOGIA MEDIÙNICA DO NATAL

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