sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Conselho de Ano Novo

Conselho de Ano Novo


Um adágio popular afirma o ano novo como vida nova. Será mesmo? Será que a simples mudança de calendário define um viver diferenciado para melhor? Claro que a mudança é da lei divina, vivemos mergulhados em processos de impermanência, e o Espiritismo, por sua vez, nos ensina que estamos submetidos à Lei de Progresso, uma das leis morais, segundo Allan Kardec, que faz uma leitura da progressão espiritual que podemos empreender como seres perfectíveis.
Assim, creio que estamos em dinâmico processo de crescimento a partir das aprendizagens que somos capazes de efetivar, passando pelas experiências e convivências as mais diversificadas, conforme nossas necessidades educativas, seja do ponto de vista moral, seja do intelectual.
E quanto às superstições reveladas em simpatias e crendices que definem cor de roupa, o que comer ou o modo de andar na entrada do ano novo, elas podem nos garantir uma vida melhor? A superstição é um apego exagerado ao que a ignorância, má conselheira, define por verdade sem a qual não se pode ser feliz.
A superstição também é fruto de uma inadequada educação religiosa que não apresentou ao indivíduo uma maneira lúcida de viver o sagrado, um jeito racional de experimentar a sua espiritualidade.
A fé raciocinada preconizada pelo Espiritismo, quando vivida no livre pensar, pode proporcionar uma espiritualidade profunda, sobretudo, no momento em que esses valores subjacentes nos ensinos dos Espíritos não ilustram somente a inteligência, mas iluminam o sentimento e mobilizam o espiritista para o bem.
Então, como podemos fazer para ter um ano novo e uma vida melhor? Compreendo, pautado na Filosofia Espírita, que podemos ter uma existência de qualidade aprimorando-nos no presente. E o meio de fazê-lo já foi lecionado por Santo Agostinho (1), evocando a doutrina socrática (2) – precursora do Espiritismo – quando postulava o conhecimento de si mesmo.
O mestre Allan Kardec teve o ensejo de apresentar na Revista Espírita, de junho de 1863, uma sintética e bela dissertação do literato desencarnado La Fontaine, intitulada “Conhecer a si mesmo”.
Entre os seus sábios conselhos encontramos:
a. “O que muitas vezes impede que vos corrijais de um defeito, de um vício, é, certamente, o fato de não perceberdes que o tendes” (p. 266). Ou seja, o desconhecimento de si impede que identifiquemos nossas imperfeições ou limites morais para que possamos mudar para melhor, aliás, nenhuma reforma considerável é possível sem o conhecimento exato a respeito do que merece mudança.
b. “Enquanto vedes os menores defeitos do vizinho, do irmão, nem sequer suspeitais que tendes as mesmas faltas, talvez cem vezes maiores que as deles.” A falta de indulgência nubla nossa visão sobre nós mesmos. Quando nos fazemos juízes inveterados dos outros, gastamos tempo e energia que poderiam ser destinados à exploração do planeta interno e, com isso, passamos a perder o foco da atenção sobre nós mesmos que, no caso de nossa progressão espiritual, é o que mais importa.
c. “Deveríeis analisar-vos um pouco como se não fôsseis vós mesmos” (p. 266). Parece-me que equanimidade seria uma palavra-síntese dessa frase. Cabe-nos uma análise sincera e imparcial de nossa natureza moral tornando a subjetividade objeto de exame, fazendo o exercício mental de “olhar de fora" para cá dentro do ser.
d. “Sede francos convosco mesmos; travai conhecimento com o vosso caráter (...).” A franqueza gera a desilusão, o que de fato é uma maravilha. É melhor ficar momentaneamente desapontado consigo por descobrir-se equivocado do que passar uma reencarnação em permanente autoengano. Aliás, o pensador espiritualista Hermógenes diz, num de seus escritos, que, se tivesse que fundar uma religião, ela se chamaria “desilusionismo”.
Enfim, aproveitemos a tecnologia de bem viver ofertada gratuitamente pelo Espiritismo, visando não somente um ano novo melhor, mas, igualmente, uma vida melhor na Terra.




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