terça-feira, 20 de março de 2012

A preexistência da alma

A imensa maioria dos confrades espíritas ainda nasceu em família católica, ou de outra religião cristã. Por isso, muitos acreditam que, ao abraçar a Doutrina Espírita, começaram a crer num conceito novo, criado na época de Kardec, chamado reencarnação. Outros, incluindo críticos da Doutrina, acusam que o conceito de reencarnação foi copiado de religiões orientais, particularmente indianas. Porém, nada está mais distante da realidade.
O conceito de reencarnação não é novo, mesmo nas religiões judaico-cristãs. Os judeus acreditavam na reencarnação (e alguns ainda acreditam). Isso fica claro, quando Jesus pergunta a seus discípulos sobre o que se andava a falar dele. “Responderam eles: Uns dizem que é João, o Batista; outros, Elias; outros, Jeremias, ou algum dos profetas.”1
Ora, como alguém poderia crer que Jesus, na casa dos 30 anos, poderia ser Elias, Jeremias, ou qualquer outro profeta, que houveram vivido, havia muitos anos, e que já tinham atingido idade avançada e morrido, se não fosse através da reencarnação? E, mais adiante, a resposta de Jesus foi mais clara ainda: “Digo-vos, porém, que Elias já veio, e não o reconheceram; mas fizeram-lhe tudo o que quiseram. Assim também o Filho do homem há de padecer às mãos deles. Então entenderam os discípulos que lhes falava a respeito de João, o Batista.”2
O primeiro trecho foi escrito tanto por Mateus como Marcos e Lucas, portanto, todos eles, ao escreverem isso, declaravam que a crença na reencarnação era comum, na época. O segundo trecho foi citado tanto por Mateus quanto por Marcos, afirmando que João Batista era Elias reencarnado. Isso pareceu tão óbvio e certo, na época, que a crença na reencarnação prosseguiu como parte do Cristianismo primitivo, às vezes, sob o nome de “preexistência da alma”, ou seja, a alma não é criada por Deus, no momento da concepção, como muitas religiões cristãs acreditam hoje em dia. Ela antecede a isso.
Diversos teólogos cristãos acreditavam na reencarnação, inclusive alguns santos, como Santo Agostinho. Não é de se estranhar que Santo Agostinho (354-430) tenha sido reencarnacionista, já que era neoplatônico. Platão acreditava na reencarnação, particularmente das almas imperfeitas. São Jerônimo, o famoso autor da Vulgata e amigo de Santo Agostinho, também aceitava a reencarnação. Estamos falando do quinto século depois de Cristo, ou seja, por mais de quatrocentos anos, os cristãos seguiam a Cristo, acreditando na reencarnação.
Todas as críticas são mais estranhas ainda porque a reencarnação é realmente implícita no Cristianismo. Porque os cristãos acreditam até hoje que Cristo existiu, como o Filho de Deus, antes de se encarnar na forma humana. Também acreditam que a missão de Jesus era ensinar os homens a agirem como Ele. Ora, isso seria absurdo, se Jesus tivesse uma natureza totalmente distinta da nossa. Portanto, os homens também tinham uma alma que preexistia ao nascimento.
Mas, quando o Cristianismo se afastou da crença na reencarnação? Tudo começou, quando os imperadores romanos adotaram o Cristianismo como religião oficial do Império. Com isso, muitos imperadores interferiam nas questões religiosas, como se isso fizesse parte das atribuições de seu cargo. Essa interferência não costumava ser tão grande, até o governo do Imperador Justiniano.
Justiniano acreditava que seu poder político também se aplicava às questões religiosas. Sua mulher, a imperatriz Teodora, foi uma cortesã (prostituta de luxo) e se imiscuía nos assuntos do governo do seu marido e, consequentemente, nos de teologia.
Contam alguns autores que, por ter sido ela uma prostituta, isso era motivo de muito orgulho por parte das suas ex-colegas. Ela sentia, por sua vez, uma grande revolta contra o fato de suas ex-colegas ficarem decantando tal honra que Teodora gostaria de esconder.
Para acabar com essa história, mandou eliminar todas as prostitutas da região de Constantinopla – cerca de quinhentas. Como os cristãos, naquela época, eram reencarnacionistas, passaram a chamá-la de assassina, e a dizer que deveria ser assassinada, em vidas futuras, quinhentas vezes por ter mandado assassinar as suas ex-colegas.
Com isso, Teodora passou a odiar a crença na reencarnação. Resolveu partir para uma perseguição, sem tréguas, contra essa doutrina e contra o seu maior defensor entre os cristãos, Orígenes, cuja fama de sábio era motivo de orgulho dos seguidores do Cristianismo, apesar de ele ter vivido quase três séculos antes.
Como a doutrina da reencarnação pressupõe a da preexistência do espírito, Justiniano e Teodora partiram, primeiro, para desestruturar a crença na preexistência da alma, com o que estariam, automaticamente, desestruturando a da reencarnação.
Em 543, Justiniano publicou um édito, em que expunha e condenava as principais ideias de Orígenes, sendo uma delas a da preexistência da alma. Em seguida à publicação do citado édito, Justiniano determinou ao patriarca Menas de Constantinopla que convocasse um sínodo, convidando os bispos para que votassem em seu édito, condenando dez anátemas (excomunhões) deles constantes e atribuídos a Orígenes.
A cláusula ou anátema da condenação da preexistência da alma, em síntese, é a seguinte: “Quem sustentar a mítica crença na preexistência da alma e a opinião, consequentemente estranha, de sua volta, seja anátema”. Ou seja, somente no Século VI depois de Cristo, o Cristianismo deixou de crer na reencarnação, por uma decisão imperial e por motivos escusos.

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