sexta-feira, 30 de março de 2012

Espírito também tem cor

Espírito também tem cor

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 Certo dia reparei em um companheiro de atividades, cheio de dedos ao falar abertamente do trabalho que realizam a Casa dos Espíritos Editora e a instituição parceira que lhe deu origem, a Sociedade Espírita Everilda Batista. A vergonha ou o receio que ele tinha devia-se especificamente à bandeira hasteada por ambas as casas, na qual declaram positivamente: ”Trabalhamos com pretos-velhos e caboclos”.

- Mas o que o movimento espírita vai pensar? – perguntava se. – Uma casa espírita aparecer com um livro como Aruanda? Que casa espírita lança uma obra associada a pretos-velhos e caboclos?

- Entendo suas apreensões – respondi. – Acontece que a nossa sina começou há muito tempo, desde a publicação de Tambores de Angola. Quando lançamos o livro você se lembra, muitos disseram que havíamos nos tornado umbandistas; agora não há como voltar atrás.

- Então! Imagine uma continuação…

- Mas alguém precisa falar contra o preconceito. Só porque o autor espiritual aborda o tabu umbanda e espiritismo quer dizer que deixamos de ser espíritas? Só porque lançamos um livro  que fala de pretos-velhos e caboclos, que tanto têm feito por nós, espíritas, tomamo-nos ”anti-doutrinários”? Faça-me o favor! Não perdemos a definição espírita de nossas atividades, porque espírita é o método de trabalho. Kardec é bom-senso, e o codificador debatia qualquer assunto, sem medo nem idéias preconcebidas.

Quanto aos espíritos, para eles não há barreiras religiosas: onde está o códice que informa a aparência correta de um ”espírito espírita”? Kardec fala que é o conteúdo da comunicação que importa, e não a aparência do espírito, que pode ser forjada com facilidade.

As preocupações do companheiro de trabalho, no entanto, não eram infundadas. com efeito, tudo que se relaciona à cultura religiosa do negro costuma ser assunto controverso, especialmente no meio espírita. Não obstante tanta relutância tenha fortes raízes históricas, é hora de começar a arrancá-las.

Aculturação

O espiritismo de Allan Kardec floresceu no final do séc. xix, entre as camadas mais abastadas da população brasileira, em meio às elites intelectuais e econômicas. O que era de esperar, tendo em vista que e uma doutrina filosófica de implicações morais e científicas, escrita em idioma estrangeiro, oriunda da França, país que à época detinha a hegemonia cultural e ditava as regras do que era chique.

O processo de aculturação do espiritismo, ao aportar num país de características tão diversas quanto o Brasil, também era previsível, senão necessário. Além da tradução para o português, era crucial assimilar os aspectos que compunham a história e a cultura brasileiras, caso houvesse a intenção de disseminar a nova doutrina. E havia, pelo menos da parte dos espíritos que coordenam os destinos da nação.

Espírito também tem cor (!)

Uma das questões que em breve viriam à tona diz respeito à feição ou à roupagem fluídica dos espíritos presentes nas reuniões mediúnicas. Para onde iriam os espíritos de negros e indígenas que desencarnavam na psicosfera brasileira? Além dos médicos, filósofos, advogados e demais intelectuais, também morriam os pobres do povo e os pretos, recém-alforriados pela Lei Áurea de 1888.

Que critérios estabelecer?

Nas páginas de Kardec, nada sobre pretos-velhos ou caboclos, pois que não havia nem emigração das colônias africanas para a França. No máximo, o depoimento de um soldado, morto nos campos de batalha das guerras nacionalistas do continente europeu.

Como proceder, então, com essa gente desencarnada?

Assim como a prática de capoeira outrora foi considerada crime, prevista no Código Penal, falar em preto, ainda mais velho, e assunto proibido em muitos locais. Ouvem-se espíritas a debater teorias: ”Se der ’estrimilique’, se errar na conjugação verbal e fizer menção a arruda e guiné”, que são as ervas da medicina de que dispunha a população, ”é espírito atrasado”.

A lógica absurda tem justificativa. Afinal, como receber orientação daqueles mesmos que mandávamos amarrar no pelourinho e durante tanto tempo foram comercializados na praça pública, como gado? As imagens do passado espiritual estão fortemente impressas em nossas mentes.

Espiritismo cana-de-açúcar

Às vezes chego a me sentir como se estivéssemos fazendo espiritismo num engenho do Brasil colonial. E que, resquício da época da escravidão, subsiste um certo pavor de se misturar com qualquer coisa que venha dos negros.

É o advento da senzala na realidade espiritual.

Negros não prestam para assumirmos como mentores e reconhecermos como espíritos elevados. Para divulgar-mos sem barreiras: ”Eles nos têm muito a ensinar com sua simplicidade e sabedoria popular”, também não.

No máximo, para fazer um ”descarrego” no ambiente – ops!, limpeza energética – ou para lidar com os ”obsessores” rebeldes ao diálogo tradicional.

Tudo na mais perfeita discrição. O quanto for possível, sem alarde, para não darmos o braço a torcer, admitindo que, nessa hora, não são os médicos nem os padres e as irmãs de caridade que atuam. Não são eles que se dirigem às profundezas do umbral ou do astral inferior para abordar QGS das trevas.

Ah! E se aparecer um Zé Grosso ou um Palminha, espíritos hoje nacionalmente conhecidos e reverenciados no meio espírita, esqueçamos que eles foram cangaceiros do bando de Lampião, o que quer dizer: nordestinos, provavelmente analfabetos, acostumados ao lombo do jegue e ao chapéu de couro – e certamente à pele escura e queimada de sol. Mesmo que trabalhem com Joseph Gleber, Fritz Hermman ou Sheilla, fechemos os olhos para o fato de que seus nomes destoam da característica européia dos demais e continuemos a nos enganar.

Mas se negros e mulatos não prestam para aparecer e ser reconhecidos, não agüentamos viver sem eles – nem ontem, nem hoje.

Na época colonial, o negro não sabia de nada, mas a cana-de-açúcar que produzia a riqueza era plantada, colhida e beneficiada por suas mãos. Não eram (idas como gente, mas foram as mulheres pretas que criaram os filhos, amamentaram os bebês, cuidaram da casa, do jardim e das roupas, prepararam a comida que serviam aos convidados.

Na atualidade, mesmo sem gozar do reconhecimento amplo – que não é seu objetivo -, as mães e os pais velhos dão importante contribuição nos centros espíritas ”kardecistas” de todo o Brasil. Aceitos ou não, já se acostumaram com a discriminação; não e isso que importa.

Percebidos ou não pelos médiuns da casa-grande, são os caboclos que manipulam o bioplasma das ervas, são os pretos-velhos que preparam o ectoplasma utilizado em reuniões de cura e tratamento espiritual. São eles que, por vezes, detêm a sabedoria simples que tocará aquele espírito furioso, revoltado com a fome, o abandono e a chibata que experimentou e que muitos de nossos médiuns, doutrinadores e mentores
desconhecem. São eles que farão frente aos chefes das trevas, impondo-lhes o respeito, o limite e a autoridade moral, o que uma alma mais doce ou delicada não poderia fazer. Acaso estou enganado e situações como essas só ocorrem em terreiros de umbanda?

É ou não é o perfeito engenho, a estrutura social da colônia que se reproduz de modo atávico e ancestral, projetando-se até na questão espiritual?

De Paris para o Pelo

O primeiro centro espírita com base nos livros de Kardec de que se tem notícia no país foi fundado em Salvador, na Bahia de Todos os Santos, ainda no séc.XIX. Capital do Brasil colonial até 1763, a cidade ostenta até hoje o belo Elevador Lacerda, que conduz à Cidade Baixa e ao MERCADO em que se vendiam negros.

Está aí um retrato fiel do ambiente espiritual brasileiro: Allan Kardec posto justo ao lado do Pelourinho.

Talvez mera coincidência, talvez uma forma de a vida nos lembrar do compromisso que temos com os povos negro e indígena – explorados e massacrados pela civilização dos colonizadores – e que deve ser resgatado desde já, também no trato com o alem-túmulo.

Que cesse o preconceito e que vivam as curimbas e as mandingas de preto-velho, a garra e as ervas dos caboclos. Que viva a atmosfera espiritual do Brasil, onde cada um mantém seu método de trabalho, mas sabe respeitar e auxiliar onde quer que seja preciso, com espírito de equipe e de solidariedade. Que vivam os médicos alemães, as freiras e os padres católicos, os árabes e indianos de turbante, os soldados de Roma e todas as falanges e nações que, na pátria espiritual, se reúnem em torno da insígnia de Allan Kardec – e, sobretudo, sob a bandeira do Cristo, de amor e fraternidade."

Fonte: Robson Pinheiro, obra " Aruanda" 




Salada de Religiões

Espiritismo, umbanda e candomblé: conheça a origem histórica das manifestações
religiosas que envolvem transe medianímico e, aos olhos do leigo, se confundem.


Todo cidadão espírita já passou pelo constrangimento de ser confundido com
umbandista ou candomblécista. Digo constrangimento porque, para muitos, é um
verdadeiro pavor ter o seu centro "de mesa branca" miscigenado com terreiros do
"baixo espiritismo".Que nomenclatura terrível!
Ocorre que reações de medo ou preconceito, com conseqüente discriminação, vêm
do desconhecimento. Quando cessa a ignorância, dissolve-se a fantasia, e o
demônio perde o rabo e o chifre.

Assembléia espiritual


Candomblé é a prática religiosa que mais se aproxima daquela que os povos
africanos trouxeram para o Brasil a bordo dos navios negreiros. No contato com a
cultura indígena encontrada aqui, nasce o chamado candomblé de caboclo,culto às forças superiores da vida através dos orixás. Como religião não cristã, é bombardeada pela pregação intolerante do jesuíta, e, de século em século, muitos candomblés acabam se deteriorando em magia negra - vingança contra padres, feitores e senhores de escravo.
Preocupados com o andar da carruagem, os espíritos responsáveis pela
administração dos destinos do Brasil decidem intervir. É hora de mudar o toque
dos atabaques.
Contudo, o espiritismo de Allan Kardec, recém-chegado da França na segunda
metade do séc.XIX, era muito intelectualizado para falar aos barracões do
candomblé.Atendia, à época, apenas aos anseios da camada mais culta da população
brasileira,acostumada com a linguagem européia e os diálogos da filosofia
clássica.
Então, alguém propõe, na assembléia de espíritos elevados: "Que tal uma religião
nova, que reúna ambos os conhecimentos, levando espiritualidade ao culto
popular?".Nasce então a aumbandhã,ou umbanda - a união das duas bandas.
Tipicamente brasileira, a nova religião surge em Niterói, no antigo estado da
Guanabara, em 1908. E apresentada diretamente da boca de uma entidade espiritual
diferente para a época: o caboclo.
O padre jesuíta Gabriel Malagrina, espírito comprometido com o panorama religioso do Brasil, assume o aspecto de um índio e declara, dentro de uma casa espírita:"Se é preciso que eu tenha um nome, digam que sou o Caboclo das Sete Encruzilhadas, pois para mim não existem caminhos fechados. Venho trazer a aumbandhã ,uma religião que harmonizará as famílias, unirá os corações, falará aos simples e que há de perdurar ate o final dos séculos".

Umbandomblé
É assim que, na atualidade, sobrevive nos terreiros essa fusão, que era objetivo
do Alto. Adotando o sincretismo entre os orixás e os santos católicos, que há
muito se desenvolvia, e o transe mediúnico assumido, que não existia nos
barracões de candomblé, a umbanda foi penetrando lentamente nos redutos de magia
negra.Levou ate lá os conceitos de amor, caridade e justiça através da voz do
preto-velho,que também se apresentou na longínqua ocasião de 1908. Na
personalidade de Pai Joaquim de Aruanda, o espírito de um médico francês assumiu
pela primeira vez apostura do ancião negro para poder falar na linguagem do
povo.Enquanto isso, o espiritismo saía do obscurantismo, graças à contribuição
de homens valorosos, como Bezerra de Menezes, Eurípedes Barsanulfo e Chico
Xavier. Tanto assim que hoje ainda se observa a tendência de as tendas de
umbanda levarem em seu nome o termo espírita, denotando a aceitação social maior
que gozavam os adeptos de Allan Kardec. Se, de todo, a pressão política ou
religiosa fosse muito forte,também havia um santo qualquer no nome da casa. E
que, em um país católico, com setores conservadores na sociedade, Tenda Espírita
de Umbanda Nossa Senhora do Rosário soaria melhor que se o nome fosse apenas Pai
Oxalá ou Caboclo Rompe-Mato.

Fonte: Robson Pinheiro, obra Aruanda



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