segunda-feira, 29 de outubro de 2012

O Chico disse para mim..


O Chico disse para mim...

Você, que milita no meio espírita, em qualquer parte do Brasil e talvez até do exterior, já deve ter ouvido alguns espíritas enchendo a boca para dizer:
  • O Chico disse para mim...
    Certa vez eu estava com o Chico e ele me disse que deve ser assim...
  • Eu estava lá em Uberaba e vi o Chico dizer que...
  • Certo dia eu estava em Uberaba, o Chico me chamou e disse que...
Tenho certeza de que em quase todas as cidades tem sempre alguém que diz isto. Tenho certeza também de que muitos leitores vão me retornar dizendo:

Alamar, parece que você veio aqui no centro em que eu freqüento e conheceu Seu Fulano ou Dona Fulana, que falam exatamente isto.

De fato Chico Xavier adorava bater papo, gostava muito da companhia de amigos, contar anedotas, brincar com os outros e dar gargalhadas. Ele estabeleceu, de fato, amizades com algumas pessoas residentes fora de Pedro Leopoldo e depois de Uberaba que iriam visitá-lo e chegou até a corresponder com algumas delas. Ele gostava muito de se comunicar por carta.
Todavia isto não quer dizer que todas as pessoas que foram a Uberaba e o tenham visto pessoalmente, milhares e talvez milhões, necessariamente tenham conseguido falar com ele a ponto dele poder lhes dar atenção especial, posto que é impossível alguém que é centro das atenções diante de muita gente ter condições de conversar com todos.
O máximo que muitos conseguiram foi chegar até perto dele, tirar uma foto ao seu lado ou até beijar-lhe as mãos.
Não é que ele não quisesse, é que era humanamente impossível ele dar atenção individual a todo mundo que o fosse visitar, por mais longa que fosse a peregrinação até Uberaba.
Se ele pudesse, se dependesse da vontade dele, com certeza ele disponibilizar-se-ia a conversar com todo mundo, ouvir a história de cada um, dizer algumas palavras e consolar com o amor que sempre lhe foi peculiar.
Mas não dava mesmo.
Ele, que sempre foi um homem de corpo físico debilitado, chegava ao trabalho, protegido pelo seu “segurança” Eurípedes, que já sabia muito bem que o povo abusava, principalmente espírita, e queria sempre atenção especial e exclusiva, se sentava, desenvolvia o trabalho e, na maioria das vezes, se disponibilizava para a psicografia. Nem sempre havia tempo para atender pessoas.
Mas muitos fazem questão de dar a atender, nas suas cidades, que iam a Uberaba, muitas vezes, quando na realidade chegaram a ir uma vez só, se é que foram, (eu mesmo nunca fui, só no dia que ele desencarnou) e que nessas viagens eram recebidos pelo médium como pessoas especiais, amigos íntimos, com espaços de tempo exclusivo para longos bate papos, talvez até chamando o Emmanuel para dar uma palavrinha para o nobre visitante.
Papo furado, conversa fiada.
Conforme eu disse, de fato algumas pessoas tiveram a oportunidade de gozar da intimidade do velho mineiro, iam repetidas vezes à Uberaba e até eram recebidas na sua casa, para descontraídos bate-papos, mas essa quantidade enorme de pessoas que faz questão de dizer que gozou da intimidade dele é puro blá-blá-blá.
Usam deste tal “O Chico disse pra mim” para se colocar como espírita importante e espírita especial, do mesmo jeito como Moisés fez, quando queria impor as suas leis para o povo Hebreu, atribuindo-as a Deus, chegando a dizer que o próprio Criador falou, pessoalmente, cara a cara, com ele.
Isto é muito utilizado quando determinados espíritas, querendo impor a sua forma pessoal de interpretar a Doutrina, apelam para a “forçação de barra”, dizendo que o Chico ensinou daquele jeito, a fim de imprimirem credibilidade à sua maneira de pensar, para que todos sigam a sua cabeça.
Chico Xavier teve o seu estilo próprio de comportamento, como espírita, era dono de uma humildade autêntica e não teatralizada, falava com aquele ritmo da fala mansa, mas era uma fala mansa natural dele, estilo praticado dentro do centro e fora do centro. Mas sempre era convicto do alerta que lhe deu Emmanuel, logo nos primeiros momentos de relacionamento, quando lhe disse:
- “Se algum dos ensinamentos que eu lhe passar deixar alguma dúvida, fique com Kardec”.
Era a coerência com a base doutrinária estabelecida, para que todos entendessem.
Queiram ou não muitos espíritas, mas a base é Allan Kardec, mas o Allan Kardec TOTAL e não o Kardec entendido superficialmente pela leitura do "Evangelho, segundo o espiritismo" “ao acaso” ou leitura de questões de “O Livro dos Espíritos”.
Só é possível conhecer o Allan Kardec total através do estudo atencioso e criterioso da “Revista Espírita”.
Eu insisto em tocar nesta tecla, porque sei que a maioria dos espíritas, incluindo os dirigentes de centros e, por incrível que pareça, até de Federações, não conhecem Allan Kardec.
É duro dizer uma coisa desta, não é?
Este Alamar só pode ser doido em ter coragem de dizer uma coisa desta. Mas é verdade e esta coragem só existe pela certeza que tenho em poder provar. Aliás, não é só eu que pode provar isto não, qualquer pessoa que conhece a revista pode provar isto, como quem não quer nada e chega, com muito amor e muita caridade, levantando um dos diversos tópicos que constam na revista, principalmente aqueles os quais a maioria dos espíritas praticam totalmente diferente. Imediatamente a criatura vai ter alguma reação, ou ser contra ou não saber argumentar em cima da questão.
Mas isto tem que ser muito fraternalmente com muita caridade.
O tal “O Chico disse pra mim” é utilizado, invariavelmente, para camuflar essa deficiência de entendimento mais sólido da doutrina espírita.
Por isto, meu amigo e minha amiga, eu lhe peço para não se impressionar muito com pessoas que costumam se utilizar desta muleta, achando que elas certamente são o máximo em espiritismo, porque não são mesmo.
Nos tempos em que a igreja, aliada ao poder político dos imperadores, se apoderou dos Evangelhos e de todas as escrituras, para que os padres pregassem para as pessoas conforme as suas cabeças e conforme os interesses dela, a população ficava sem acesso a informação e não tinha como examinar as obras, a fim de tirar a sua conclusão.
Aí veio Martinho Lutero, como um verdadeiro revolucionário, para liberar a Bíblia e os Evangelhos para que todos tivessem acesso e tirassem as suas conclusões.
Infelizmente a burrice do homem não deixou que ele próprio tirasse as suas conclusões e muitos continuaram a raciocinar com a cabeça dos padres e dos pastores protestantes, como verdadeiros fantoches.
No meio espírita acontece exatamente a mesma coisa. Muitos espíritas, em desrespeito à sua própria capacidade de raciocinar, continuam se deixando levar pelas cabeças de determinadas lideranças que são verdadeiros cegos pretendendo guiar cegos.
E eu aqui, o famoso “polêmico”, quero dar uma de Martinho Lutero, pós Kardec, e revolucionar, também, pedindo para que todos criem o hábito de estudar o espiritismo, conhecendo o Kardec Total, a fim de entender a doutrina sem depender de liderança A ou B.
Dirigente de instituição espírita é apenas uma figura que exerce um cargo administrativo, por mera formalidade, posto que ficou estabelecido que toda instituição tem que ter um quadro diretor constituído. Não quer dizer que seja uma espécie de padre, que todo mundo tem que obedecer, e muito menos que tenha conhecimentos doutrinários superiores aos freqüentadores da casa.
Deve cuidar das coisas administrativas da casa espírita, na sua organização e operação como um todo.
- Mas, Alamar. Todo centro espírita deve ter um diretor doutrinário, que é o cargo mais fundamental, para que ali se pratique A DOUTRINA.
Concordo e não tenho a menor dúvida quanto a isto. Até acho que o cargo de diretor doutrinário é o mais importante de uma instituição espírita.
Mas você já procurou observar quais são os critérios que os grupos estabelecem para escolher alguém para ser diretor doutrinário de uma instituição espírita?
  • - Você tá afim, João, de assumir como diretor doutrinário da casa?
  • - Ô dona Celeste, a gente acha que a senhora deveria ser a nossa diretora doutrinária.
  • - Jerônimo, meu irmão. Você tem tempo para fazer parte da diretoria. Sugerimos que você assuma a direção doutrinária.
 É duro dizer que nem João, nem dona Celeste e nem Jerônimo possuem, de fato, a menor condição de ser diretor doutrinário da casa, apesar de serem pessoas boas, honradas e muito dedicadas à causa.
Gente, a responsabilidade de ser diretor doutrinário de uma casa espírita é muito grande e implica em que o elemento seja profundo conhecedor da doutrina, a tenha estudado POR COMPLETO e não apenas lido alguns livros, que a tenha estudado PROFUNDAMENTE e não apenas superficialmente, e que esteja preparado mesmo para dizer o que é e o que não é doutrinário.
Infelizmente isto não é o que acontece. Qualquer Zé Mané é colocado na direção doutrinária de um centro espírita e haja fazer um monte de besteiras.
É exatamente em decorrência disto que a gente encontra um monte de proibições de livros, proibições de expositores, proibições de música, de festas, de sorrisos, de iniciativas para angariar recursos para a casa e de um monte de coisas, assim como das obrigatoriedades de se vestir de branco, de tirar o sapato para entrar no centro, de mulher sentar de um lado e homem sentar do outro na hora da palestra, de não fazer sexo no dia da mediúnica, de destampar a garrafa para a água ser “fluidificada”, de virar as palmas das mãos para cima na hora de receber o passe, de proibir elogios e aplausos... e desse festival de besteiras e maluquices que a gente vê por esse mundão afora.
“O Chico disse pra mim” é uma forma que muitos despreparados têm para impor a sua “autoridade”, nessa obsessão de ter que dizer “aqui nesta casa, eu mando”.
Sugiro aos amigos que atentem bem para estes detalhes e estas coisinhas que eu disse aqui, porque já é hora dos participantes do movimento espírita se despertarem, abrir os olhos e passarem a enxergar o engodo que tanto existe por aí.
Que digam que esta sugestão de reflexão é mera polêmica, mas não deixem que lhe façam de besta por muito tempo.

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