A Caminho da Luz

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

TEMOR DA MORTE..CEU E INFERNO

TEMOR DA MORTE
Causas do temor da morte. - Razão por que não a temem os espíritas.
Causas do temor da morte
1 - O homem, seja qual for a escala de sua posição social, desde selvagem tem
o sentimento inato do futuro; diz-lhe a intuição que a morte não é a última fase da
existência e que aqueles cuja perda lamentamos não estão irremissivelmente perdidos.
A crença da imortalidade é intuitiva e muito mais generalizada do que a do
nada. Entretanto, a maior parte dos que nele crêem apresentam-se-nos possuídos de
grande amor às coisas terrenas e temerosos da morte! Por quê?
2. - Este temor é um efeito da sabedoria da Providência e uma consequência do
instinto de conservação comum a todos os viventes. Ele é necessário enquanto não se
está suficientemente esclarecido sobre as condições da vida futura, como contrapeso
à tendência que, sem esse freio, nos levaria a deixar prematuramente a vida e a
negligenciar o trabalho terreno que deve servir ao nosso próprio adiantamento.
Assim é que, nos povos primitivos, o futuro é uma vaga intuição, mais tarde
tornada simples esperança e, finalmente, uma certeza apenas atenuada por secreto
apego à vida corporal.

3. - A proporção que o homem compreende melhor a vida futura, o temor da
morte diminui; uma vez esclarecida a sua missão terrena, aguarda-lhe o fim calma,
resignada e serenamente. A certeza da vida futura dá-lhe outro curso às idéias, outro
fito ao trabalho; antes dela nada que se não prenda ao presente; depois dela tudo pelo
futuro sem desprezo do presente, porque sabe que aquele depende da boa ou da má
direção deste.
A certeza de reencontrar seus amigos depois da morte, de reatar as relações
que tivera na Terra, de não perder um só fruto do seu trabalho, de engrandecer-se
incessantemente em inteligência, perfeição, dá-lhe paciência para esperar e coragem
para suportar as fadigas transitórias da vida terrestre. A solidariedade entre vivos e
mortos faz-lhe compreender a que deve existir na Terra, onde a fraternidade e a
caridade têm desde então um fim e uma razão de ser, no presente como no futuro.
4. - Para libertar-se do temor da morte é mister poder encará-la sob o seu
verdadeiro ponto de vista, isto é, ter penetrado pelo pensamento no mundo espiritual,
fazendo dele uma idéia tão exata quanto possível, o que denota da parte do Espírito
encarnado um tal ou qual desenvolvimento e aptidão para desprender-se da matéria.
No Espírito atrasado a vida material prevalece sobre a espiritual. Apegando-se
às aparências, o homem não distingue a vida além do corpo, esteja embora na alma a
vida real; aniquilado aquele, tudo se lhe afigura perdido, desesperador.
Se, ao contrário, concentrarmos o pensamento, não no corpo, mas na alma,
fonte da vida, ser real a tudo sobrevivente, lastimaremos menos a perda do corpo,
antes fonte de misérias e dores. Para isso, porém, necessita o Espírito de uma força só
adquirível na madureza.
O temor da morte decorre, portanto, da noção insuficiente da vida futura,
embora denote também a necessidade de viver e o receio da destruição total;
igualmente o estimula secreto anseio pela sobrevivência da alma, velado ainda pela
incerteza.

Esse temor decresce, à proporção que a certeza aumenta, e desaparece quando
esta é completa.
Eis aí o lado providencial da questão. Ao homem não suficientemente
esclarecido, cuja razão mal pudesse suportar a perspectiva muito positiva e sedutora
de um futuro melhor, prudente seria não o deslumbrar com tal idéia, desde que por ela
pudesse negligenciar o presente, necessário ao seu adiantamento material e
intelectual.
5. - Este estado de coisas é entretido e prolongado por causas puramente
humanas, que o progresso fará desaparecer. A primeira é a feição com que se insinua
a vida futura, feição que poderia contentar as inteligências pouco desenvolvidas, mas
que não conseguiria satisfazer a razão esclarecida dos pensadores refletidos. Assim,
dizem estes: "Desde que nos apresentam como verdades absolutas princípios
contestados pela lógica e pelos dados positivos da Ciência, é que eles não são
verdades." Daí, a incredulidade de uns e a crença dúbia de um grande número.
A vida futura é-lhes uma idéia vaga, antes uma probabilidade do que certeza
absoluta; acreditam, desejariam que assim fosse, mas apesar disso exclamam: "Se
todavia assim não for! O presente é positivo, ocupemo-nos dele primeiro, que o futuro
por sua vez virá"
E depois, acrescentam, definitivamente que é a alma? Um ponto, um átomo,
uma faísca, uma chama? Como se sente, vê ou percebe? E que a alma não lhes parece
uma realidade efetiva, mas uma abstração.
Os entes que lhes são caros, reduzidos ao estado de átomos no seu modo de
pensar, estão perdidos, e não têm mais a seus olhos as qualidades pelas quais se lhes
fizeram amados; não podem compreender o amor de uma faísca nem o que a ela
possamos ter. Quanto a si mesmos, ficam mediocremente satisfeitos com a
perspectiva de se transformarem em mônadas. Justifica-se assim a preferência ao
positivismo da vida terrestre, que algo possui de mais substancial.

É considerável o número dos dominados por este pensamento.
6. - Outra causa de apego às coisas terrenas, mesmo nos que mais firmemente
crêem na vida futura, é a impressão do ensino que relativamente a ela se lhes há dado
desde a infância. Convenhamos que o quadro pela religião esboçado, sobre o assunto,
é nada sedutor e ainda menos consolatório.
De um lado, contorções de condenados a expiarem em torturas e chamas
eternas os erros de uma vida efêmera e passageira. Os séculos sucedem-se aos
séculos e não há para tais desgraçados sequer o lenitivo de uma esperança e, o que
mais atroz é, não lhes aproveita o arrependimento. De outro lado, as almas combalidas
e aflitas do purgatório aguardam a intercessão dos vivos que orarão ou farão orar por
elas, sem nada fazerem de esforço próprio para progredirem.
Estas duas categorias compõem a maioria imensa da população de alémtúmulo.
Acima delas, paira a limitada classe dos eleitos, gozando, por toda a
eternidade, da beatitude contemplativa. Esta inutilidade eterna, preferível sem dúvida
ao nada, não deixa de ser de uma fastidiosa monotonia. É por isso que se vê, nas
figuras que retratam os bem-aventurados, figuras angélicas onde mais transparece o
tédio que a verdadeira felicidade.
Este estado não satisfaz nem as aspirações nem a instintiva idéia de progresso,
única que se afigura compatível com a felicidade absoluta. Custa crer que, só por
haver recebido o batismo, o selvagem ignorante - de senso moral obtuso -, esteja ao
mesmo nível do homem que atingiu, após longos anos de trabalho, o mais alto grau de
ciência e moralidade práticas. Menos concebível ainda é que a criança falecida em
tenra idade, antes de ter consciência de seus atos, goze dos mesmos privilégios
somente por força de uma cerimônia na qual a sua vontade não teve parte alguma.
Estes raciocínios não deixam de preocupar os mais fervorosos crentes, por pouco que
meditem.


7. - Não dependendo a felicidade futura do trabalho progressivo na Terra, a
facilidade com que se acredita adquirir essa felicidade, por meio de algumas práticas
exteriores, e a possibilidade até de a comprar a dinheiro, sem regeneração de caráter e
costumes, dão aos gozos do mundo o melhor valor.
Mais de um crente considera, em seu foro íntimo, que assegurado o seu futuro
pelo preenchimento de certas fórmulas ou por dádivas póstumas, que de nada o
privam, seria supérfluo impor-se sacrifícios ou quaisquer incômodos por outrem, uma
vez que se consegue a salvação trabalhando cada qual por si.
Seguramente, nem todos pensam assim, havendo mesmo muitas e honrosas
exceções; mas não se poderia contestar que assim pensa o maior número, sobretudo
das massas pouco esclarecidas, e que a idéia que fazem das condições de felicidade
no outro mundo não entretenha o apego aos bens deste, acoroçoando o egoísmo.
8. - Acrescentemos ainda a circunstância de tudo nas usanças concorrer para
lamentar a perda da vida terrestre e temer a passagem da Terra ao céu. A morte é
rodeada de cerimônias lúgubres, mais próprias a infundirem terror do que a
provocarem a esperança. Se descrevem a morte, é sempre com aspecto repelente e
nunca como sono de transição; todos os seus emblemas lembram a destruição do
corpo, mostrando-o hediondo e descarnado; nenhum simboliza a alma
desembaraçando-se radiosa dos grilhões terrestres. A partida para esse mundo mais
feliz só se faz acompanhar do lamento dos sobreviventes, como se imensa desgraça
atingira os que partem; dizem-lhes eternos adeuses como se jamais devessem revêlos.
Lastima-se por eles a perda dos gozos mundanos, como se não fossem encontrar
maiores gozos no além-túmulo. Que desgraça, dizem, morrer tão jovem, rico e feliz,
tendo a perspectiva de um futuro brilhante! A idéia de um futuro melhor apenas toca de
leve o pensamento, porque não tem nele raízes. Tudo concorre, assim,

para inspirar o terror da morte, em vez de infundir esperança.
Sem dúvida que muito tempo será preciso para o homem se desfazer desses
preconceitos, o que não quer dizer que isto não suceda, à medida que a sua fé se for
firmando, a ponto de conceber uma idéia mais sensata da vida espiritual.
9. - Demais, a crença vulgar coloca as almas em regiões apenas acessíveis ao
pensamento, onde se tornam de alguma sorte estranhas aos vivos; a própria Igreja põe
entre umas e outras uma barreira insuperável, declarando rotas todas as relações e
impossível qualquer comunicação. Se as almas estão no inferno, perdida é toda a
esperança de as rever, a menos que lá se vá ter também; se estão entre os eleitos,
vivem completamente absortas em contemplativa beatitude. Tudo isso interpõe entre
mortos e vivos uma distância tal que faz supor eterna a separação, e é por isso que
muitos preferem ter junto de si, embora sofrendo, os entes caros, antes que vê-los
partir, ainda mesmo que para o céu.
E a alma que estiver no céu será realmente feliz vendo, por exemplo, arder
eternamente seu filho, seu pai, sua mãe ou seus amigos?
Por que os espíritas não temem a morte
10. - A Doutrina Espírita transforma completamente a perspectiva do futuro. A
vida futura deixa de ser uma hipótese para ser realidade. O estado das almas depois da
morte não é mais um sistema, porém o resultado da observação. Ergueu-se o véu; o
mundo espiritual aparece-nos na plenitude de sua realidade prática; não foram os
homens que o descobriram pelo esforço de uma concepção engenhosa, são os
próprios habitantes desse mundo que nos vêm descrever a sua situação; aí os vemos
em todos os graus da escala espiritual, em todas as rases da felicidade e da desgraça,
assistindo, enfim, a todas as peripécias da vida de além-túmulo.

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