terça-feira, 17 de julho de 2012

TÉCNICAS E RECURSOS DIÁLOGO COM AS SOMBRAS

TÉCNICAS E RECURSOS
DIÁLOGO COM AS SOMBRAS
HERMÍNIO C. MIRANDA

Dissemos alhures, neste livro, que cada manifestação é diferente. Nunca
sabemos, ao certo, as intenções do Espírito que se aproxima, que problemas
nos traz, quais são suas características, qual a razão de sua presença entre
nós. Além do mais, a própria mediunidade não é um instrumento de precisão,
como um microscópio ou um relógio, que funcione, repetidamente, de maneira
previsível e controlável. O médium é um ser humano ultra-sensível, de
psicologia complexa, incumbido de transmitir o pensamento de um
desencarnado, mas está muito longe de ser mero aparelho mecânico de
comunicação, como um telefone ou um rádio, muito embora se fale em sintonia
e em vibrações, quando a ele nos referimos. Suas faculdades sofrem
influências várias, do ambiente, do seu estado de saúde, da sua problemática
íntima, da sua fé ou ausência dela, do seu interesse no trabalho, que pode
flutuar, da sua capacidade de concentração, da sua confiança nos
companheiros que o cercam e, especialmente, no dirigente do grupo e, obviamente,
dos Espíritos manifestantes. E mesmo estes, que são também seres
humanos — não nos esqueçamos disto — variam suas apresentações, de uma
para outra manifestação, segundo suas próprias disposições.
Por outro lado, é preciso considerar, também, que há diferentes formas
de mediunidade: de incorporação, ou psicofônica, de vidência, clariaudiência,
psicografia, assim como há médiuns que conservam sua consciência durante a
manifestação, e médiuns que passam ao que se convencionou chamar de
estado “inconsciente”.
Devo abrir um parêntese, para reiterar uma antiga opinião: de minha
parte, julgo inadequada a expressão “mediunidade inconsciente”. O Espírito do
médium não está em estado de inconsciência, simplesmente porque se afastou
do seu corpo físico, para cedê-lo ao manifestante. O máximo que se pode dizer
é que a consciência não está presente no corpo físico, ou, melhor ainda, não
se manifesta através do corpo material, temporariamente ocupado ou manipulado
por entidade estranha à sua economia. Se o médium mergulhasse,
em Espírito, no estado de inconsciência, o manifestante assumiria posse total
do seu organismo e faria com ele o que bem entendesse. Ao escrever isso, não
estou esquecido do fato de que há manifestações violentas, e muito livres,
durante as quais os Espíritos incorporados movimentam o instrumento
mediúnico aparentemente à sua vontade, fazendo-o gritar, dar murros,
levantar-se, derrubar móveis, rasgar livros e cadernos, e promover distúrbios
semelhantes. A mediunidade sonambúlica assemelha-se ao estado de
possessão; mas, basta invocar esta, para sentir o quanto essas duas
manifestações diferem uma da outra, O possesso é realmente um médium,
pois oferece condições para que outro Espírito se incorpore nele, mas o
médium não é um possesso, no sentido de que o manifestante possa fazer,
com ele, tudo quanto entender, a qualquer momento e sem limite de tempo, ou
totalmente sem disciplina. Num grupo mediúnico em que a supervisão espiritual
seja firme e segura, a mediunidade sonambúlica pode e deve funcionar
perfeitamente, pois muitos Espíritos necessitam ser ligados a tais médiuns.
Eles provocarão distúrbios e agitar-se-ão bastante, segundo os recursos e
censuras que encontrarem em seus médiuns, mas não nos esqueçamos de
que, não apenas os guias espirituais do grupo estarão atentos, para que eles

não cometam desatinos, como o próprio médium estará presente e consciente,
acompanhando atentamente a manifestação, e pode, com certeza, interferir,
para que o Espírito manifestante não se exèeda, ainda que lhe permitindo
considerável faixa de liberdade.
Em casos extremos os orientadores espirituais do grupo também adotarão
medidas de exceção, para conter as manifestações mais violentas. Já tivemos
oportunidade de presenciar alguns desses casos, em que o Espírito é
virtualmente “manietado”, por laços fluídicos invisíveis aos nossos olhos, mas
de realidade indiscutível para ele, porque o imobiliza instantaneamente.
*
Mas, voltemos ao fio da exposição.
O grupo deve estar, assim, perfeitamente preparado para inúmeras formas
de manifestação. Elas são imprevisíveis e inesperadas. O doutrinador
experiente saberá identificar prontamente os primeiros sinais da incorporação,
quando o Espírito começa a acomodar-se à organização mediúnica. É preciso,
aqui, lembrar que, freqüentemente, o Espírito manifestante é parcialmente
ligado ao médium, horas, e até dias inteiros, antes da sessão. Nestes casos,
quando se trata de um Espírito desarmonizado, embora a manifestação não se
torne ostensiva, porque isto implicaria admitir mediunidade totalmente
descontrolada, o médium sofre inevitável mal-estar físico, dor de cabeça,
pressão sobre a nuca, sobre os plexos, sensação de angústia indefinível e, até
mesmo, estado febril, prostração, irritabilidade, agressividade e vários outros
sintomas de desarmonização psicossomática. O médium experimentado e responsável
deve estar preparado para isso. Não se assuste, não se apavore, não
tema e, sobretudo, não deixe de comparecer ao trabalho, por causa dessas
dissonâncias psicofísicas, pois é isso mesmo que desejam os companheiros
desequilibrados, ou seja, afastá-lo do trabalho.
Esse envolvimento pode dar-se também com os demais participantes do
grupo que, embora não dotados de mediunidade ostensiva, sofrem também
terríveis pressões dos irmãos perturbados. Um dos alvos prediletos dessas
penosas aproximações é o doutrinador, tenha ou não mediunidade ostensiva.
O cerco em torno dele é permanente, tenaz, implacável, impiedoso, porque
acham, os companheiros desencarnados doentes, que o neutralizando,
acabam com o grupo, o que, muitas vezes, infelizmente, é verdadeiro.
Esteja ou não esteja o Espírito ligado ao médium antes da sessão, é certo
que o planejamento espiritual já tem as tarefas da noite distribuídas por
antecipação, e na seqüência que julgar mais conveniente ao bom andamento
dos trabalhos. Geralmente, cada médium tem seu próprio “estilo”, para indicar
o início da comunicação: colocar as mãos sobre a mesa, respirar com maior
profundidade, duas ou três vezes, agitar ligeiramente a cabeça ou o corpo,
gemer, levantar os braços, numa sematologia que o doutrinador, habituado a
trabalhar com ele, saberá identificar, a fim de iniciar o tratamento do irmão que
se apresenta.
Às vezes, o Espírito começa logo a falar, ou a esbravejar, mas, usualmente,
ele precisa de alguns segundos para apossar-se dos controles psíquicos do
médium, e não consegue falar senão depois de se ter acomodado bem à
organização do seu instrumento, o doutrinador deve aproveitar esses
momentos para uma palavra de boas-vindas, saudando-o com atenção,

carinho e respeito. Em alguns casos o Espírito somente consegue expressar-se
a muito custo, em virtude de seu estado de perturbação, de indignação, ou por
estar com deformações perispirituais que o inibem. De outras vezes, usando de
ardis, ou preparando ciladas, mantém-se em silêncio, para que o doutrinador
se esgote, na tentativa de descobrir suas motivações, a fim de tentar ajudá-lo,
com o que ele se diverte bastante.
Em certas ocasiões, vem ele revestido de um manto de mansidão e
tranqüila segurança. Diz palavras doces, assegura-nos suas boas intenções,
dá-nos conselhos. Um deles, certa vez, começou serenamente, com um apelo
“aos corações bem formados”, numa linguagem de pacificação e entendimento.
Digo-lhe que estamos dispostos à pacificação e ao entendimento, desde que
ele venha em nome de Deus; mas, por mais que se esforce — coisa estranha!
— não consegue pronunciar o nome de Deus, como eu lhe pedira. Por fim,
explode em irritação e “abre o jogo”, gritando que acabou a farsa. E derrama
um arsenal de ameaças e intimidações.
Há os que fingem dores que não sentem, ou mutilações que não possuem,
como cegueira ou falta da língua. Visam, com esses artifícios, a distrair nossa
atenção do ponto focal de sua problemática, ou simplesmente entregam-se ao
prazer irresponsável de enganar, mistificar, defraudar, ou então, como alguns
me dizem, às vezes, de esgotar o médium incumbido de dar-lhes passes.
Riem-se muito dos nossos enganos. Houve um que começou fingindo uma
terrível dor de cabeça. Propus-me a ajudá-lo, o que fiz com um passe, e ele
começou a rir, divertindo-se com a minha falta de inspiração; mas, por estranho
que pareça, começou realmente a sentir uma dor real, o que o deixou bastante
impressionado.
Qualquer que seja a abertura da comunicação, o doutrinador deve esperar,
com paciência, depois de receber o companheiro com uma saudação
sinceramente cortês e respeitosa. Seja quem for que compareça diante de nós,
é um Espírito desajustado, que precisa de socorro. Alguns bem mais
desarmonizados do que outros, mas todos necessitados — e desejosos — de
uma palavra de compreensão e carinho, por mais que reajam à nossa
aproximação. Os primeiros momentos de um contacto mediúnico são muito
críticos.
Ainda não sabemos a que vem o Espírito, que angústias traz no coração,
que intenções, que esperanças e recursos, que possibilidades e
conhecimentos Estará ligado a alguém que estamos tentando ajudar? Tem
problemas pessoais com algum membro do grupo? Luta por uma causa?
Ignora seu estado, ou tem consciência do que se passa com ele? É culto,
inteligente, ou se apresenta ainda Inexperiente e incapaz de um diálogo mais
sofisticado?
Uma coisa é certa: não devemos subestimá-lo. Pode, de início, revelar
clamorosa ignorância, e entrar, depois, na posse de todo o acervo cultural de
que dispõe. Dificilmente o Espírito é bastante primário para ser classificado,
sumariamente como ignorante. Nossa experiência acumulada é muito mais
ampla do que suspeitamos.
Dentre os muitos casos assim, lembro-me de um, particular-mente grato ao
meu coração, porque o companheiro, depois de recuperado, passou a
colaborar em nossas tarefas, com uma dedicação Comovedora.
Ao apresentar-se, tinha dificuldade em expressar-se, usando o vocabulário
limitado de uma pessoa de pouquíssima instrução. Aos Poucos, a sua história



foi se desenrolando. Fora um homem de cor, e vivera em pobreza extrema,
pelas ruas do Rio de Janeiro, cujos bairros do subúrbio conhecia muito bem.
Num infeliz acidente de trem, perdera uma perna e, mesmo no mundo
espiritual, ainda caminhava de muletas. Quando lhe disse que não precisava
mais de muletas, podendo caminhar sem elas, ele respondeu que já o
experimentara, mas levara um tombo.
Esse querido amigo — que nos deu o nome de Eusébio — esteve aos
nossos cuidados por longo tempo. Por detrás de sua pobreza verbal, do seu
limitado vocabulário e das suas curiosas expressões populares, sentíamos
nele, não obstante, um senso filosófico muito profundo da vida e uma das mais
lindas e autênticas humildades que já vi. Foi, aliás, o que o salvou e,
paradoxalmente, o que contribuiu para que sua recuperação demorasse um
pouco mais. Tentarei explicar.
Era evidente, para nós, que chegara ao fim da sua provação maior, e estava
em condições de reencetar sua escalada evolutiva. Uma noite, emocionado até
às lágrimas, conseguiu dar os primeiros passos sem a “muleta”, o que, para
ele, na sua linguagem colorida, “não era barbante podre, não”. Suas
observações eram sempre judiciosas, sua humildade uma constante, e sua
afeição e gratidão por nós, algo patético, em que expandia o coração amoroso
e pleno de generosidade. Nossos orientadores espirituais começaram a utilizálo
em pequenas tarefas auxiliares, com o que ele muito se alegrou. No entanto,
a despeito de sua indubitável vivência espiritual, continuava a falar-nos na
linguagem do Eusébio, simples, popular, sem atavios, mas conseguindo
claramente expressar nobres pensamentos e demonstrar bastante segurança.
Certa noite, devido à ausência de grande número de companheiros, a
sessão alcançou um clima de maior intimidade, o que talvez lhe tenha
favorecido a superação de suas inibições interiores, para falar-nos de maneira
inusitada, revelando o que de há muito entrevíamos nele: conhecimento,
experiência, enfim, uma respeitável bagagem espiritual, dosada e sustentada
pela sua aflorante emotividade. Pelo que depreendemos, tivera um passado de
brilho e destaque, aprendera a dura lição da humildade e tinha certo receio de
abandonar sua obscura posição espiritual, tão dificilmente conquistada, e recair
nos velhos processos da vaidade. Mas, graças a Deus, estava curado o
querido companheiro.
*
Esse caso, aqui, veio para ilustrar algumas realidades espirituais que não
podemos ignorar, sem lamentável prejuízo para o Espírito manifestante.
Exemplifico: suponhamos que, ao recebê-lo, o grupo o tratasse com superior
condescendência e o despedisse com uma palavra de desesperança. Onde e
quando teria ele outra oportunidade de entendimento e recuperação? E onde, e
quando, nós próprios teríamos a alegria de granjear uma afeição e uma
dedicação iguais àquela?
Às vezes, também, embora o grupo não realize nenhum trabalho de
Umbanda, surgem Espíritos acostumados a essas práticas. Suas primeiras
manifestações seguem, quase sempre, a técnica a que estão acostumados.
Aguardemos pacientemente, para saber o que desejam. Nada de expulsá-los
sumariamente. Se os companheiros do mundo espiritual permitiram sua
manifestação, num grupo estritamente espírita, orientado pelos ensinamentos

de Allan Kardec, haverá alguma razão para isso.

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