quinta-feira, 19 de julho de 2012

DIATRIBES

DIATRIBES
Certamente algumas pessoas esperam encontrar aqui uma resposta a certos ataques pouco respeitosos, dos quais a Sociedade [Parisiense de Estudos Espíritas], nós pessoalmente, e os partidários do Espiritismo, em geral, temos sido vítimas nos últimos tempos. Pedimos que se reportem ao artigo sobre a polêmica espírita, que encabeça o nosso número de novembro último, em que fizemos profissão de fé a esse respeito. Apenas acrescentaremos algumas palavras, já que não nos ocupamos com discussões ociosas.
Os que têm tempo a perder para sorrir de tudo, mesmo daquilo que não compreendem; tempo para a maledicência, para a calúnia ou para o deboche, que fiquem satisfeitos: não lhes criaremos nenhum obstáculo. A Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, composta de homens honrados pelo saber e por suas posições, tanto franceses quanto estrangeiros, médicos, escritores, artistas, funcionários, oficiais, negociantes, etc.; recebendo diariamente as mais altas notabilidades sociais e correspondendo-se com todas as partes do mundo, está acima da pequenez das intrigas, do ciúme e do amor-próprio; ela prossegue seus trabalhos na calma e no recolhimento, sem se inquietar com as piadas de mau gosto, que não poupam sequer as organizações respeitáveis.
Quanto ao Espiritismo em geral, que é uma das forças da Natureza, a zombaria será destruída, como aconteceu contra muitas outras coisas que o tempo já consagrou. Essa utopia, essa maluquice, como o chamam certas pessoas, já deu a volta ao mundo e nenhuma diatribe impedirá sua marcha, do mesmo modo que outrora os anátemas não impediram a Terra de girar.
Deixemos, pois, que os zombeteiros riam à vontade, visto ser isso que lhes apraz; fá-lo-ão à custa do espírito. Riem bastante da religião: por que não haveriam de rir do Espiritismo, que é apenas uma ciência? Esperamos que nos prestem mais serviços do que prejuízos e nos façam economizar despesas com publicidade, porque não há um só de seus artigos, por mais espirituosos que sejam, que não tenha estimulado a venda de alguns de nossos livros ou não nos tenha proporcionado algumas assinaturas. Obrigado, pois, a eles pelo serviço que nos prestam involuntariamente.
Igualmente temos pouco a dizer quanto ao que nos toca pessoalmente; se aqueles que nos atacam, quer de maneira ostensiva, quer disfarçada, imaginam que nos perturbam, perdem seu tempo; se pensam em nos barrar o caminho, enganam-se do mesmo modo, pois nada pedimos e apenas aspiramos a nos tornar úteis, no limite das forças que Deus nos concedeu. Por mais modesta seja a nossa posição, contentamo-nos com aquilo que para muitos seria mediocridade; não ambicionamos posição, nem honras, nem fortuna; não procuramos o mundo nem os seus prazeres; o que não podemos ter não nos causa nenhum desgosto e o vemos com a mais completa indiferença. Visto não fazerem parte de nossos gostos, não invejamos aqueles que possuem tais vantagens, se vantagens há, o que aos nossos olhos é um problema, porquanto os prazeres efêmeros deste mundo não asseguram melhor lugar no outro; pelo contrário. Nossa vida é toda de labor e de estudo e consagramos ao trabalho até os momentos de repouso. Aí nada há que cause inveja. Como tantos outros, trazemos a nossa pedra ao edifício que se levanta; entretanto, coraríamos se disso fizéssemos um degrau para alcançar o que quer que fosse. Que outros tragam mais pedras que nós; que outros trabalhem tanto e melhor que nós e os veremos com sincera alegria. O que queremos, antes de tudo, é o triunfo da verdade, venha de onde vier, pois não temos a pretensão de ver sozinho a luz; se disso deve resultar alguma glória, o campo a todos está aberto e estenderemos a mão a quantos nesta rude caminhada nos seguirem com lealdade, abnegação e sem segundas intenções particulares.
Sabíamos muito bem que, empunhando abertamente o estandarte das ideias de que nos fizemos propagadores e afrontando preconceitos, atrairíamos inimigos, sempre prontos a desferir dardos envenenados contra quem quer que levante a cabeça e se ponha em evidência. Há, entretanto, uma diferença capital entre eles e nós: não lhes desejamos o mal que nos procuram fazer, porque compreendemos a fragilidade humana e é somente nisso que a eles nos julgamos superior; nós nos rebaixamos pela inveja, pelo ódio, pelo ciúme e por todas as paixões mesquinhas, mas nos elevamos pelo esquecimento das ofensas: eis a moral Espírita. Não vale ela mais do que a das pessoas que dilaceram o próximo? Ela nos foi ditada pelos Espíritos que nos assistem e por aí podemos julgar se eles são bons ou maus. A moral espírita mostra-nos as coisas do alto tão grandiosas e as de baixo tão pequenas que não podemos senão lamentar os que voluntariamente se torturam para proporcionar a si mesmos alguma satisfação efêmera ao seu amor-próprio.
Livro: Revista Espírita: Jornal de Estudos Psicológicos - Ano II, 1859
(nº 3 - março de 1859)
Allan Kardec

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