quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Entendendo a Umbanda



Entendendo a Umbanda

Por incrível que possa parecer, aos olhos dos não iniciados no culto da Umbanda, não

existe um consenso de quais são os sete Orixás básicos ou as sete linhas, ou até

mesmo sobre quais são os Orixás da Umbanda. Mas para aqueles que já estão na

Umbanda há algum tempo fica fácil compreender que a Umbanda não tem um

codificador, não tem uma Bíblia, não tem um “Diretor de Culto” Supremo.

A Umbanda sofreu e sofre incríveis influências regionais e até mesmo, numa mesma região,

de terreiro para terreiro.

As diferenças de culto, ritualística e de maneiras de compreender a Umbanda devem ser

encaradas como riqueza da nossa religião e não como falta de organização. Portanto, não há

intenção de determinar ou decodificar a Umbanda.

Entretanto, existem algumas premissas que, de certa forma, são consenso dentro da Umbanda,

havendo pequenas variações que devem ser respeitadas.

Esta é a maneira como a compreendo e professo.

Características Principais Da Umbanda

A Umbanda é um sistema religioso fundamentalmente naturista, isto é, se manifesta através das

forças da natureza, assim como com espíritos contemporâneos, ou não, pesando expressivamente

em seu exercício as vibrações das Almas.

A Umbanda possui muitas co-irmãs e as pessoas muitas vezes confundem-na com outras religiões

que possuem nomenclaturas semelhantes às utilizadas na Umbanda, no entanto a semelhança é

meramente aparente e termina aí.

O fato da Umbanda ter como uma de suas raízes a forte influência africanista e cultuar Orixás,

gera muita confusão e sobressai a necessidade de apontar limites bem claros.

1. Trabalhamos exclusivamente visando o bem, a caridade e a evolução espiritual de todos.

2. Não temos “feituras de cabeça”, boris, raspagens, camarinhas, roncós, corpo fechado, ebós,
orunkô, feitura de santo, bascos, firmo de nação, etc.
3. As sessões obedecem a horários pré-estabelecidos. Não vemos nenhum sentido em sessões
madrugadas adentro. Por que não? Simplesmente por ser contraproducente, ninguém consegue
manter a “gira firmada” por tanto tempo, as pessoas trabalham, ficam cansadas, e a falta de
concentração, ou nível energético dos médiuns tende a cair drasticamente após 3 horas
consecutivas de culto. Além do mais a própria assistência começa a ficar desacomodada,
desconfortável, gerando vibrações de impaciência e falta de interesse. Tudo isso gera um
desacordo energético que acaba por influenciar o bom andamento da gira. É claro que estamos
nos referindo às giras ordinárias e não às festivas.
4. O abate de animais (sacrifício) não faz parte, em nenhum momento, de qualquer rito da Umbanda
(aberto ou fechado).
5. No que diz respeito a oferendas aos Orixás, guias, ou entidades menores, ressalto que sou contra
o uso excessivo desse recurso como elemento de religação. A oferenda tem sua função
específica e determinada. A banalização da mesma influencia negativamente no desenvolvimento
do médium e na evolução do espírito (guia ou protetor) que a está recebendo.
Aqui você pode estar perguntando como e porque o uso excessivo de oferenda pode
atrapalhar a evolução de um espírito e/ou de um médium.
A resposta é simples e como em tudo há sempre dois lados a serem observados:
Na realidade desestimulamos tudo que seja excessivo. No caso das oferendas, existem
conseqüências de ambos os lados, material e espiritual.
Do lado material:
a) O custo dos elementos da oferenda (muitas pessoas chegam a deixar de comer, ou até
mesmo, permitem que falte alguma coisa dentro de sua casa para comprar os elementos da
oferenda).
b) Estímulo a barganha espiritual, ou seja, o ofertante acredita que oferendando alguma coisa
poderá obter privilégios junto a espiritualidade.
c) Estímulo a preguiça espiritual no sentido da evolução, ou seja, o ofertante começa a acreditar
que a oferenda substitui o seu empenho em melhorar enquanto pessoa, geralmente com a
famosa frase : “Eu cuido do meu santo, já arriei minhas coisinhas”.
Do lado espiritual:
a) Pela pessoa somente se interligar com a espiritualidade através da oferenda, as entidades
receptoras começam a pedir cada vez mais oferendas com o intuito de estarem sempre
próximas da pessoa, pois sabemos que para que haja aproximação da entidade é necessário
que haja sintonia de pensamentos e sentimentos. Quando fazemos uma oferenda, geralmente
elevamos a nossa faixa vibracional e nos harmonizamos com a entidade. Isso faz com que
comece a haver uma espécie de “vício” ou “ciclo vicioso”, onde entidade e pessoa começam a
precisar da oferenda para se comunicarem.
b) Disso surgem pedidos cada vez mais freqüentes impedindo a evolução da pessoa e da
entidade que começa a ver na oferenda a única forma de contato com a pessoa ofertante.
O nosso objetivo no Centro Espiritualista Caboclo Pery (CECP) é orientar que a oferenda deva
vir apenas como uma representação material de agradecimento e não de comunicação com as
entidades, que basicamente e de maneira geral não precisam de oferenda. Quanto menos
evoluída a entidade e mais apegado a matéria for o médium, mais ambos “precisarão” de
oferendas.
Geralmente faço isso por ocasião do dia do Orixá ou entidade em forma de homenagem, pois
como disse o nosso mentor, Pai Pery: “Amor, fé, estudo doutrinário e o desejo de fazer caridade
desinteressada em retribuição, ofertadas com resignação e humildade”, assim nos dispomos a ser
médiuns. E se dispor a ser médium não significa apenas entrar para a corrente de um terreiro e
dar incorporação. Mas se colocar a disposição, a serviço da caridade. E sabemos muito bem que
não há necessidade da incorporação para que isso ocorra, assim como sabemos também que
arriar oferenda não é “cuidar do santo”.
Com tudo isso exposto, esclareço que o uso da oferenda como elemento de atração, religação
ou ponto de fixação dependerá da orientação de cada dirigente umbandista.
Havendo a real necessidade, a oferenda deve ser feita em locais determinados, normalmente
junto à natureza ou reinos apropriados. Lembrando sempre de deixar o local limpo como foi
encontrado. Sou absolutamente contra, por exemplo, acender velas perto de árvores (risco de
incêndio) ou numa pedra (sujeira da cera).
Nós umbandistas amamos a natureza e as suas energias, como podemos sujar os locais
sagrados para nós? É no mínimo incoerente. E uma coisa que o umbandista não pode ser é
incoerente.
A situação ideal é que todas as oferendas sejam feitas dentro do próprio terreiro em alguma
parte destinada para esse fim.
6. A vestimenta básica do trabalhador de Umbanda é toda branca.
7. Não há, sob hipótese alguma, retribuições financeiras por trabalhos executados, consultas, ou o
que quer que seja, e nada, absolutamente nada, justifica a cobrança de consulta, mesmo que seja
um valor insignificante ou irrisório. Alguns chegam a dizer que é para ajudar na manutenção do
Templo, mas afirmo que esta é uma responsabilidade do Dirigente e seu corpo mediúnico.
Existem inúmeras maneiras de se sustentar um terreiro sem que haja necessidade de se cobrar
por nada que envolva o sagrado.
8. A ascensão ao sacerdócio na Umbanda se faz através do tempo, da propriedade individual, da
constância e seriedade com que o médium se propõe à caridade. Objetivando auxiliar o médium
nesta tarefa, são realizados determinados preceitos e obrigações, testes e avaliações. Mas
fundamentalmente o trabalho, o tempo, a dedicação e o estudo são a firmeza do médium, pois
não adianta fazer uma série de recolhimentos e preceitos se o médium não se entrega à função
sacerdotal dentro e fora do terreiro, com responsabilidade e consciência de seu papel.
9. A prática religiosa deve ser realizada em locais específicos, nos centros. O atendimento na
residência do médium pode se tornar altamente perigoso, pois não haverá as firmezas
necessárias para a descarga dos atendimentos ou trabalhos lá realizados. Muitos médiuns não
vêem problema algum em atender uma ou outra pessoa em casa, entretanto eu afirmo que
existem conseqüências desastrosas para quem começa assim e se deixa levar pela vaidade.
Alguns comentários
1. Sobre Adaptações e Feituras
É comum o médium acreditar que determinados ritos vão lhe conferir maior força, ou maior
propriedade de trabalho. Se isto for imperioso em sua vida, o médium deve procurar outra religião
que lhe seja mais cara ou afim. Na Umbanda compreendemos através de preceitos, estudo,
dedicação, as diferentes formas de manipulação de energia natural e criada e, portanto, procuramos
entender melhor os mecanismos sutis que envolvem e pelos quais somos envolvidos.
Não concordo com mistificações ou adaptações. Não concordo com misturas de ritos visam
exclusivamente atender esse ou aquele. São justamente as adaptações que maculam a
Umbanda, trazendo para Ela ritos pertencentes a outros credos. Isto é uma inconseqüência do
dirigente que foi “mal preparado” ou mal orientado e, portanto se sente inseguro e vai buscar em
outros terreiros a solução para o que não sabe. O resultado dessas buscas e adaptações mal feitas e
mal orientadas é uma má influência na vida do médium e para o nome da Umbanda.
É fundamental que se compreenda a famosa frase “a Umbanda tem fundamento”, mas muitos
acham que o fundamento da Umbanda está fora dela e não dentro dela.
O trânsito de uma a outra religião é até certo modo compreensível, pois o homem sempre
busca algo que lhe complete, no entanto não vamos confundir ou tentar adaptar circunstâncias, ou
seja, se o médium se sente incompleto dentro da Umbanda, que vá buscar outra religião. O que não
pode acontecer é o dirigente “adaptar” ritos para satisfazer as necessidades do médium
Vários médiuns me procuram, dizendo que precisam fazer uma determinada obrigação, que o
“Santo está pedindo”, ou então informam que fizeram tal obrigação para o Santo, que “agora sou isto,
ou aquilo”. Não sou contra, nem tenho a pretensão de julgar ninguém, simplesmente não misturo
rituais. A quem acha que precisa de determinado tipo de trabalho que contraria os princípios básicos
da Umbanda procuro orientar e mostrar que a Umbanda tem seus próprios preceitos e fundamentos e
que não há necessidade de misturar rituais.
Diante da seguinte afirmativa de um médium: “eu preciso fazer um bori”, por exemplo, eu
pergunto: “por quê?” Normalmente o médium não sabe dizer, mas só de ouvir falar acha que precisa
também; que isso irá torná-lo um médium melhor, ou então, que algum pai no santo de outra fé
indicou isso para ele. Olho bem para o médium e faço uma série de perguntas bem simples com o
objetivo de verificar se o médium tem seguido os preceitos básicos indicados pelo nosso terreiro e,
invariavelmente, verifico que a resposta é não.
E porque não? Porque invariavelmente o médium considera que os nossos preceitos são
“fraquinhos”, ou não fortes o suficiente para atender as suas necessidades.
E quais seriam essas “necessidades”? Por que ele “se acha” tanto? Por que ele acha que
precisa de tanta coisa? Geralmente por pura Vaidade! Pura e simplesmente! Vaidade porque?
Porque provavelmente considera o “santo” dele mais forte. Outras tantas por pura insegurança ou por
também por estar acostumado a viver fazendo oferendas e despachos. Não me cabe julgá-lo, mas
sim orientá-lo. Explicando a dinâmica e o funcionamento da mediunidade e do excesso das
oferendas. Meu dever é informá-lo sobre o que é e como é a Umbanda. Deixando-o assim livre para
decidir que caminho deseja tomar.
Ser umbandista é um trabalho diário da prática da Caridade e não o somatório de
despachos e obrigações! Só que esse “trabalho diário” exige mais empenho e auto-conhecimento
do médium, e muitos não estão dispostos a esse trabalho. Então que sigam as suas aspirações,
mudem de culto, mas a Umbanda não pode ser mudada.

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