quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

1 Renovação,os mensageiros


1
Renovação
Desligando-me dos laços inferiores que me prendiam às atividades
terrestres, elevado entendimento felicitou-me o espírito.
Semelhante libertação, contudo, não se fizera espontânea.
Sabia, no fundo, quanto me custara abandonar a paisagem
doméstica, suportar a incompreensão da esposa e a divergência
dos filhos amados.
Guardava a certeza de que amigos espirituais, abnegados e
poderosos, me haviam auxiliado a alma pobre e imperfeita, na
grande transição.
Antes, a inquietude relativa à companheira torturava-me incessantemente
o coração; mas, agora, vendo-a profundamente
identificada com o segundo marido, não via recurso outro que
procurar diferentes motivos de interesse.
Foi assim que, eminentemente surpreendido, observei minha
própria transformação, no curso dos acontecimentos.
Experimentava o júbilo da descoberta de mim mesmo. Dantes,
vivia à feição do caramujo, segregado na concha, impermeável
aos grandiosos espetáculos da Natureza, rastejando no lodo.
Agora, entretanto, convencia-me de que a dor agira em minha
construção mental, à maneira do alvião pesado, cujos golpes eu
não entendera de pronto. O alvião quebrara a concha de antigas
viciações do sentimento. Libertara-me. Expusera-me o organismo
espiritual ao sol da Bondade Infinita. E comecei a ver mais alto,
alcançando longa distância.
Pela primeira vez, cataloguei adversários na categoria de benfeitores.
Comecei a freqüentar, de novo, o ninho da família terrestre,
não mais como senhor do círculo doméstico, mas como operá-

rio que ama o trabalho da oficina que a vida lhe designou. Não
mais procurei, na esposa do mundo, a companheira que não pudera
compreender-me e sim a irmã a quem deveria auxiliar, quanto
estivesse em minhas forças. Abstive-me de encarar o segundo
marido como intruso que modificara meus propósitos, para ver
apenas o irmão que necessitava o concurso de minhas experiências.
Não voltei a considerar os filhos propriedade minha e sim
companheiros muito caros, aos quais me competia estender os
benefícios do conhecimento novo, amparando-os espiritualmente
na medida de minhas possibilidades.
Compelido a destruir meus castelos de exclusivismo injusto,
senti que outro amor se instalava em minhalma.
Órfão de afetos terrenos e conformado com os desígnios superiores
que me haviam traçado diverso rumo ao destino, comecei
a ouvir o apelo profundo e divino da Consciência Universal.
Somente agora, percebia quão distanciado vivera das leis sublimes
que regem a evolução das criaturas.
A Natureza recebia-me com transportes de amor. Suas vozes,
agora, eram muito mais altas que as dos meus interesses isolados.
Conquistava, pouco a pouco, o júbilo de escutar-lhe os ensinamentos
misteriosos no grande silêncio das coisas. Os elementos
mais simples adquiriam, a meus olhos, extraordinária significação.
A colônia espiritual, que me abrigara generosamente, revelava
novas expressões de indefinível beleza. O rumor das asas de
um pássaro, o sussurro do vento e a luz do Sol pareciam dirigir-se
à minhalma, enchendo-me o pensamento de prodigiosa harmonia.
A vida espiritual, inexprimível e bela, abrira-me os pórticos
resplandecentes. Até então, vivera em “Nosso Lar” como hóspede
enfermo de um palácio brilhante, tão extremamente preocupado
comigo mesmo, que me tornara incapaz de anotar deslumbramentos
e maravilhas.

A conversação espiritualizante tornara-se-me indispensável.
Aprazia-me, antigamente, torturar a própria alma com as reminiscências
da Terra. Estimava as narrativas dramáticas de certos
companheiros de luta, lembrando o meu caso pessoal e embriagando-
me nas perspectivas de me agarrar, novamente, à parentela
do mundo, valendo-me de laços inferiores. Mas agora... perdera
totalmente a paixão pelos assuntos de ordem menos digna. As
próprias descrições dos enfermos, nas Câmaras de Retificação,
figuravam-se-me desprovidas de maior interesse. Não mais desejava
informar-me da procedência dos infelizes, não indagava de
suas aventuras nas zonas mais baixas. Buscava irmãos necessitados.
Desejava saber em que lhes poderia ser útil.
Identificando essa profunda transformação, falou-me Narcisa
certo dia:
– André, meu amigo, você vem fazendo a renovação mental.
Em tais períodos, extremas dificuldades espirituais nos assaltam o
coração. Lembre-se da meditação no Evangelho de Jesus. Sei que
você experimenta intraduzível alegria ao contacto da harmonia
universal, após o abandono de suas criações caprichosas, mas
reconheço que, ao lado das rosas do júbilo, defrontando os novos
caminhos que se descerram para sua esperança, há espinhos de
tédio nas margens das velhas estradas inferiores que você vai
deixando para trás. Seu coração é uma taça iluminada aos raios do
alvorecer divino, mas vazia dos sentimentos do mundo, que a
encheram por séculos consecutivos.
Não poderia, eu mesmo, formular tão exata definição do meu
estado espiritual.
Narcisa tinha razão. Suprema alegria inundava-me o espírito,
ao lado de incomensurável sensação de tédio, quanto às situações
da natureza inferior. Sentia-me liberto de pesados grilhões, porém,
não mais possuía o lar, a esposa, os filhos amados. Regressava
freqüentemente ao círculo doméstico e aí trabalhava pelo

bem de todos, mas sem qualquer estimulo. Minha devotada amiga
acertara. Meu coração era bem um cálice luminoso, porém, vazio.
A definição comovera-me.
Vendo-me as lágrimas silenciosas, Narcisa acentuou:
– Encha sua taça nas águas eternas daquele que é o Doador
Divino. Além disso, André, todos nós somos portadores da planta
do Cristo, na terra do coração. Em períodos como o que você
atravessa, há mais facilidade para nos desenvolvermos com êxito,
se soubermos aproveitar as oportunidades. Enquanto o espírito do
homem se engolfa apenas em cálculos e raciocínios, o Evangelho
de Jesus não lhe parece mais que repositório de ensinamentos
comuns; mas, quando se lhe despertam os sentimentos superiores,
verifica que as lições do Mestre têm vida própria e revelam expressões
desconhecidas da sua inteligência, à medida que se esforça
na edificação de si mesmo, como instrumento do Pai. Quando
crescemos para o Senhor, seus ensinos crescem igualmente aos
nossos olhos. Vamos fazer o bem, meu caro! Encha seu cálice
com o bálsamo do amor divino. Já que você pressente os raios da
alvorada nova, caminhe confiante para o dia!...
E, conhecendo meu temperamento de homem, amante do serviço
movimentado, acrescentou, generosa:
– Você tem trabalhado bastante aqui nas Câmaras, onde me
preparo, por minha vez, considerando o futuro próximo, na carne.
Não poderei, portanto, acompanhá-lo, mas creio deve você aproveitar
os novos cursos de serviço, instalados no Ministério da
Comunicação. Muitos companheiros nossos habilitam-se a prestar
concurso na Terra, nos campos visíveis e invisíveis ao homem,
acompanhados, todos eles, por nobres instrutores. Poderia você
conhecer experiências novas, aprender muito e cooperar com
excelente ação individual. Porque não tenta?
Antes que pudesse agradecer o alvitre valioso, Narcisa foi
chamada ao interior das Câmaras, a serviço, deixando-me domi-

nado por esperanças diferentes de quantas abrigara até então,
relativamente às minhas tarefas.




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