terça-feira, 11 de junho de 2013

Pretos-velhos e Caboclos



Ao classificar os caboclos e pretos-velhos como inferiores e ignorantes, os nossos companheiros de ideal não são, apenas, movidos pelo preconceito de julgar desprestigiosa a vida simples e despojada que algumas grupos étnicos tiveram ou têm.

Agem, também, com desconhecimento doutrinário, esquecidos de que esses espíritos já tiveram outras reencarnações, que podem ter se dado entre a cultura e as academias do saber, encontrando-se momentaneamente envoltos por uma aparência primitiva, embora não menos dotada de qualidades superiores.
Surpreendemos opiniões variadas a esse respeito, grande parte delas eivada desse preconceito incompreensível.
Para parcela do Movimento Espírita, não devemos aceitar a presença de espíritos que se intitulam pretos-velhos porque tal designação revelaria apego, atavismo e ignorância, e “estamos aqui para tirar a ignorância”.

Afirma-se, ainda, que devemos convocar o espírito a que assuma outra roupagem, de uma outra encarnação, adotando seu nome de batismo, explicando-lhe que, agora, já não é mais “pai” ou “mãe” fulana, e sim “irmão” ou “irmã”.
Apesar do respeito que temos por todos e por toda opinião, discordamos completamente dessa visão.

É claro que não devemos manter, com esses espíritos, uma relação de escravidão: nem devemos querer escravizá-los, nem aceitar que tenham tal inclinação.
Caso tenham sido escravos, tal situação ficou no passado, não devendo ser revivida sob qualquer pretexto.

Contudo, não se pode inferir que sejam ignorantes por simplesmente optarem por um designativo que lhes foi caro, como o de “pai”, “mãe”, “vô” ou “vovó”, muito menos pela aparência que escolhem manter na vida espiritual.
É perfeitamente natural e lógico que os espíritos mantenham suas vinculações culturais e religiosas.

Assim, não é tanto por isso que devemos avaliar seu nível de evolução espiritual, mas sim pelo que dizem, pelo que fazem e pelo teor de suas vibrações.

Não podemos transportar os falsos julgamentos feitos a partir da aparência para a relação com os espíritos.
Manifestar-se como preto-velho ou caboclo revela atavismo? Sim, certamente, não poderemos negar.
No entanto, o que diremos de espíritos que se revelam como padres, freiras, senadores romanos ou médicos alemães?

Também isto não revelará atavismo? Não será, também, expressão de apego às experiências de uma encarnação que mais marcou o espírito?
E o designativo de “irmão” ou “irmã”, que é sugerido para os pretos-velhos e os caboclos, também não se refere ao atavismo católico, à vida dos primeiros cristãos e dos monastérios, pois não é assim que costumamos designar os religiosos católicos?

Assim, devemos ter muito cuidado com argumentos que, ainda que não intencionalmente, alimentam uma espécie de separatismo espiritual.
Tratar índios e ex-escravos como inferiores pressupõe tratar os demais – padres, freiras, senadores romanos, médicos alemães e brasileiros – como superiores, numa clara expressão de “eugenia espiritual”.

Isto, sim, nos colocaria em condição de ignorância dos valores que verdadeiramente importam na vida de Além Túmulo, depondo contra os princípios do Espiritismo e do próprio Cristianismo (Pedro Camilo, Prof. Universidade de Direito do Estado da Bahia).

Nota da autora: Esta obra estuda a mediunidade a partir das lições e experiências da médium Yvonne Pereira. Trata-se do antigo DEVASSANDO A MEDIUNIDADE, que publicamos há 4 anos, revisto e ampliado.

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