sexta-feira, 7 de junho de 2013

CAPÍTULO V Prelúdios de reencarnação

CAPÍTULO V
Prelúdios de reencarnação
"Na verdade, na verdade, te digo que aquele que não nascer de novo não
pode ver o reino de Deus."
"Não te maravilhes de te ter dito: Necessário vos é nascer de novo."
JESUS-CRISTO - O Novo Testamento. (16)
(16) João, 3:3 e 7.

O  Departamento  de  Reencarnação  localizava-se  no  extremo  da ColôniaCorrecional Maria de Nazaré, limitando com as regiões propriamente consideradas espirituais, ou zona educacional. E isso será facilmente compreendido ao raciocinarmos  que, tanto da zona inferior como da regeneradora da Colônia, batiam à sua porta,
freqüentemente ,  grupos de pretendentes aos grandes testemunhos o estágio na carne,  isto é, da reencarnação planetária.
Compunha-se o importante núcleo de serviços das seguintes seções, todas exercendo funções destacadas, conquanto interdependentes:
1 - Recolhimento. 2 - Análise -- (Gabinete secreto, inacessível aos visitantes) . 3 - Programação das recapitulações. 4 - Pesquisas. 5 - Planejamento dos envoltórios físico-terrenos.
6 - Laboratório de restringimento - (Gabinete secreto, inacessível aos visitantes). Começava então a aparecer o elemento feminino, pois grande parte dos obreiros e funcionários, que ali dedicavam energias, era composta de Espíritos que se
engrandeceram na hierarquia espiritual insistindo nas encarnações em corpos femininos.
Todavia, os postos chaves, assim como a direção-geral do Departamento, ainda cabiam a iniciados da plêiade brilhante que conhecemos. Ao transpormos os seus limites demarcados por muralhas intransponíveis para visitantes não credenciados, a luz suave do Sol ofereceu-nos grata surpresa, pois
deu-nos a contemplar os primeiros tons coloridos que nos foram dados perceber em quatro anos de hospitalização.
Com surpresa, verificamos tratar-se de metrópole movimentadíssima, onde se elevavam edifícios soberbos, em apurado estilo hindu. A Índia lendária, de tão sábias
sugestões, surgia naquelas avenidas pitorescas e encantadoras, parecendo convidar à meditação, ao estudo, ao elevado cultivo das coisas sagradas da Espiritualidade, dos
destinos da Alma! Naqueles palácios circundados de colunas ou enfeitados de cúpulas típicas, bem assim nas mansões residenciais, graciosas e sugestivas, miniaturas formosas
daqueles, e onde residiam servidores dedicados à Causa Redentora do Mestre de Jerusalém, imprimia-se a beleza grave e indescritível do ambiente sacrossanto do Invisível, servido por entidades de escol cujo ideal era a observação da Lei Suprema, os
serviços de Jesus e a proteção aos fracos e pequeninos. Dir-se-ia encontrar-se ali a verdadeira civilização hindu, a que só foi entrevista entre os êxtases dos iniciados dos antigos santuários secretos, e que nunca foi compreendida e, por isso mesmo, jamais
praticada sobre a Terra! Sentíamo-nos bem. Emoções alvissareiras falaram de reconforto e de esperanças às nossas almas. E para maior realce da nossa satisfação, o Sol formoso, reunindo nas mesmas dulçorosas expressões de beleza parques e jardins, lagos e
cascatas faiscantes, o casario como o horizonte que se alongava infinito, acariciando-os com tonalidades mansas, como se a sua luz de ouro fluido se coasse através de véus esgazeados, adelgaçando o volume do panorama lindo como se tudo fora construído em
finíssimas porcelanas... Guiados por nossos caros amigos de Canalejas, penetramos o belo edifício
onde se estabelecia o governo central do Departamento.
A bondade e gentileza do eminente governador iniciado, Irmão Demétrio, houveram por bem conceder-nos até mesmo um instrutor local, capacitado a prestar esclarecimentos possíveis à nossa assimilação de iniciantes na vida espiritual. Era este uma jovem dama, cujo semblante risonho e atraente nos infundiu imediata confiança. De tão amável personagem nada mais logramos saber senão que se chamara Rosália e vivera em Portugal sua última romagem terrena.  Fazia-se dispensável a presença de Carlos e Roberto. Entregaram-nos, pois, aos cuidados de Rosália e despediram-se a fim de atenderem a labores mais urgentes,
com a promessa de virem ao nosso encontro, para o retorno ao Pavilhão onde residíamos. Reuniu-nos a dama em seu redor, e, centralizando o grupo, disse-nos, já descendo as escadarias do edifício: "- Principiarei a pequena tarefa ordenada por nosso querido chefe, Irmão Demétrio, meus caros amigos, adiantando-vos ser imensamente grato ao meu coração o servir à vossa instrução, tal se o fizesse a irmãos estremecidos. Sinto que louvável desejo
de examinar para aprender e progredir floresce em vossas mentes. Por isso mesmo, auguro-vos compensador futuro no âmbito de nossa agremiação, cuja finalidade é servir para engrandecer o próximo carente de amor e auxílio! Todavia, deixo de apresentar
quaisquer felicitações, porque seriam prematuras. Almejo antes, para vós, o alento misericordioso do Alto, a fim de ajudar-vos na permanência dos bons propósitos atuais..." Agradecemos, encantados. Seguimos caminhando por uma daquelas
magníficas avenidas orladas de tufos de caprichosas folhagens, enquanto iam e vinham, cruzando conosco, funcionários e obreiros apressados, emprestando grande animação ao ambiente. Singular silêncio continuava a reinar nesse novo núcleo, tal como sucedia aos demais já conhecidos, o que não deixou de despertar nossa atenção. A jovem senhora continuou, enquanto sensível corrente de superioridade se desprendia de sua personalidade, infiltrando-se em nosso âmago e assim despertando as melhores atitudes de respeito e veneração de que éramos capazes: "- Conforme verificareis, ninguém que, acolhido neste Instituto, como tutelado temporário, necessite recapitular experiências terrenas, poderá fazê-lo sem antes ingressar em nosso Departamento para um estágio que varia de um a dois anos, conforme seja o seu estado, antes de se providenciarem as atividades relacionadas com o corpo que será chamado a animar. Diariamente comparecem aqui Espíritos ansiosos por voltarem ao teatro das próprias quedas, pressurosos de repararem o passado cuja lembrança os desespera, de expiarem faltas, de recapitularem o drama íntimo, a fim de
conseguirem vencer o remorso esmagador que lhes estorce a consciência - fantasmas sangrentos de si mesmos, atados ao infamante resultado do suicídio!
Obtendo o beneplácito do Templo para a reencarnação que traz em mira, o qual, por sua vez, já o recebeu de Mais Alto, onde paira a direção soberana da Legião, o pretendente, apresentando-se à chefia deste Departamento, será encaminhado, primeiramente, à seção do Recolhimento, onde se farão seus registros relativos à Terra, e em cujo internato será admitido, sob os cuidados paternais de guias que o assistirão fielmente a partir daquela data, acompanhando-o incondicionalmente e sem
esmorecimentos durante sua "via crucis" expiatória nos proscênios terrenos. Resolvido o primeiro problema, acudirão os técnicos da seção de Análises, os quais deverão estudar, naqueles internos, as tendências características, fazendo-lhes
pormenorizadamente a psicologia. Sua alma, seu ser, os refolhos mais remotos da sua consciência serão perscrutados por esses criteriosos operários do Senhor, os quais, invariavelmente, por serem iniciados superiores da falange brilhante, se encontram à
altura da delicada incumbência. Para isso, servindo-se das faculdades magnéticas superiores que possuem, obrigam o paciente a desdobrar as páginas do livro imenso da Alma, nele recapitulando o pretérito, e assim se revelando tal como realmente é, pois, ficai
sabendo - caso o ignoreis ainda - que todas as criaturas trazem a história de si mesmas impressa em caracteres indeléveis nos labirintos do ser, sendo capazes de, em determinadas circunstâncias, revivê-la em minúcias e dá-las a outrem para igualmente examinar, quer se encontrem presas aos laços carnais, quer estejam deles libertadas...
Existe exceção, no entanto, para os asilados do Manicômio. Estes,
infelizmente, reencarnarão tais como se encontram! Nada será possível tentar a fim de beneficiá-los a não ser o retorno ao estágio na carne, que então passará a figurar como terapêutica imposta para corretivo do descontrole geral das vibrações, criando, assim,
ensejos para novas tentativas futuras. Essa terapêutica, balsamizada pela prece que diariamente lhes será ministrada em correntes simpáticas, dulçorosas e benéficas, partidas daqui, em seu favor, é tudo quanto, no momento, lograrão aqueles infelizes obter,
não obstante o grande desejo que temos de vê-los serenos e ditosos!
Uma vez concluídos os trabalhos analíticos do caráter de cada um, os mesmos técnicos farão relatório do que verificarem, minucioso e rigorosamente exato, passando então o caso à seção de Programação das Recapitulações.
Pelo exposto tereis compreendido que estas análises justamente serão indispensáveis por fornecerem o cabedal para o programa da existência a seguir. Os méritos e os deméritos do reencarnante, as quedas pretéritas mais graves e que, por isso
mesmo, mais urgência exigirão na reparação; as concessões balsamizadoras que se lhe possam fazer, a urdidura, enfim, da existência projetada, será estabelecida através da
investigação descrita. Preciso será esclarecer, todavia, que tão importante laboração destaca-se em duas partes distintas, ocasionando sensível diferença na forma de operar.
Será dificultosa, exigindo até várias experiências, torturantes mesmo até para o próprio operador, quando o condenado à galé da carne provém da zona inferior da Colônia, isto
é, dos departamentos hospitalares, assim como das prisões da Torre; ao passo que será simples revisão para efeito de técnica, constatação indispensável aos relatórios quando o
pretendente haja sido interno do Instituto propriamente dito, ou seja, da região regeneradora onde se efetivam os estágios para a reeducação, o Colégio da Iniciação,
etc., para os quais não tardareis a ser encaminhados. De qualquer forma, esse trabalho
será grandemente facilitado pelos informes derivados do Templo e pelo concurso dos
Guias missionários indicados pelo Astral Superior, sem a presença dos quais
absolutamente nada será tentado para a finalidade da reencarnação.
Estabelecida a programação, concluído o esboço das lutas expiatórias ou
reparadoras do reencarnante, de acordo com suas forças de resistência moral -
possibilidades de que disponha para a vitória - ; previstos os empreendimentos que possa
concretizar a par das expiações; as realizações para que possua capacidade; as
facilidades que deva encontrar pelo caminho, justo efeito dos méritos anteriormente
conquistados; ou as dificuldades que, a seu próprio benefício, venha a deparar durante o
desenrolar da existência, justa conseqüência de deméritos que arraste do mau passado;
firmado, enfim, o panorama da vida que o espera dentro da reencarnação terrena, que
tanto lhe convém, e a qual, geralmente, tão desejada é pelo próprio pecador batido pelo
arrependimento, será o belíssimo trabalho, verdadeira epopéia sabiamente traçada,
encaminhando à direção-geral da Colônia, que o examinará. (17)
(17) Não se deverá fazer conclusões exageradas dessa exposição. Antes da encarnação, o Espírito poderá
escolher as provações da pobreza, por exemplo, sujeitando-se então às peripécias, as desgraças, as
tragédias que diariamente sacodem o Globo, fazendo da Humanidade um como joguete de forças cegas e
superiores, são dirigidas por uma fatalidade irreprimível?..." - (Nota da médium)
Existem casos em que sarvoredos ao longo da avenida
por onde palmilhávamos, e ouvíamos tais exposições interessadíssimos, lembrando-nos
ainda das notícias que nos forneciam certos livros antigos sobre aulas ministradas por
Pitágoras, Sócrates e Platão, rodeados de discípulos, e mais ou menos baseadas em
princípios análogos, à sombra dos cortinados dos plátanos, nos parques de Atenas.
Pensativo, interveio Belarmino, que sorvia as palavras de Rosália com
manifesto fervor:
"- Depreender-se-á de vossas asserções, minha senhora... minha irmã! que
os dramas da vida humana, do grau de pobreza que lhe convenha acarretar para sua
existência. Não se inferirá, portanto, que no além-túmulo houvessem sido discriminados
minuciosamente todos os detalhes e acidentes da pobreza prevista. Se houver de cegar
ou tornar-se mutilado, isso virá a acontecer sem que se torne necessário apontar na
programação feita antes da volta ao corpo carnal o acidente ou enfermidade que o
conduzirá ao estado conveniente de provação. Isto o que se depreende das obras básicas
da Doutrina.
Sorrindo com encantadora singeleza, a lúcida serva de Maria retrucou,
enquanto acenava, convidando-nos a subir a escadaria de nobre edifício rodeado de
colunas e velado por aprazíveis rendilhados de arbustos floridos e arvoredos frondosos,
em cujos pórticos se lia esta simples inscrição - "Recolhimento"
" -Não, meu amigo! O senso indica que não poderá a Humanidade ser regida
pela cegueira de uma fatalidade abominável! Deveríeis antes ter compreendido que aquilo
a que chamais fatalidade não é senão o efeito de uma causa que o próprio homem criou
no enredo das ações praticadas na Terra, quando nela viveu divorciado do bem, da moral
e do dever, ou, no Além, como Espírito desnorteado da Lei, embrutecido nas trevas de
que se rodeou, pois é ele mesmo, através dos atos bons ou maus que pratica, que
determina a natureza, consoladora ou punitiva do próprio futuro! A fatalidade existirá, se
assim o quiserdes, não cegamente, reduzindo a Humanidade a mero joguete, mas como
seqüência lógica, inteligentemente corretiva, de desvios delituosos, programada por seu
próprio livre-arbítrio ao preferir o erro aos ditames da razão e da consciência! Tratandose,
pois, de um corretivo, esse estado de coisas desaparecerá no momento em que se
corrigir a causa que lhe forneceu origem, ou seja, o traço inferior da maldade em que se
estribaram os atos praticados. Assim também, nos programas que se elaboram aqui,
visando ao futuro do delinqüente, não se incluirão os pormenores, as atividades diárias,
que será chamado a desenvolver nas operosidades da vida terrena, assim como não se
cogitarão das particularidades que lhe sejam necessárias a fim de atingir o inevitável!
Apenas os pontos capitais serão por nós anotados, os que constituam reparação, trechos
decisivos, seqüências que marcarão justamente a lógica dos antecedentes
acontecimentos, isto é, da Causa! A própria expiação encontra-se de tal forma arraigada
na consciência do pecador, como efeito dos remorsos, das necessidades de progresso de
um passado criminoso, que ele mesmo, sob o impulso de sua vontade livre, dar-lhe -ia
cumprimento, ainda que não fosse delineada sob o critério dos nossos relatos. Convém,
porém, que assim o façamos, porque, entregue a si mesmo, resvalaria para excessos
prejudiciais, criando possibilidades desastrosas.
Outrossim, as capacidades que tenha para realizações meritórias serão
também anotadas, e estas poderão até mesmo ser discriminadas, indicadas... pois
nenhum Espírito, encarnado ou não, só porque se encontre jungido ao ergástulo das
provações, será inibido de auxiliar o progresso próprio com a dedicação às causas
nobres, devotando-se aos empreendimentos generosos para o bem do próximo. Ele,
porém, o reencarnado, será livre de efetuar ou não aquelas realizações, que, antes da
reencarnação, quando se preparavam as linhas do seu futuro, se comprometeu a atender.
Será livre, sim. Mas, no caso de se desviar do compromisso assumido, grandes pesares o
angustiarão mais tarde, ao sentir que, além de ter faltado com a palavra empenhada com
seus Guias, deixou de se aureolar com méritos que muito poderiam ter abreviado aserão necessárias 
emendas. Estas, tanto poderão referir-se à diminuição das provas, retardando para futuro remoto a solução de alguns
problemas, da concessão de um acréscimo de misericórdia, portanto, como do aumento
do volume das reparações para um período mais curto, tais sejam as possibilidades
gerais do tutelado! O próprio Templo, porém, só expedirá ordens deste último teor quando
de Mais Alto receba autorização. Como, no entanto, Guias missionários do penitente,
assim os técnicos do Departamento da Reencarnação, são Espíritos de elevada linhagem
nas regiões virtuosas do Além, portadores de grande saber e gloriosa inspiração a serviço
da causa da redenção humana, geralmente os programas estabelecidos por eles
conquistam o beneplácito do Governo Geral da Legião a que pertencemos, o qual, por
intermédio do Templo, autoriza a preparação do aparelho físico-terreno para o aprendizado na crosta do planeta..."
Havíamos estacionado sob as frondes dos caminhadas ríspidas das recapitulações a fazer... Como vê, meu amigo, não se trata de
fatalidade, senão encadeamento harmonioso de "causas" e "efeitos..."
Penetramos vasta antecâmara, cujas portas jamais eram trancadas, velandose
apenas o ingresso no interior de cada uma com discretos reposteiros de suavíssimo
tecido azul-celeste. Silêncio impressionante continuou ali despertando nossa atenção,
fazendo-nos julgar o nobre edifício imerso em solidão. Aroma delicado e sugestivo, no
entanto, emprestava encanto indefinível a esse interior cheio de atrativos, onde luz
docemente aloirada penetrava por ogivas graciosas engrinaldadas de rosas brancas.
Ramalhetes das mesmas flores ornavam discretamente o recinto, deixando entrever o
gosto feminino inspirando a ornamentação.
A um ângulo do salão, destacamos uma como tribuna talhada em meia-lua.
Uma senhora de idade indefinível ergueu-se imediatamente ao avistar-nos, e, deixando
aflorar nos lábios bondoso sorriso, saudou-nos com esta fórmula singular, enquanto
caminhava em nossa direção, estendendo gentilmente a destra:
"- Seja convosco a paz do Divino Mestre!" Rosália apresentou-nos a ela,
amavelmente:
"- Eu vos esperava, meus amigos! Irmão Teócrito comunicou-se comigo esta
manhã, cientificando-me de vossa necessidade de esclarecimentos rápidos, relativamente
a este núcleo... Acompanhar-vos-ei eu mesma pelo interior do nosso albergue... este
Recolhimento, que a todos vós receberá um dia, pois ninguém há, internado nesta
Colônia, que deixe de passar sob seus umbrais..."
Era uma religiosa. Seu hábito níveo, como esbatido por fosforescências de
ouro pálido, que se diriam provindas da luz que se projetava sobre o aprazível recinto, era
muito belo, assemelhando-se à túnica de uma virgem lendária glorificada por poema
sacro arrebatador.
Não cogitei saber a que congregação religiosa pertenceria, quando na Terra,
essa dama encantadora que, agora, no mundo espiritual, nos surpreendia como
funcionária de uma Colônia auxiliar para correção de suicidas, colaborando, ao lado de
ilustres iniciados das Doutrinas Secretas, nos serviços da Vinha do Senhor. Sei, porém,
que, honrando certamente o hábito humilde no desempenho de tarefas terrenas
nobilitantes, eu a via agora sublimá-lo no Além, no seio de congregação fraterna e
modelar, onde merecia dirigir uma das mais importantes seções, tal como a seção do
Recolhimento, como fiel iniciada cristã que era!
Gentil e bondosa, convidou-nos a repousar por alguns instantes, oferecendo
a cada um de nós, assim como a Rosália, uma das suas belas rosas, enquanto falava,
risonha e simples como grácil menina:
"- Na época em que vivi, reclusa e quieta, no Convento de Santa Maria, em o
nosso exílio terreno, cultivava rosas em minhas horas de lazer, quando um ou outro
enfermo não requisitava meus serviços para além dos muros que me insulavam... Foi
esse o único passatempo que fruí no mundo das sombras, durante minha última romagem
nele realizada! Eu falava às rosas, como às outras demais flores! Entendia-as, educavaas,
criava-as como se o fizesse a seres pensantes muito queridos, divertia-me com elas, e
com elas confidenciava, depositando em suas corolas perfumosas as lágrimas que os
infortúnios oriundos das desilusões e das saudades ternas me extraíam do coração! Na
comunidade não se permitia possuir sequer um animalzinho, um pássaro que fosse, nada
que pudesse desviar o afeto e as atenções das reclusas dos deveres austeros a que eram
obrigadas ou da contemplação íntima a que se deveriam invariavelmente quedar, no
intuito de alimpar caráter e sentimentos para a boa sintonização com os eflúvios divinos...
Mesmo as flores, não eram para mim que cultivava, senão para a comunidade... Mas eu
seguia as normas estatuídas por Francisco de Assis e estava certa de não haver nenhum
mal em dedicar um pouco dos meus afetos também às mimosas flores que despontavam
dos canteiros sob meus cuidados... Habituei-me a elas, desde então... e não só não me

impediram de harmonizar vibrações com os planos do Amor e do Bem, como até as
continuo cultivando em plena intensidade da vida espiritual, sem jamais esquecê-las. . . "
Bem impressionado com os encantos que se desprendiam da virgem
religiosa, Belarmino aventou uma interrogação, que reputei indiscreta e de muito maugosto.
"- Sim - disse ele -, vejo que continuais cultivando rosas nestas paragens do
mundo invisível... Sinto-me, porém, confuso... É, pois, possível uma tal coisa, irmã... ?"
"- ...Irmã Celestina... para vos servir, caro irmão Belarmino! Como assim?! . . .
Não vedes aí as flores?... Como não ser, então, possível? Oh! e por que não se
cultivariam flores no Além-túmulo, se é aqui, e não nos mundos materiais, que existe o
verdadeiro padrão da Vida, enriquecido cada dia com os progressos de cada um de seus
habitantes?! . . . Acaso existirá na Terra alguma coisa, no que concerne ao Bem e ao
Belo, que não seja pálida reminiscência conservada da Pátria Espiritual pelos precitos ali
retidos?... O fluido da Vida, que faz germinar as flores e plantas terrenas, perfumando-as,
alindando-as, encantando-as, não é porventura o mesmo que fecunda e anima a
quintessência e suas derivações, das quais nos utilizamos nestas regiões?... O Artista
Divino que enfeitou a Terra, com tantos motivos galantes, não é o mesmo, porventura,
que vivifica e embeleza o Universo todo?..."
Agradecemos a dádiva mimosa, que parecia refulgir e vibrar, possuída de
ignotos princípios magnéticos. Aspiramos o aroma sutil que impregnava o salão, enquanto
a interlocutora nos fazia passar a extensa galeria, sustida por colunatas majestosas. Dirse-
ia um claustro. De um lado e outro, portas esculpidas em motivos clássicos hindus
alinhavam-se. E, de cima, a mesma claridade fluida e doce, acendendo tonalidades
aloiradas, a cada passo infundindo confiança e alegria.
Guiou-nos a gentil senhora a algumas daquelas portas e, enquanto
entrávamos, surpreendidos verificávamos pertencerem, a extensos dormitórios.
Esclarecia ela:
"- Quando se positivam a necessidade e a época de o asilado desta Colônia
retornar ao aprendizado da carne, a fim de completar o compromisso da existência
interrompida com o suicídio, apresenta-se ele ao Departamento de Reencarnação
acompanhado dos mentores pelos quais vem sendo assistido e oferecendo as
recomendações e autorizações necessárias, provenientes da chefia do Departamento em
que fez o estágio entre nós.
Do gabinete, pois, de Irmão Demétrio, será encaminhado a esta seção e aqui
passará a residir como interno. Hospedamo-lo com afeto e satisfação, procurando tornar o
estágio o mais consolador e reanimador possível... porquanto, geralmente, o suicida é um
triste a quem coisa alguma alegrará, um inconsolável que, sabendo que não tardará a
voltar à arena terrestre em duríssimas condições, mais se angustia ao penetrar estes
umbrais...
Aqui se demorará enquanto durarem os preparativos para a grande
caminhada. Suas apreensões, as meditações acerca do que passará futuramente,
enclausurado novamente na vestimenta carnal, vão-se dilatando a cada minuto decorrido,
pois ele não ignora, antes percebe com clareza, o que o aguarda na arena em que deverá
representar o heróico papel daquele que se deverá habilitar para a conquista de si
mesmo, para os planos do verdadeiro Bem! Tal estado de ansiedade, agravando-se à
proporção que se vão formando os preparativos, torna-se verdadeiramente angustioso,
provocando lágrimas freqüentes de seus corações dilacerados pelo arrependimento, pelo
temor, pelas saudades... pois, desde o dia que um pretendente à reencarnação transpõe
os umbrais do Recolhimento, despede-se da Colônia ou do Instituto, dos mestres que o
instruíram, dos companheiros e amigos que ali adquiriu, só os reencontrando mais tarde,
ao findar o exílio... É bem verdade que, uma vez reencarnado, não estará destes
separado, tal como à primeira vista se poderia supor. Ao contrário, continuará alvo das
atenções de quantos por ele zelaram durante a internação na Colônia, porquanto a permanência no plano físico não diminuirá o dever destes para com ele, nem estará, por
isso, desligado dela. Poderá mesmo continuar a ser recebido aqui, aconselhado,
instruído, confortado por seus antigos mentores, graças ao sono do corpo físico, que lhe
facultará relativa liberdade para tanto, e o fará, necessariamente, pois não se desligou
ainda de nossa tutela, está da mesma forma internado em nosso Instituto porque a
reencarnação a que se submete não é senão um dos recursos com que contamos para o
trabalho de educação que se torna necessário para a sua recuperação ao plano normal
da marcha gloriosa para o Progresso!
Mas... eles sabem que, uma vez de posse do pesado fardo de limo terrestre,
já não serão tão lúcidos, esquecerão o convívio fraterno, as benfazejas bênçãos da
presença daqueles que lhes foram como anjos-tutelares a enxugar-lhes as lágrimas da
desgraça, e, por isso, se angustiam e sofrem!
Eu e meus auxiliares velaremos por eles aqui, no Recolhimento, ajudando-os
à readaptação às coisas da Terra, despertando-lhes o gosto pela existência no seio
generoso do planeta tão bem dotado pela Sabedoria do Todo-Misericordioso, e que só os
desvarios do homem tornaram inclemente e ingrato!... pois convém não esquecer que o
suicida desencantou-se da permanência na sociedade terrena, ele a detesta e quisera
afinar-se com outra que lhe falasse melhor aos anseios íntimos! Muitos, apavorados com
as perspectivas das expiações, que só passam a conhecer minuciosamente depois que
aqui são internados, arrependem-se do intuito que traziam e, acovardados, pedem para
dilatar um pouco mais a época do renascimento, no que são atendidos. Em lágrimas, são
reconduzidos, então, ao local de onde vieram e entregues a seus tutores locais, lá ficando
sem outros progressos até que se decidam ao único recurso que lhes conferirá, com
efeito, possibilidades de dias melhores: - a reencarnação! - Uma vez aqui recolhidos,
porém, não permanecerão inativos, à espera de quem lhes prepare a moradia terrena do
futuro. Com seus instrutores trabalham nos preparativos para o renascimento próprio,
colaboram no exaustivo labor das pesquisas para a escolha dos genitores que melhor
convenham à espécie de testemunhos que deverão apresentar à frente das leis
sacrossantas que infringiram, porquanto, geralmente, os suicidas não reencarnam, para a
expiação, nos círculos de afetos que lhes são mais caros, e sim fora deles; estudam, sob
orientação dos guias missionários, a programação de suas atividades na Terra,
aprendendo, numa espécie de aula prática, fornecida através de quadros inteligentes e
movimentados quais cenas teatrais ou cinematográficas, a desenvolvê-las, realizá-las,
remediá-las, levá-las a finalidade heróica, agindo com acerto e prudência; viajam
assiduamente à Terra, onde se demoram, sempre acompanhados de seus tutelares
generosos, procurando orientar-se nos hábitos a que terão de se adaptar, conforme sejam
os ambientes em que arrastarão a condenação vergonhosa que consigo levam,
porquanto, a eles mesmos convém que se resignem à situação antes do ingresso no
corpo carnal, para que não sintam demasiadamente ardente a mudança dos hábitos que
a convivência conosco forneceu; e, depois das pesquisas ultimadas e escolhido o meio
familiar em que ingressarão, demorar-se-ão ainda em torno dos futuros pais, procurando
com eles se afinar, conhecê-los melhor, adaptarem-se aos seus modos, principalmente se
couber como punição ou necessidade para o progresso a difícil situação de aceitarem
para o renascimento um meio hostil, onde existirão apenas, rodeando-os no decorrer dos
dias, inimigos de existências pretéritas, Espíritos estranhos, indiferentes portanto aos
infortúnios que os sacudirão..."
"- Quer dizer, minha irmã, que essas pesquisas a que vos referis..." - perquiri
eu, aproveitando pequena pausa da eloqüente interlocutora.
"- . . . Movimentam-se em torno da procura de uma família, de um ambiente,
de genitores principalmente, caridosos bastante para concordarem em receber em seu
seio um rebento estranho, que lhes será motivo de constantes preocupações, pois que
condenado aos dolorosos testemunhos que acompanham a reencarnação de um suicida!
Existem mesmo casos penosos, difíceis de serem resolvidos, meus amigos! E é quando
desgraçados, como aqueles que vistes no Manicômio, ficam aqui, detidos no
Recolhimento, esperando que se lhes consigam genitores, pois, como sabeis, eles, além
de incapacitados para a colaboração com seus mentores em torno da causa própria, o
estado que arrastam é de tal forma precário que, para o renascimento, só lhes permitirá a
possibilidade de um invólucro material entorpecido por achaques insolúveis, inacessível
ao estado normal da criatura encarnada, constituindo angustiosa provação para os pais
que os receberem! Consoante já foi explanado perante vosso entendimento, muitos
daqueles infelizes voltarão à vida planetária ocupando corpos carnais paralíticos,
dementes, possivelmente surdos-mudos, enfermos incuráveis, etc., etc., e apenas
deverão planar em ambientes onde existam grandes provações a serem expiadas pelos
pais. Então, seus guias e dedicados mentores estabelecem, com aqueles que têm
possibilidade de se tornarem genitores e possuam débitos gravosos a solverem perante a
Divina Justiça, comoventes convênios, acordos supremos como este:
"- Que concordem em receber em seu seio aqueles desditosos, como filhos,
e os amparem na "via crucis" da expiação, pois eles necessitam da reencarnação a fim de
voltarem a si do entorpecimento a que o suicídio os arrojou, e, assim, melhorarem de
situação.
"- Que pratiquem, pelo amor do Divino Cordeiro, imolado no alto do Calvário
por muito amar os pecadores e desejar reavê-los para as aleluias da Vida Imortal, tão
sagrada caridade, porque a Suprema Lei do Amor ao Próximo lhes conferirá o mérito da
Boa Obra, favorecendo-lhes oportunidades dignificantes para realizações rápidas no
plano da evolução, para os estados compensadores e felizes.
"- Que consintam em se tornarem temporariamente agentes da Legião de
Maria, agasalhando em seu lar generoso pupilos seus, dos mais infelicitados pelo
passado pecaminoso, até que finde a expiação necessária, a qual lhe sobrou da lição
pavorosa do suicídio!... Pois, determina a Lei que a Caridade cubra uma multidão de
pecados... e eles, genitores, que também faliram contra a supremacia da Incorruptível Lei,
veriam muitos delitos levados à conta dessa sublime virtude que bem poderiam praticar,
servindo aos sagrados desígnios do Criador!
No entanto, meus amigos, se alguns bondosamente concordam em se
desincumbirem da honrosa quão amarga tarefa, outros existem que as rejeitam,
preferindo reparar as próprias faltas até o último ceitil, a contribuírem com seus préstimos
para que um destes infelizes repare a conseqüência do gesto macabro que preferiu, sob
um teto amoroso e honradamente constituído. Não se sentindo a isso obrigados por lei,
preferem as asperezas das próprias provações, ao lado de prole sadia e graciosa, à
suavização das penas, com a concessão de oportunidades generosas e compensadoras,
sob a condição de exercerem a sublime caridade de se prestarem à paternidade de
pequenos monstrengos e anormais, que só lhes acarretariam desgostos e inquietações..."
"- E como, pois, reencarnarão esses miseráveis companheiros de desgraça,
ó Deus do Céu?! . . . Como nos reencarnaremos então, nós, a quem tudo faltará, até
mesmo pais?..." - inquiri, impressionado e ansioso, lembrando-me de que eu voltaria ao
corpo certamente cego, Mário sem as mãos, Belarmino enfermiço e infeliz desde o
berço..."
"- Obtereis novos informes na Seção de Pesquisas, meus caros irmãos! Por
agora, porém, visitemos estas dependências que também a vós abrigarão um dia, ao
iniciardes as jornadas reparadoras..."
Era o Recolhimento como enorme internato, compondo-se de quatro
pavimentos bem distintos, conquanto não existissem quaisquer diferenciações nas
disposições internas.
No primeiro, reuniam-se Espíritos provenientes de regiões menos infelizes da
Colônia, ou seja, os internos e aprendizes do Instituto, já iniciados na Ciência da
Espiritualidade propriamente dita. No segundo, permaneciam os abrigados do Hospital
Maria de Nazaré que preferiram reencarnação imediata, bem assim os do Isolamento, ao

passo que o terceiro abrigava os prisioneiros da Torre, e o quarto era reservado aos do
Manicômio. Ao elemento feminino reservava-se hospedagem idêntica, localizada, porém,
em sítio vizinho ao nosso, em edifício separado.
Celestina levou-nos a tudo esmiuçar: O reencarnante seria ali registrado: -
seu nome, o local onde renasceria, a data do acontecimento, o nome dos pais, o período
que deveria passar investido da existência planetária, etc., etc., tudo, em torno dele,
ficaria modelarmente arquivado!
Os internos viviam ali irmanados por idênticas preocupações, orientados
pelos assistentes incansáveis, que tudo tentavam a fim de vê-los vitoriosos nas pelejas
dos testemunhos das lides terrenas. A qualquer parte a que as obrigações do momento
os requisitassem, isto é, a Terra, os gabinetes de Análises, onde eram submetidos à
melindrosa intervenção já descrita; as seções de Programação das Recapitulações e de
Pesquisas, seria o Recolhimento o ponto de retorno, para onde convergiriam todos até o
término dos preparativos e para onde gravitariam mais tarde, quando extinguida a
existência corporal para que então se preparavam. Estes, isto é, os preparativos,
freqüentemente se dilatavam por algum tempo, exceção feita aos pupilos do Manicômio,
cujas providências para o retorno à gleba terrestre eram sucintas, resumindo-se quase
que exclusivamente aos trabalhos de pesquisas.
Uma vez concluídos os penosos prelúdios, advinham as fases das
realizações. Era quando a chefia do Departamento expedia ordens à direção do
Laboratório de Restringimento para iniciar a operação magnética necessária ao caso do
renascimento, assim como a respectiva atração para o feto, cujos elementos biológicos já
se encontrariam em processo de desenvolvimento no óvulo fecundado, no santuário das
entranhas maternas, as quais mais não seriam, então, do que o prosseguimento do
mesmo Laboratório, uma como dependência temporária, ou de emergência, do
Departamento de Reencarnação, sujeita à vigilância dos técnicos incumbidos do
magnificente serviço e dos guias missionários do Espírito que, assim constrangido e
restringido em suas vibrações normais, ia modelando o corpo à proporção que se
adiantava o fenômeno da gestação. E explicaram-nos, ainda, que o molde ideal para se
definir a forma desse feto em elaboração seria justamente o corpo astral que no momento
trazíamos - o perispírito -, o que amplamente ao nosso entendimento esclareceu quanto
ao que viria a ser o futuro corpo que ocuparíamos, estruturado sob o magnetismo doentio
de vibrações oriundas de grandes desgraçados, como nós, segundo o que, com efeito, já
nos haviam participado os pacientes mentores!
Não nos permitiram entrada no "Laboratório de Restringimento", assim como
não fora permitida a visita aos gabinetes de Análises. No entanto, informaram-nos de que,
ao se internar no Laboratório, não se prenderia a ele o condenado. Ao contrário,
poderosas correntes magnéticas que partiriam das próprias forças ilimitadas e divinas,
que mantêm o Universo, impeliam-no para o corpo que deveria habitar, afinando-o com
este, ao mesmo tempo que harmonizava o seu perispírito ao daquela que consentira,
voluntariamente ou constrangida por um dispositivo da Grande Lei, em ser sua mãe, para
com ele sofrer e chorar a conseqüência dramática e irremediável do suicídio, de delitos
graves e desonrosos! Que, durante a época dessa atração, que se opera lentamente, à
proporção que a gestação progride, vai o condenado perdendo a pouco e pouco a
faculdade das recordações do próprio passado, uma vez que seu corpo astral sofreu
restringimentos necessários ao fenômeno da modelagem do feto, coisa que se verifica
também graças ao auxílio magnético e vibratório dos psiquistas afetos ao delicado
certame, sobre a vontade e sobre as vibrações mentais do paciente. Que, à proporção
que se adianta o estado de gestação no seio materno, suas vibrações, mais e mais se
comprimindo, vão calcando mui profundamente, na organização astral, as lembranças, as
recordações, as impressões vivazes dos dramas dolorosos por ele vividos no pretérito,
produzindo-se então o Esquecimento imposto como acréscimo de Misericórdia pelo
Legislador Supremo, condoído das desgraças que adviriam se os homens pudessem
recordar livremente os verdadeiros motivos por que nascem na Terra em condições
lastimosas, muitas vezes lutando e chorando do berço ao túmulo! Que, ao entrar para ali,
inicia-se em seu amargurado ser um como estado pré-agônico, fácil de ser compreendido
em virtude do constrangimento que sofrem todas as suas faculdades, a sua mente, as
suas vibrações! Que tal estado, mui penoso para qualquer Espírito, torna-se odioso a um
suicida, dado que sua organização astral se encontra angustiosamente abalada com o
choque sofrido pela violência nele operada pelo suicídio, e do qual só será aliviado muitos
anos mais tarde, quando se verificar o desenlace natural e lento das cadeias magnéticas
que o prendem ao corpo, ao qual ele começa a estar ligado desde a intervenção no
Laboratório. Soubemos ainda que toda essa epopéia, digna de uma Criação Divina, será
facilitada em seu cumprimento, e suavizada em suas perspectivas, quando o paciente
demonstrar arrependimento sincero pelo mau passado que andou vivendo, e boa-vontade
e humildade para reparar erros cometidos e progredir em busca dos beneplácitos
dignificantes da consciência, pois, então, sua vontade se tornará maleável sob a ação
protetora dos Guias desvelados, os quais, bem certo, todos os esforços empregarão a fim
de levá-lo a sair vitorioso e reabilitado desse feio enredo de quedas e delitos contra a Lei
Incorruptível do Todo-Poderoso!
Passando, assim, por todas as dependências e obtendo sempre, ora de Irmã
Celestina, ora de Rosália, ou de um e outro chefe de gabinete, valiosas elucidações,
chegamos aos recintos reservados à Programação de Recapitulações, cuja finalidade foi
razoavelmente descrita neste mesmo capítulo. Acrescentaremos apenas que, ao
ingressarmos no confortável edifício onde se estabelecia aquela seção, fomos colhidos
por agradável surpresa: - eram senhoras, jovens algumas, mesmo moçoilas mal saídas
da infância; outras já em plena maturidade e até anciãs veneráveis, que compunham o
corpo de funcionários! Ativas, lúcidas, perfeitamente capazes do alto desempenho que
lhes era confiado, consultavam as notas provindas dos gabinetes de Análises e as ordens
do Templo e traçavam com sabedoria o esquema fecundo da existência que conviria a
cada pupilo da Colônia que à Terra voltasse em vestes carnais. Eram, porém, dirigidas
por sábios iniciados e Guias missionários de cada um, aos quais prestavam filial
obediência. Conforme já foi assinalado, vimos que muitos dos próprios pretendentes
colaboravam nesses mesmos mapas que constituiriam, nada mais, nada menos, do que o
extremo rosário de suas expiações, os dias de angústias que lhes arrancariam lágrimas
escaldantes do oprimido coração; os testemunhos decisivos que todo delinqüente sente
necessidade de apresentar a si mesmo a fim de desagravar a consciência da desonra que
a entenebrece, mormente um suicida, mais que qualquer outro inconsolável diante do
abismo por si mesmo criado.
Não me pude conter. Diante de um exemplar dos mesmos esquemas -
verdadeiro compêndio de salvação que, a ser observado, faria do pecador o homem ideal,
convertido à sublime ciência do Dever -, perquiri, dirigindo-me a um dos ilustres técnicos
que dirigiam o importante estabelecimento.
"- . . . E todos nós, os suicidas, uma vez reencarnados, chegaremos a
observar perfeitamente tal programação ? . . . "
Sorriu o insigne psiquista, não encobrindo, no entanto, certa expressão
melancólica, ao tempo que respondia:
"- Se tudo quanto aí fica, meu amigo, se deriva de uma causa, é evidente que
a mesma causa deva ser corrigida a fim de que os respectivos efeitos se harmonizem
com a lei incorruptível que rege a Criação! Se há uma programação a ser observada, é
que a Justiça Suprema pôde ditá-la, e, por isso, será observada a despeito de quaisquer
conveniências ou sacrifícios! A legislação que fundamenta os princípios desta instituição é
a mesma que move o Universo Absoluto! Daí o serem as nossas determinações
concordes com a mais perfeita equanimidade, o que equivale dizer que não será possível
o deixar de ser rigorosamente cumprida pelo penitente uma programação destas, uma
vez que, se ela existe, é porque o próprio paciente a originou com as causas que forneceu
com seu mau proceder! Ela, pois, existe com ele! Está nele, tomando parte na sua
personalidade! E será preciso que a observe para libertar-se do cortejo de sombras que
sua inobservância em sua alma projeta! Aliás, ele pode observá-la, tendo para isso todas
as possibilidades. Se nem sempre, porém, o faz, será porque se deixou novamente
desviar da boa rota! Então, adquirirá novas responsabilidades, e repetirá duas, três,
quatro romagens planetárias para que possa pagar, até o último ceitil, os débitos que haja
adquirido para com a Suprema Lei, segundo a advertência do Mestre Insigne!... "
A essa altura despedimo-nos da amável cultivadora de flores, deixando a
seção de Programação de Recapitulações para atingirmos a de Pesquisas.
Grande número de funcionários emprestavam ali eficiente colaboração, sob a
direção de um chefe e vários subchefes, pois os serviços haviam de ser elaborados por
comissões compostas de duas a quatro personagens e um dirigente, os quais recebiam
incumbência da preparação de possibilidades para a reencarnação de determinado grupo
de asilados.
Havia, porém, como não ignoramos, escassez de trabalhadores. Assim foi
que encontramos, prestando valiosos concursos a mais esse Departamento, algumas
personagens nossas conhecidas de outras localidades, tais como o próprio Teócrito,
dirigindo pequena caravana de investigações, cujas operações se desenvolveriam, como
sabemos, sobre a crosta terrestre, e composta de seus discípulos Romeu e Alceste; o
Conde Ramiro de Guzman, chefiando outra comissão, da qual faziam parte os dois
Canalejas; Olivier de Guzman, o emérito educador da Torre, ao lado de Padre Anselmo;
Irmão João, venerável no seu porte impressionante de oriental, e vários outros,
eficientemente prudentes e esclarecidos para o desempenho da alta missão conferida.
Reconhecíamos comovidamente a benevolência insofismável desses servos
do Meigo Nazareno, os quais, a exemplo do Mestre que tanto amavam - que não
desdenhara em se apresentar à Terra trajando a configuração humana, por servir à
instrução das criaturas confiadas pelo Pai Supremo à Sua Guarda -, diminuíam-se
também, detinham as próprias vibrações, materializavam-se, tornando-se densos e quase
humanizados, no intuito de servirem à causa esposada por Aquele Mestre inesquecível e
incomparável! Admirava-nos o fato de merecermos da parte deles tão expressivas
demonstrações de fraternidade, enquanto, enternecidas, nossas almas murmuravam ao
nosso senso que cumpriria correspondêssemos a tão amorosas solicitações, dispondonos
a atitudes passivas, dignas de tão nobres instrutores. Irmão Teócrito desviou-nos de
tais cogitações, encaminhando-se até nós e saudando-nos, após o que interrogou,
sorrindo:
"- Segundo o que venho observando, meus amigos, tendes aproveitado
bastante das instruções que vos têm sido ministradas... Estou informado do vosso
interesse por tudo, o que a mim causa excelente impressão, por prenunciar modificação
compensadora em vossas resoluções e, necessariamente, em vossos destinos... Que
deduzis do quanto até agora observastes?..."
Foi Belarmino de Queiroz e Sousa quem se fez portador da opinião geral:
"- Deduzimos, eminentíssimo irmão - disse com veemência -, que, se nos fora
dado conhecer estas coisas quando homens, seria mais que provável termos evitado o
suicídio, conduzindo-nos por sistemas opostos aos que nos perderam! Quanto ao que a
mim particularmente concerne, entendo que serei forte para as conseqüências que terei
de arrostar destino em fora... até cobrir os déficits que me enxovalham a consciência! Oh!
caro Irmão Teócrito! Conquanto sofra, sinto-me agora um outro homem... ou seja, um
outro Espírito! Acenderam-se em meu ser fachos de esperanças inapagáveis, que me
fortalecem e reanimam poderosamente, induzindo-me a partir em busca do futuro, seja
qual for! Saber positivamente que sou o que Sou, que vivo, convencendo-me de que nem
um só dos meus afetos mais santos, de minhas aspirações, meus ideais, assim como dos
esforços empregados para o enriquecimento de meus cabedais intelectuais e morais se
perderão jamais, triturados nas crenas execráveis da morte, por mim julgada outrora o
ponto final de tudo quanto existe; certo de que a Eternidade é a minha sublime herança, à
qual me assistem direitos legítimos, pela filiação divina de que, como Espírito, descendo;
e, por isso, também capacitado de que deverei alcançar a sucessão dos evos progredindo
incessantemente, enriquecendo minhas faculdades com atributos que me levarão a atingir
honrosamente planos magníficos da Espiritualidade, com a conquista de mim mesmo
para a realização do ideal divino, é para mim felicidade arrebatadora, que fará escurecer
sacrifícios e lágrimas, domar fadigas, arrostar todas as conseqüências delituosas do
passado, para só me ocupar da conquista do futuro, ainda que tenha de galgar calvários
dolorosos, excruciantes! Jamais, como homem, concebi possibilidades de tornar-me herói
de tão sublime epopéia! Estou disposto a lutar, Irmão Teócrito! A lutar e sofrer, para
aprender, realizar e vencer! Sei o que me aguarda no embater das existências que se
sucederão no meu trajeto! Sei que de horas amargas hão de sacudir-me as potências da
alma, nos séculos que se dobarão no carreiro de minha jornada evolutiva. Mas não
importa! Não importa! Eu sou imortal! E se um Deus Todo-Poderoso me destinou à
Eternidade, será para a realização de um ideal sublime, cuja verdadeira perfeição escapa
às minhas concepções ainda bisonhas de precito de uma Colônia Correcional; não,
porém, para errar e sofrer sempre, porquanto o Criador Onipotente não se limitaria a
deixar à sua descendência tão parcos recursos de ação ! . . . Oh, venerável Teócrito !
Sinto-me inferiorizado ainda! Ainda não me despojei sequer dos bacilos que corroeram
minha última organização animal, por mim destruída, antes que o vírus da tuberculose
terrível a apodrecesse de vez, enervado que fiquei ao vê-la nauseabunda e detestável!
Sei que terei de voltar à Terra muito brevemente, pobre, órfão, tuberculoso ainda, tolhido
por decepções diárias, precito a quem não acalentará o calor de uma só ilusão! Sei disso!
Mas estou disposto a tudo levar de vencida! Regozijo-me até, com a severidade dessa
Justiça Soberana, porque a lógica irrefragável que a proclama revela-a também oriunda
de uma sabedoria que impõe com a força do Direito! E curvo-me, então, resignado e
respeitoso!... "
Teócrito sorriu. Passou, complacentemente, adestra sobre o ombro do
interlocutor e observou, paternalmente:
"-Tens o verbo inflamado e luzido, meu caro Belarmino!... e, enquanto
falavas, estive a pensar em como seriam belos os discursos que proferias em tuas aulas
clássicas de Dialética!... Que perseveres em tão formosas quanto edificantes resoluções
são os meus mais sinceros votos... pois que, assim sendo, os caminhos do progresso que
serás compelido a realizar serão aplainados e fáceis de vencer!... Todavia, não te deixes
arrebatar demasiadamente pelo esplendor do panorama divino da Vida que, a muitos
outros, antes de ti, ofuscou... A evolução do Espírito para a Luz é bela e grandiosa, não
resta dúvida. A vida do homem, na sua incessante escalada para o melhor até ao divino,
é gloriosa epopéia que honra aquele que a vive! Mas o trajeto é duro, meu amigo! Os
espinhos e as urzes semeiam essas estradas redentoras, exigindo do peregrino da Luz as
mais ativas energias, os mais edificantes sacrifícios! Reconheço-te sincero, idealista
animado de dignificante boa-vontade, e isso muito me satisfaz! Contudo, o entusiasmo
por si só não levará ninguém à vitória real, senão à aventura duvidosa! Pondera na
necessidade de te aprestares com armas morais sólidas, para a travessia tumultuosa a
que te obrigarás a fim de conquistares o primeiro degrau dessa imensa espiral evolutiva
do teu destino, e o qual há de ser, simplesmente, a próxima existência que tomarás na
arena terrestre... Vieste de uma encarnação em que foste primogênito de família
conceituada, no seio da qual não te faltaram atenções e respeito! Foste indivíduo culto,
vivendo facilmente entre gozos e confortos vários, emprestados pelo ouro e pelas
solicitudes insofismáveis de uma mãe terna e dedicada... Apesar de tudo isso, faliste, não
suportando sequer as aflições de uma enfermidade física, patrimônio comum de toda a
Humanidade! Pensa, agora, meu caro Belarmino, no que será a tua vida, sendo tu, como
desejas, órfão, pobre, doente, baldo de consolações e esperanças, perseguido por
adversidade irremovível !... Será também uma epopéia, não pequena e nem despida de
sublime grandeza, a ser vivida e vencida - pois tu queres vencer! - porque será um
calvário de redenção que deverás palmilhar com resignação e dignidade, jamais entre
revoltas e ultrajes à Providência, porquanto isso empalideceria a vitória, se não a
anulasse! . . . Será necessário algo mais do que o entusiasmo, Belarmino, muito mais!... e
convém que te prepares antes da peleja iniciada..." Mário Sobral aproximou-se, intranqüilo
como sempre:
"- Dignai-vos atender-me um instante, Irmão Teócrito ? . . . "
"- Aqui me tens, filho! Dize tudo, confiante..."
"- Que... desejo tomar uma resolução... tomei-a já... mas preciso ser
auxiliado. . . sinto-me um tanto desorientado..."
"- Bem sei, Mário, continua..." - tornou enternecido o diretor do Hospital Maria
de Nazaré.
"- Irmão Teócrito ! Quem é o responsável direto por mim, nesta Colônia
Correcional em que me vejo internado?..."
"- Sou eu, Mário! . . . "
"- Ainda bem! Espero, assim, encontrar facilidades para os projetos que me
empolgam... Senhor... Irmão... Por quem sois, apiedai-vos de mim, não posso mais!
Providenciai meu retorno à sociedade terrena, quero ser homem outra vez! Quero
desafrontar-me dos ultrajes por mim mesmo levados a efeito no seio de minha família!... à
minha mãe, Deus do Céu, a quem cobri de desgostos, desde o berço até o túmulo, à
minha esposa, a quem atraiçoei e abandonei às vicissitudes diárias! A meus filhos, os
quais rejeitei e esqueci... e a Eulina... Quero forrar-me da obsessão exercida em minhas
recordações pelo remorso do crime cometido contra aquela pobre mulher! Preciso
esquecer, Irmão Teócrito, oh! acima de tudo, esquecer, a fim de lograr tréguas,
serenidade, para desenvolver ações apaziguadoras, capazes de amansarem as angústias
que me aferventam a consciência! Tudo quero tentar, a fim de que eu também progrida –
já que a Lei é progresso incessante para toda a Criação, conforme as instruções que aqui
recebemos. Quero expiar e reparar!
A imagem humilhada e frágil de Eulina, indefesa sob minha brutalidade,
debatendo-se na agonia malvada do estrangulamento entre minhas mãos, absorve
minhas faculdades, anulando ensejos para quaisquer outras ponderações, obsidiando-me
as idéias, enlouquecendo as fibras mais íntimas do meu ser! E eu preciso afastar da
mente esse quadro satânico a fim de poder sentir o perdão do Céu orvalhar de
esperanças a minha consciência inconsolável! Quero sofrer, Irmão Teócrito! A trágica
tormenta do Vale Sinistro não bastou! Não foi por Eulina que ali me debati, mas por mim
mesmo, seguindo os escalões dissonantes do meu ato de suicídio! Prometi, de joelhos, à
sombra dolorosa de Eulina agonizante, ser outra vez homem, arrastar uma existência, do
berço à velhice e ao túmulo, destituído das mãos que a estrangularam!... Eu mesmo me
darei tal punição, como testemunho do meu sincero arrependimento! Não é o Senhor
Deus que ma impõe! Não é a Lei que ma exige: sou eu que, voluntariamente, suplico ao
Pai Todo-Misericórdia que ma conceda como supremo reconforto à minha desventura de
trânsfuga da Sua Lei de Amor ao Próximo, como supremo ensejo de reabilitação em meu
próprio conceito, já que a morte é quimera a iludir os incautos que se arrojam pelas
brenhas do suicídio! Sim. Passarei sem as mãos que serviram para assassinar uma pobre
mulher indefesa! Que se volte contra mim o crime cometido contra Eulina! E que eu me
veja tão indefeso, destituído das mãos, como Eulina destituída de forças, naquela noite
abominável, acometida de surpresa ante minha ferocidade! Creio, Irmão Teócrito, que
somente assim obterei alívio para, depois, encarar de frente os demais débitos a serem
saldados, com a ajuda paternal de meu Deus e meu Criador!..."
O antigo boêmio de Lisboa discorria desfeito em prantos, ao passo que nosso
digno tutor espiritual, enternecido, obtemperou gravemente:
"- Já refletiste maduramente na extensão das responsabilidades que
arrostarás com semelhante reencarnação, meu pobre Mário?..."
"- Já, Irmão Teócrito !"
"- Sim! Reconheço-te sincero e forte para o resgate, plenamente arrependido
do passado culposo! Realmente, esse será o recurso aconselhável para o teu caso,
medida drástica que te moverá com muito menor morosidade à reabilitação honrosa que
de ti exige a consciência! Pondera, no entanto, que foste também suicida e, por isso,
necessariamente, as condições precárias em que se encontra tua presente organização,
teu envoltório fluídico, modelador que será da tua futura estruturação carnal, levar-te-á a
receberes, com o renascimento, um corpo enfermo, debilitado por achaques irreparáveis
no plano objetivo ou terreno..."
"- Eu o desejo, Irmão Teócrito ! . . . Tudo, tudo ser-me-á preferível ao suplício
deste remorso que me mantêm agrilhoado ao inferno que se alastrou por minhalma!... Ao
menos, como homem, quando tudo me faltar, para só as desgraças me flagelarem, terei
um consolo, o qual a Misericórdia do Todo Generoso Pai concederá como esmola
suprema à minha irremediável situação: o Esquecimento!..."
Condoído, o belo iniciado prometeu interessar-se imediatamente pela sua
pretensão, acrescentando paternalmente:
"- No momento que se concluam as instruções que vos temos propiciado,
visita-me, no meu Departamento, Mário, a fim de estabelecermos entendimentos para os
preparativos de tão melindrosas realizações!"
Em seguida convidou-nos a tomar parte na comitiva que sob seus cuidados
buscaria pesquisar meios para a reencarnação, já ordenada e programada, de alguns
pupilos seus, os quais se submeteriam, assim, à terapêutica por excelência, ainda sob
sua vigilância, muito embora vários deles já se não encontrassem dependentes do
Hospital Maria de Nazaré. Iríamos, no entanto, como simples observadores, visto nossas
condições não permitirem colaboração de qualquer natureza.
Já de posse das instruções necessárias e pronto para encetar a espinhosa
missão, o abnegado paladino de Maria voltou-se para nós outros, exclamando:
"- Temos ainda muito tempo, pois os serviços que me estão afetos somente
serão realizáveis pela calada da noite. Ide repousar, meus caros amigos, até que vos
mande buscar a fim de seguirmos para o local indicado, uma vez que só pela alta
madrugada estaremos de volta. . . "
Roberto e Carlos de Canalejas aproximavam-se, no intuito de reconduzir-nos
ao Pavilhão onde residíamos. Rosália despedira-se, prometendo reencontrar-nos no
mesmo local, já no dia imediato, para o prosseguimento das recomendações do nosso
muito querido tutor, Irmão Teócrito.

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