quarta-feira, 20 de março de 2013

Carta do Chefe Indígena Seattle




Carta do Chefe Indígena Seattle
O texto a seguir, datado de 1854, é reprodução da resposta do cacique
Seattle ao Presidente norteamericano
F. Pieree, que tentava comprar suas
terras. Um exemplo de silvícola, guerreiro, caboclo, considerado atrasado pelos
homens brancos. Em suas palavras, a sabedoria ancestral e o retrato da
evolução espiritual de uma raça incompreendida.
“O ar é precioso para o homem vermelho, pois todas as coisas compartilham o mesmo
sopro: o animal, a árvore, o homem, todos compartilham o mesmo sopro. Parece que o homem
branco não sente o ar que respira. Como um homem agonizante há vários dias, é insensível ao seu
próprio mau Cheiro...
Portanto, vamos meditar sobre sua oferta de comprar nossa terra. Se nós decidirmos
aceitála,
imporei uma condição: o homem branco deve tratar os animais desta terra como seus
irmãos. (O que é o homem sem os animais? Se os animais se fossem, o homem morreria de uma
grande solidão de espírito. Pois o que ocorre com os animais, em breve acontece com o homem.
Há uma Há uma lição em tudo, Tudo está ligado.
Vocês devem ensinar às suas crianças que o solo a seus pés é a cinza de nossos avós.
Para que respeitem a terra, digam a seus filhos que ela foi enriquecida com a vida de nosso povo.
Ensinem às suas crianças o que ensinamos às nossas: que a terra é nossa mãe. Tudo o que
acontecer à terra acontecerá também aos filhos da terra. Se os homens cospem no solo, estão
cuspindo em si mesmos.
Disto nós sabemos: a terra não pertence ao homem; o homem é que pertence à terra.
Disto sabemos: todas as coisas estão ligadas como o sangue que une uma família. Há uma
ligação em tudo.
O que ocorre com a terra recairá sobre os filhos da terra. O homem não teceu a teia da
vida: ele é simplesmente um de seus fios. Tudo o que fizermos ao tecido, fará o homem a si
mesmo.
Mesmo o homem branco, cujo Deus caminha e fala com ele de amigo para amigo, não
pode estar isento do destino comum, é possível que sejamos irmãos, apesar de tudo. Veremos. De
uma coisa estamos certos (e o homem branco poderá vir a descobrir um dia): Deus é um só,
qualquer que seja o nome que lhe deem. Vocês podem pensar que o possuem, como desejam
possuir nossa terra; mas não é possível. Ele é o Deus do homem, e sua compaixão é igual para o
homem branco e para o homem vermelho. A terra lhe é preciosa e ferila
é desprezar seu Criador.
Os homens brancos também passarão; talvez mais cedo do que todas as outras tribos.
Contaminem suas camas, e uma noite serão sufocados pelos próprios dejetos.
Mas quando de sua desaparição, vocês brilharão intensamente, iluminados pela força do
Deus que os trouxe a esta terra e por alguma razão especial lhes deu o domínio sobre a terra e

sobre o homem vermelho. Esse destino é um mistério para nós, pois não compreendemos que
todos os búfalos sejam exterminados, os cavalos bravios sejam todos domados, os recantos
secretos das florestas densa impregnados do cheiro de muitos homens, e a visão dos morros
obstruídas por fios que falam. Onde está o arvoredo? Desapareceu. Onde está a água?
Desapareceu. É o final da vida e o início da sobrevivência.
Como é que se pode comprar ou vender o céu, o calor da terra? Essa ideia nos parece,
um pouco estranha. Se não possuímos o frescor do ar e o brilho da água, como é possível comprálos?
Cada pedaço de terra é sagrado para meu povo. Cada ramo brilhante de um pinheiro,
cada punhado de areia das praias, a penumbra da floresta densa, cada clareira e inseto a zumbir
são sagrados na memória e experiência do meu povo. A seiva que percorre o corpo das árvores
carrega consigo as lembranças do homem vermelho...
Essa água brilhante que escorre nos riachos e rios não é apenas água, mas o sangue de
nossos antepassados. Se lhes vendermos a terra, vocês devem lembrarse
de que ela é sagrada e
devem ensinar às suas crianças que ela é sagrada e que cada reflexo nas águas límpidas dos
lagos fala de acontecimentos e lembranças da vida do meu povo. O murmúrio das águas é a voz
dos meus ancestrais.
Os rios são nossos irmãos, saciam nossa sede. Os rios carregam nossas canoas e
alimentam nossas crianças. Se lhes vendermos nossa terra, vocês devem lembrar e ensinar para
seus filhos que os rios são nossos irmãos e seus também, E, portanto, vocês devem dar aos rios a
bondade que dedicariam a qualquer irmão.
Sabemos que o homem branco não compreende nossos costumes. Uma porção de terra,
para ele, tem o mesmo significado que qualquer outra, pois é um forasteiro que vem à noite e
extrai da terra tudo que necessita. A terra, para ele, não é sua irmã, mas sua inimiga, e, quando
ele a conquista, extraindo dela o que deseja, prossegue seu caminho. Deixa para trás os túmulos
de seus antepassados e não se incomoda. Rapta da terra aquilo que seria de seus filhos e não se
importa... Seu apetite devorará a terra, deixando somente um deserto.
Eu não sei... nossos costumes são diferentes dos seus. A visão de suas cidades fere os
olhos do homem vermelho. Talvez porque o homem vermelho seja um selvagem e não
compreenda.
Não há um lugar quieto nas cidades do homem branco. Nenhum lugar onde se possa
ouvir o desabrochar de folhas na primavera ou o bater de asas de um inseto. Mas talvez seja
porque eu sou um selvagem e não compreendo. O ruído parece somente insultar os ouvidos. E o
que resta de um homem, se não pode ouvir o choro solitário de uma ave ou o debate dos sapos ao
redor de uma lagoa, à noite? Eu sou um homem vermelho e não compreendo. O índio prefere o
suave murmúrio do vento encrespando a face do lago, e o próprio vento, limpo por uma chuva
diuma ou perfumado pelos pinheiros.

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