quinta-feira, 20 de outubro de 2011

150 anos do Auto-de-Fé de Barcelona




Na Revue Spirite, de novembro de 1861, Allan Kardec relata aos leitores sobre a queima dos livros espíritas, que ficou conhecido como o auto-de-fé de Barcelona.  Ele escreve na revista que lhe foi narrado o seguinte: “Este dia, nove de outubro de mil oitocentos e sessenta e um, às dez horas e meia da manhã, sobre a esplanada da cidade de Barcelona, no lugar onde são executados os criminosos condenados ao último suplício, e por ordem do bispo desta cidade, foram queimados trezentos volumes e brochuras sobre o Espiritismo, a saber: A Revista Espírita, diretor Allan Kardec; A Revista Espiritualista, diretor Piérard;  O Livro dos Espíritos, por Allan Kardec; O Livro dos Médiuns, pelo mesmo; O que é o Espiritismo, pelo mesmo; Fragmento de sonata, ditado pelo Espírito de Mozart; Carta de um católico sobre o Espiritismo, pelo doutor Grand; A História de Jeanne d'Arc, ditada por ela mesma à Srta. Ermance Dufau; A realidade dos Espíritos  demonstrada pela escrita direta, pelo barão de Guldenstubbé.”

Assistiram ao auto-de-fé um padre revestido das roupas sacerdotais, trazendo a cruz numa mão e a tocha na outra mão; um notário encarregado de redigir a ata do auto-de-fé; o escrevente do notário; um empregado superior da administração da alfândega e três moços (serventes) da alfândega, encarregados de manter o fogo; um agente da alfândega representando o proprietário das obras condenadas pelo bispo.”

Conta ainda que uma multidão inumerável encontrava-se sobre os passeios e cobria a imensa esplanada onde se elevava a fogueira. Quando o fogo consumiu os trezentos volumes ou brochuras Espíritas, o padre e seus ajudantes se retiraram, cobertos pelas vaias e as maldições dos numerosos assistentes que gritavam: Abaixo a inquisição!
Numerosas pessoas, em seguida, se aproximaram da fogueira, e recolheram as suas cinzas.

Kardec recebeu uma parte dessas cinzas e com elas se encontrava um fragmento de O Livro dos Espíritos consumido pela metade e narra que o conservou numa urna de cristal como um testemunho autêntico desse ato insensato. Zeus Wantuil, no artigo Centenário de um auto-de-fé, em Reformador de 1961, pág.217/21, informa que a urna foi destruída pelos nazistas na 1ª Grande Guerra.

A História conta que havia dois tipos de auto-de-fé, os públicos e os privados. Essa expressão diz respeito a uma espécie de ritual de penitência pública, ou humilhação de heréticos, utilizado na inquisição. Portugal e Espanha foram os países que mais adotou essa prática. Em 1481 , em Sevilha, pela primeira vez, foram executados seis homens e mulheres; em 1540, na cidade de Lisboa, em Portugal. Em outros países, inclusive no continente americano tem-se notícias de auto-de-fé. No caso dos espíritas, queimaram-se-lhe  os livros na pretensão de queimar as idéias espíritas.

Em Obras Póstumas , na 2ª. parte, encontramos dois relatos. O primeiro datado de 21 de setembro de 1861, quando Kardec tomou conhecimento da apreensão dos referidos livros e o Espírito Verdade, por meio do médium Sr. d’A...lhe disse que se quisesse, por direito, poderia reclamá-los e que conseguiria lhe fossem restituídos os livros, dirigindo-se ao Ministro de Estrangeiros da França, mas, que segundo seu parecer, desse auto-de-fé resultaria maior bem do que o que adviria da leitura dos volumes. Acrescentou ainda que, a queima dos livros determinará uma grande expansão das idéias espíritas e uma procura imensa das obras dessa doutrina. E foi o que, de fato, aconteceu nos anos seguintes.

Os principais jornais da Espanha deram a notícia de forma minuciosa, com ecos na Europa e em diversas partes do mundo. Assim, na Espanha, não obstante as dificuldades ocorridas nos anos e décadas seguintes, foram fundados 14 periódicos, 15 na América Latina, 46 na Europa continental em mais de dez idiomas, dois na África, dois na Ásia e um na Oceania, que somados os de origem britânica e norte-americanos chegaram a mais de uma centena de publicações independentes, escreve Florentino Barrera, no seu livro Auto-de-Fé de Barcelona, editado na Argentina, em 1984, traduzido para o português e publicado, em 2007, pelo Centro de Cultura, Documentação e Pesquisa do Espiritismo Eduardo Carvalho Monteiro, de São Paulo-SP

Kardec noticia na Revista Espírita, de agosto de 1862, que o Bispo que mandou queimar os livros espíritas, desencarnou no dia nove de agosto daquele ano, ou seja, um pouco mais de 9 meses após e dá uma comunicação espontânea por um dos médiuns, à Kardec, respondendo-lhe as perguntas que tinha preparado mas que não necessitou fazê-las porque o bispo se antecipa. Ele diz: "Orai por mim; orai, porque ela é agradável a Deus, a prece que lhe dirige o perseguido pelo perseguidor e termina dizendo "Aquele que foi bispo e que não é mais que um penitente."

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