sexta-feira, 17 de junho de 2011

MORTE DO BISPO DE BARCELONA

MORTE DO BISPO DE BARCELONA
Escrevem-nos da Espanha que o bispo de Barcelona,aquele que mandou queimar trezentos volumes espíritas pela mão do carrasco, em 9 de outubro de 186139, morreu no dia 9 deste mesmo mês e foi enterrado com a pompa costumeira devida aos chefes da Igreja. Apenas nove meses são decorridos e já esse autode-fé produziu os resultados pressentidos por todos, isto é, acelerou a propagação do Espiritismo naquele país. Com efeito, a repercussão daquele ato, inqualificável neste século, chamou para esta doutrina a atenção de uma multidão de pessoas que dela jamais tinham ouvido falar e a imprensa, fosse qual fosse a sua opinião, não poderia ficar muda. O aparato exibido em tal circunstância era capaz de excitar a curiosidade pela atração do fruto proibido e, sobretudo, pela própria importância dada à coisa, porquanto cada um teria raciocinado que não se procede assim com uma ninharia ou com um sonho vão. Muito naturalmente o pensamento retrocedeu alguns séculos e se tenham lembrado de que, outrora, nesse mesmo país, não apenas se queimavam livros, mas seres humanos. Que poderia, pois, conter tais livros para se tornarem dignos das solenidades da fogueira? Foi o que quiseram saber; e na 39 Vide, para detalhes, a Revista Espírita dos meses de novembro e dezembro de 1861. Espanha o resultado foi o mesmo que em toda parte onde o Espiritismo foi atacado; sem os ataques zombeteiros ou sérios de que foi objeto, contaria dez vezes menos partidários do que tem; quanto mais violenta e repetida a crítica, mais ele se pôs em evidência e se desenvolveu; ataques inofensivos teriam passado despercebidos, ao passo que o brilho do raio desperta os mais entorpecidos; querem ver o que se passa, e é tudo quanto pedimos, convictos antecipadamente do resultado do exame. Isto é um fato positivo, pois cada vez que, numa localidade, o anátema desceu sobre ele do alto do púlpito, temos certeza de ver aumentar o número dos nossos assinantes ou estes surgirem se não os houvesse antes. A Espanha não podia escapar a essa conseqüência; assim, não há um espírita que não se tenha regozijado ao tomar conhecimento do auto-de-fé de Barcelona, seguido pouco tempo depois pelo de Alicante; e mais de um adversário deplorou um ato do qual a religião nada tinha a ganhar. Diariamente temos a prova irrecusável da marcha progressiva do Espiritismo nas classes mais esclarecidas daquele país, onde conta zelosos e fervorosos adeptos.

Um dos nossos correspondentes da Espanha,anunciando a morte do bispo de Barcelona, aconselha-nos a evocálo. Dispúnhamos a fazê-lo e, em conseqüência, havíamos preparado algumas perguntas, quando ele se manifestou espontaneamente a um dos nossos médiuns, respondendo por antecipação a todas as perguntas que lhe queríamos fazer e antes mesmo que elas fossem verbalizadas. Sua comunicação, de caráter absolutamente imprevisto, continha, entre outras, a seguinte passagem:

.................. “Auxiliado por vosso chefe espiritual pude vir ensinarvos com o meu exemplo e vos dizer: Não repilais nenhuma das idéias anunciadas, porque um dia, um dia que durará e pesará como um século, essas idéias amontoadas clamarão como a voz do Anjo: Caim, que fizestes de teu irmão? Que fizestes de nosso poder, que devia consolar e elevar a Humanidade? O homem que voluntariamente vive cego e surdo de espírito, como outros o são do corpo, sofrerá, expiará e renascerá para recomeçar o labor intelectual, que a sua preguiça e o seu orgulho o levaram a evitar; e essa voz terrível me disse: Queimaste as idéias e as idéias te queimarão!..................................................................................................

“Orai por mim. Orai, porque é agradável a Deus a prece que lhe é dirigida pelo perseguido em benefício do perseguidor.

“Aquele que foi bispo e que não passa de um penitente.”

Este contraste entre as palavras do Espírito e as do homem nada tem que deva surpreender. Todos os dias vemos criaturas que, depois da morte, pensam de modo diferente do que pensavam durante a vida, uma vez caída a venda das ilusões, o que é uma prova incontestável de superioridade; somente os Espíritos inferiores e vulgares persistem nos erros e nos preconceitos da vida terrestre. Quando vivo, o bispo de Barcelona via o Espiritismo através de um prisma particular, que lhe desnaturava as cores ou, melhor dizendo, não o conhecia. Agora o vê sob a sua verdadeira luz e lhe sonda as profundezas. Caído o véu, já não é para ele uma simples opinião, uma teoria efêmera, que se pode sufocar nas cinzas: é um fato; é a revelação de uma lei da Natureza, lei irresistível como a força da gravitação, lei que deve, pela força das coisas, ser aceita por todos, como tudo que é natural. Eis o que agora compreende e que o fez dizer que “as idéias que quis queimar o queimarão.” Dito de outra forma, será tragado pelos preconceitos que o tinham levado a condená-las.

Não o podemos censurar, pelo triplo motivo de que o verdadeiro espírita a ninguém condena, não guarda rancor, esquece as ofensas e, a exemplo do Cristo, perdoa aos seus inimigos; em segundo lugar, longe de nos prejudicar, ele nos foi útil; enfim, porque reclama de nós a prece do perseguido para o perseguidor, como a mais agradável a Deus, pensamento todo caridade, digno da humildade cristã, revelada pelas últimas palavras: “Aquele que foi bispo e que não passa de um penitente.” Bela imagem das dignidades terrenas deixadas à beira do túmulo, para se apresentar a Deus tal que se é, sem os aparatos impostos aos homens.

Espíritas, perdoemos-lhe o mal que nos quis fazer, como quereríamos que as nossas ofensas nos fossem perdoadas e oremos por ele no aniversário do auto-de-fé de 9 de outubro de 1861.

MORTE DA SRA. HOME

Lemos em o Nord, de 15 de julho de 1862:

“O famoso Sr. Dunglas Home passou por Paris nestes dias. Pouca gente o viu. Acaba de perder sua mulher, irmã da condessa de Kouchelew-Bezborodko. Por mais cruel que seja essa perda, disse ele que lhe é menos sensível do que para outro homem, não porque a amasse menos, mas porque a morte não o separa daquela que na Terra usava seu nome. Eles se vêem e conversam com tanta facilidade como quando habitavam juntos o mesmo planeta.

“O Sr. Home é católico romano e sua esposa, antes de exalar o último suspiro, querendo unir-se ao marido numa última comunhão espiritual, abjurou a religião grega diante do bispo de Périgueux. Isto se passou no castelo de Laroche, residência do conde de Kouchelew.”

O folhetim – pois é num folhetim, ao lado do Pré-Catelan, que se encontra esta nota – é assinado Nemo, um dos críticos que não pouparam zombarias aos espíritas e às suas pretensões de conversar com os mortos. Senhor, não é engraçado acreditar que aqueles a quem amamos não estão perdidos para sempre e que os reveremos? Não é ridículo, muito tolo e supersticioso acreditar que estejam ao nosso lado, que nos vejam e nos escutem quando não os vemos e que possam comunicar-se conosco? O Sr. Home e sua esposa se vêem, conversam tão facilmente como se estivessem juntos. Que absurdo! E dizer que em pleno século dezenove, o século das luzes, haja pessoas bastante crédulas para acreditarem em semelhantes frivolidades, dignas dos contos de Perrault! Perguntai a razão ao Sr. Trousseau. O nada, falai-me disto! eis o que é lógico! Temos mais liberdade de fazer o que queremos durante a vida. Pelo menos não tememos o futuro. Sim; mas onde está a compensação para o infeliz? – Nemo! Singular pseudônimo para a circunstância!
R.E. , agosto de 1862, p. 0

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