sexta-feira, 17 de junho de 2011

Médiuns Interesseiros

REVISTA ESPÍRITA

Médiuns Interesseiros
Em nosso artigo sobre os escolhos dos médiuns
colocamos a cupidez no rol dos defeitos que podem dar guarida
aos Espíritos imperfeitos. Alguns desenvolvimentos sobre esse
assunto não serão inúteis. É preciso colocar na linha de frente dos
médiuns interesseiros aqueles que poderiam fazer de sua faculdade
uma profissão, dando o que se denomina de consultas ou sessões
remuneradas. Não os conhecemos, pelo menos na França, mas
como tudo pode tornar-se objeto de exploração, nada haveria de
surpreendente em que um dia quisessem explorar os Espíritos.
Resta saber como eles enfrentariam o fato, caso se tentasse
introduzir uma tal especulação. Mesmo parcialmente iniciado no
Espiritismo, compreende-se quanto seria aviltante semelhante
especulação; entretanto, quem quer que conheça um pouco as
difíceis situações enfrentadas pelos Espíritos para se comunicarem
conosco, sabe quão pouco é necessário para os afastar, assim como
conhece sua repulsa por tudo quanto represente interesse egoísta;
por isso, jamais poderão admitir que os Espíritos superiores se
submetam ao capricho do primeiro que os venha evocar, em tal ou
qual hora; o simples bom-senso repele essa suposição. Não seria
também uma profanação evocar o pai, a mãe, o filho ou um amigo
por semelhante meio? Sem dúvida pode-se obter comunicações
deste modo, mas só Deus sabe de que procedência! Os Espíritos
levianos, mentirosos, travessos, zombadores e toda a corja de
Espíritos inferiores vêm sempre; estão sempre dispostos a
responder a tudo. Outro dia São Luís nos dizia, na Sociedade:
Evocai um rochedo e ele vos responderá. Aquele que deseja
comunicações sérias deve, antes de tudo, instruir-se sobre a
natureza das simpatias do médium com os seres de além-túmulo.
Ora, aquelas que são dadas mediante pagamento não podem
inspirar senão uma confiança bem medíocre.
Médiuns interesseiros não são unicamente os que
poderiam exigir uma retribuição material; o interesse nem sempre



se traduz na esperança de um ganho material mas, também, nas
ambições de qualquer natureza, sobre as quais pode fundar-se a
esperança pessoal; é ainda uma anomalia de que os Espíritos
zombeteiros sabem muito bem aproveitar, e com uma destreza e
uma desfaçatez verdadeiramente notáveis, embalando enganadoras
ilusões aqueles que assim se colocam sob sua dependência. Em
resumo, a mediunidade é uma faculdade dada para o bem e os
Espíritos bons se afastam de quem quer que pretenda transformála
em trampolim para alcançar seja o que for que não corresponda
aos desígnios da Providência. O egoísmo é a chaga da sociedade; os
Espíritos bons o combatem e, portanto, não se deve imaginar que
se sirvam dele. Isto é tão racional que seria inútil insistir mais sobre
esse ponto.
Os médiuns de efeitos físicos não estão na mesma
categoria. Sendo tais efeitos produzidos por Espíritos inferiores,
pouco escrupulosos quanto aos sentimentos morais, um médium
dessa natureza que quisesse explorar a sua faculdade poderia
encontrar quem o assistisse sem muita repugnância. Mas também
aí se apresenta um outro inconveniente. O médium de efeitos
físicos, assim como o de comunicações inteligentes, não recebeu
essa faculdade para seu bel-prazer; ela lhe foi dada com a condição
de usá-la adequadamente: se abusar, poderá ser retirada ou trazerlhe
prejuízos porque, definitivamente, os Espíritos inferiores estão
às ordens dos Espíritos superiores. Os inferiores adoram mistificar,
mas não gostam de ser mistificados. Se de boa vontade se prestam
às brincadeiras e às questões curiosas, assim como os demais não
gostam de ser explorados, provando a todo instante que têm
vontade própria e agindo como e quando melhor lhes pareça; isto
faz com que o médium de efeitos físicos esteja ainda menos seguro
da realidade das manifestações que o médium escrevente.
Pretender produzi-los a dia e hora marcados seria dar provas da
mais profunda ignorância. Que fazer, então, para ganhar o seu
dinheiro? Simular os fenômenos; é o que poderá acontecer não
apenas aos que disso fizerem uma profissão declarada, como
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também às pessoas aparentemente simples, que se limitam a
receber uma retribuição qualquer dos visitantes. Se o Espírito nada
produz, o próprio médium supre a sua deficiência: a imaginação é
tão fecunda quando se trata de ganhar dinheiro...! É uma tese que
desenvolvemos em artigo especial, visando a prevenir a fraude.
De tudo quando precede, concluímos que a maior
garantia contra o charlatanismo é o mais absoluto desinteresse, por
isso que não há charlatães desinteressados; se isso nem sempre
assegura a excelência das comunicações inteligentes, retira aos
Espíritos maus um poderoso meio de ação e fecha a boca de certos
detratores.



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