terça-feira, 25 de dezembro de 2012

CAPÍTULO 5



















CAPÍTULO
5
MANIFESTAÇÕES FÍSICAS ESPONTÂNEAS
Ruídos, barulhos e perturbações – Arremesso de objetos –
Fenômeno de transporte – Dissertação de um Espírito
sobre o fenômeno de transporte
82 Os fenômenos dos quais acabamos de falar são provocados.
Algumas vezes acontecem espontaneamente, sem a participação da
vontade, e então, freqüentemente, se tornam muito inoportunos. O que
exclui, decididamente, o pensamento de que podem ser efeito da imaginação
superexcitada pelas idéias espíritas é que se produzem entre
pessoas que delas nunca ouviram falar e das quais não se espera produzir
tais fenômenos. Esses fenômenos, os quais se poderia chamar de
Espiritismo prático natural, são muito importantes, porque não podem
ser suspeitos de conivência; é por isso que recomendamos às pessoas
que se ocupam dos fenômenos espíritas pesquisar atenciosamente todos
os fatos dessa natureza que vierem ao seu conhecimento, averiguando
cuidadosamente a realidade por meio de um estudo minucioso das circunstâncias,
a fim de se assegurar de que não são joguetes de uma ilusão ou
de uma mistificação.
83 De todas as manifestações espíritas, as mais comuns e freqüentes
são os ruídos e as pancadas; é aqui, especificamente, que é preciso ficar
atento à ilusão, porque uma imensidão de causas naturais pode produzi-
las: o vento que assobia ou que agita algo; um objeto que se mexe por
si mesmo sem se perceber, um efeito acústico, um animal escondido, um
inseto etc.; até mesmo uma maliciosa brincadeira de mau gosto pode
produzi-las. Os ruídos espíritas possuem, aliás, uma maneira própria,
revelando uma intensidade e um timbre muito variado, que os tornam
facilmente reconhecíveis e não permitem confundi-los com o estalido da
madeira, o crepitar do fogo, o tique-taque monótono de um pêndulo. São
batidas secas, às vezes surdas, fracas e leves, às vezes claras e distintas,
algumas vezes barulhentas, que mudam de local e se repetem sem ter
uma regularidade mecânica. De todos os meios de controle mais eficazes,
aquele que não deixa dúvidas sobre sua origem é a obediência a um
comando. Se as batidas se fizerem ouvir no lugar designado, se responderem
ao pensamento pelo seu número ou sua intensidade, há de se

reconhecer nelas uma causa inteligente; porém, a falta de obediência nem
sempre é uma prova que as negue.
84 Admitindo-se então que, por uma constatação minuciosa, se
adquira a certeza de que os ruídos ou outros efeitos são manifestações
reais, é racional temê-los? Não; porque, em nenhum caso, representam
algum perigo; somente as pessoas que acreditam que são do diabo
podem ser afetadas de maneira lamentável, como as crianças que têm
medo do lobisomem ou do bicho-papão. Essas manifestações, em determinadas
circunstâncias, é preciso convir, adquirem proporções e persistência
desagradáveis, e desejamos nos livrar delas. Uma explicação é
necessária a esse respeito.
85 Dissemos que as manifestações físicas têm por objetivo chamar
nossa atenção sobre alguma coisa e nos convencer da presença de um
poder superior ao homem. Dissemos também que os Espíritos elevados não
se ocupam dessas manifestações; servem-se dos Espíritos inferiores para
produzi-las, como nos servimos de serviçais para as tarefas pesadas, e
isso para alcançar determinado objetivo. Atingido o objetivo, a manifestação
material cessa, por não ser mais necessária. Um ou dois exemplos
farão com que se compreenda melhor a questão.
86 Há muitos anos, no início dos nossos estudos sobre o Espiritismo,
trabalhando uma noite, ouvi batidas ao redor de mim durante quatro
horas consecutivas; era a primeira vez que um fato semelhante me
acontecia; constatei que não tinham nenhuma causa acidental, mas no
momento não pude saber nada a respeito. Tinha naquela época oportunidade
de estar freqüentemente com um excelente médium escrevente.
No dia seguinte, interroguei o Espírito que se comunicava por esse médium
sobre a causa dessas batidas. Ele me respondeu: Era teu Espírito familiar
que queria te falar. E o que ele queria me dizer? Resposta: Tu mesmo
podes lhe perguntar, porque ele está aqui. Tendo interrogado o Espírito,
ele se fez conhecer sob um nome fictício (soube depois, por outros Espíritos,
que pertencia a uma ordem muito elevada e que exerceu na Terra
um papel importante). Assinalou erros no trabalho, indicando-me as linhas
onde se encontravam, deu-me conselhos úteis e sábios e acrescentou
que estaria sempre comigo, atendendo ao meu chamado todas as vezes
que quisesse interrogá-lo. Desde então, de fato, esse Espírito nunca me
deixou. Ele me deu muitas provas de sua grande superioridade, e sua
intervenção benevolente e eficaz me socorreu tanto nos assuntos da vida
material quanto nas questões metafísicas. Mas, desde aquela primeira
conversa, as batidas cessaram. O que queria ele, de fato? Entrar em

comunicação regular comigo; para isso seria preciso me advertir. Dada a
advertência, explicada a razão e estabelecidas as relações regulares, as
batidas tornaram-se inúteis, por isso cessaram. Não se toca mais o
tambor para acordar os soldados quando eles já estão de pé.
Um fato semelhante aconteceu com um de nossos amigos. Ele ouvia
ruídos diversos no seu quarto, que se tornavam muito cansativos. Numa
oportunidade, perguntou ao Espírito de seu pai por meio de um médium
escrevente o que queriam dele. Fez o que lhe foi recomendado e desde
então não ouviu mais nada. Lembremos de que as pessoas que têm com
os Espíritos um meio regular e fácil de comunicação têm muito menos
manifestações desse gênero, e isso se compreende.
87 As manifestações espontâneas não se limitam aos ruídos e às
batidas; degeneram às vezes em grande barulheira e em perturbações;
móveis e objetos diversos são revirados, projéteis dos mais variados são
lançados de fora, portas e janelas são abertas e fechadas por mãos invisíveis,
vidros são quebrados, o que não se pode entender como ilusão.
A desordem, muitas vezes, acontece de fato; outras vezes tem apenas
as aparências da realidade. Ouve-se algazarra numa parte da casa, um
ruído de louça que cai e se quebra com estrondo, pedaços de lenha que
rolam pelo chão; apressa-se em verificar e se encontra tudo tranqüilo e em
ordem; depois, assim que se vira as costas, o tumulto recomeça.
88 As manifestações desse gênero não são nem raras nem novas.
Muitas crônicas em todos os lugares contam histórias semelhantes. O
medo muitas vezes exagerou os fatos, que tomavam proporções gigantescamente
ridículas cada vez que eram contados; a superstição reforçou
ainda mais isso e fez com que considerassem as casas onde os fatos se
passaram freqüentadas pelo diabo; daí todos os contos maravilhosos ou
terríveis de fantasmas. De seu lado, o embuste não deixou escapar uma
oportunidade tão bela para explorar a credulidade, e isso muitas vezes
em proveito de interesses pessoais. Compreende-se, além do mais, a
impressão que fatos desse gênero, mesmo reduzidos à realidade, podem
causar em mentes fracas e predispostas pela educação às idéias supersticiosas.
O modo mais seguro de evitar os inconvenientes que essas
manifestações podem causar, uma vez que não se pode impedi-las, é
fazer conhecer sua origem. As coisas mais simples tornam-se assustadoras
quando a causa é desconhecida. Quando se estiver familiarizado
com o Espírito e aqueles a quem eles se manifestam não acreditarem
mais haver uma legião de demônios a persegui-los, não haverá mais nada
a temer.

Pode-se ver na Revista Espírita o relato de vários fatos autênticos
desse gênero, entre outros a história do Espírito batedor* de Bergzabern,
cujas visitas duraram mais de oito anos (números de maio, junho e julho
de 1858), a de Dibbelsdorp (agosto de 1858), a do padeiro das Grandes
Vendas, perto de Dieppe (março de 1860), a da rua de Noyers, em Paris
(agosto de 1860), a do Espírito de Castelnaudary, sob o título de “História
de um condenado” (fevereiro de 1860), a do fabricante de São Petersburgo
(abril de 1860) e muitas outras.
89 Os fatos dessa natureza assumem, muitas vezes, o caráter de uma
verdadeira perseguição. Conhecemos seis irmãs que moravam juntas e
que, durante vários anos, encontraram de manhã suas roupas espalhadas,
escondidas até no forro da casa, rasgadas e cortadas em pedaços, mesmo
com elas tomando a precaução de guardá-las à chave. Geralmente acontece
que pessoas deitadas, embora perfeitamente acordadas, vejam sacudir
suas cortinas, arrancar violentamente seus cobertores e seus
travesseiros, sendo levantadas de seus colchões e algumas vezes até
jogadas para fora da cama. Fatos assim são mais freqüentes do que se
pensa; mas na maioria das vezes as suas vítimas não ousam falar disso por
receio do ridículo. É do nosso conhecimento que se tentou curar certos
indivíduos do que se julgou ser alucinações submetendo-os ao tratamento
dispensado aos alienados, o que os deixou realmente loucos1. A medicina
não pode compreender essas coisas porque admite apenas o elemento
material, de onde resultam enganos, muitas vezes, funestos. A história,
um dia, contará alguns tratamentos do século dezenove, como se relatam
hoje alguns procedimentos da Idade Média.
Admitimos perfeitamente que alguns fatos são obra da malícia ou da
malvadez; mas, se após todas as constatações feitas se verificar que não
são obras do homem, é preciso convir que são obra do diabo, como pensam
alguns, ou dos Espíritos, como dizemos nós; mas de que Espíritos?
90 Os Espíritos superiores, assim como os homens sérios, não se
divertem provocando confusões. Nós muitas vezes indagamos os que
assim procedem para saber o motivo que os leva a perturbar o repouso
das pessoas. A maioria não tem outro objetivo senão se divertir; são
Espíritos antes levianos do que maldosos, que riem dos pavores que
* Batedor: qualidade de certos Espíritos. Os Espíritos batedores são aqueles que revelam sua
presença por pancadas e ruídos de diversas naturezas (N.E.).
1 - Loucos: a Doutrina Espírita em todas as épocas sempre esteve atenta às questões do desequilíbrio
mental dos indivíduos e à sua relação com os processos obsessivos. Há no Brasil, entre
outras, uma obra do doutor Bezerra de Menezes, A loucura sob novo prisma (Rio de Janeiro:
FEB), que é básica para quem quer entender o processo (N.E.).

ocasionam e das buscas inúteis para se descobrir a causa do tumulto.
Muitas vezes se obstinam, fixam-se, junto a um indivíduo, que se satisfazem
em molestar e que perseguem constantemente; outras vezes se
apegam a locais sem outro motivo além do capricho. Algumas vezes agem
por vingança, como teremos oportunidade de ver. Em alguns casos, sua
intenção é mais louvável, pois querem chamar a atenção e estabelecer
contato, seja para dar um aviso útil à pessoa a quem se dirigem, seja para
pedir alguma coisa para eles mesmos. Muitas vezes, os vimos pedir
preces, outras, solicitar em seu nome a realização de um desejo que não
puderam cumprir, outras, ainda, querer, no interesse de seu próprio
descanso, reparar uma má ação cometida enquanto vivos. Em geral, é
um erro ter medo deles; sua presença pode ser às vezes inoportuna, mas
não é perigosa. Compreende-se o desejo que se tem de livrar-se deles, e
para isso geralmente se faz o contrário do que se deveria. Como são
Espíritos que se divertem, quanto mais se leva a situação a sério, mais
persistem, como as crianças travessas, que atormentam cada vez mais
os que se impacientam com elas e que assustam os medrosos. Ao tomar
a sábia atitude de rir de suas malvadezas, acabam por se cansar e se
tranqüilizam. Conhecemos uma pessoa que, longe de se irritar, incentivava-
os, desafiava-os a fazer as coisas com tanta naturalidade que, ao fim
de alguns dias, não retornaram mais. Mas, como já dissemos, há casos
cujo motivo é menos fútil. É por isso que é sempre útil saber o que
desejam. Se pedem alguma coisa, pode-se estar certo de que cessarão
suas visitas desde que se satisfaça seu desejo. O melhor meio de saber é
evocando o Espírito por meio de um bom médium escrevente; pelas
respostas, logo se verá o que se tem a fazer e se fará o que for preciso;
se for um Espírito infeliz, a caridade requer que o tratemos com as considerações
que merece; se for um zombeteiro, pode-se agir sem cerimônias;
se for malévolo, é preciso orar a Deus para torná-lo melhor. Em todos os
casos, a prece só pode ter bom resultado. Mas as fórmulas do exorcismo
os fazem rir; não dão nenhuma importância a elas. Quando se entra em
comunicação com eles, é preciso desconfiar das qualificações ridículas
ou assustadoras que se atribuem, geralmente para se divertir com a
credulidade de quem os ouve.
Voltaremos a tratar com mais detalhes desse assunto e das causas
que muitas vezes tornam os exorcismos ineficazes nos capítulos 9 e 23,
dos “Lugares assombrados” e “Obsessão”.
91 Esses fenômenos, embora produzidos por Espíritos inferiores,
muitas vezes são provocados por Espíritos de uma ordem mais elevada,
com o objetivo de demonstrar a existência deles e de um poder superior

ao homem. A repercussão que resulta disso e o próprio temor que causam
chamam a atenção e acabam por abrir os olhos dos mais incrédulos.
Estes acham mais simples considerar os fenômenos à conta da imaginação,
explicação mais cômoda e que dispensa outras; entretanto, quando
objetos são empurrados ou lançados à cabeça, é preciso ter uma imaginação
bem complacente para concluir que semelhantes coisas são
imaginárias, quando não o são. Se há um efeito qualquer, esse efeito tem
necessariamente uma causa. Se uma observação calma e fria nos demonstra
que esse efeito é independente de toda vontade humana e de toda causa
material e se além disso nos dá sinais evidentes de inteligência e de livre
vontade, o que é o sinal mais característico, forçoso será atribuí-lo a uma
inteligência oculta. Quem são esses seres misteriosos? É o que os estudos
espíritas nos ensinam do modo claro, graças aos meios que nos dão de
nos comunicarmos com eles. Por outro lado, esses estudos nos ensinam
a separar o que há de real, falso e exagerado nos fenômenos que não
presenciamos. Se um efeito estranho acontece, como ruído, movimento
ou a própria aparição, o primeiro pensamento que se deve ter é que se
trata de uma causa natural, por ser a mais provável; então, é preciso
procurar a causa com muito cuidado e admitir a intervenção dos Espíritos
somente após uma averiguação séria; é o meio de não se iludir. Se uma
pessoa, por exemplo, sem haver ninguém por perto, recebesse uma
bofetada ou uma paulada nas costas, como já aconteceu, não poderia
duvidar da presença de um ser invisível.
Devemos nos precaver não somente contra os relatos que podem
ser mais ou menos exagerados, mas também contra nossas próprias
concepções, criações mentais, e não atribuir origem oculta a tudo o que
não se compreende. Uma infinidade de causas muito simples e muito
naturais podem produzir efeitos estranhos à primeira vista, e seria verdadeiramente
superstição ver em todos os lugares Espíritos ocupados em
derrubar móveis, quebrar louças, enfim, suscitar mil e um inconvenientes
no lar, quando é mais racional atribuí-los a descuidos.
92 A explicação do movimento dos corpos inertes se aplica, naturalmente,
a todos os efeitos espontâneos que acabamos de ver. Os ruídos,
embora mais fortes do que as batidas na mesa, têm a mesma origem; a
mesma força que desloca pode erguer ou atirar qualquer objeto. Uma
circunstância vem em apoio a essa teoria. Poderíamos perguntar onde
está o médium nessa circunstância. Os Espíritos nos disseram que, nesse
caso, sempre há alguém cuja mediunidade se exerce sem o seu conhecimento.
As manifestações espontâneas se produzem muito raramente em
locais isolados; acontecem geralmente em casas habitadas e na presença

de algumas pessoas, que exercem uma influência necessária sem o querer;
essas pessoas são verdadeiros médiuns que ignoram o dom que possuem
e que chamamos, por isso mesmo, de médiuns naturais. São para os
outros médiuns o que os sonâmbulos naturais são para os sonâmbulos
magnéticos, e do mesmo modo interessantes de observar.
93 A intervenção voluntária ou involuntária de uma pessoa dotada
de um dom para a produção dos fenômenos parece ser necessária na
maioria dos casos, embora algumas vezes o Espírito parece agir sozinho;
mas nesses casos tira o fluido animalizado de outros lugares, e não de
uma pessoa presente. Explica-se assim porque os Espíritos que nos
rodeiam não produzem perturbações a cada instante. Primeiramente,
é preciso que o Espírito o queira, que tenha um objetivo, um motivo;
sem isso, ele não faz nada. Depois, é preciso que encontre exatamente
no lugar em que gostaria de agir uma pessoa apta a ajudá-lo, coincidência
que ocorre muito raramente. Se essa pessoa aparecer no local
inesperadamente, ele tira proveito disso. Apesar do conjunto de circunstâncias
favoráveis, ele pode ainda ser impedido por uma vontade
superior, que não lhe permite agir a seu modo. Pode ser-lhe permitido
fazê-lo apenas dentro de certos limites e caso essas manifestações
sejam julgadas úteis, seja como meio de convicção ou como prova
para a pessoa.
94 Citaremos a esse respeito o diálogo que mantivemos com o
Espírito de São Luís sobre os fatos que se passaram em junho de 1860
na rua de Noyers, em Paris. Os pormenores estão na Revista Espírita,
número de agosto de 1860.
1. (A São Luís) Tereis a bondade de nos dizer se os fatos acontecidos
na rua de Noyers são reais? Quanto à possibilidade, não temos
dúvida.
“Sim, são fatos verdadeiros; somente a imaginação das pessoas os
exageraram, pelo medo ou pela ignorância; mas, repito, são verdadeiros.
Essas manifestações são provocadas por um Espírito que se diverte um
pouco à custa dos moradores do local.”
2. Há, na casa, uma pessoa que seja a causa dessas manifestações?
“Elas sempre são causadas pela presença da pessoa visada; é que o
Espírito perturbador se irrita com o habitante do lugar e quer lhe fazer
maldades ou mesmo procurar desalojá-lo.”
3. Perguntamos se, entre os habitantes da casa, há algum que seja
a causa desses fenômenos por efeito de mediunidade espontânea e
involuntária?

“É necessário; sem isso o fato não poderia acontecer. Um Espírito
habita um endereço de sua predileção e permanece inativo enquanto não
encontra uma natureza que lhe seja conveniente nesse lugar; quando essa
pessoa chega, então se diverte o quanto pode.”
4. A presença dessa pessoa no próprio lugar é indispensável?
“Esse é o caso mais comum, e é o do caso citado; por isso disse que
sem ela o fato não poderia acontecer; mas não quis generalizar; pode
acontecer de a presença no local não ser necessária.”
5. Sabendo que esses Espíritos são sempre de uma ordem inferior, a
aptidão de lhes servir de auxiliares é uma indicação desfavorável para a
pessoa? Isso anuncia uma simpatia para com os seres dessa natureza?
“Não necessariamente, porque essa aptidão está ligada a uma disposição
física; entretanto, isso muitas vezes anuncia uma tendência material
que seria preferível não ter; pois, quanto mais elevado moralmente, mais o
homem atrai bons Espíritos, que afastam necessariamente os maus.”
6. Onde os Espíritos conseguem os objetos para atirar?
“Esses diversos objetos são, na maioria das vezes, apanhados nos
próprios lugares ou na vizinhança; uma força do Espírito os lança no
espaço, e eles caem no local que ele quer.”
7. Uma vez que as manifestações espontâneas geralmente são
permitidas e até mesmo provocadas com o objetivo de convencer,
parece-nos que, se alguns incrédulos as vivessem pessoalmente, seriam
forçados a se render à evidência. Algumas vezes, queixam-se de não
poderem testemunhar fatos conclusivos; não dependeria dos Espíritos
lhes dar alguma prova sensível?
“Os ateus e os materialistas não são a cada instante testemunhas
dos efeitos do poder de Deus e do pensamento? Isso não os impede de
negar Deus e a alma. Os milagres de Jesus converteram todos os seus
contemporâneos? Os fariseus que lhe diziam: “Mestre, fazei-nos ver
algum prodígio” não se parecem com os que, em vossa época, pedem
para que lhes façais ver manifestações? Se não são convencidos pelas
maravilhas da criação, não o seriam mesmo se os Espíritos lhes aparecessem
do modo mais evidente, porque seu orgulho os torna como
animais empacados. Ocasiões de ver não lhes faltarão, se as procurarem
de boa-fé, e é por isso que Deus não julga fazer por eles mais do que faria
pelos que procuram se instruir sinceramente, porque Ele recompensa
apenas os homens de boa vontade. Sua incredulidade não impedirá que
a vontade de Deus se realize. Vede bem que ela não impediu que a

Doutrina se expandisse. Parai de vos inquietar com a oposição que vos
fazem; ela está para a Doutrina como a sombra está para uma pintura em
tela: só lhe dá maior realce. Que méritos teriam ao serem convencidos
pela força? Deus lhes deixa toda a responsabilidade por sua teimosia, e a
responsabilidade será mais terrível do que pensais. Bem-aventurados os
que crêem sem ter visto, disse Jesus, porque esses não duvidam do
poder de Deus.”
8. Poderia nos ser útil evocar aquele Espírito para lhe pedir algumas
explicações?
“Evocai-o, se quiserdes; mas é um Espírito inferior, que dará apenas
respostas bastante insignificantes.”
95 Entrevista com o Espírito perturbador da rua de Noyers.
1. Evocação.
“O que quereis para me chamar? Quereis que vos jogue pedras?
Então se veria um belo salve-se-quem-puder, apesar de vosso ar de
bravura.”
2. Se atirásseis pedras aqui, isso não nos assustaria, e pedimos,
positivamente, que as arremessais.
“Aqui talvez não pudesse; tendes um guardião que cuida bem de vós.”
3. Na rua de Noyers, havia uma pessoa que te servia de auxiliar
para te facilitar as malvadezas que cometias com os moradores da casa?
“Certamente; encontrei um bom instrumento e nenhum Espírito instruído,
sábio e virtuoso para me impedir, pois sou alegre e, às vezes,
adoro me divertir.”
4. Quem foi a pessoa que te serviu de instrumento?
“Uma criada.”
5. Era sem o saber que ela te servia de auxiliar?
“Oh, sim. Pobre moça! Era a mais assustada.”
6. Agias com um objetivo hostil?
“Eu não tinha nenhum objetivo hostil; mas os homens, que se apoderam
de tudo, torceram os fatos em seu proveito.”
7. O que entendes por isso? Não te compreendemos.
“Procurava me divertir, mas vós outros estudareis a coisa e tereis um
fato a mais para mostrar que existimos.”
8. Dizes que não tinhas um objetivo hostil e, no entanto, quebraste
todos os vidros do apartamento, causando um prejuízo real?
“É um detalhe.”

9. Onde conseguiste arranjar os objetos que atiraste?
“São muito comuns; encontrei-os no pátio, nos jardins vizinhos.”
10. Encontraste-os todos ou fabricaste algum? (Veja o capítulo 8,
“Laboratório do mundo invisível”).
“Não criei nada, não compus nada.”
11. Se não os tivesses encontrado, poderias fabricá-los?
“Teria sido mais difícil; mas, a rigor, misturam-se matérias, e isso faz
qualquer coisa.”
12. Agora dize-nos: como os atiraste?
“Ah! É mais difícil de dizer; fui ajudado pela natureza elétrica da jovem
unida à minha, menos material; assim, nós dois pudemos transportar
diversos objetos.”
13. Penso que gostarias de nos dar alguma informação sobre tua
pessoa. Primeiramente, dize-nos: há quanto tempo morreste?
“Há muito tempo; há mais de cinqüenta anos.”
14. Que fazias quando vivo?
“Pouca coisa de bom; era trapeiro, catador de papel; recolhia objetos
na rua do bairro e, por vezes, insultavam-me, porque gostava muito de licor
vermelho do bom velho Noé; por isso queria fazer todos fugirem dali.”
15. Foste tu mesmo, e de plena vontade, que respondeste às nossas
questões?
“Tinha um instrutor.”
16. Quem é o instrutor?
“Vosso bom rei Luis.”
F Esta questão foi motivada pela natureza de certas respostas que
pareceram ultrapassar o alcance desse Espírito, pelo conteúdo das idéias
e mesmo pela forma da linguagem. Não há nada de estranho no fato de
ele ter sido ajudado por um Espírito mais esclarecido, que queria aproveitar-
se dessa ocasião para nos dar uma instrução. Esse é um fato
muito comum, mas uma particularidade notável nessa circunstância é
que a influência do outro Espírito se fez sentir na própria escrita; a das
respostas em que interveio é mais regular e mais fluente; a do trapeiro
é angulosa, irregular, muitas vezes pouco legível, revelando um caráter
totalmente diferente.
17. Que fazes agora? Preocupas-te com teu futuro?
“Ainda não; eu vagueio. Pensa-se tão pouco em mim na Terra, ninguém
ora por mim; como não sou ajudado, não trabalho.”


F Veremos mais tarde como se pode contribuir para o adiantamento
e o alívio dos Espíritos inferiores pela prece e pelos conselhos.
18. Qual era o teu nome quando vivo?
“Jeannet.”
19. Pois bem, Jeannet, oraremos por ti. Dize-nos se nossa evocação
te agradou ou contrariou?
“Antes me agradou, porque sois bons, alegres viventes, embora um
pouco austeros; pouco importa; me escutastes e estou contente.”
FENÔMENO DE TRANSPORTE
96 O fenômeno de transporte difere dos que acabamos de citar
apenas pela intenção benevolente do Espírito que o causa, pela natureza
dos objetos quase sempre graciosos e pela maneira carinhosa e muitas
vezes delicada com que são transportados. Consiste no transporte
espontâneo de objetos que não existem no lugar onde se encontram;
muitas vezes são flores; algumas vezes são frutas, bombons, jóias etc.
97 Primeiramente, diremos que esse fenômeno é um dos que se
prestam mais à fraude e que por conseguinte é preciso se manter em
guarda contra a trapaça. Sabe-se até onde pode chegar a arte da mágica
quando se trata de experiências desse gênero; ainda que não tenhamos
de enfrentar um profissional nessa arte, podemos ser facilmente enganados
numa manobra hábil a serviço de interesse. A melhor de todas as
garantias está no caráter, na honestidade notória, no desinteresse absoluto
da pessoa que obtém semelhantes efeitos; em segundo lugar, no
exame atento de todas as circunstâncias em que e como os fatos se
produzem; enfim, no conhecimento esclarecido do Espiritismo, que pode
descobrir o que for suspeito.
98 A teoria do fenômeno de transporte e das manifestações físicas
em geral se encontra resumida, de maneira notável, na dissertação
seguinte, de um Espírito cujas comunicações têm uma marca incontestável
de profundidade e lógica. Muitas outras aparecerão no decorrer
desta obra. Faz-se conhecer sob o nome de Erasto, discípulo de São
Paulo, e como Espírito protetor do médium que lhe serviu de intérprete:
“Necessariamente, é preciso, para obter fenômenos dessa natureza,
dispor de médiuns que chamaria de sensitivos, ou seja, dotados do mais
alto grau das faculdades mediúnicas de expansão e de penetrabilidade;
porque o sistema nervoso desses médiuns, facilmente excitável, lhes
permite, por meio de algumas vibrações, projetar ao redor de si uma grande
quantidade de seu fluido animalizado.

“As naturezas impressionáveis, as pessoas cujos nervos vibram ao
menor sentimento, à menor sensação, que a influência moral ou física,
interna ou externa, sensibiliza, são as mais aptas a se tornarem excelentes
médiuns de efeitos físicos de tangibilidade e de transporte. De fato, seu
sistema nervoso, quase inteiramente desprovido do envoltório refratário
que isola esse sistema na maioria dos outros encarnados, torna-os apropriados
para a realização dos diversos fenômenos. Em conseqüência,
com uma pessoa dessa natureza, e cujas outras faculdades não sejam
hostis à mediunização, mais facilmente se obterão os fenômenos da
tangibilidade, as batidas nas paredes e nos móveis, os movimentos inteligentes
e mesmo a suspensão no espaço da matéria inerte mais pesada.
Com mais facilidade se obterão esses resultados se, em vez de um só, se
tiver à mão muitos outros bons médiuns.
“Mas da produção dos fenômenos à obtenção dos transportes há
todo um mundo a vencer; porque, nesse caso, não somente o trabalho
do Espírito é mais complexo, mais difícil, como também o Espírito só
pode atuar por meio de um único aparelho mediúnico, ou seja, muitos
médiuns não podem participar simultaneamente para a produção do
mesmo fenômeno. Acontece mesmo, ao contrário, de a presença de
certas pessoas, antipáticas ao Espírito que atua, impedir radicalmente a
ação. É por esse motivo que, como vedes, é importante acrescentar que
os transportes necessitam sempre de uma maior concentração e, ao
mesmo tempo, uma maior difusão de certos fluidos, que somente podem
ser obtidos com médiuns mais bem dotados, aqueles, em uma palavra,
cujo aparelho eletromediúnico é o de melhores condições.
“Em geral, os fatos de transporte são e serão excessivamente raros.
Não tenho necessidade de vos demonstrar porque são e serão menos
freqüentes do que os outros fatos de tangibilidade; do que disse, vós
mesmos o deduzireis. Aliás, esses fenômenos são de uma natureza tal
que nem todos os médiuns são próprios nem todos os Espíritos podem
produzi-los. De fato, é preciso que entre o Espírito e o médium exista
certa afinidade, certa analogia, numa palavra, certa semelhança, que
permita à parte expansível do fluido perispirítico• do encarnado se misturar,
se unir, se combinar com a do Espírito que quer fazer um transporte.
Essa fusão deve ser tal que a força dela resultante torne-se, por assim
• Vê-se que, quando se trata de exprimir uma idéia nova para a qual falta o termo na língua, os
Espíritos sabem perfeitamente criar neologismos. Estas palavras: eletromediúnica, perispirítico, não
são nossas. Aqueles que nos criticaram por termos criado as palavras espírito, espiritismo, perispírito,
que não tinham suas análogas, poderão assim fazer a mesma coisa com os Espíritos (N.K.).

dizer, una; do mesmo modo que uma corrente elétrica, ao agir sobre o
eletrodo, produz um foco, uma claridade única. Direis: por que essa união,
por que essa fusão? É que, para a produção dos fenômenos de transporte,
é preciso que as propriedades essenciais do Espírito agente sejam
aumentadas com algumas do mediunizado; isso porque o fluido vital,
indispensável para a produção de todos os fenômenos mediúnicos, é
uma particularidade exclusiva do encarnado; por conseguinte, o Espírito
operador é obrigado a se impregnar dele. Só assim ele pode, por
meio de certas propriedades de vosso meio ambiente, desconhecidas
para vós, isolar, tornar invisíveis e fazer mover alguns objetos materiais
e os próprios encarnados.
“Não me é permitido, no momento, vos revelar as leis particulares
que regem os gases e os fluidos que vos rodeiam; mas, antes que os
anos sejam decorridos, antes que uma existência do homem se tenha
esgotado, a explicação das leis e dos fenômenos vos será revelada, e
vereis surgir e se desenvolver uma nova variedade de médiuns, que cairão
num estado cataléptico* particular desde que sejam mediunizados.
“Vede de quantas dificuldades a produção de transportes se encontra
cercada; disso podeis concluir muito logicamente que os fenômenos dessa
natureza são excessivamente raros, como já disse, e com maior razão
porque os Espíritos a eles se prestam muito pouco, porque isso necessita,
por parte deles, de um trabalho quase material, o que causa aborrecimento
e fadiga. De outro lado, ainda ocorre que, apesar de sua energia e
de sua vontade, freqüentemente o próprio estado do médium lhe opõe
uma barreira intransponível.
“É, portanto, evidente, e vosso raciocínio compreenderá, não duvido
disso, que os fatos tangíveis das pancadas, dos movimentos e da suspensão
são fenômenos simples, que se realizam pela concentração e
dilatação de certos fluidos e que podem ser provocados e obtidos pela
vontade e pelo trabalho dos médiuns que são aptos para isso, ajudados
pelos Espíritos amigos e benevolentes; ao passo que os fatos de transporte
são múltiplos, complexos, exigem uma condição de circunstâncias
especiais, podem se operar apenas por um único Espírito e um único
médium e necessitam, além da tangibilidade, de uma combinação toda
particular de recursos para isolar e tornar invisível o objeto, ou os objetos,
em ação no transporte.
* Cataléptico: em catalepsia, que é o estado caracterizado pela rigidez dos músculos e imobilidade;
pode ser provocado por afecções nervosas ou induzidas, como, por exemplo, pelo
hipnotismo (N.E.).

“Todos vós, espíritas, compreendeis minhas explicações e aprendeis
perfeitamente o que seja essa concentração de fluidos especiais para
a locomoção e a tatilidade da matéria inerte; acreditais nisso, como
acreditais nos fenômenos da eletricidade e do magnetismo, com os quais
os fatos mediúnicos são plenos de analogia e dos quais são, por assim
dizer, a confirmação e o desenvolvimento. Quanto aos incrédulos e aos
sábios, estes piores do que os incrédulos, não tenho que os convencer
e não me ocupo com eles; um dia serão convencidos pela força da
evidência; será preciso então que se inclinem diante do testemunho
unânime dos fatos espíritas, como foram forçados a fazer diante de
tantos outros fatos que de início rejeitaram.
“Para resumir: enquanto os fatos da tangibilidade são freqüentes, os de
transporte são muito raros, porque as condições para se realizarem são muito
difíceis; por conseguinte, nenhum médium pode dizer: a qualquer hora, em
qualquer momento, obterei um transporte; porque muitas vezes o próprio
Espírito se encontra impedido de fazê-lo. Devo acrescentar que esses fenômenos
são duplamente difíceis de se realizar em público, onde quase
sempre se encontram elementos energicamente refratários, que anulam os
esforços do Espírito e, com maior razão, a ação do médium. Tende, ao
contrário, a certeza de que eles se produzem quase sempre em particular,
espontaneamente, muitas vezes à revelia do médium e sem premeditação e
muito raramente quando estes estão prevenidos. Por isso deveis concluir
que há motivo legítimo de suspeita toda vez que um médium se gabar de
obtê-los à vontade ou dizer que comanda os Espíritos como servidores, o
que é simplesmente absurdo. Tende, ainda, como regra geral, que os
fenômenos espíritas não são fatos para serem dados em espetáculo e
para divertir os curiosos. Se alguns Espíritos se prestam a dar espetáculos,
só pode ser para os fenômenos simples, e não para aqueles que, como o
de transporte e outros semelhantes, exigem condições excepcionais.
“Lembrai-vos, espíritas, que é absurdo repelir sistematicamente todos
os fenômenos do além-túmulo e que também não é prudente aceitá-los
cegamente. Quando um fenômeno de tangibilidade, de aparição, de visibilidade
ou de transporte se manifesta espontaneamente e de forma instantânea,
aceitai-o; mas nunca será demais vos repetir para não aceitar nada
cegamente; que cada fato seja analisado num exame minucioso, aprofundado
e severo; porque, crede, o Espiritismo, tão rico em fenômenos
sublimes e grandiosos, não tem nada a ganhar com essas pequenas manifestações
que hábeis mágicos podem imitar.
“Sei muito bem o que ides dizer-me: é que esses fenômenos são
úteis para convencer os incrédulos; mas sabei que, se não tivésseis outros

meios de convicção, não teríeis hoje a centésima parte dos espíritas que
tendes. Falai ao coração, é por aí que fareis mais conversões sérias.
Se acreditais útil, para algumas pessoas, agir pelos fatos materiais,
apresentai-os pelo menos em circunstâncias que não possam dar lugar
a nenhuma falsa interpretação e, principalmente, não vos afasteis das
condições normais e desses fatos, porque os fatos apresentados em
condições que geram dúvidas fornecem argumentos aos incrédulos,
em vez de os convencer”.
Erasto
99 O fenômeno de transporte oferece uma particularidade bem caracterizada:
alguns médiuns só o conseguem no estado sonambúlico, o
que se explica facilmente. Há, no sonâmbulo, um desprendimento natural,
uma espécie de isolamento do Espírito e do perispírito, que deve facilitar a
combinação dos fluidos necessários. É o caso dos transportes de que
fomos testemunha. As perguntas seguintes foram dirigidas ao Espírito que
os havia produzido, mas suas respostas, por vezes, denotam falta de
conhecimento; nós as submetemos ao Espírito Erasto, muito mais esclarecido
do ponto de vista teórico, que as completou com observações muito
sensatas. Um é o artesão, e o outro, o sábio, e a própria comparação das
duas inteligências é um estudo instrutivo, que prova que não basta ser
Espírito para saber tudo.
1. Peço para nos dizer por que os transportes que fazeis se produzem
somente no sono magnético do médium?
“Isso se prende à natureza do médium; os fatos que produzo quando
ele está adormecido, poderia igualmente produzir com um outro médium
em estado de vigília.”
2. Por que fazeis esperar tanto tempo para o transporte dos objetos
e por que excitais a cobiça do médium, instigando seu desejo de obter o
objeto prometido?
“Esse tempo me é necessário, a fim de preparar os fluidos que servem
para o transporte; quanto à excitação, muitas vezes é somente para divertir
as pessoas presentes e o sonâmbulo.”
Nota de Erasto. O Espírito que respondeu não sabe muito; não percebe
o motivo dessa cobiça, que provoca instintivamente sem lhe compreender
o efeito. Ele pensa divertir quando na realidade provoca, sem se
dar conta disso, uma maior emissão de fluido; é a conseqüência da dificuldade
que o fenômeno apresenta; dificuldade sempre maior quando
não é espontâneo, especialmente com certos médiuns.

3. A produção do fenômeno prende-se à natureza especial do
médium e poderia se produzir por outros médiuns com maior facilidade
e rapidez?
“A produção prende-se à natureza do médium e pode se produzir
apenas com naturezas correspondentes; quanto à agilidade, o hábito que
adquirimos ao trabalhar muitas vezes com o mesmo médium é uma
grande vantagem.”
4. A presença de pessoas tem influência?
“Quando há incredulidade, oposição, podem nos atrapalhar muito;
gostamos bem mais de fazer nossas provas com os que acreditam e com
pessoas conhecedoras do Espiritismo; mas não posso dizer que a má
vontade nos paralisa completamente.”
5. Onde conseguistes as flores e as balas que trouxestes?
“As flores, apanhei nos jardins, onde me agradam.”
6. E as balas? Será que o confeiteiro notou sua falta?
“Eu as pego onde quero; o confeiteiro não notou nada, porque
coloquei outras no lugar.”
7. Mas os anéis têm valor. Onde os conseguistes? Isso não fez falta
àquele de quem os tomastes?
“Eu os tomei em lugares desconhecidos por todos, de modo que
ninguém sentirá sua falta.”
Nota de Erasto. Acredito que o fato foi explicado de modo insuficiente
em razão da capacidade do Espírito que respondeu. Sim; pode no caso
ter causado um mal real, mas o Espírito não quis passar por haver subtraído
alguma coisa. Um objeto só pode ser substituído por um idêntico,
da mesma forma, do mesmo valor; por conseguinte, se um Espírito tivesse
a faculdade de substituir por um objeto semelhante aquele que toma,
não teria razão para tomá-lo, e deveria apresentar aquele que serve
para substituir.
8. É possível trazer flores de um outro planeta?
“Não, isso é impossível para mim.”
8 a. (A Erasto) Outros Espíritos teriam esse poder?
“Não, isso é impossível, em razão da diferença do meio ambiente.”
9. Podeis trazer flores de um outro hemisfério? Dos trópicos, por
exemplo?
“A partir do momento que estejam na Terra, posso.”
10. Os objetos que trouxestes, poderíeis fazê-los desaparecer e
levá-los de volta?

“Do mesmo modo que os trouxe, posso levá-los à vontade.”
11. A produção do fenômeno de transporte causa alguma dificuldade,
um embaraço qualquer?
“Não causa nenhuma dificuldade quando temos permissão; poderia
causar-nos, e muito grande, se quiséssemos produzir efeitos sem termos
autorização para isso.”
Nota de Erasto. O Espírito não quer admitir que há dificuldade, embora
exista, uma vez que é forçado a fazer uma operação, por assim
dizer, material.
12. Quais são as dificuldades que encontrais?
“Nenhuma, além das más disposições fluídicas que nos podem ser
contrárias.”
13. Como trazeis o objeto; pegais o objeto com a mão?
“Não, nós o envolvemos em nós.”
Nota de Erasto. Ele não explica claramente o processo. Ele não envolve
o objeto com sua própria personalidade; mas, como seu fluido
pessoal é dilatável, penetrável e expansível, combina uma parte desse
fluido com uma parte do fluido animalizado do médium, e é nessa combinação
que esconde e transporta o objeto. Ele não se exprime com
exatidão ao dizer que o envolve nele.
14. Poderias trazer com a mesma facilidade um objeto de peso
considerável, de cinqüenta quilos, por exemplo?
“O peso não é nada para nós; trazemos flores por ser mais agradável
que um peso volumoso.”
Nota de Erasto. É correto. Ele pode trazer cem ou duzentos quilos
de objetos, porque o peso que existe para vós é nulo para ele; mas,
ainda aqui, não percebe bem o que se passa. A massa dos fluidos combinados
é proporcional à massa dos objetos; numa palavra, a força deve
estar em proporção com a resistência; por conseguinte, se o Espírito
traz apenas uma flor ou um objeto leve, muitas vezes é porque não encontra
no médium, ou nele mesmo, os elementos necessários que exigiriam
um esforço maior.
15. Algumas vezes, quando há desaparecimento de objetos cuja
causa é ignorada, é obra dos Espíritos?
“Isso acontece freqüentemente, mais vezes do que imaginais, e
poderia ser remediado pedindo ao Espírito para trazer de volta o objeto
desaparecido.”
Nota de Erasto. É verdade, mas geralmente aquilo que desaparece,
desaparecido fica, porque os objetos não se encontram mais; muitas

vezes, são levados para muito longe. Entretanto, como fazer objetos
desaparecer exige mais ou menos as mesmas condições fluídicas que os
transportes, pode acontecer apenas com a ajuda de médiuns dotados de
faculdades especiais; é por isso que, quando alguma coisa desaparece,
há maior probabilidade de que o fato se deva ao vosso descuido do que à
ação dos Espíritos.
16. Há efeitos que são considerados fenômenos naturais e que são
provocados pela ação de alguns Espíritos?
“Vossos dias estão repletos desses fatos que não percebeis nem
compreendeis, pois nem em sonho os imaginais; um pouco de reflexão
vos faria ver claramente.”
Nota de Erasto. Não deveis atribuir aos Espíritos o que é obra da
humanidade, mas ficai certos da sua constante influência oculta, que faz
nascer ao redor de vós mil circunstâncias, mil incidentes necessários para
a realização de vossos atos, da vossa existência.
17. Entre os objetos transportados, há os que podem ser fabricados
pelos Espíritos, ou seja, que são produzidos espontaneamente
pelas modificações que os Espíritos podem fazer no fluido ou elemento
universal?
“Não por mim, porque não tenho permissão; um Espírito elevado
pode fazê-lo.”
18. Como conseguistes introduzir objetos outro dia no quarto
fechado?
“Eu os fiz entrar comigo, envoltos, por assim dizer, na minha substância;
quanto a vos dizer mais, não é explicável.”
19. Como fizestes para tornar visível esses objetos que estavam
invisíveis um instante atrás?
“Tirei a matéria que os envolvia.”
Nota de Erasto. Não era matéria propriamente dita que os envolvia,
mas um fluido tirado metade no perispírito do médium, metade no do Espírito
que atua.
20. (A Erasto) Um objeto pode ser introduzido num lugar perfeitamente
fechado? Numa palavra, o Espírito pode espiritualizar um
objeto material, de modo que ele possa penetrar a matéria?
“Esta questão é complexa. Quanto aos objetos transportados, o
Espírito pode torná-los invisíveis, mas não penetrantes. Não pode romper
a agregação da matéria, o que seria a destruição do objeto. Tornado
invisível o objeto, ele pode transportá-lo quando quiser e mostrá-lo

apenas no momento conveniente de fazê-lo aparecer. Acontece de outra
forma quando nós os compomos; como introduzimos apenas elementos
da matéria e como esses elementos são essencialmente penetrantes,
como nós mesmos penetramos e atravessamos os corpos mais condensados,
com tanta facilidade quanto os raios solares atravessam as
vidraças, podemos perfeitamente dizer que introduzimos o objeto num
lugar, por mais fechado que esteja; mas é somente nesse caso.”
F Veja adiante, para a teoria da formação espontânea dos objetos, o
capítulo 8, “Laboratório do mundo invisível”.

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