A Caminho da Luz

segunda-feira, 27 de maio de 2013

CAPÍTULO V,,,, O reconhecimento


CAPÍTULO V
O reconhecimento
O segundo acontecimento que, a par do que acabamos de narrar, impôs-se marcando etapa decisiva em nossos destinos, teve início no honroso convite que recebemos da diretoria do Hospital para assistirmos a uma reunião acadêmica, de  estudos e experimentações psíquicas. Como sabemos, Jerônimo negara-se a anuir ao convite, e, por isso, na tarde daquele mesmo dia em que visitara a família, enquanto nos dirigíamos à sede do Departamento a fim de a ela assistir, ele, presa de desolação profunda, de supremo desconforto, solicitava a presença de um sacerdote, pois
confessava-se católico-romano e seus sentimentos impeliam-no à necessidade de assim se aconselhar e reconfortar-se, a fim de revigorar a fé no Poder Divino e serenar o coração que, como nunca, sentia despedaçado. Aquiesceu o magnânimo orientador do
Departamento Hospitalar, compreendendo que no espírito do ex-mercador português soava o momento do dealbar para o progresso, e que, dado os princípios religiosos que esposava, aos quais se apegava intransigentemente, a seu próprio benefício seria
prudente que a palavra que mais respeito e confiança lhe inspirasse fosse a mesma que o preparasse para a adaptação à vida espiritual e suas transformações.
Na Legião dos Servos de Maria e até mesmo nos serviços da Colônia que nos abrigava, existiam Espíritos eminentes que, em existências pregressas, haviam envergado a alva sacerdotal, honrando-a de ações enobrecedoras inspiradas nas fontes
fúlgidas dos sacrossantos exemplos do Divino Pegureiro. Dentre vários que colaboravam nos serviços educativos do Instituto a que nos temos reportado, destacava-se o padre
Miguel de Santarém, servo de Maria, discípulo respeitoso e humilde das Doutrinas consagradas no alto do Calvário. Era o diretor do Isolamento, instituição que, como sabemos, anexa ao
Hospital Maria de Nazaré, exercia métodos educativos severos, mantendo inalteráveis disciplinas por hospedar em seus domínios apenas individualidades recalcitrantes, prejudicadas por excessivos prejuízos terrenos ou endurecidas nos preconceitos
insidiosos e nas mágoas muito ardentes do coração. Portador de inexcedível paciência, exemplo respeitável de humildade, cordura e conformidade, aureolado por subidos sentimentos de amor aos infelizes e transviados e tocado de paternal compaixão por
quantos Espíritos de suicidas soubesse existir, era o conselheiro que convinha, o mentor adequado aos internos do Isolamento. Além de sacerdote era também filósofo profundo, psicólogo e cientista. Havia muito, em existência pregressa cursara Doutrinas Secretas na
Índia, conquanto depois tivesse outras migrações terrestres,  provando sempre as melhores disposições para o desempenho do apostolado cristão. Entre estas, a última fora passada em Portugal, onde recebera o nome acima citado, continuando a usá-lo no
além-túmulo, bem assim a qualidade de religioso sincero e probo.

Irmão Teócrito entregou o penitente Jerônimo a esse obreiro devotado, certo da sua capacidade para resolver problemas de tão espinhosa natureza. E foi assim que, naquela mesma tarde, quando as linhas do crepúsculo acentuavam de névoas pardacentas os jardins nevados dos burgos hospitalares, Jerônimo de Araújo Silveira se transferiu para o Isolamento, passando aos cuidados protetores de um sacerdote, tal como desejara. Desse dia em diante perdemos de vista o pobre comparsa de delito. Um ano mais tarde, no entanto, tivemos a satisfação de reencontrá-lo. Em capítulos
posteriores voltaremos a tratar desse muito estremecido companheiro de prélios reabilitadores.
No dia imediato ao da nossa internação no magno Instituto do Astral, passamos a ser diariamente levados aos gabinetes clínico-psíquicos onde era ministrado tratamento magnético muito eficiente, pois dentro de alguns dias já nos podíamos
reconhecer mais confortados e raciocinando com maior clareza, gradativamente fortalecidos como se tônicos revivificadores ingeríssemos através das aplicações a que
nos submetiam. Para tais gabinetes éramos encaminhados todas as manhãs, por nossos amáveis enfermeiros. Entrávamos, cada grupo de dez, para uma antecâmara rodeada de pequenos bancos estofados, onde esperaríamos durante curto espaço de tempo.
Notávamos que existiam várias dependências como essa, todas situadas em extensa galeria onde colunas sugestivas se alinhavam em perspectiva majestosa. Transcendia nesses recintos a estilização hindu, convidando à meditação e à gravidade.
Penetrávamos então o ambiente dos trabalhos.
Impregnado de fosforescências azuladas, então ainda  imperceptíveis à nossa capacidade espiritual, as dimensões desses gabinetes não eram extensas. Pequenos coxins orientais em tessitura semelhante à pelúcia branca, e dispostos em semicírculo,
aguardavam-nos, indicando que deveríamos sentar. Seis varões hindus esperavam os pacientes, concentrados no caridoso mandato.
A princípio tais cerimônias, sugestivas e rodeadas de um quase mistério, muito nos intrigaram. Não conhecêremos indianos psiquistas em Portugal. Tampouco fôramos aplicados a estudos e exames de natureza transcendental. Eis, todavia, que nos
surpreendíamos agora sob a dependência e proteção de uma falange de iniciados orientais, a cuja existência real não déramos jamais senão relativo crédito, por se nos afigurar excessivamente mística e lendária. O ambiente que agora contemplávamos, porém, impregnado de unção religiosa, a qual atuava poderosamente sobre nossas faculdades, lenificando-as ao impulso de religioso fervor, imprimia tão profundas e atraentes impressões em nossos Espíritos que, atordoados no seio do seu ineditismo,
julgávamos sonhar. Quando, pelas primeiras vezes, penetramos esses gabinetes saturados de ignotas virtudes, fomos mesmo acometidos de invencível sonolência, que nos provocou um como estado de semi-inconsciência.
Os operantes indicavam-nos o semicírculo formado pelos alvos coxins. Cinco
desses médicos espirituais postavam-se atrás, distanciados uns dos outros por espaço
simétrico, uniforme, até atingirem um em cada extremidade do semicírculo. O sexto
colocava-se à frente, como fechando o círculo dentro do qual ficávamos nós outros
prisioneiros - os braços cruzados à altura da cinta, a fronte atenta e carregada, como expedindo forças mentais dominadoras para caridosa vistoria e inspeção nas fráguas do nosso atormentado ser.
Em surdina vibravam ao nosso redor sussurros harmoniosos de prece. Mas não saberíamos distinguir se oravam, invocando as excelsas virtudes do Médico Celeste para nosso refrigério ou se nos advertiam e doutrinavam. O que não nos deixavam
dúvidas, por se impor à evidência, era que atravessavam nosso pensamento com os poderes mentais que possuíam, devassavam nosso caráter, examinando nossa
personalidade moral a fim de deliberarem sobre a corrigenda mais acertada – qual o cirurgião investigando as vísceras do cliente para localizar a enfermidade e combatê-la.
Tal certeza infundia-nos múltiplas impressões, a despeito do singular estado em que nos  encontrávamos. A vergonha por havermos pretendido burlar as Leis Superiores da Criação, afrontando-as com o ato brutal de que usáramos; o remorso pelo descaso à Majestade do Onipotente; a deprimente amargura de havermos dedicado nossas melhores energias aos gozos inferiores da matéria, atendendo de preferência aos imperativos mundanos, sem jamais observarmos as urgentes requisições da alma,
deixando de nos conceder momentos para a iluminação interior - eram pungentes estiletes que nos penetravam o âmago durante a sublime vistoria a que nos submetíamos, inspirando-nos mágoas e desgostos que eram o prelúdio de real e fecundo arrependimento. Nossos menores atos pretéritos voltavam dos pélagos trevosos em que jaziam para se aviventarem à nossa presença, nitidamente impressos em nós mesmos! 
Nossa vida, que o suicídio interrompera, desde a infância era assim reproduzida aos nossos olhos aterrorizados e surpreendidos, sem que fosse possível determos a torrente das cenas revivescidas para exame! Quiséramos poder fugir a fim de nos furtarmos à
vergonha de pôr a descoberto tanta infâmia, julgada oculta para sempre até de nós mesmos, pois, com efeito, era dramático, excessivamente penoso desatar volumes tão
variados de maldade e torpezas diante testemunhas tão nobres e respeitáveis!  Mas era em vão que o desejaríamos! Sentíamos que nos vinculávamos àqueles coxins pela ação de vontades que se haviam apossado de nosso ser! Ao fim de alguns minutos, porém,
suspendiam a operação. Esvaía-se o torpor. As lúgubres sombras do passado eram expungidas de nossa visão, recolhidas que eram ao pego revolto da subconsciência, aliviando a crueza das recordações. Então a fronte carregada do operador serenava qual arco-íris hialino. Um ar de amorosa compaixão derramava-se por suas atitudes, e, aproximando-se, espalmava sobre nossas cabeças as mãos níveas, enquanto os cinco demais assistentes o acompanhavam nos gestos e nas expressões. Compassivos, os
fluidos beneficentes que a seguir nos faziam assimilar - terapêutica divina - iriam, gradualmente, auxiliar-nos a corrigir as impressões de fome e de sede; a postergar a insana sensação de frio intenso, que num suicida resulta da gelidez cadavérica que ao
perispírito se comunica; a atenuar os apetites e arrastamentos inconfessáveis, tais os vícios sexuais, o álcool, o fumo, cujas repercussões e efeitos produziam desequilíbrios
chocantes em nossos sentidos espirituais, interceptando possibilidades de progresso na adaptação e impondo-nos humilhações singulares, por assinalar a ínfima categoria a que
pertencíamos, na respeitável sociedade dos Espíritos que nos rodeavam. 
Entre os esforços que nos sugeriam empreender, destacava-se o exercício da educação mental no tocante à necessidade de varrer das nossas impressões o dramático e apavorante hábito, tornado trejeito nervoso e alucinado, de nos socorrermos a nós próprios, na ânsia contumaz de nos aliviarmos do sofrimento físico que o gênero da morte provocara.
Como ficou explicado, havia aqueles que se preocupavam em estancar hemorragias, havia os enforcados a se debaterem de quando em quando, porfiando no esforço ilusório de se desfazerem dos farrapos de cordas ou trapos que lhes pendiam do pescoço; os afogados, bracejando contra as correntes que os haviam arrastado para o fundo; os "retalhados", hediondos quais fantasmas fabulosos, a se curvarem em intermitências macabras, na ilusão de recolherem os fragmentos dispersos, ensangüentados, do corpo carnal que lá ficara algures, estraçalhado sob as rodas do
veículo à frente do qual se arrojaram em audaciosa aventura, supondo furtarem-se ao  sagrado compromisso da existência! Tais gestos, repetimos, à força de se reproduzirem desde o instante em que se efetivara o suicídio, e quando o instinto de conservação
imprimiu na mente o impulso primitivo para a tentativa de salvamento, haviam degenerado em vício nervoso mental, sucedendo-se através das vibrações naturais ao princípio vital,
repercutidas na mente e transmitidas à organização físico-espiritual. Urgia que a Caridade, sempre pronta a espalmar asas protetoras sobre os que padecem, corrigindo, amenizando, dulcificando males e sofrimentos, impusesse sua benevolência à anomalia
de tantos desgraçados perdidos nos pantanais de tredas alucinações. Para isso, enquanto apunham as mãos sobre nossas cabeças, envolvendo-as em ondas magnéticas apropriadas à caridosa finalidade, os irmãos operadores murmuravam, enquanto
sugestões magnânimas reboavam pelos labirintos do nosso "eu" com repercussões precisas e fortes, quais clarinadas despertando-nos para uma alvorada de esperanças:
"- Lembrai-vos de que já não sois homens!... Ao afastar-vos daqui não deveis pensar a não ser na vossa qualidade de alma imortal, a quem não mais devem afetar os distúrbios do envoltório físico-carnal!... Sois Espíritos! E será como Espíritos que devereis
prosseguir a marcha progressiva nos planos espirituais!"
O convite para a reunião presidida por Teócrito deixara-nos satisfeitos.
Éramos sensíveis às demonstrações de afeto e consideração.
Um frêmito de horror percorreu minhas sensibilidades ao reconhecer na vasta assembléia figuras hirsutas, desgrenhadas e apavorantes do Vale Sinistro, conquanto confessasse a mim mesmo encontrá-las algo serenadas, tal qual acontecia a mim e meus
companheiros de apartamento. Será útil esclarecer que os componentes de nossa falange poderiam ser qualificados como "arrependidos", e, por isso mesmo, dóceis às orientações
fornecidas pelos insignes diretores do asilo que nos abrigava.
Um ou outro mantinha-se menos homogêneo, oferecendo problema mais sério a resolver. Todavia, era certo que a maioria se conservava fortemente animalizada, fosse conseqüência da inferioridade do caráter próprio ou resultado da violência do choque ocasionado pela bruteza do suicídio escolhido. Dentre estes destacavam-se os "retalhados", afogados, despenhados de grandes alturas, etc., etc. Atordoados, como que atoleimados, não era com facilidade que conseguiam suficiente dose de raciocínio para
compreender as imposições da vida espiritual. Ocupavam eles o asilo do Manicômio por inúmeras conveniências, entre outras as que arrastavam a necessidade de encobri-los à
nossa visão, pois repugnava-nos a presença deles, excitando impressões desarmoniosas, prejudiciais à serenidade de que carecíamos para o restabelecimento.
Não obstante, foram igualmente encaminhados ao local da reunião; e, quando, acompanhados por nossos dedicados amigos Joel e Roberto, entramos no vasto salão, ali os distinguimos entre muitos outros enfermos que, como nós, haviam sido requisitados.
Observando os antigos companheiros do vale de trevas, vi que se
esforçavam, como nós mesmos vínhamos tentando desde alguns dias, para corrigir os feios cacoetes já mencionados, pois, se o hábito impelia à repetição dos mesmos, lembravam-se a tempo e paralisavam a meio caminho o impulso mental que os
ocasionava, levando em consideração a sugestão oferecida pelos amoráveis assistentes. 
Então, riam-se de si mesmos em comovedores desabafos, nervosamente, pensando em que já não deveriam sentir os efeitos físicos do ato macabro. Riam uns para os outros como a se felicitarem mutuamente pelo alívio recebido através da informação de que já não deveriam sentir aquelas impressões... e como se o riso sacudisse vibrações tormentosas. Riam para se desacostumarem daquele choro malévolo que acordava sensações precipitosas!... No Hospital eram proibidas as rábicas convulsões do Vale Sinistro... e chorar, nas desesperadoras aflições com que para trás havíamos chorado, era destampar a comporta das torrentes das agonias que a caridade sacrossanta de Maria minorava através do desvelo dos seus servos... 
E eu, observando-os, ria também, sem fugir à estranha similitude da
falange... Sentamo-nos a um sinal de Roberto. Nada apresentava a sala que despertasse particular atenção. Contudo, se insuficiente não fora o grau de visão de que dispúnhamos para alcançar as sublimes manifestações de caridade que em nosso derredor pululavam, teríamos notado que delicadas vaporizações fluídicas, como orvalho refrigerante e ameno, deliam-se pelo recinto, impregnando-o de dúlcidas vibrações.

A um ângulo do tablado que do fundo do salão defrontava a assembléia, notava-se um aparelho muito semelhante aos existentes nas enfermarias, conquanto apresentasse certas particularidades. Dois jovens iniciados puseram-se a examiná-lo ao tempo que Irmão Teócrito tomava lugar na cátedra ladeado por outros dois companheiros, aos quais apresentou à assembléia como instrutores que nos deveriam orientar, e a quem deveríamos o máximo respeito. Satisfeitos, reconhecemos nestes os dois jovens hindus
que nos receberam quando da nossa entrada para o Hospital: Romeu e Alceste.
Silêncio religioso estendeu ondas harmoniosas de recolhimento pelo vasto salão, onde cerca de duzentos Espíritos, envolvidos nas mais embaraçosas redes da desgraça, acorriam arrastando as bagagens gravosas das próprias fraquezas, das amarguras incontáveis que enoitavam suas vidas. 
Desciam sobre as latitudes do nosso merencório cantão as nuanças
tristonhas do crepúsculo, que ali muitas vezes arrancava lágrimas de nossos corações, tal a pesada melancolia que infundia em derredor.
Seis melodiosas pancadas de um relógio que não víamos, ecoaram
docemente na amplidão da sala, como anunciando o início da reunião. E cântico harmonioso de prece, envolvente, emocional, elevou-se em surdina como se até nossa audição chegasse através de ondas invisíveis do éter, provindo de local distante, que não
poderíamos avaliar, enquanto se desenhava em uma tela junto à cátedra de Irmão Teócrito o sugestivo quadro da aparição de Gabriel à Virgem de Nazaré, participando a
descida do Redentor às ingratas praias do Planeta.
Era o instante amorável do Ângelus...
Levantando-se, o diretor fez breve e emocionante saudação a Maria, apresentando-nos reunidos pela primeira vez para uma invocação. Doce refrigério estendeu-se sobre nossos corações. As lágrimas irromperam e emoções gratas ergueram-se dos túmulos íntimos em que jaziam, acordadas pelas lembranças do lar
paterno, da infância longínqua, de nossas mães, a quem nenhum de nós certamente amara devidamente, a ensinar-nos ao pé do leito o balbucio sublime da primeira oração!...
Como tudo isso estava distante, quase apagado sob as voragens das
paixões e das desgraças daí consequentes!... E  eis  que,  inesperadamente, tais lembranças ressuscitavam, como fantasma que vinha para se impor com o sabor de ósculos maternos em nossas frontes abatidas! 
Fundas saudades dilataram nossos pensamentos, predispondo-os à ternura do momento grandioso que nos ofereciam como oportunidade abençoada...
Seria longo enumerar minúcias das belas quanto proveitosas sequências dos ensinamentos e experiências que passávamos a receber desde essa tarde memorável, os quais integravam o melindroso tratamento a ser ministrado, espécie de doutrinação -
terapêutica moral -, com ação decisiva sobre reações necessárias à reeducação de que tínhamos urgência. Diremos apenas que nessa primeira aula fomos submetidos a operações tão melindrosas, levadas a efeito em o nosso senso íntimo, que a incerteza
quanto ao estado espiritual, para o qual resvaláramos, foi hábil e caridosamente removida de nossa compreensão, deixando que a luz da verdade, sem constrangimentos, se impusesse à evidência. Ficamos categoricamente convencidos da nossa qualidade de
Espíritos separados do envoltório corporal terreno, o que até então, para a maioria, era] motivo de confusões acerbas, de assombros incompreensíveis! E tudo se desenrolou singelamente, sendo nós próprios os compêndios vivos usados para as magníficas
instruções - as operações irrefutáveis! Vejamos como os eruditos instrutores levavam a cabo o sacrossanto mandato:
Belarmino de Queiroz e Sousa que, como sabemos, era individualidade portadora de vasta cultura intelectual, além de ser adepto das doutrinas filosóficas de Augusto Comte, foi convidado, dentre outros que depois receberam o privilégio, a subir ao
estrado onde se realizaria a formosa experiência instrutiva. Devemos observar que Irmão  Teócrito tomava parte em tão delicada cerimônia como presidente de honra, lente insigne
dos lentes em ação.
Colocaram o ex-professor de línguas à frente do aparelho luminoso que despertara nossa atenção à chegada, ao qual ligaram-no por um diadema preso a tênues fios que se diriam cíntilas imponderáveis de luz. Enquanto Alceste o ligava, Romeu informava-o, em tom assaz grave, de que conviria voltasse a alguns anos passados de
sua vida, coordenando os pensamentos a rigor, na seqüência das recordações, e partindo do momento exato em que a resolução trágica se apossara das suas faculdades. Para que tal conseguisse, auxiliava-o revigorando sua mente com emanações generosas que
de suas próprias forças extraía.
Belarmino obedeceu, passivo e dócil a uma autoridade para que não possuía forças capazes de desagradar. E, recordando, reviveu os sofrimentos oriundos da tuberculose que o atingira, as lutas sustentadas consigo mesmo ante a idéia do suicídio, a
tristeza inconsolável, a veraz agonia que se apoderara de suas faculdades em litígio entre o desejo de viver, o medo da moléstia impiedosa que avassalava sua organização física, supliciando-o sem tréguas, e a urgência do suicídio para, no seu doentio modo de pensar, mais suavemente atingir a finalidade a que a doença o arrastaria sob atrozes sofrimentos.
A proporção que se aproximava o desfecho, porém, o filósofo comtista esquivava-se, recalcitrando à ordem recebida. Suores gelados como lhe banhavam a fronte ampla de pensador, onde o terror mais e mais se acentuava, estampando expressões de desespero a cada novo arranco das dolorosas reminiscências...
Entretanto, o que mais surpreendia era que, na tela fosforescente à qual se ligava, iam-se reproduzindo as cenas evocadas pelo paciente, fato empolgante que a ele próprio, como à assistência, facultava a possibilidade de ver, de presenciar todo o amaro
drama que precedeu o seu ato desesperador e as minúcias emocionantes e lamentáveis do execrável momento! A este seguiam-se as tormentosas situações de além-túmulo que
lhe foram consequentes, o drama abominável que o surpreendera, as confusas sensações que durante tanto tempo o mantiveram enlouquecido.
Enquanto o primeiro operador auxiliava o paciente a extrair as recordações próprias, o segundo comentava-as explicando os acontecimentos em torno do suicídio, antes e depois de consumado, qual emérito professor a elucidar ignaros em matéria  indispensável. Fazia-o mostrando os fenômenos decorrentes do desprendimento do ser inteligente do seu casulo de limo corporal, violentado pelo desastroso gesto contra si mesmo praticado. Assistimos assim a surpreendente, inglória odisséia vivida pelo Espírito
expulso da existência carnal sob sua própria responsabilidade, a esbater-se como louco à revelia da Lei que violou, presa dos tentáculos monstruosos de sequências inevitáveis, criadas pela infração a um acúmulo determinante e harmonioso de leis naturais, sábias, invariáveis, eternas!
Esses extraordinários panoramas vieram anular as convicções materialistas do filósofo comtista, já bastante estremecidas, permitindo-lhe positivar em si mesmo, com minucioso exame, a separação do seu próprio astral do envoltório de lama corporal de
que se revestia, sobrevivendo lucidamente apesar do suicídio e da decomposição cadavérica.
Por esse eficiente quão singelo método, a grande maioria da assistência pôde compreender a razão da ardência indescritível dos sofrimentos pelos quais vinha passando, das sensações físicas atormentadoras que perduravam ainda, as múltiplas perturbações que impediam a serenidade ou o olvido que erroneamente esperara
encontrar no túmulo.
Entre outras observações levadas a efeito, merece especial  comentário, pela estranheza de que se revestia, o fato de todos trazermos pendentes da configuração astral, quando ainda no Vale, fragmentos reluzentes, como se de uma corda ou um cabo
elétrico arrebentados se desprendessem estilhas dos fios tenuíssimos que os estruturassem, sem que a energia se houvesse extinguido, ao passo que explicavam os  mentores residir em tão curioso fenômeno toda a extensão da nossa acrimoniosa desgraça, porquanto esse cordão, pela morte natural, será brandamente desatado,
desligado das afinidades que mantém com o corpo carnal, através de caridosos cuidados de obreiros da Vinha do Senhor incumbidos da sacrossanta missão da assistência aos moribundos, enquanto que, pelo suicídio, é ele violentamente despedaçado, e, o que é pior, quando as fontes vitais, cheias de seiva para o decurso de uma existência às vezes longa, ainda mais o solidificavam, mantendo a atração necessária ao equilíbrio da mesma.
Ora, diziam-nos que, a fim de nos desfazermos do profundo desequilíbrio que semelhante conseqüência produzia em nossa organização fluídica (não se falando aquida desorganização moral, porventura ainda mais excruciante) ser-nos-ia indispensável voltar
a animar outro corpo carnal, visto que, enquanto não o fizéssemos, seriamos criaturas desarmonizadas com as leis que regem o Universo, a quem indefiníveis incômodos privariam de quaisquer realizações verdadeiramente concordes com o progresso.
No entanto, Belarmino debatia-se, presa de choro e convulsões
espasmódicas, revivendo as danosas aflições que o acometeram, enquanto a assistência se fazia com ele solidária, deduzindo daquela pavorosa demonstração ocorrências que a si diziam respeito.
Comentava, porém, o instrutor:
"- Podereis observar, meus amigos, que, justamente porque o homem desejou furtar-se à existência planetária pelas enganosas escarpas do suicídio, não se eximiu, absolutamente, de nenhuma das amargurosas situações que o desgostavam, antes acumulou desditas novas, quiçá mais ardentes e pungitivas, à bagagem dos males que dantes o afetavam, os quais seriam certamente suportáveis se educação moral sólida, estribada no cumprimento do Dever, lhe inspirasse as ações diárias. Essa
educação orientadora, conselheira, salvadora, portanto, de desastres como o que
lamentamos neste momento, o homem somente não na tem adquirido no próprio cenário terreno, onde é chamado a realizações imperiosas, porque não a quer adquirir, visto sobejarem em torno de seus passos, no orbe de sua residência, instruções e ensinamentos capazes de conduzi-lo às alvoradas redentoras do Bem e do Dever!
O incauto viageiro terreno, porém, há preferido sempre desperdiçar
oportunidades benfazejas proporcionadas pela Divina Providência com vistas ao seu engrandecimento moral e espiritual, para mais livremente englobar-se às sombras insidiosas das paixões mantenedoras dos vícios e desatinos que o impelem ao
irremediável tombo para o abismo.
No torvelinho das atrações mundanas, como no embater das provações que o excruciam; ao choque das vicissitudes diárias, inalienáveis ao meio em que realiza as
experimentações para o progresso, como na fruição das doçuras fornecidas pelo lar próspero e feliz - jamais ao homem ocorre quaisquer esforços empreender para a iluminação interior de si mesmo, a reeducação moral, mental e espiritual cuja necessidade
inapelavelmente se impõe no porvir que seu Espírito será chamado a conquistar pela ordem natural das Leis da Criação. Ele nem mesmo compreende que possui uma alma dotada dos germens divinos para a aquisição de excelentes prendas morais e qualidades
espirituais eternas, germens cujo desenvolvimento lhe cumpre operar e aprimorar através do glorioso trabalho de ascensão para Deus, para a Vida Imortal! Ignora ser justamente
no cultivo desses dons que reside o segredo da obtenção perfeita dos ideais mais caros que acalente, dos sonhos venerados que suspira concretizar; e mais, que, desprezando o ser divino que em si palpita, o qual é ele próprio, é o seu Espírito imortal, descendente
que é do Todo-Poderoso, dá-se voluntariamente à condenação pela Dor, resvalando pelos ominosos desvios da animalidade e quiçá do crime, ais quais necessariamente arrastarão a lógica das reparações, das renovações e experiências dolorosas nos testemunhos da reencarnação, quando mais suave se tornaria a jornada ascensional se  meditasse prudentemente, procurando investigar a própria origem e o futuro que lhe compete alcançar! Foi essa fatal ignorância que vos impeliu à desoladora situação em que hoje
vos afligis, meus caros irmãos! mas a qual nosso fraterno interesse, inspirado no exemplo do Divino Cordeiro, tentará remediar, não obstante só o tempo e os vossos próprios esforços, em sentidos opostos aos verificados até agora, serem indispensáveis como a
mais acertada tentativa em prol da recuperação que se impõe.
Como vedes, destruístes o corpo material, próprio da condição do Espírito  reencarnado na Terra, único que teimáveis reconhecer como absoluto padrão de vida. No  entanto, nem desaparecestes, como desejáveis, nem vos libertastes dos dissabores que
vos desesperavam. Viveis! Viveis ainda! Vivereis sempre! Vivereis por toda a consumação dos evos uma Vida que é imortal, que jamais, jamais se extinguirá dentro do vosso ser,  jamais deixando de projetar sobre a vossa consciência o impulso irresistível para a frente, para o mais além!. . .
É que sois a candeia de valor inestimável, fecundada pelo Foco Eterno que entorna da Sua Imortalidade por sobre toda a Criação que de Si irradiou, concedendo-lhe as bênçãos do progresso através dos evos, até atingir a plenitude da glória na comunhão
suprema do Seu Seio!
O que contemplais em vós mesmos, neste momento inesquecível e solene para vós, a refletir-se da vossa mente impressionada com os acontecimentos sensacionais que vos dizem respeito, decerto marcará etapas decisivas na trajetória que insofismavelmente desenvolvereis através do porvir. De agora em diante desejareis,
certamente, aprender algo em torno de vós mesmos... pois a verdade é que tudo desconheceis em torno do Ser, da Vida, da Dor e do Destino... mau grado os pergaminhos que ostentáveis com galhardia na Terra, mau grado as distinções e honrarias que tanto assentavam às vossas insulsas vaidades de homens divorciados do
ideal divino!..."
Reanimado pelos sábios distribuidores de energias magnéticas, Belarmino
voltou ao lugar que ocupava na assistência, enquanto outro paciente subia ao estrado
para novo exame demonstrativo. Voltava, porém, refletindo no semblante, antes abatido e carregado, uma como aleluia de esperanças! Ao sentar-se ao nosso lado, apertou-nos
furtivamente as mãos, exclamando:
"-Sim, meus amigos! Eu sou imortal! Acabo de positivar, sem sombras de
dúvida, em mim próprio, a existência concreta do meu "eu" imaterial, do ser espiritual que
neguei! Nada sei! Nada sei! Cumpre-me recomeçar os estudos!... Mas só aquela certeza
constitui para mim uma grande conquista de felicidade: - Eu sou imortal!... Eu sou
imortal!..."
Nos dias subseqüentes, durante as mesmas reuniões fomos levados a
examinar, com minúcias penosíssimas, os atos errôneos praticados no transcurso da
existência que havíamos destruído, observando o emaranhado de prejuízos morais,
mentais, educativos, sociais, materiais, que nos arrastaram ao detestável resultado a que
chegáramos. Assistidos pelos mentores pacientes retroagimos com o pensamento até à
infância e voltamos sobre os próprios passos, e, muitas vezes banhados em copioso
pranto, e invariavelmente desapontados, confessamo-nos os próprios autores dos desenganos que nos abateram nos bulcões do suicídio. Como agíramos mal no desempenho das tarefas diárias que a sociedade impunha! Como nos portáramos selvagemente em todas as horas, não obstante o verniz de civilização de que nos
jactávamos!.. .
Integrando a repesa falange, muitos haviam patenteando o fruto nefasto da escassa educação moral obtida nos lares destituídos da verdadeira iluminação cristã!
Jovens que, apenas saídos da adolescência, haviam tombado inermes ao primeiro choque com as contrariedades comuns à existência terrena, preferindo a aventura do suicídio, completamente faltos de ideal, de senso, de respeito a si mesmo, à Família e a  Deus! As desgraças por eles encontradas, além do suicídio, eram como o terrível atestado, o pavoroso libelo contra a irresponsabilidade dos pais ou responsáveis por eles
à face de Deus, a prova infamante da desatenção com que se portaram deixando de diligenciar sólida edificação moral em torno deles! Para tais casos, soubemos que severas contas deveriam prestar futuramente às Soberanas Leis os descautelosos pais que
permitiram asas às perniciosas inclinações dos filhos, sem tentar corrigi-las, favorecendo  assim ocasiões aos desequilíbrios desesperados de que o suicídio foi o lógico resultado!
Depois de tão complexos exames voltávamos a novas reuniões a fim de  aprendermos como de preferência devíamos ter agido para evitar o suicídio, quais
deveriam ter sido os atos diários, os empreendimentos, se não nos afastáramos do raciocínio inspirado no Dever, na fé em nós mesmos e no paternal amor de Deus! Em  vários casos, a solução para os problemas, que abriram as portas para o abismo,
encontrava-se a dois passos de distância do sofredor; surgiria o socorro enviado pela
Providência ao seu filho bem-amado, dentro de alguns dias, de poucos meses, bastando somente que este se encorajasse para diminuta espera, em glorioso testemunho de vontade, paciência e coragem moral, necessário ao seu progresso espiritual! Então
concluímos com decepcionante surpresa que fácil teria sido a vitória e até a felicidade, se buscáramos no Amor Divino a inspiração para os ditames da existência que desgraçadamente destruíramos! Essas instruções proporcionaram sensíveis benefícios a todos nós.
Repetiam-se bissemanalmente, havendo os dignos mentores a elas adicionado proveitosas palestras elucidativas. Melhoras prometedoras experimentávamos em nosso aspecto geral, enquanto suaves esperanças segredavam edificante consolo aos nossos
corações doloridos. A presença dos instrutores passou a constituir motivo de imensa satisfação para nossas almas convalescentes de tão ásperos desesperos. As palavras que nos dirigiam durante as lições eram qual refrigerante orvalho sobre a comburência de
nossas aflições; e suas palestras e instruções, o trato carinhoso e compassivo dos gabinetes, outras tantas razões para nos considerarmos esperançosos e confiantes. 
Porém, jamais os víamos a não ser naqueles momentos oportunos; e, quando em  presença deles, tanto nos intimidávamos, apesar da ternura que nos dispensavam, que não nos animávamos a pronunciar sequer um monossílabo sem primeiramente sermos
interpelados. Em pouco mais de dois meses estávamos habilitados a amplas induções, cotejando as lições recebidas e sobre elas maturando no recolhimento de nossos apartamentos.
Das análises levadas a efeito resultava a certeza, cada vez mais esclarecida, da gravidade da situação em que nos encontrávamos. O fato de estarmos aliviados dos exuberantes incômodos passados não implicava diminuição de culpabilidade. Ao contrário, a  possibilidade de raciocinar minudenciava a extensão do delito, o que muito nos decepcionava e entristecia. E, das instruções e experiências caridosamente ministradas ao nosso entendimento a título de base e incentivo para uma urgente autoreforma
de que tínhamos imperiosa necessidade, visando ao inadiável progresso a ser realizado, destacaremos este esquema que enfeixaremos nestas singelas anotações de além-túmulo:
1 - É o homem um composto de tríplice natureza: - humana, astral e espiritual, isto é - matéria, fluido e essência. Esse composto poderá também ser traduzido em expressão mais concreta e popular, assimilável ao primeiro grau de observação: - corpo carnal,
corpo fluídico ou perispírito, e alma ou Espírito, sendo que do último é que se irradiam Vida, Inteligência, Sentimento, etc., etc. - centelha onde se verifica a essência divina e que no homem assinala a hereditariedade celeste! Desses três corpos, o primeiro é temporário, obedecendo apenas à necessidade das circunstâncias inalienáveis que contornam o seu possuidor, fadado à desorganização total por sua própria natureza  putrescível, oriunda do limo primitivo: - é o de carne. O segundo é imortal e tende a
progredir, desenvolver-se, aperfeiçoar-se através dos trabalhos incessantes nas lutas dos
milênios: - é o fluídico; ao passo que o Espírito, eterno como a Origem da qual provém,
luz imperecível que tende a rebrilhar sempre mais aformoseada até retratar em grau relativo o Fulgor Supremo que lhe forneceu a Vida, para glória do seu mesmo Criador - é a essência divina, imagem e semelhança - (que o será um dia) - do Todo-Poderoso Deus!
2 - Vivendo na Terra, esse ser inteligente, que deverá evolver pela Eternidade, denomina-se Homem! sendo, portanto, o homem um Espírito encarcerado num corpo de carne ou encarnado.
3 - Um Espírito volta várias vezes a tomar novo corpo carnal sobre a Terra, nasce
várias vezes a fim de tornar a conviver nas sociedades terrenas, como Homem, exatamente como este é levado a trocar de roupa muitas vezes...
4 - O suicida é um Espírito criminoso, falido nos compromissos que tinha para com
as Leis sábias, justas e imutáveis estabelecidas pelo Criador, e que se vê obrigado a
repetir a experiência na Terra, tomando corpo novo, uma vez que destruiu aquele que a
Lei lhe confiara para instrumento de auxílio na conquista do próprio aperfeiçoamento -
depósito sagrado que ele antes deveria estimar e respeitar do que destruir, visto que lhe
não assistiam direitos de faltar aos grandes compromissos da vida planetária, tomados
antes do nascimento em presença da própria consciência e ante a Paternidade Divina,
que lhe fornecera Vida e meios para tanto.
5 - O Espírito de um suicida voltará a novo corpo terreno em condições muito
penosas de sofrimento, agravadas pelas resultantes do grande desequilíbrio que o
desesperado gesto provocou no seu corpo astral, isto é, no perispírito.
6 - A volta de um suicida a um novo corpo carnal é a lei. É lei inevitável,
irrevogável! É expiação irremediável, à qual terá de se submeter voluntariamente ou não,
porque a seu próprio benefício outro recurso não haverá senão a repetição do programa
terreno que deixou de executar.
7- Sucumbindo ao suicídio o homem rejeita e destrói ensejo sagrado; facultado por
lei, para a conquista de situações honrosas e dignificantes para a própria consciência,
pois os sofrimentos, quando heroicamente suportados, dominados pela vontade soberana
de vencer, são como esponja mágica a expungir da consciência culposa a caligem
infamante, muitas vezes, de um passado criminoso, em anteriores etapas terrenas. Mas,
se, em vez do heroísmo salvador, preferir o homem a fuga às labutas promissoras,
valendo-se de um auto-atentado que bem revelará a vasa de inferioridade que lhe
infelicita o caráter, retardará o momento almejado para a satisfação dos mais caros
desejos, visto que jamais se poderá destruir porque a fonte de sua Vida reside em seu
Espírito e este é indestrutível e eterno como o Foco Sagrado de que descendeu!
8 - Na Espiritualidade raramente o suicida permanecerá durante muito tempo.
Descerá à reencarnação prestamente, tal seja o acervo das danosas conseqüências
acarretadas; ou adiará o cumprimento daquela inalienável necessidade caso as
circunstâncias atenuantes forneçam capacidade para o ingresso em cursos de
aprendizado edificante, que facilitarão as pelejas futuras a prol de sua mesma
reabilitação.
9 - O suicida é como que um clandestino da Espiritualidade. As leis que regulam a
harmonia do mundo invisível são contrariadas com sua presença em seus páramos antes  da época determinada e legal; e tolerados são e amparados e convenientemente
encaminhados porque a excelência das mesmas, derramada do seio amoroso do Pai
Altíssimo, estabeleceu que a todos os pecadores sejam incessantemente renovadas as
oportunidades de corrigenda e reabilitação!
10 - Renascendo em novo corpo carnal, remontará o suicida à programação de
trabalhos e prélios diversos aos quais imaginou erradamente poder escapar pelos atalhos
do suicídio; experimentará novamente tarefas, provações semelhantes ou absolutamente
idênticas às que pretendera arredar; passará inevitavelmente pela tentação do mesmo
suicídio, porque ele mesmo se colocou nessa difícil circunstância carreando para a
reencarnação expiatória as amargas seqüências do passado delituoso! A tal tentação,
porém, poderá resistir, visto que na Espiritualidade foi devidamente esclarecido,
preparado para essa resistência. Se contudo vier a falir por uma segunda vez - o que será
improvável -, multiplicar-se-á sua responsabilidade, multiplicando-se, por isso mesmo,
desastrosamente, as séries de sofrimentos e pelejas reabilitadoras, visto que é imortal!
11 - O estado indefinível, de angústia inconsolável, de inquietação aflitiva e
tristeza e insatisfações permanentes; as situações anormais que se decalcam e sucedem
na alma, na mente e na vida de um suicida reencarnado, indescritíveis à compreensão
humana e só assimiláveis por ele mesmo, somente lhe permitirão o retorno à normalidade
ao findar das causas que as provocaram, após existências expiatórias, testemunhos
severos onde seus valores morais serão duramente comprovados, acompanhando-se de
lágrimas ininterruptas, realizações nobilitantes, renúncias dolorosas de que se não poderá
isentar... podendo tão dificultoso labor dele exigir a perseverança de um século de lutas,
de dois séculos... talvez mais... tais sejam o grau dos próprios deméritos e as disposições
para as refregas justas e inalienáveis!
Tais deduções não nos deixavam, absolutamente, ilusões acerca do futuro
que nos aguardava. Cedo, portanto, compreendemos que, na espinhosa atualidade que
vivíamos, um roteiro único apresentava-se como recurso a possíveis suavizações em
porvir cuja distância não podíamos prever: - submetermo-nos aos imperativos das leis que
havíamos infringido, observarmos conselhos e orientações fornecidos por nossos
amorosos mentores, deixando-nos educar e guiar ao sabor do seu alto critério, como
ovelhas submissas e desejosas de encontrar o consolo supremo de um aprisco...


sexta-feira, 24 de maio de 2013

CAPÍTULO IV Jerônimo de Araújo Silveira e família


CAPÍTULO IV
Jerônimo de Araújo Silveira e família
Não lográvamos notícias de nossas famílias e tampouco dos amigos.
Excruciantes saudades, como ácido corrosivo que nos estorcesse as potências afetivas,lançavam sobre nossos corações infelizes o decepcionante amargor de mil incertezas angustiosas. Muitas vezes, Joel e Roberto surpreendiam-nos chorando às ocultas, suspirando por nomes queridos que jamais ouvíamos pronunciar! Caridosamente, esses bons amigos nos reanimavam com palavras encorajadoras, asseverando ser tal contrariedade passageira, pois tendíamos a suavizar a situação própria, o que necessariamente resolveria os problemas mais prementes.
No entretanto, existia permissão para nos cientificarmos das visitas mentais e votos fraternos de paz e felicidade futuras, quaisquer gentilezas emanadas do Amor, e que proviessem dos entes queridos deixados na Terra ou dos simpatizantes, além dos que, mesmo das moradas espirituais, nos amassem, interessando-se por nosso
restabelecimento e progresso. Desde que tais pensamentos fossem irradiados pela mente verdadeiramente guindada a expressões superiores, eram-nos eles transmitidos por meio assaz curioso e muito eficiente, o qual, na ocasião vigente, nos levava à  perplexidade,dado o nosso desajuste espiritual, mas que posteriormente compreendemos tratar-se de acontecimento natural e até comum em localidades educativas do Astral intermediário.
Existia em cada dormitório certo aparelhamento delicadíssimo, estruturado em substâncias eletromagnéticas, que, acumulando potencialidade inavaliável de atração, seleção, reprodução e transmissão, estampava em região espelhenta, que lhe era parte
integrante, quaisquer imagens e sons que benévola e caridosamente nos fossem dirigidos. Quando um coração generoso, pertencente às nossas famílias ou mesmo para nós desconhecido, arremessasse vibrações fraternas pelas imensidões do Espaço, ao Pai 
Altíssimo invocando mercês para nossa almas enoitadas pelos dissabores, éramos imediatamente informados por luminosidade repentina, que, traduzindo o balbucio da oração, reproduzia também a imagem da personalidade operante, o que, às vezes,

ansiedade. Daí as angústias excessivamente amargosas, a e soladora saudade por nos sentirmos esquecidos, privados de quaisquer informes!
Não obstante, os mesmos preciosos instrumentos de transmissão
incessantemente revelavam que éramos lembrados por habitantes do Além. De outras zonas astrais, como de outras localidades de nossa própria Colônia, chegavam fraternos
votos de paz, conforto amistoso, encorajamento para os dias futuros. Oravam por nós em súplicas ardentes, não apenas invocando o amparo maternal de Maria para nossas
imensas fraquezas, mas ainda a intervenção misericordiosa do Mestre Divino. Da Terra, todavia, não eram raras as vezes que discípulos de Allan Kardec, procurando pautar atitudes por diretrizes cristãs, se congregavam periodicamente em
gabinetes secretos, tais como os antigos iniciados no segredo dos santuários; e, respeitosos, obedecendo a impulsos fraternos por amor ao Cristo Divino, emitiam pensamentos caridosos em nosso favor, visitando-nos freqüentemente através de correntes mentais vigorosas que a Prece santificava, tornando-as ungidas de ternura e
compaixão, as quais caíam no recesso de nossas almas cruciadas e esquecidas, quais fulgores de consoladora esperança!
Porém, não era só. Caravanas fraternas, de Espíritos em estudo e aprendizados beneficentes, assistidas por Mentores eméritos, penetravam nossa tristonha região, provindas de zonas
espirituais mais favorecidas, a fim de trazer sua piedosa solidariedade, em visitações que muito nos desvaneciam. Assim fizemos boas relações de amizade com indivíduos
moralmente muito mais elevados do que nós, os quais não desdenhavam honrar-nos com sua estima. Tais amizades, tão suaves afeições seriam duradouras, porque fundamentadas nos desinteressados, nos elevados princípios da fraternidade cristã!
Só muito mais tarde nos foi outorgada a satisfação de receber as visitas dos entes caros que nos haviam precedido no túmulo. Mesmo assim, porém, deveríamos contentar-nos com aproximações rápidas, pois o suicida está para a vida espiritual como
o sentenciado para a sociedade terrena: não tem regalias normais, vive em plano expiatório penoso, onde não é lícita a presença de outrem que não os seus educadores, enquanto que ele próprio, dado o seu precário estado vibratório, não logrará afastar-se do
pequeno círculo em que se agita... até que os efeitos da calamitosa infração sejam  totalmente expungidos. "- ...E serás atado de pés e mãos, lançado nas trevas exteriores, onde haverá
choro e ranger de dentes. Dali não sairás enquanto não pagares até o último ceitil. .." -avisou prudentemente o Celeste Instrutor, desde muito séculos...
Dois acontecimentos de profunda significação para o desenvolvimento de
nossas forças no ajustamento ao plano espiritual verificaram-se logo nos primeiros dias
que se seguiram à nossa admissão ao magno instituto do astral. Dedicaremos o presente
capítulo ao mais sensacional, reservando para o seguinte a exposição do segundo, não
menos importante, por decisivo na lição que, então, nos ofertou.
Certa manhã, apresentou-se-nos o jovem Dr. Roberto de Canalejas, a
participar-nos que éramos convidados a importante reunião para aquela tarde, devendo
todos os recém-chegados se avistarem com o diretor do Departamento a que estávamos
confiados no momento, para esclarecimentos de interesse geral.
Jerônimo, cujo mau-humor se agravava assustadoramente, formalmente declarou não desejar comparecer à mesma, pois que não se supunha obrigado a obediências servis pelo simples fato de se encontrar hospitalizado, e mais que, na ocasião, somente se interessava pela obtenção de notícias da família. Roberto, porém,
declarou delicadamente, sem mostras de quaisquer agastamentos, que era portador de um convite e não de uma ordem, e que, por isso mesmo, nenhum de nós seria forçado a anuir. sobremodo nos surpreendia, visto acontecer que pessoas a quem nem sempre
distinguíramos com afeição e desvelo se apresentavam freqüentemente ao espelho magnético, enquanto outras, que de nossos corações obtiveram as máximas solicitudes,
raramente mitigavam as asperezas da nossa íntima situação com as blandícias santificantes da Prece! Poderíamos, assim, saber de quanto pensassem a nosso respeito; das súplicas dirigidas às Divinas Potestades, de todo o bem que nos pudessem desejar
ou, a nosso favor, praticar. Infelizmente para nós, porém, tal acontecimento, que tanto amenizaria as agruras da solidão em que vivíamos; que seria como refrigerante sereno sobre as

Envergonhados frente à atitude incivil do companheiro, sentimo-nos também chocados, e foi com o melhor sorriso que encontramos nos arquivos de antigas recordações que aquiescemos, agradecendo ainda a honra que nos dispensavam. Já por esse tempo éramos submetidos a tratamento especializado, do qual adiante trataremos e com o qual igualmente não concordara o antigo irmão da Santíssima
Trindade, de Lisboa, assim que soube ser a terapêutica fundamentada nas fontes magnético-psíquicas, assuntos que absolutamente não admitia! Não obstante, insofrido e displicente, dirigiu-se ao bondoso facultativo, logo após o incidente, e disse, esquecido já da lamentável atitude anterior: "- Sr. doutor, um obséquio inestimável venho pensando em obter de V.
Excia., confiado nos sentimentos generosos que de certo exornam tão nobre caráter..." Roberto de Canalejas que, com efeito, antes de ser um espírito convertido ao Bem, dedicado operário da Fraternidade, teria sido na sociedade terrena perfeito
cavalheiro, esboçou sorriso indefinível e respondeu:
"- Estou ao seu inteiro dispor, meu amigo! Em que deverei atendê-lo?..."
"- É que... Tenho necessidade imperiosa de encaminhar certa petição à benemérita diretoria desta casa... Aflijo-me pela falta de informes de minha família, que não vejo há muito... nem eu sei há quanto tempo!... Em vão tenho esperado notícias... e já
não me restam forças para sofrer no peito as ânsias que me dilaceram... Desejo obtenção de licença, da mui digna diretoria deste Hospital, para ir até minha casa, certificar-me dos
motivos que ocasionam tão ingrato silêncio... Não sou visitado pelos meus... Não recebo cartas... Será possível a V. Excia. encaminhar um requerimento ao Sr. Diretor? Não proibirão, de certo, os regulamentos internos, a atitude que desejo tomar?..."
Como vemos pelo exposto, o pobre ex-comerciante do Porto parecia não fazer idéia muito justa da situação em que se encontrava, e, mais do que os companheiros de domicílio, perdia-se na desordem mental, entre os estados terreno e
espiritual. "- Absolutamente, meu caro! Não há proibição! O diretor deste estabelecimento terá satisfação em ouvi-lo!" - afirmou o paciente médico. "- Farei então hoje mesmo o requerimento?..."
Encaminharei verbalmente a solicitação... e Joel participá-lo-á do que ficar resolvido..." Cerca de dois quartos de hora depois, Joel voltava à enfermaria a fim de comunicar ao aflito doente que o diretor convidava-o a apresentar-se pessoalmente ao
seu gabinete. Vinha, porém, pensativo, e descobrimos um acento de pesar em seu semblante geralmente límpido e sorridente.
Nosso companheiro que, como é sabido, era, dentre os dez, o mais rebelde e indisciplinado, exigiu que Joel devolvesse o terno de roupa tomado à entrada, pois repugnava-lhe apresentar-se ao gabinete do maioral envolvido num feio sudário de
enfermaria, tal como nos encontrávamos todos.
Muito sério, Joel não tentou contrariá-lo. Devolveu-lhe, antes, a referida indumentária. Saíram. Não teriam transposto ainda a galeria imensa, para onde se projetavam as portas dos dormitórios, e eis que o jovem Dr. de Canalejas e um dos nossos assistentes
hindus entraram em nosso compartimento, enquanto, sorridente, foi dizendo o último, com acento amistoso: "- Aqui nos encontramos, meus caros amigos, a fim de convidar-vos a acompanhar vosso amigo Jerônimo de Araújo Silveira na peregrinação que deseja tentar. Estamos cientes de que nenhum de vós se sente satisfeito com os regulamentos desta casa, que de algum modo intercepta noticiário circunstanciado proveniente dos planos terrenos. No entanto, será bom sejais informados de que, se tal rigor se verifica, a vosso benefício o estabelecemos, muito embora não exista formal proibição para uma rápida escaldantes saudades que nos combaliam a mente e o coração, era raríssimo na quase totalidade do Hospital, referencia às afeições deixadas na Terra, pois que o genial
aparelho só era suscetível de registrar as invocações sinceras, aquelas que, pela natureza sublimada das vibrações emitidas no momento da Prece, se pudessem harmonizar às ondas magnéticas transmissoras capazes de romper as dificuldades naturais e chegarem às mansões excelsas, onde é a Prece acolhida entre fulgores e bênçãos. Porém, a verificar-se tão generoso fato não facultaria possibilidade de noticiário
circunstanciado em torno da individualidade que o praticasse, tal como desejaria nossa visita à Terra, como ides ver dentro em pouco. Atentai neste aparelho de visão a distância, que já conheceis, e acompanhai os passos de nosso Jerônimo desde o
presente momento. Caso venha a obter a licença que impetra, como espero que aconteça, dada a insistência em que se atém, fareis com ele a peregrinação que tanto deseja em torno da família, sem, no entanto, precisardes sair deste local... E amanhã, se ainda desejardes descer aos vossos antigos lares em visitação prematura, sereis atendidos imediatamente... a fim de que as revoltas que vos vêm ferindo a mente não continuem retardando a aquisição de pendores novos que vos possam beneficiar futuramente... Todos os demais enfermos em idênticas condições recebem igual sugestão
neste momento..."  Aproximou-se do aparelho e, com graciosa desenvoltura, ampliou-o até que pudesse retratar a imagem de um homem em tamanho natural. Perplexos, mas interessados, deixamos o leito, que raramente abandonávamos, a fim de nos postarmos diante da placa que principiava a iluminar-se. Fizeram-nos sentar comodamente, em poltronas que ornavam o recinto, enquanto
aqueles zelosos colaboradores do além tomaram lugar ao nosso lado. Era como se aguardássemos o início de uma peça teatral.
De súbito Joel surgiu diante de nós, tão visível e naturalmente, destacandose  no mesmo plano em que nos encontrávamos, que o supusemos dentro da enfermaria, ou que nós outros seguíssemos ao seu encalço... Amparava Jerônimo pelo braço... caminhando em busca da saída de serviço... e tão intensa ia-se tornando a sugestão que logo nos abstraímos, esquecidos de que, em verdade, continuávamos comodamente sentados em poltronas, em nossos aposentos... Mais real do que o atual cinematógrafo e superior ao engenho da televisão do momento, esse magnífico receptor de cenas e fatos, tão usado em nossa Colônia, e que tanta admiração nos causava, em esferas mais elevadas desdobrava-se, evoluía até
atingir o sublime no auxílio à instrução de Espíritos em marcha para a aquisição de valores teóricos que lhes permitissem, futuramente, testemunhos decisivos nos prélios terrenos, indo rebuscar e selecionar, nas longínquas planícies do espaço celeste, o
próprio passado do Globo Terráqueo e de suas Humanidades, sua História e suas Civilizações, assim como o pretérito dos indivíduos, se necessário, os quais jazem esparsos e confundidos nas ondas etéreas que se agitam, se eternizam pelo invisível a dentro, nelas permanecendo fotografados, impressos como num espelho, conquanto se conservem confusamente, de roldão com outras imagens, tal como na consciência das criaturas se imprimiram também seus próprios feitos, suas ações diárias! Assim foi que atravessamos algumas alamedas do parque branco e atingimos o Edifício Central, onde se assentava a chefia daquela formosa falange de cientistas iniciados que laboravam no Departamento Hospitalar.
A chegada, porém, Jerônimo passou para a tutela de um assistente do diretor e Joel retirou-se, tendo aquele conduzido imediatamente o visitante, fazendo-o passar a uma sala onde amplas janelas deitavam vistas para o jardim, deixando descortinar-se o
panorama melancólico do burgo onde tantas e tantas dores se entrechocavam!
Era um gabinete, espécie de escritório de consultas ou sala de visita, disposto em perfeito estilo indiano. Perfume sutil, de essência desconhecida ao nosso olfato, deliciou-nos, ao mesmo tempo que alongava nossa admiração pela natureza inapreciável do aparelho que nos servia. Leve reposteiro, de tecido flexível e docemente
lucilante, agitou-se numa porta fronteira e o diretor-geral do Departamento Hospitalar
apresentou-se. De um salto o pobre Jerônimo, que se havia sentado, procurou levantar-se e seu primeiro gesto foi de fuga, no que se viu interceptado pelo acompanhante.
A sua frente estava um varão entre quarenta e cinqüenta anos,
rigorosamente trajado à indiana, com turbante alvo onde cintilava formosa esmeralda qual estrela; túnica de mangas fartas, faixa à cintura e sandálias típicas. O oval do rosto, suavemente moreno, era de pureza clássica de linhas, e de seus olhos fúlgidos e
penetrantes como se desprendiam chispas de inteligência e penetração magnética. Ao anelar da sinistra, gema preciosa, semelhante à do turbante, distinguia-o, quiçá como mestre dos demais componentes da plêiade formosa de médicos ao serviço do Hospital Maria de Nazaré.
Tão encantados quanto o próprio Jerônimo, confessamo-nos vivamente atraídos pela nobre figura.
Sem delongas o assistente Romeu, pois era ele que havia recebido o
impetrante, disse ao que vinha: "- Caro irmão Teócrito, aqui está nosso pupilo Jerônimo de Araújo Silveira, que tanto nos vem preocupando... Deseja visitar a família no ambiente terreno, pois
acredita estar além das suas possibilidades de conformação a obediência aos princípios de nossa instituição... E afirma preferir o acúmulo de pesares à espera de ocasião oportuna para o desejado desiderato..." Irreverente, o apresentado interrompeu com nervosismo: "- É bem essa a expressão da verdade, Sr. Príncipe! - pois imaginava-se em presença de um soberano. - Prefiro envolver-me novamente no remoinho de dores do qual saí há pouco, a suportar por mais tempo as ferazes saudades que me cruciam pela
falta de notícias de minha família!... Se, pois, não existe proibição intransigente nas leis que facultariam essa possibilidade, rogo à generosidade de Vossa Alteza concessão para rever meus filhos!... Oh! as minhas queridas filhas! Confio são formosas, senhor! São três, e apenas um varão: - Arinda, Marieta, Margarida, que deixei com sete anos, e Albino, que contava já os dez!... Sofro tantas saudades, Senhor meu Deus!... Minha esposa chama-se
Zulmira, bonita mulher! e bastante educada!... Aflijo-me desesperadamente! Não consigo calma para a necessária ponderação quanto à minha esquisita situação atual!... E por isso
rogo humildemente a Vossa Alteza compadecer-se de minhas angústias!" Os olhos faiscantes do chefe da falange de médicos caíram enternecidos sobre o Espírito intranqüilo daquele que demoraria ainda a aprender a dominar-se.
Contemplou-o bondosamente, penalizado ante a desarmonia mental do suplicante, entrevendo o longo carreiro de lutas que lhe seria necessário até que conseguisse planála às gratas atitudes da renúncia ou da conformidade! Surpreso, Jerônimo que contava
encontrar a sombranceria dos burocratas terrenos, estagnados nas farfalhices apalhaçadas a que se apegam, sob quais estava habituado, percebeu naquele olhar perscrutador a humildade de uma lágrima oscilando nas pálpebras. O nobre varão tomou-o docemente pelo braço, fazendo-o sentar-se à sua frente, em cômodo coxim, enquanto Romeu, de pé, observava  respeitosamente. O hindu ofereceu ao suicida uma taça com água cristalina, por ele mesmo retirada de elegante jarro reluzente qual neblina sob a carícia do sol. O português sorveu-a, incapacitado de
recusar; depois do que, algo serenado, tomou atitude de espera à solicitação enunciada. "- Meu amigo! Meu irmão Jerônimo! – começou Teócrito. - Antes de à versão da tua súplica oferecer resposta, devo esclarecer que, absolutamente, não sou um
príncipe, como supuseste, e, por isso mesmo, não arrasto o titulo de Alteza. Sou, simplesmente, um Espírito que foi homem! que, tendo vivido, sofrido e trabalhado em várias existências sobre a Terra, aprendeu, no trajeto, algo que com a própria Terra se relaciona. Um servo de Jesus Nazareno - eis o que me honro de ser, embora muito
modesto, pobre de méritos, rodeado de senões! Um trabalhador humilde que, junto de vós, que sofreis, ensaia os primeiros passos no cultivo da Vinha do Mestre Divino; destacado temporariamente, e por Sua ordem magnânima, para os serviços de Maria de Nazaré, Sua augusta Mãe!
Entre nós ambos, Jerônimo - eu e tu -, pequena diferença existe, distância não muito avançada: - é que, tendo vivido maior número de vezes sobre a Terra, sofri mais, trabalhei um pouco mais, aprendendo, portanto, a me resignar melhor, a renunciar
sempre por amor a Deus, e a dominar as próprias emoções; observei, lutei com mais ardor, obtendo, destarte, maior soma de experiência. Não sou, como vês, soberano destes domínios, mas simples operário da Legião de Maria - Maria, única Majestade a
governar este Instituto Correcional onde te abrigas  temporariamente! Um, teu irmão mais velho - eis a verdadeira qualidade que em mim deverás enxergar!... sinceramente
desejoso de auxiliar-te na solução dos graves problemas que te enredam... Chama-me, pois, Teócrito, e terás acertado..."
Fez breve pausa, alongando os belos olhos pela amplidão nevoenta que se divisava através das janelas, e prosseguiu, enternecido:
"- Desejas rever teus filhos, Jerônimo?!... É justo, meu amigo! Os filhos são parcelas do nosso ser moral também, cujo amor nos transporta de emoções supremas,
mas que não raramente também nos reduz à desolação de percucientes desgostos!
Compreendo tuas ânsias frementes de pai amoroso, pois sei que amaste teus filhos com sinceridade e desprendimento! Sei da fereza das tuas dúvidas atuais, afastado daqueles entes queridos que lá ficaram, no Porto, órfãos da tua direção e do teu amparo! Como tu,
eu também fui pai e também amei, Jerônimo! É mais do que justo, pois, que eu, validando teus sentimentos afetivos pela termometria dos meus, louve tua aspiração antes de censurá-la, porquanto muito atesta ela em favor dos teus respeitos pela Família! Contudo,
de modo algum eu aconselharia a preterires este recinto, onde tão penosamente te reergues, pelas influenciações deletérias dos ambientes terrenos, ainda que apenas por uma hora! ainda que para procurar informes de teus filhos!..." "- Senhor! Com o devido respeito à vossa autoridade, suplico comiseração! ...
Trata-se de visita rápida... dando-vos eu minha palavra de honra em como voltarei... pois bem sei que não passo de um prisioneiro..." - recalcitrou ainda o antigo impaciente, perdendo-se novamente nas confusões mentais em que se aprazia enredar. "- Ainda assim não aprovarei a realização desse desejo no momento, conquanto o proclame justo... Sofreia um pouco mais os impulsos do teu caráter, meu Jerônimo! Aprende a dominar emoções, a reter ansiedades, tornando-as em aspirações equilibradas sob a proteção santa da Esperança! Lembra-te de que foram tais impulsos,
desequilibrados, estribados na irresignação, na impaciência e no desconchavo do senso, que te arremessaram à violência do suicídio! Verás, sim, teus filhos! Porém, a teu próprio benefício peço que concordes em adiar o projeto em mira para daqui a alguns poucos
meses... quando estiveres mais bem preparado para enfrentar as conseqüências que se precipitaram após teu desordenado gesto! Concorda, Jerônimo, em te submeteres ao tratamento conveniente ao teu estado, ao qual teus companheiros se submetem de
boamente, confiando nos servidores leais que a todos vós desejam socorrer com amor e desprendimento! Cede ao convite para a reunião de hoje à noite, porque imensos benefícios dela auferirás... ao passo que uma visita à Terra neste momento, o contacto
com a família, nas precárias condições em que te encontras, estariam em oposição aos planos suaves já elaborados para conduzir-te à tão necessária reorganização de tuas
forças..." "- Mas... Eu não adquiriria serenidade para nenhum projeto futuro enquanto não obtivesse as desejadas informações, senhor!... Oh, Deus do Céu! Margaridinha, minha caçula, que lá ficou, com sete anos, tão loira e tão linda!..." "- Já te lembraste de apelar para a grandeza paternal do Senhor Todo-
Poderoso, a fim de obteres valor para a resignação de uma espera muito prudente, que seria coroada de êxitos?... Queremos o teu bem-estar, Jerônimo, nosso desejo é encaminhar-te a situação que te forneça trégua para a reabilitação que se impõe... Voltate
para Maria de Nazaré, sob cujos cuidados foste acolhido... é preciso que tenhas boavontade para te elevares ao Bem! Pratica a prece... procura comungar com as vibrações superiores, capazes de te animarem a empreendimentos redentores... É indispensável
que o faças por livre e espontânea vontade, porque nem te poderemos obrigar a fazê-lo nem poderíamos fazê-lo por ti... Renuncia, pois, a esse projeto contraproducente e confia
em nossos bons desejos de auxílio e proteção à tua pessoa..."Mas o ex-comerciante do Porto era inacessível. O caráter rebelde e violento, que num assomo de voluntariedade sinistra preferiu a morte a ter de lutar, impondo-se à adversidade até corrigi-la e vencê-la, retorquiu impacientado, não compreendendo a
sublime caridade que recebia: "- Confiarei, senhor... irmão Teócrito... Viverei de rojo aos pés de todos vós, se necessário for!... mas depois de rever os meus entes caros e inteirar-me das razões
por que me abandonaram, ressarcindo, de algum modo, estas saudades que me despedaçam..." Cumprido seu dever de conselheiro, Teócrito compreendeu que seria inútil
insistir. Contemplou o pupilo desfeito em lágrimas e murmurou tristemente, enquanto Romeu abanava a cabeça, penalizado:
"- Afirmas grande verdade, pobre irmão! Sim! Só depois!... Só depois encontrarás o caminho da reabilitação!... Há índoles que só os duros aguilhões da Dor serão bastante poderosos para corrigir, encaminhando-as para o Dever!... Ainda não sofreste o suficiente para  te  lembrares  de  que  descendes  de  um  Pai                          Todo- Misericordioso!..." Deixou-se estar alguns instantes pensativo e continuou: "- Poderíamos evitar este incidente, impedir a visita e punir-te pela atitude tomada. Assiste-nos para tanto autoridade e permissão. Mas és ainda demasiadamente
materializado, padecendo, portanto, muitos prejuízos terrenos, para que nos possas compreender!... Aliás, nossos métodos, persuasivos e não dominadores, seriam incompatíveis com uma proibição intransigente, por mais harmonizados com a Razão... Contudo, consultarei nossos Instrutores do Templo, como é dever em dilemas como o que acabas de criar..." Concentrou-se firmemente, retirando-se para compartimento secreto, contíguo ao gabinete de consultas. Comunicou-se telepaticamente com a direção-geral do
Instituto, que pairava no cantão do Templo, e, após curto espaço de tempo, tornou, dando a nota final: "- Nossos orientadores maiores te permitem liberdade de ação. Conquanto uma entidade nas tuas condições não possa desfrutar a liberdade natural ao Espírito livre
das peias carnais, não poderás também ser por nós violentado a deveres que te repugnariam. Visitarás teus entes queridos na Terra... Irás, portanto, a Portugal, à cidade do Porto, onde residias, a Lisboa, tal como desejas... E como a ternura paternal do
Criador leva a extrair, muitas vezes, de um ato imprudente ou condenável, exemplificação salutar para o próprio delinquente ou para o seu observador, estou certo de que tua inconsequência nem será estéril para ti mesmo nem deixará de avolumar profundas
advertências para quantos de boa-vontade delas tomarem conhecimento. Atenta porém, no seguinte, meu caro Jerônimo: - É que, deixando de aceitar nossos conselhos e  insurgindo-te contra os regulamentos deste Instituto, cometerás falta cujas conseqüências
recairão sobre ti mesmo. Essa visita será realizada sob tua exclusiva responsabilidade!
Não existe permissão para ela: - é o teu livre-arbítrio que a impõe! Se os descontentamentos daí conseqüentes exorbitarem das tuas capacidades para o sofrimento, dirigirás as queixas contra ti mesmo, porquanto nossos esforços só se aplicam em dulcificar infortúnios e evitá-los quando desnecessários... Por isso mesmo deixamos
de fornecer as desejadas notícias pelos meios de que dispomos... pois a verdade é que não havia necessidade de te afastares daqui a fim de obtê-las..." Voltou-se para o assistente e prosseguiu:
"- Preparem-no para que siga... Satisfaçam-lhe os caprichos sociais
terrenos... porque bem cedo se aborrecerá da Terra... Que o deixem agir como deseja... A lição será amarga, mas ensejará mais rápida compreensão e conseqüentemente progresso..."
Fez-se pausa na seqüência da reprodução dos acontecimentos.
Surpreendera-nos grande ansiedade ao passo que censurávamos o companheiro pela displicência com que se portara. Concordáramos em atribuir à má educação de Jerônimo 



o desrespeito manifesto aos regulamentos da nobre instituição, no que fomos aparteados pelos servidores presentes: "- Certamente, a boa educação social auxilia grandemente a adaptação aos
ambientes espirituais. Ela não representa, porém, tudo. Os sentimentos depurados, o estado mental harmonizado a princípios elevados, as boas qualidades de caráter e de coração, produzindo a "boa educação" moral, é que formam o elemento primordial para
uma prometedora situação no além-túmulo... desde que um suicídio não venha anular tal possibilidade..." "- Não poderiam os diretores desta casa fornecer as notícias solicitadas, sem que o enfermo se arriscasse a uma viagem de gravosas conseqüências para o seu estado geral?. .." - inquiri, curioso. "- Sim, se tais notícias concorressem para o bem-estar do paciente. Aliás, em
regra geral, convém a entidades nas vossas condições absterem-se de quaisquer  choques ou emoções que alimentem o estado de excitação em que se encontrem... Notícias da Terra jamais confortarão algum de nós, que pertencemos à Espiritualidade!
No presente caso torna-se evidente o desejo da administração da casa de encobrir ao pobre enfermo algo que o ferirá profundamente, sem necessidade. Se se submetesse de
boa-vontade aos regulamentos protetores, a realidade que presenciará dentro em pouco viria ao tempo em que estivesse suficientemente preparado para enfrentá-la, o que evitaria choques grandemente dolorosos. Insubordinando-se, porém, coloca-se em
situação melindrosa, razão por que foi ele entregue às próprias inconsequências  as quais farão com violência, em torno dele, o trabalho educativo que seus conselheiros efetuariam suave e amorosamente..." Eis, porém, que voltávamos a observar movimentação na luminosidade do receptor de imagens. E o que então se passou exorbitou tanto de nossa expectativa que
passamos a sofrer com o desventurado Jerônimo os dramáticos sucessos com sua família desenrolados depois de sua morte.
O assistente Romeu providenciou ordens para o Departamento de Vigilância, ao qual se achavam afetos todos os serviços exteriores da Colônia. Olivier de Guzman, seu diretor zeloso, apelou para a Seção das Relações Externas, no sentido de serem fornecidos dois guias vigilantes, de competência comprovada, a fim de acompanharem o visitante à Terra, pois não seria admissível abandonar-se aos perigos de tal excursão um pupilo da Legião dos Servos de Maria, ainda inexperiente e fraco. Apresentaram-se - Ramiro de Guzman -, no qual reconhecemos o chefe das
expedições que visitavam o Vale Sinistro, sob cuja responsabilidade de lá também saíramos; e outro cujo nome ignorávamos, ambos igualmente envergando a já popular indumentária de iniciados orientais. Começávamos a compreender que, nesse Instituto modelar, os postos avançados, de mais grave responsabilidade; as tarefas melindrosas, que exigissem maior soma de energia, vontade, saber e virtudes, achavam-se a cargo dessas personagens
atraentes e belas, em quem descortinamos, desde os primeiros dias, altas qualidades morais e intelectuais. As ordens de Olivier foi preparada expedição condigna, em a qual não faltou nem mesmo a guarda de milicianos. No entretanto, transformação sensível operara-se nas atitudes do pobre Jerônimo. A auto-obsessão da visita à família, conturbando-lhe as faculdades, tornava-o
alheio a tudo que o rodeava, reintegrando-o mais do que nunca à condição que fora a sua quando homem: - burguês rico de Portugal, comerciante de vinhos, zeloso da opinião social, escravo dos preconceitos, chefe de família amoroso e extremado. Víamo-lo agora trajando boa sobrecasaca, vistosa gravata, bengala de castão dourado e sobraçando ramalhete de rosas para oferecer à esposa, pois tudo isso exigira da paciente vigilância de Joel, a quem haviam recomendado satisfazer-lhe os desejos. E nossos mentores,presentes na enfermaria, apreendendo nossa admiração, esclareciam que, só muito vagarosamente, Espíritos vulgares ou muito humanizados conseguem desfazer-se dessas pequenas frivolidades inseparáveis das rotinas terrestres. Rigorosamente guardado, a viajar em veículo discretamente fechado, Jerônimo assemelhava-se, com efeito, a um prisioneiro. Parecia não se aperceber disso,no entanto. Parecia não distinguir mesmo a presença de Ramiro e seus auxiliares, tão abstrato se encontrava, julgando-se em viagem como outras que outrora lhe foram comuns.
Corria regularmente o veículo. Não fora a presença dos guardiães
recordando a cada instante a natureza espiritual da cena, afirmaríamos tratar-se de carruagem que nada tinha de "criação semimaterial", que a necessidade dos métodos educativos do Além impõe, mas de um muito pesado e confortável meio de transporte que bem poderia pertencer à própria Terra.
Vimos que atravessavam estradas sombrias, gargantas cobertas de
plúmbeas nevadas, desfiladeiros, vales lamacentos quais brejais desoladores, cuja visão nos deixavam inquietos, pois asseveravam nossos atenciosos assistentes serem tais panoramas produtos mentais viciados dos homens terrenos e de infelizes Espíritos
desencarnados, arraigados às manifestações inferiores do pensamento. Os viajantes, porém, atingiam agrupamentos como aldeias miseráveis, habitadas por entidades pertencentes aos planos ínfimos do Invisível, bandoleiros e hordas de criminosos
desencarnados, os quais investiam sobre a carruagem, maldosos e enraivecidos, como desejando atacá-la por adivinharem no seu interior criaturas mais felizes que elas próprias. Mas a flâmula alvinitente, indiciando o emblema da respeitável Legião, fazia-os
recuar atemorizados. Muitos desses futuros arrependidos e regenerados - pois tendiam todos ao progresso e à reforma moral por derivarem, como as demais criaturas, do Amor de um Criador Todo Justiça e Bondade - descobriam-se como se homenageassem o
nome respeitável evocado pela flâmula, ainda conservando o hábito, tão comum na Terra, do chapéu à cabeça, enquanto outros se afastavam em gritos e lágrimas, proferindo  blasfêmias e imprecações, causando-nos pasmo e comiseração... E o carro prosseguia sempre, sem que seus ocupantes se dirigissem a nenhum deles, certos de que não soara ainda para seus corações endurecidos no mal o momento de serem socorridos para
voluntariamente cogitarem da própria reabilitação.
De súbito, brado uníssono, conquanto discreto, exalou-se de nossos peitos qual soluço de saudade enternecedora, vibrando docemente pela enfermaria: - Portugal! Pátria venerada! Portugal!...
- Oh! Deus do Céu!... Lisboa! O Tejo formoso e sobranceiro!... O Porto! O Porto de tão gratas recordações!...
- Obrigado, Senhor Deus!... Obrigado pela mercê de revermos o torrão natal depois de tantos anos de ausência e de tumultuosas saudades!...
E chorávamos enternecidos, gratamente emocionados! Paisagens
portuguesas, com efeito, todas muito queridas aos nossos doloridos corações, rodeavam-nos como se, tal como afirmaram de inicio os mentores presentes, fizéssemos parte da comitiva do pobre Jerônimo!
Radicando-se mais em nós a sugestão consoladora pela excelência do receptor, mais se acentuavam em nossas faculdades a impressão de que pessoalmente pisávamos o solo português, quando a verdade era que não saíramos do Hospital!...
A silhueta, a princípio longínqua, da cidade do Porto, desenhou-se
palidamente nas brumas tristonhas que envolvem a atmosfera terráquea, qual desenho a "crayon" sobre tela acinzentada. Alguns instantes mais e a estranha caravana caminhava pelas ruas da cidade, qual o fizesse no cantão da Vigilância, o que muito nos edificou.
Algumas artérias portuguesas, velhas conhecidas do nosso tumultuoso passado, desfilaram sob nossos olhos róridos de comovido pranto, como se também por elas transitássemos. Agitadíssimo, Jerônimo, pressentindo a realidade daquilo que ominosas angústias lhe segredavam ao senso, e que apenas a insânia do pavor ao inevitável teimava inutilmente acobertar, estacou à frente de uma residência de boa aparência, com jardins e sacadas, subindo precipitadamente a escadaria, enquanto os tutelares se predispunham caridosamente à espera.
Fora ali a sua residência. O antigo comerciante de vinhas entrou desembaraçadamente, e seu primeiro impulso de afeto e saudade foi para a filha caçula, por quem nutria a mais apaixonada atração:
"- Margaridinha, oh! minha filhinha querida! Aqui está o teu papai,
Margaridinha!... Mar-ga-ri-di-nha?!..." - tal qual lhe chamava outrora, todas as tardes, voltando ao lar após as lides penosas do dia... Mas ninguém acudia aos seus amorosos apelos! Apenas a indiferença, a solidão decepcionante em derredor, augurando desgraças porventura ainda mais rijas do que as suportadas por seu coração até ali, enquanto nas profundezas sentimentais de
sua alma atormentada por múltiplos dissabores atroavam desoladoramente os brados amorosos, mas inúteis, do seu carinho de pai, incorrespondidos agora pela mimosa criança já afastada daquele local, que tão querido lhe fora! "- Margaridinha!... Onde estás, filhinha?... Margaridinha!... Olha que é o teu
papaizinho que chega, minha filha!..."
Procurou por toda a casa. Parecia, no entanto, que haviam desaparecido de sob a luz do Sol todos aqueles pedaços sacrossantos de sua alma, que ali deixara, e que,
único sobrevivente, ele, de incomensurável catástrofe, não se podia acomodar à esmagadora realidade de rever desabitado, dramaticamente vazio, o lar que tanto
estremecera!
Chamou pela esposa, nomeou os filhos um a um, e finalmente bradou pelos criados: - Não via ninguém!
Sombras e vultos estranhos, no entanto, moviam-se pelos compartimentos que pertenceram à família e deixavam-no bramir e interrogar sem se dignarem responder, não se apercebendo de sua presença... pois tratava-se de indivíduos encarnados, eram
os novos habitantes da casa que lhe pertencera! O próprio mobiliário, a decoração
interior, tudo se apresentava diferente, apontando acontecimentos que o confundiam.
Decepção pungente desferiu-lhe golpe certeiro, deslocando-lhe da alma o primitivo
entusiasmo para que aflitivas induções nela mais se avigorassem. Reparando suspensas
aos muros de determinado aposento telas que lhe eram desconhecidas, seu olhar fixouse
num cromo colocado a um ângulo da estufa, cuja folhinha indicava a data do dia
decorrente. Leu-a: - 6 de novembro de 1903.
Um arrepio de terror insopitável repassou soturnamente por suas faculdades vibratórias. Fez um esforço inaudito, movimentando reminiscências; vasculhou  lembranças, sacudindo a poeira mental de mil idéias confusas que lhe toldavam a clareza
do raciocínio. A vertigem da surpresa em face da realidade irremediável, que até ali ele retardara à custa da má-vontade de sofismas ingênuos, tonteou-lhe o raciocínio: - não
cogitara inteirar-se de datas durante muito tempo! A verdade era que perdera a noção do tempo envolvido no bulcão das desgraças que o colheram após o malfadado gesto de trânsfuga da vida terrena! Tão agudo fora o estado de loucura em que se debatera desde o trágico momento em que tentara o suicídio; tão grave a enfermidade que o atingira após o choque pela introdução do projétil no cérebro, que, graças aos tormentos daí consequentes, perdera a contagem dos dias, desviara-se pelo Desconhecido a dentro sem mais averiguar se os dias eram noites, se as noites eram dias... pois, no abismo em que se vira aprisionado tanto tempo, só existiam trevas por visão! Para ele, para sua percepção obliterada pelo desespero, a contagem social do Tempo ainda era a mesma do
dia aziago, pois não se recordava de outra depois dessa: - 15 de fevereiro de 1890 -Eis, porém, que a folhinha à sua frente, indiferente, mas expressiva, servindo a uma grandiosa causa, revelava ao mártir que estivera ausente de sua casa durante
treze anos!
Atirou-se para a rua em correria, batido e apavorado frente ao choque do pretérito, de encontro à realidade do presente, a mente conflagrada por inalienável desconsolo. Indagaria dos vizinhos o paradeiro da família, que se mudara, decerto, em sua ausência. Os lanceiros, porém, à porta, cruzando as armas, formaram barreira
intransponível, interceptando-lhe a fuga impensada, e obrigando-o a refugiar-se no interior do carro. Aos protestos impressionantes do infeliz, inconformado com a prisão em que se reconhecia, acudiram curiosos e vagabundos do plano invisível, Espíritos ainda
homiziados nas camadas depressoras da Terra. Entre chacotas, apupos e gargalhadas atormentavam-no com incriminações e censuras, ao passo que esclareciam o que acontecera àqueles a quem procurava. Ramiro de Guzman e seus auxiliares não
interferiram, no sentido de evitarem a Jerônimo o dissabor de ouvi-los, uma vez que a visita decorria sob a responsabilidade deste, e que somente lhes haviam recomendado garantirem o regresso à Colônia dentro de poucas horas. "- Pretendes então esclarecer o paradeiro de tua muito amada família, ó miserável príncipe dos bons vinhos?!. .. - vociferavam os infelizes. - Pois saibas tu que daí
foram todos enxotados, há muitos anos!... Teus credores tomaram-lhes a casa e o pouco que, para teus filhos, andaste ocultando à última hora! Procura teu filho Albino na Penitenciária de Lisboa! Tua "Margaridinha" nas sarjetas do Cais da Ribeira, vendendo
peixes, fretes e amores a quem se dignar remunerá-la com mais prodigalidade, explorada pela própria mãe, tua esposa Zulmira, a quem habituaste a luxo exorbitante para as tuas posses, e cujo orgulho jamais pôde afazer-se ao trabalho digno e à pobreza!... Tuas filhas  Maneta e Arinda?... Oh! a primeira está casada, sobrecarregada de filhos enfermiços, a bracejar na miséria, a sofrer fome, espancada por um marido ébrio e boçal... A segunda...
chada de hotéis de quinta ordem, a lavar chão, a brunir panelas, a limpar botas de viajantes imundos!... Ouves e te espantas?... Tremes e te aterrorizas?... Por quê?... Que esperavas, então, que acontecesse?!... Não foi essa a herança que lhes deixaste com o
teu suicídio, canalha?!..."
E entraram a enxovalhar o desventurado com insultos e vitupérios quais vaias impiedosas, intentando atacar a viatura a fim de arrebatá-lo, no que foram impedidos pela guarda protetora.
Não obstante, exigiu o rebelde pupilo da Legião dos Servos de Maria que o levassem onde se encontrava o filho, esperança que fora da sua vida, aquele rebento querido, que ficara na florescência delicada das dez primaveras quando ele próprio, seu pai, houvera por bem abandoná-lo aos perigos da orfandade, matando-se.
Convulsionado sob a ardência de pranto insólito, compreendeu que era conduzido e que penetrava os muros sinistros de um cárcere, sem que houvesse podido distinguir se se encontrava no Porto ou realmente em Lisboa. Com efeito! Ali estava Albino, metido em cela sombria, implicado em crimes de chantagem e latrocínio, condenado a cinco anos de prisão celular e a outros tantos de
trabalhos forçados na África, como reincidente nas gravíssimas faltas! Apesar da diferença marcante de treze anos de ausência, Jerônimo reconheceu o filho, esquálido, pálido, maltratado pelos rigores do cativeiro, embrutecido pelos sofrimentos e pela
miséria, atestado patético do homem desvirtuado pelos vícios!
O antigo negociante contemplou o mísero vulto sentado sobre um banco de pedra, na semi-obscuridade da cela, o rosto entre as mãos. Dos olhos amortecidos, fitos nas lajes do chão, rolavam lágrimas de desespero, compreendendo o suicida que o jovem sofria profundamente. Extenso desfilar de pensamentos caliginosos corria pela mente do cativo, e, dada a circunstância da atração magnética existente entre ambos, pôde o hóspede do Hospital Maria de Nazaré inteirar-se das comovedoras peripécias que ao desventurado moço haviam arrastado a tão deplorável ocaso da vida social, apenas saíra 
da infância! Como se a presença da atribulada alma de Jerônimo impregnasse de advertências telepáticas seus dons sensíveis, Albino entrou a recordar, satisfazendo, sem o saber, os desejos do pai, que almejava inteirar-se dos acontecimentos; e, como envergonhado das más ações cometidas, recordava o genitor morto havia treze anos e ia dizendo ao próprio pensamento, enquanto as lágrimas lhe escaldavam as faces e Jerônimo ouvia-o como se falasse em voz alta: "- Perdoai-me, Senhor, meu bom Deus! E vinde com Vossa Misericórdia socorrer-me nesta emergência penosa de minha vida! Não foi, exatamente, desejo meu o precipitar-me neste báratro insolúvel que me ferreteou para sempre! Eu quisera ser bom,
meu Deus! mas faltaram amigos generosos que me estendessem mãos salvadoras, ocasiões favoráveis que me dilatassem perspectivas honestas! Vi-me lançado ao abandono depois da morte de meu pai, criança indefesa e inexperiente! Não tive recursos
para instruir-me, habilitando-me em alguma coisa séria e digna! Sofri fome! E a fome maltrata o corpo enquanto envenena o coração com as ansiedades da revolta! Tiritei de frio em mansardas inóspitas, e o frio, que enregela o corpo, também enregela o coração! 
Sofri a angústia negra da miséria sem esperança e sem tréguas, a solidão do órfão corroído de saudades do passado, envelhecido em pleno alvorecer da vida, graças às desilusões de múltiplos dissabores! Não me pude achegar aos bons, aos honestos e
respeitáveis, para que me compreendessem e ajudassem na conquista laboriosa de um futuro digno, porque aqueles de nossos antigos amigos a quem procurei, confiante, me repeliram com desconfiança, entendendo que eu pertencia a uma descendência marcada pela desonra, pois, além do mais, minha mãe desvirtuou-se tão logo se reconheceu desamparada e só! Tornei-me homem depois de me entrechocar com os piores aspectos e elementos da sociedade! Precisei viver! Acicatava-me o orgulho ferido, a indomável ambição de libertar-me da miséria abominável que me acossava sem tréguas desde o suicídio de meu pobre pai! Vi-me arrastado a tentações perversas, mas que, à minha ignorância e à minha fraqueza, se afiguravam soluções salvadoras!... E cedi às suas seduções, porque não tive o amparo orientador de um verdadeiro amigo a indicar o carreiro certo a preferir!... Oh, meu Deus! Que triste é ver-se a criatura órfã e abandonada, ainda na infância, neste mundo repleto de torpezas! ...Meu pobre e querido
pai, por que te mataste, por quê?...Não amavas então a teus filhos, que se desgraçaram com tua morte?... Por que te mataste, meu pai?... Oh! não tiveste sequer compaixão de nós?...Lembro-me tanto de ti!... Eu te amava! eu amo... Muitas vezes, naqueles primeiros tempos, chorei inconsolável, com saudades tuas, tão bondoso eras para com teus filhos!... Se nos amavas, por que te mataste, por quê?... Por que preferiste morrer, lançarnos
à miséria e ao abandono, a lutar por amor de nós?... Por que não resististe aos dissabores, prevendo que tua falta desgraçaria teus pobres filhos que só contigo contavam neste mundo?... Se viveras e nos houveras terminado a criação eu seria hoje, certamente, um homem útil, respeitado e honesto, enquanto que, na verdade, não passo de um precito maculado pela desonra irreparável!..."
Eram vibrações sombrias e causticantes, que repercutiam na consciência do pai-suicida como estiletes a lhe rasgarem o coração! Confessava-se culpado único dos desastres insolúveis do filho, e semelhante convicção se dilatava de intensidade, em
diástoles torturantes, à proporção que as recordações, emergindo das fráguas mentais de Albino, desfilavam quais retalhos de episódios dolorosos, aos seus olhos aterrados de
trânsfuga do Dever! Jamais um homem, na Terra, receberia tão significativo libelo acusatório, presente ao tribunal da lei, como esse que o desventurado suicida a si mesmo lançava validando a narração dos infortúnios descritos através das reminiscências do
filho, e que as sombras do presídio circundavam dos lúgubres atavios dos dramas profundos e irremediáveis!
Desorientado, precipitou-se para o jovem, no incontido desejo de ressarcir tantas e tão profundas amarguras como testemunho de sua presença, do seu perene interesse paternal, seu indissolúvel amor pronto a estirar mão amiga e protetora. Queria desculpar-se, suplicar perdão, ele, o pai faltoso, dar-lhe expressivos conselhos que o reconfortassem, reerguendo-lhe o ânimo daquela ruinosa prostração! Mas era em vão que
o tentava, porque Albino deixava correr o pranto, sem vê-lo, sem ouvi-lo, sem poder supor a presença daquele mesmo por quem chorava ainda! Então o mísero se pôs a chorar também, emitindo vibrações chocantes, reconhecendo-se impotente para socorrer o filho encarcerado. E como sua presença, expedindo desalentos, disseminando ondas nocivas de pensamentos dramáticos, poderia
agir funestamente sobre a mentalidade frágil do detento, sugerindo-lhe quiçá o próprio desânimo gerador do suicídio - Ramiro de Guzman e seu assistente aproximaram-se e desarmaram-lhe as investidas encobrindo Albino de sua visão. "- Voltemos para nossa mansão de paz, meu amigo, onde encontrarás repouso e solução suave para as tuas atrozes penúrias... - ponderava amigavelmente o
chefe da expedição. - Não recalcitres! Volta-te para o Amor dAquele que, pregado no cimo do madeiro, ofereceu aos homens, como aos Espíritos, os ditames da conformidade no infortúnio, da resignação no sofrimento!... Estás cansado... precisas serenar para
refletir, porque, no melindroso estado em que te encontras, nada alcançarás fazer a benefício de quem quer que seja!..."
Mas, ao que tudo indicava, Jerônimo ainda não padecera suficientemente a fim de se acomodar às advertências de seus guias espirituais. "- Não posso, queira desculpar-me, senhor!... - bradou voluntarioso. - Não deixarei de ver minha filha, minha Margaridinha! Quero vê-la! Preciso desmascarar a
turba de maledicentes que a vêm difamando!... A minha caçula, atirada ao Cais da Ribeira?!... A vender peixes?... Fretes?... e... Era o que faltava!... Impossível! Impossível tanta desgraça acumulada sobre um só coração!... Não! Não é verdade! Não pode ser
verdade! Confio em Zulmira! .É mãe! Velaria pela filha em minha ausência! Quero vê-la, meu Deus! meu Deus! Preciso ver minha filha! Preciso ver minha filha, ó Deus do Céu!"
Era bem certo, no entanto, que novas e mais atrozes torrentes de decepções se despejariam sobre seu ulcerado coração, superlotando-o de dores irreparáveis!
Ainda ao longe, desenhara-se à visão ansiosa do estranho peregrino a perspectiva do Cais da Ribeira, regurgitando de pessoas que iam e vinham em azafamas incansáveis. Avultavam as vendedoras e regateiras, mulheres que se alugavam a fretes, de ínfima educação e honestidade duvidosa. Jerônimo pôs-se a caminhar entre os transeuntes, seguido de perto pelos guardas e o paciente vigilante, ue se diria a sua própria sombra. Esmagadores 
pressentimentos advertiam-no da veracidade do que afirmavam os "difamadores". Mas, desejando mentir a si próprio, na suprema repugnância de aceitar a abominável realidade,
via-se compelido a investigar as fisionomias das regateiras; ia, voltava, nervosamente, aflito, aterrado à idéia de se lhe deparar entre aquelas despreocupadas e insolentes criaturas as feições saudosas da sua adorada caçula!
Deteve-se subitamente, num recuo dramático de alarme: - acabara de reconhecer Zulmira gesticulando, em discussão acalorada com uma jovem loira e delicada, que se defendia, chorando, das injustas e insofríveis acusações que lhe eram atiradas por aquela. Acercou-se apressadamente o pupilo do nobre Teócrito, como impelido por desesperadora diástole, para, em seguida, atingido por supremo golpe, estacar, submisso a sístole não menos torturante, reconhecendo na jovem chorosa a sua Margaridinha.
Era, com efeito, peixeira! Ao lado pousavam os cestos quase vazios. Trazia os vestidos típicos da classe e sacos imundos. Zulmira, ao contrário, trajava-se quase como as senhoras, o que não a impedia portar-se como as regateiras.
Girava em torno da féria do dia a discussão vergonhosa. Zulmira acusava a filha de roubar-lhe parte do produto das vendas, desviando-a para fins escusos. A moça protestava entre lágrimas, envergonhada e sofredora, afirmando que nem todos os
fregueses do dia haviam solvido seus débitos. No calor da discussão, Zulmira, excitando se mais, esbofeteia a filha, sem que as pessoas presentes parecessem admiradas ou
tentassem impedir a violência, serenando os ânimos.
Tomado de indignação, o antigo comerciante interpõe-se entre uma e outra, no intuito de sanar a cena deplorável. Admoesta a esposa, fala carinhosamente à filha, enxuga-lhe o pranto, que corria pelas faces, convida-a a recolher-se ao domicílio. Mas nenhuma das duas mulheres podiam vê-lo, não podiam ouvi-lo, não se apercebiam de
suas intenções, o que grandemente o irritava, levando-o a convencer-se da inutilidade das próprias tentativas.
Não obstante, Margaridinha suspendeu os cestos, ajeitou-os ao ombro e afastou-se. Zulmira, a quem as adversidades mal suportadas e mal compreendidas  haviam arrastado ao desmando, transformando-a em megera ignóbil, seguiu-a enraivecida, explodindo em vitupérios e insultos soezes.
O percurso foi breve. Residiam em sombria mansarda, nas imediações da Ribeira. Em chegando ao misérrimo domicílio, a mãe desumana entrou a espancar
excruciante mente a pobre moça, exigindo-lhe a todo custo a totalidade da féria, enquanto, impotente, a peixeira implorava trégua e compaixão. Finalmente, a desalmada - para quem o Espírito atribulado do esposo leal trouxera, das moradas do Astral, um ramalhete de rosas - saiu precipitadamente, arrastando ondas turvas de ódio e pensamentos caliginosos, atirando aos ares insultos e blasfêmias no calão que, agora, lhe era próprio, e
do qual Jerônimo se surpreendeu, confessando desconhecê-lo.
A jovem ficou só. A seu lado o vulto invisível do pai amoroso e sofredor entregava-se a cruciantes expansões de pranto, reconhecendo-se impossibilitado de socorrer o adorado rebento do seu coração, a sua Margaridinha, a quem entrevia ainda,
mentalmente, tão loira e tão linda, na lirial candidez dos sete anos!... Mas, tal como sucedera a seu irmão Albino, a infeliz menina ocultou o rosto lavado em lágrimas entre as mãos e, sentando-se a um recanto, rememorou dolorosamente os dias trevosos da sua tão curta e já tão acidentada vida!
Margarida abriu as comportas dos pensamentos, e ondas de recordações pungentes se desprenderam aos borbotões, fazendo ciente ao pai o extenso calvário de desventura que passara a palmilhar desde o dia nefasto em que ele se tornara réu
perante a Providência, furtando-se ao dever de viver a fim de protegê-la, tornando-a mulher honesta e útil à sociedade, à família e a Deus. Ouvia-a como se ela lhe falasse em voz alta. À proporção que se consolidavam as desgraças da mísera órfã, acentuavam-se
a decepção, a surpresa cruciante, a mágoa inconsolável, que lhe atravessavam o coração como venábulos assassinos a lhe roubarem a vida! Caiu de joelhos aos pés da sua desventurada caçula, as mãos cruzadas e súplices, enquanto jorrava o pranto convulsamente de sua alma de precito e tremores traumáticos sacudiam-lhe a
configuração astral, como se estranhas sezões pudessem subitamente atingi-lo. 
E foi nessa humilhada posição de culpa que o pupilo da legião excelsa recebeu o supremo castigo que as conseqüências do seu ominoso e selvagem gesto de suicídio poderia infligir à sua consciência! 
Eis o resumo acerbo do drama vivido por Margarida Silveira, tão comum nas sociedades hodiernas, onde diariamente pais inconscientes desertam da responsabilidade
sagrada de guias da Família, onde mães vaidosas e levianas, destituídas da auréola sublime que o dever bem cumprido confere aos seus heróis, desvirtuam-se aos solavancos brutais das paixões insanas, incontidas pela perversão dos costumes.
Tornando-se órfã de pai aos sete anos, a loira e linda Margaridinha, frágil e delicada como lírios florescentes, criara-se na miséria, entre revoltas e incompreensões, junto à mãe que, habituada à imoderação de insidioso orgulho, como ao imperativo de
vaidades funestas, nunca se resignara à decadência financeira e social que a surpreendera com o trágico desaparecimento do marido. Zulmira prostituíra-se, esperando, em vão, reaver o antigo fastígio por essa forma culposa e condenável.
Arrastara a filha inexperiente para a lama de que se contaminara. Indefesa e   desconhecedora das insídias brutais dos ambientes e hábitos viciados que a corvejavam, a moça sucumbiu muito cedo às teias do mal, a despeito de não apresentar pendores
para as miseráveis situações diariamente surgidas. A decadência chegou cedo, como cedo havia chegado a queda desonrosa. O trabalho exaustivo e o Cais da Ribeira com sua usual movimentação de feira ofereceram-lhes recursos para não se extinguirem, ela e
a mãe, às aspérrimas torturas da fome! Zulmira agenciava fretes, vendas variadas, negócios nem sempre honestos, empregando geralmente na sua execução as forças e a
juventude atraente da filha, a quem escravizara, usurpando lucros e vantagens para seu exclusivo regalo. A pobre peixeira, porém, cuja índole modesta e aproveitável não se aclimatava ao fel da execrável subserviência, sofria por não entrever possibilidade de
sonegação à miserável existência que lhe reservara o destino. E, inculta, inexperiente, tímida, não saberia agir em defesa própria, o que a fazia conservar-se submissa à enoitada situação criada por sua própria mãe! Como Albino, também pensou no pai,
advertida, no recesso do coração, da sua invisível presença, e murmurou, oprimida e arquejante:
"- Que falta tão grande tu me fazes, ó meu querido e saudoso pai!... Lembrome tanto de ti!... e minhas desventuras nunca permitiram olvidar tua memória, tão bom e desvelado foste para com teus filhos! Quantos males o destino ter-me-ia poupado, meu
pai, se te não houveras furtado ao dever de velar por teus filhos até o final!... De onde estiveres, recebe as minhas lágrimas, perdoa a peçonha que sobre teu nome involuntariamente lancei, e compadece-te das minhas ignóbeis desditas, ajudando-me a
desentrançar-me deste espinheiro cruciante que me sufoca sem que nenhuma fulguração de esperança libertadora venha encorajar-me!..." 
Era o máximo que o prisioneiro do Astral poderia suportar! Ele não possuía energias para continuar sorvendo o fel das amarguras lançadas no sacrossanto seio de  sua própria família pelo ato condenável que contra si mesmo praticara! Ouvindo os
lamentos da desgraçada filha a quem tanto estremecia, sentiu-se abominavelmente ferido  na mais delicada profundeza do seu coração paternal, onde infernais clamores de remorsos repercutiram violentamente, acordando em suas entranhas espirituais a dor
inconsolável, a dor redentora da mais sincera compaixão que poderia experimentar!
Desesperando-se, na impossibilidade de prestar à filhinha infeliz socorro imediato, de falar-lhe, ao menos, insuflando ânimo à sua alma com o consolo de sua presença, ou aconselhando-a, Jerônimo avolumou o padrão dos desatinos que lhe eram comuns e
entregou-se à alucinação, completamente influenciado pela loucura da inconformidade. Acorreram os lanceiros a imperceptível sinal de Ramiro de Guzman.
Cercaram-no, protegendo-o contra o perigo de possível evasão, afastando-o  apressadamente. Condoído em face dos infortúnios da jovem Margarida, Ramiro, que fora
homem, fora pai e tivera uma filha muito amada, porventura mais infeliz ainda, aproximouse carinhosamente e, pousando em sua fronte as mãos protetoras, transmitiu-lhe ao ser suaves eflúvios magnéticos, confortativos e encorajadores. Margaridinha procurou o leito  e adormeceu profundamente, sob a bênção paternal do servo de Maria... enquanto o suicida, debatendo-se entre o "choro e o ranger de dentes", suplicava que o deixassem socorrer, de qualquer modo, a filha ignobilmente ultrajada! Dominando-o, entretanto, com energia, a fim de que por um momento procurasse raciocinar, retorquiu o paciente guia: "- Basta de desatinos, irmão Jerônimo! Atingiste o máximo de desobediência e voluntariedade que nossa tolerância poderia aceitar! Não queres, pois,  compreender,
que coisa alguma poderás tentar em beneficio de teus filhos, enquanto não conquistares as qualidades para tanto imprescindíveis, e que a ti mesmo escasseiam?... Não entendes
que teus filhos, em lutas com provações aspérrimas, sucumbiriam fatalmente ao suicídio, como tu, se permanecesses junto deles, influenciando suas indefesas sensibilidades com as vibrações funestas que te são próprias, ainda não devidamente esclarecido quanto ao estado geral em que te debates, tal como te preferes conservar?... Partamos, Jerônimo! 

Regressemos ao Hospital... Ou desejarás, porventura, ainda sondar os passos de Marieta e de Arinda?!..."
Chocando-se como que sob a ação de forças renovadoras, o precito obteve um momento de trégua contra si mesmo, a fim de ponderar alguns instantes. Sacudiu as desesperadoras alucinações que lhe cegavam o raciocínio, e respondeu, resoluto:
"- Oh! não! Não, meu bom amigo! Basta! Não posso mais! Meus pobres
filhos! A que abismo vos arrojei, eu mesmo, que tanto vos amei!
Perdão, irmão Teócrito! Agora compreendo... Perdão, irmão Teócrito..." E, de nossa enfermaria, vimos que retornavam com as mesmas precauções... Jerônimo não voltou a fazer parte do nosso grupo.